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Tratamento Indigno

Eu acho que a função de um advogado é defender seu cliente com as armas possíveis dentro da lei. Portanto, sua fala ao atacar a vítima, apesar de absurda e violenta, pode ser entendida como estratégia de quem está sendo pago para defender. Entretanto, existe um juiz cuja função é exatamente IMPEDIR que a estratégia de humilhação e ataques à honra da vítima tenha seguimento. É por isso que ele está presente na audiência, que não pode ser entendida como “terra sem lei” ou como “vale tudo”.

Não se pode admitir isso. Se a ação do advogado foi nojenta e desprezível, a atitude do juiz foi CRIMINOSA, pois permitiu que o teatro macabro e estúpido de uma das partes tivesse espaço dentro de um lugar que deveria ser acolhedor para quem afirma ter sofrido uma violência.

Existem duas questões neste caso, e ambas são estarrecedoras. A primeira é a sentença aberrante e inacreditável, com a criação da entidade “estupro culposo” inédita e bizarra, mas que ainda precisa mais bem entendida, para que sua construção estranha (estupro + culposo) não cause confusão e acirre os debates.

A segunda – e muito mais importante – foi a forma indigna e aviltante de tratar uma depoente, que reclamava ser vítima de violência sexual, em um tribunal, como se fosse ela a abusadora e não aquela que pode ter sofrido o mal em seu corpo e sua alma. A cena nos remete ao circo romano, onde os homens na galeria se regozijavam com o sofrimento da pobre criatura entregue aos leões.

Agora, ao invés de se revoltarem com a carnificina oferecem apenas o ódio que escorre pelos cantos da boca, o deboche, o sarcasmo e a indiferença de quem, diante de tanta barbárie, silencia e permite que a matança continue.

PS: a expressão “estupro culposo” consta de uma fala obtusa e inconsequente do promotor, mas não está presente na sentença. E eu acho que a análise que foi feita por alguns especialistas mostra que a sentença está correta: não há elementos para produzir a convicção de culpa. Mas, mesmo reconhecendo o acerto da sentença, nada justifica o tratamento violento dispensado à menina. Não é necessário – muito menos correto – tratar uma mulher que presta esta queixa com tamanha agressividade.

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Futebol e masculinidade

Essa história do jogador e do abuso me afeta muito, não sei exatamente o porquê. Mas a sensação que eu tenho não é de raiva – não sou mulher para entender todas as dimensões dessa violência – mas de tristeza e decepção. É como quando ocorre um acidente entre dois carros com vítimas em ambos. Descobrir o culpado, apesar de ser essencial, não vai trazer de volta a vida de ninguém.

Então fica a tristeza pela dor imposta a uma menina e a destruição da vida do sujeito por atitudes absurdas e inconsequentes. Fico me perguntando: “com toda essa fama e dinheiro qual o sentido dessa barbárie, desse desrespeito e desse abuso?” Todos acabamos um pouco destruídos – inclusive a nossa esperança na humanidade – e não há nada que eu possa fazer a não ser aguardar que a justiça prevaleça.

Mas é tudo lamentável, triste e inaceitável, e a onda de ódio que sobrevém me deixa ainda mais deprimido.

Não gosto de chutar cachorro caído, mas concordo que o meio do futebol é violento e abusivo com as mulheres. Entre as razões para isso está que o futebol assume no imaginário social os valores atribuídos aos guerreiros de outrora. Nestes ambientes, nos quais uma criança entra aos 12 anos e só sai aos 35 – adolescência e juventude inteiras – existe um estímulo constante à hipersexualização, o desprezo por gays e por mulheres e a exaltação do herói mítico duro e inexorável.

O mesmo ocorre com policiais, no exército e nas Igrejas – com os padres. Um mundo masculino, cheirando a testosterona, onde ocorre sistematicamente a supressão de valores que são considerados femininos, como a cooperação, a solidariedade, a delicadeza, o perdão e a entrega. Nesses grupos impera a supremacia, a competição, a luta e a dureza como marcas de afirmação pessoal. Fugir deles é ver fechadas as portas de aceitação.

