As dores silenciosas e as tragédias mudas

Eu passei 40 anos escutando a perspectiva feminina do mundo, com suas dores, dramas, tragédias, gozos e prazeres. Sempre me senti ao lado delas, tentando entender o mundo pela sua perspectiva, olhando as cores da vida com seus olhos Houve um tempo em que eu até me vi e me entendi como feminista; afinal, por que não seria, já que acredito nos valores da equidade de gêneros e na grandiosidade do ser feminino?

Vários fatores me fizeram abandonar esta ilusão. Sim, ilusão porque por mais que eu pudesse me considerar assim, as mulheres jamais aceitaram minha condição; no máximo me trataram de forma derrogatória, com o termo “feministo“, depreciativo e desvirilizante, para depois me tratar como “esquerdomacho” diante do primeiro – mesmo que sutil – deslize. Com o tempo desisti de conformar meu pensamento ao que elas esperavam de mim. Hoje eu digo que o feminismo é “um movimento de mulheres para mulheres”. Mas, repito a pergunta do vídeo: se tal movimento pretende mudar a sociedade como um todo, por que escutamos apenas um lado?

Um fator que me fez abandonar qualquer proximidade com o feminismo identitário foi o caso que já foi até exposto aqui: o caso da garota Mariana, que teria sido vítima de um estupro num clube em Santa Catarina. Durante meses vi a campanha das feministas colocando o rosto do jovem acusado (que, de tanta exposição, eu lembro do nome: André) como o abusador, mesmo antes de finalizado o processo. Fotos nas redes sociais, manifestações, passeatas. Aqui em Porto Alegre houve uma, no parque Farroupilha.

Depois de meses de agressões infinitas nas redes sociais veio o veredito: inocente. E a sentença foi ratificada pela segunda instância, por unanimidade. O caso tomou notoriedade pela forma bruta e grosseira como a “vítima” teria sido tratada pelo advogado de defesa de André, e isso fez com que tanto juiz quanto advogado fossem chamados à atenção pelos órgãos correcionais. Em verdade tratava-se da exaltação de profunda indignação contra uma menina que de todas as formas tentou destruir a vida desse rapaz.

A verdade é que este caso está repleto de provas que absolvem o garoto. Desde o circuito interno de TV no clube e na rua, até suas conversas de Whatsapp, o depoimento das suas próprias amigas, do motorista do Uber e do porteiro do prédio. Os exames toxicológicos negativos, o desaparecimento do vestido, a tentativa de incriminar o filho de um milionário da Rede Globo, etc. Tudo apontando para uma relação consensual, passageira e seguida de culpa e arrependimento por parte da moça.

Não vou debater suas motivações e suas falhas morais por que não quero me ocupar dela, mas da disparidade desse caso. Não me interesso pela figura dela e seu erro, mas pela pessoa esquecida: a real vítima, o rapaz que teve a vida destruída por uma acusação falsa.

Não há dúvida alguma de que o estupro é um crime horroroso que merece punição. Por certo que ainda existem milhares ocorrendo de forma vergonhosa, sem que as mulheres possam se defender. Todavia, a existência dessa chaga social não pode justificar o linchamento covarde de um sujeito em nome de um problema que é cultural. Não se pode prender um russo com falsas acusações apenas porque a Rússia está em guerra e não gostamos deles. Não se pode prender um negro inocente porque outros negros cometeram crimes e não se pode desgraçar um jovem rapaz porque outros garotos cometeram esse delito.

De todas as mulheres que eu vi publicando cartazes acusatórios com o nome do rapaz não vi NENHUMA reconhecendo seu erro e se desculpando. Vale a lógica “Ok, esse não era, mas apanhou pelos outros”. Ninguém veio a público – na minha bolha – se desculpar pelo julgamento acusatório e pela falsidade que disseminou. Eu pergunto: e se fosse seu filho, seu pai, seu irmão? Como você se sentiria? Manteria sua fidelidade à revanche feminina ou teria cuidado para não acusar alguém inocente?

Por isso me emocionou o depoimento da cineasta feminista que passou um ano entrevistando jovens do Movimento dos Direitos Masculinos. A virada que esta escuta produziu em sua perspectiva de mundo é emocionante. Quando ela fala das “falsas acusações de estupro e pedofilia” que se tornaram corriqueiras eu lembrei do sofrimento desse rapaz. Todos se emocionam (com justiça) com a dor de uma mulher vítima de abuso sexual, mas por que ninguém diz uma palavra sobre a dor de um garoto que sofreu uma campanha de linchamento gigantesca pelo crime de transar com uma menina em uma festa, com pleno consentimento?

Por que apenas as dores dela deveriam ter voz?

Quem puder, assista esse depoimento. Vale a pena. Eu achei a palestra do TED e os comentários desse Youtuber realmente valiosos.”

Texto de Sergei Ustalov

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