No futebol ocorre algo interessante. Apesar de ser um jogo de cooperação, onde todos jogam juntos e precisam dos companheiros, a progressão na carreira é solitária, numa luta do sujeito contra os demais, sendo violento e competitivo 24 horas por dia. O mesmo que acontece no exército, onde o estimulo ao companheirismo se alia a um individualismo brutal no enfrentamento da carreira. Um universo de Rambos onde a mulher não tem vez e muito menos importância.

Nestes lugares a brutalidade acaba virando a regra, na espera que algum dia seja modificado este padrão. Eu costumo dizer que até na medicina ocorre um mecanismo semelhante. Esta sempre foi uma área de homens, de energia, de força física e moral, de insensibilidade à dor e ao sofrimento. Não era admissível imaginar uma mulher – mãe e dedicada esposa – arrancando uma perna sem anestesia nos anos que antecederam a sua descoberta.

Todavia, no início do século passado a entrada das mulheres no mundo masculino da medicina não se deu sem um preço alto a pagar. Mulheres médicas eram – e ainda o são – cobradas por qualquer atitude que não seja medida pela regra da masculinidade. Precisam ser duras, fortes e insensíveis para receber o respeito de seus pares. É por isso que o ingresso das mulheres na seara da obstetrícia não surtiu a reforma que esperávamos. Numa estratégia de sobrevivência, as mulheres se associam mais aos homens e suas regras do que às mulheres e suas dores.

Há muito ainda a fazer para encontrar este equilíbrio. A entrada das mulheres no exército, futebol e medicina com o tempo vai impor uma nova perspectiva, e introduzir novos valores, determinando uma mudança significativa nestas funções sociais.

Oxalá seja breve…

PS: O que aconteceu ao jogador em questão é lamentável, mas sua adesão ao bolsonarismo é oportunista e planejada. Quis atrair a simpatia da face obscura do país, a mesma que venera a tosquice do presidente e suas falas “sinceras” e “diretas”, mas que apenas desvelam a pobreza de sua ética.

De qualquer modo, não rolou. Santos rescindiu o contrato e sua carreira acabou. Não creio que arranje clube em lugar algum. Robinho é o gênio das pedaladas, o craque que não foi mas poderia ter sido.

“Ludopédio finis est”, little Robson

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DES – MEM – BRE

Estes últimos dias eu me debrucei sobre a dificuldade das pessoas de codificarem as mensagens em suas mentes e o problema de colarem temas uns nos outros sem perceber que são independentes, mesmo quando nos chegam dentro da mesma embalagem. Foi o meu amigo Túlio Ceci Villaça quem citou o termo “crossover” para demonstrar como uma determinada discussão produzia um “curto-circuito” que impedia que entendêssemos a autonomia das proposições. Assim, por exemplo, diante da notícia de que um homem foi condenado à morte na Índia por estupro, as posições são tomadas diante desse bloco, ao invés de perceber que há DOIS TEMAS independentes: pena de morte e estupro. Desta forma eu posso dizer “Que absurdo!!” me referindo à pratica medieval de assassinatos determinados pelo estado, sem estar sendo necessariamente condescendente com o OUTRO TEMA, que é o estupro. Mas…. os afoitos de plantão via de regra afirmam: “Ahh, então você está a favor do estupro daquela menina indefesa? Que decepção!!“. Infelizmente as pessoas (con)fundem as narrativas e, as vezes de propósito, entram nos debates para inserir SUAS AGENDAS pessoais, usando a notícia como mote e o tema como um pacote fechado onde as questões não podem ser tratadas de forma separada.

É fundamental aprender a DES-MEM-BRAR quando se vai debater!!!

Esta semana houve pelo menos três debates próximos de mim que tinham esta característica. Todos precisariam ser entendidos em seus temas separados, mas muitos resolveram tratá-los de forma monolítica, o que só gera discussões inúteis e ressentimentos. Vou listar apenas os 3 mais importantes na minha perspectiva.

1 – A menina que deu um tiro de espingarda em um pretenso abusador. Eu mesmo deixei claro que o caso específico da menina sequer cabe debater – em especial por haver poucos dados e por serem eles ainda bastante contraditórios. Além do mais, pela sua pouca idade ela é inimputável; discutir se ela está certa ou errada é tolice. O que me parecer digno de debater foi a repercussão disso na sociedade e a defesa da política bolsonarista de exterminio da população negra e o eco que se deu às palavras de genocidas como Witzel – de que a ação adequada para a violência é distribuir armas.

Aqui ficou claro o “crossover” de temas: para defender a menina e “todas as outras meninas-vítimas” do abuso e da morte rapidamente adotaram O MESMO DISCURSO GENOCIDA que está massacrando as populações pobres e negras do Brasil. Pior, argumentando que vale a pena entregar uma espingarda para uma menina de 12 anos para que ELA escolha quando um risco é real ou imaginário. ISSO sim deveria deixar a todos estupefatos. Pior ainda é achar que a vida de um homem (apenas por ser homem) é INFERIOR à vida de uma menina!!! É perfeitamente possível enxergar os dois temas: ser contrário a qualquer forma de abuso e igualmente ser contra a distribuição de armas – em especial para crianças.

2 – Um bebê nasceu de parto normal com 6 kg. Mãe e bebê estão felizes e “saudáveis” (não se pode ter certeza das repercussões desse sobrepeso para o resto da vida da criança). Mais uma vez o “crossover” de temas. Sim, é legal saber que até bebês de 6 kg podem nascer por via vaginal provando a elasticidade das estruturas femininas. Isso vai no contrafluxo dos mitos da obstetrícia contemporânea que começam a tratar bebês de 3.5 kg como “muito grandes para uma passagem tão estreita”, como muitos de nós já escutaram. Por outro lado – e igualmente importante – não, não é legal deixar passar diagnósticos de diabete mélito sem uma ação adequada. Houve provavelmente falhas no pré natal que precisariam ser esclarecidas para evitar casos como este – mas com consequências ruins. Misturar esses temas provoca essa confusão. É fundamental desmembrar todos os temas existentes em um fato, em especial os fatos sociais. Sim, é legal que seja comprovada a capacidade de mulheres darem à luz bebês muito grandes, mas não é legal que isso seja consequência de um pré-natal mal conduzido. Não é razoável que temas como este sejam respondidos com “sou contra” ou “sou a favor”, “que legal”, ou “que horror”. Isso limita de forma inadequada a abrangência do debate.

3 – Uma reporter do programa do Datena leva uma cusparada de um suspeito de crimes (pego em flagrante). Então vamos aprender com Jack e desmembrar o que se pode dizer sobre isso. É evidente que tratar uma mulher com indignidade não pode. Cuspir é uma ofensa odiosa. Aliás, quando o deputado Jean fez isso eu achei um absurdo, e aqui haveria um outro curto circuito de temas, mas deixa pra lá; não precisamos debater pois creio que todos concordam que cuspir nos oponentes não é uma boa forma de resolver impasses. Por outro lado, jornalismo LIXO que explora a miséria da exclusão social e a barbárie do capitalismo merece TAMBÉM ser exterminado. Para este tipo de mídia que explora pessoas em situação dramática, cuspir seria uma pena leve demais. Não é necessário que se misturem os temas. Cuspir numa mulher repórter é absurdo e merece punição. Entretanto, permitir a existência de programas lixo e apresentadores como Datena é muito mais indecente ainda. Portanto, eu posso combater a criminalidade e ao mesmo tempo combater o esgoto televisivo.

Penso que a maioria dos embates que vejo na internet se devem às misturas infelizes que fazemos de múltiplos temas. Sei que muitas vezes a pessoa vê na notícia uma forma de expressar suas paixões, medos, angústias e dores, e por esta razão enxerta sua visão particular sobre determinados temas sem levar em consideração todas as outras maneiras de perceber e traduzir os fatos. Se o Facebook tem algum propósito superior talvez seja ensinar as pessoas a raciocinarem de forma mais limpa e coerente.

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Os Estupros

Violence victim

Fiquei sabendo agora de um “estupro coletivo” no Rio de Janeiro que, não bastasse a violência absurda e desumana, ainda serviu como objeto de espetacularização pelas redes sociais. Não por acaso, numa sincronicidade diabólica, Alexandre Frota faz uma visita ao Ministro da Educação levando a ele propostas para o ensino no Brasil. Lembrem que o “muso do impeachment” é também responsável por uma performance num programa de TV (de Rafinha Bastos, o mesmo que “comeria ela e o bebê”) em que relata um estupro a uma mulher Mãe de Santo que o estava atendendo. Depois disse que se tratava de um número de Stand Up, mas isso é irrelevante diante da gravidade de tratar estupro como brincadeira, banalizando a violência.

Eu ouso pensar que o estupro cometido tem a ver com o profundo mal que o golpe produziu no imaginário do país. A sensação que tenho é que as pessoas perderam a confiança na justiça e no judiciário. A mesma justiça que perde meses (e milhões) investigando barquinhos de lata e negligencia investigar a fundo um helicóptero cheio de pasta de cocaína não pode exigir que confiemos nela. O STF foi acusado de participação EFETIVA e DIRETA no complô para a derrubada do governo. As gravações comprometendo Jucá, Renan e Sarney estavam em sua posse desde março; foram escondidas para permitir o golpe. O juiz Moro mostrou dureza e inexorabilidade seletiva, e apenas contra o PT, durante todo o curso da Lava Jato, e quando da queda de Dilma pediu o “desarmamento dos espíritos”.

Quando o povo se dá conta que os magistrados são indignos de confiança percebem que não há valor algum em se comportar dentro da lei. Por isso a sensação de impunidade de quem comete atos hediondos. “Se o Alexandre Frota pode contar isso na TV como brincadeira, por que não podemos também?”

As mulheres, foco do desejo masculino e signo de poder para quem as possui, sempre serão as primeiras sacrificadas em um mundo sem lei. No livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago, a primeira coisa que ocorre quando se instala o caos de um mundo às escuras e sem controle foi o domínio sobre as mulheres, que leva naturalmente à violência e ao estupro.

Quando se destroça a força simbólica da lei os mais frágeis são os primeiros a sucumbir.

Não, eu me nego a ver como coincidências estes eventos. Quando a LEI se apaga e a justiça não parece se fazer, surge em todos o espírito da selva, onde a ordem é matar ou morrer.

Os estragos sociais de uma quebra jurídica abjeta e criminosa como a que testemunhamos vão se estabelecer em todos os níveis das relações pessoais, pois que os valores que foram desrespeitados são da ordem básica das relações sociais.

Triste dia em que apologistas do estupro tem voz na educação de um país. O resultado é a banalização do crime mais antigo, mas ainda presente na comunidade humana.

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Estupro

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Um tema delicado: o estupro.

Há uma ideia arraigada de que as lésbicas são uma espécie de “troféu” masculino, ao estilo “vou fazer ela gostar de homem depois que me conhecer”. Existe um documentário muito bom – apesar de brutal – sobre estupros no exército americano. Seu nome é “Invisible War“, do diretor Kirby Dick, e ele revela dados assombrosos e impressionantes: tomando como base apenas o ano de 2009, cerca de 16.150 mulheres foram violentadas sexualmente durante o serviço militar nos Estados Unidos. Ao longo dos anos são mais de MEIO MILHÃO de casos de estupro, o que equivale a quase metade do total de jovens que já serviram.

É claro que existem muitas mulheres que procuram as forças armadas por serem homossexuais e se identificarem com as atividades mais tradicionalmente masculinas que lá se realizam. Essas mulheres são o alvo principal dos abusadores. Em situação de confinamento, como bases militares distantes e isoladas, muitas delas são violentamente abusadas, não apenas por serem mulheres e estarem “à disposição”, mas também pela sua orientação sexual, que para muitos homens é vista como um desaforamento (como assim não se interessa por homem?) ou como desafio (depois que eu te pegar vais passar a gostar).

O resultado é catastrófico por duas razões: a violência em si e a total impunidade dos agressores, por se tratar de uma organização fechada como o exército americano, onde uma acusação de abuso contra um oficial vira um caso de segurança nacional.

As violações na famigerada prisão de Abu Ghraib no Iraque só vieram a público quando era impossível esconder as torturas e os abusos (um soldado fotografou e as fotos vazaram), e na torrente de acusações de violações graves de direitos humanos que se seguiram apareceram vários relatos de estupro de soldadas cometidos por oficiais em comando. Por aí se pode avaliar como funciona o sistema opressor contra as mulheres nas forças armadas e a total incapacidade do sistema em dar conta das acusações, em especial pelo machismo arraigado destas instituições, talvez o último bastião do patriarcado.

No fim, tudo vira pizza…

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