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As dores silenciosas e as tragédias mudas

Eu passei 40 anos escutando a perspectiva feminina do mundo, com suas dores, dramas, tragédias, gozos e prazeres. Sempre me senti ao lado delas, tentando entender o mundo pela sua perspectiva, olhando as cores da vida com seus olhos Houve um tempo em que eu até me vi e me entendi como feminista; afinal, por que não seria, já que acredito nos valores da equidade de gêneros e na grandiosidade do ser feminino?

Vários fatores me fizeram abandonar esta ilusão. Sim, ilusão porque por mais que eu pudesse me considerar assim, as mulheres jamais aceitaram minha condição; no máximo me trataram de forma derrogatória, com o termo “feministo“, depreciativo e desvirilizante, para depois me tratar como “esquerdomacho” diante do primeiro – mesmo que sutil – deslize. Com o tempo desisti de conformar meu pensamento ao que elas esperavam de mim. Hoje eu digo que o feminismo é “um movimento de mulheres para mulheres”. Mas, repito a pergunta do vídeo: se tal movimento pretende mudar a sociedade como um todo, por que escutamos apenas um lado?

Um fator que me fez abandonar qualquer proximidade com o feminismo identitário foi o caso que já foi até exposto aqui: o caso da garota Mariana, que teria sido vítima de um estupro num clube em Santa Catarina. Durante meses vi a campanha das feministas colocando o rosto do jovem acusado (que, de tanta exposição, eu lembro do nome: André) como o abusador, mesmo antes de finalizado o processo. Fotos nas redes sociais, manifestações, passeatas. Aqui em Porto Alegre houve uma, no parque Farroupilha.

Depois de meses de agressões infinitas nas redes sociais veio o veredito: inocente. E a sentença foi ratificada pela segunda instância, por unanimidade. O caso tomou notoriedade pela forma bruta e grosseira como a “vítima” teria sido tratada pelo advogado de defesa de André, e isso fez com que tanto juiz quanto advogado fossem chamados à atenção pelos órgãos correcionais. Em verdade tratava-se da exaltação de profunda indignação contra uma menina que de todas as formas tentou destruir a vida desse rapaz.

A verdade é que este caso está repleto de provas que absolvem o garoto. Desde o circuito interno de TV no clube e na rua, até suas conversas de Whatsapp, o depoimento das suas próprias amigas, do motorista do Uber e do porteiro do prédio. Os exames toxicológicos negativos, o desaparecimento do vestido, a tentativa de incriminar o filho de um milionário da Rede Globo, etc. Tudo apontando para uma relação consensual, passageira e seguida de culpa e arrependimento por parte da moça.

Não vou debater suas motivações e suas falhas morais por que não quero me ocupar dela, mas da disparidade desse caso. Não me interesso pela figura dela e seu erro, mas pela pessoa esquecida: a real vítima, o rapaz que teve a vida destruída por uma acusação falsa.

Não há dúvida alguma de que o estupro é um crime horroroso que merece punição. Por certo que ainda existem milhares ocorrendo de forma vergonhosa, sem que as mulheres possam se defender. Todavia, a existência dessa chaga social não pode justificar o linchamento covarde de um sujeito em nome de um problema que é cultural. Não se pode prender um russo com falsas acusações apenas porque a Rússia está em guerra e não gostamos deles. Não se pode prender um negro inocente porque outros negros cometeram crimes e não se pode desgraçar um jovem rapaz porque outros garotos cometeram esse delito.

De todas as mulheres que eu vi publicando cartazes acusatórios com o nome do rapaz não vi NENHUMA reconhecendo seu erro e se desculpando. Vale a lógica “Ok, esse não era, mas apanhou pelos outros”. Ninguém veio a público – na minha bolha – se desculpar pelo julgamento acusatório e pela falsidade que disseminou. Eu pergunto: e se fosse seu filho, seu pai, seu irmão? Como você se sentiria? Manteria sua fidelidade à revanche feminina ou teria cuidado para não acusar alguém inocente?

Por isso me emocionou o depoimento da cineasta feminista que passou um ano entrevistando jovens do Movimento dos Direitos Masculinos. A virada que esta escuta produziu em sua perspectiva de mundo é emocionante. Quando ela fala das “falsas acusações de estupro e pedofilia” que se tornaram corriqueiras eu lembrei do sofrimento desse rapaz. Todos se emocionam (com justiça) com a dor de uma mulher vítima de abuso sexual, mas por que ninguém diz uma palavra sobre a dor de um garoto que sofreu uma campanha de linchamento gigantesca pelo crime de transar com uma menina em uma festa, com pleno consentimento?

Por que apenas as dores dela deveriam ter voz?

Quem puder, assista esse depoimento. Vale a pena. Eu achei a palestra do TED e os comentários desse Youtuber realmente valiosos.”

Texto de Sergei Ustalov

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Arapuca

O pessoal está se achando muito esperto ao patrocinar o linchamento sumário destas figurinhas ridículas da direita, ao mesmo tempo em que empodera liberais e identitários. A história nos mostra que essa ação – mais cedo ou mais tarde – se volta contra a classe trabalhadora. Num período muito curto vamos ver a burguesia surfando no antinazismo e acusando os representantes da classe operária. Percebam quem está por trás da “indignação” de agora: sionistas, o mesmo grupo que patrocina uma ocupação fascista e cruel contra o povo Palestino. Estão usando a conversa dos liberaloides para fortalecer o fascismo de Israel. Seria pedir que a gente, pelo menos, desconfiasse?

Quando essa maré mudar e os ataques forem contra membros da esquerda…. daí, meu irmão, de nada vai adiantar dizer que “é diferente” ou “não é nada disso”. Os linchamentos – como estes que agora são feitos contra figurinhas reacionárias da moda – atropelam o bom senso e a própria razão; só o que se vê é oportunismo e vingança. A esquerda verdadeira deveria perceber que por trás desse movimentos de “defesa dos oprimidos” existe uma arapuca. Muitas vezes, para não cair nela e se manter fiel aos princípios, é preciso defender até os nossos adversários.

Escrevam aí: a esquerda vai se arrepender amargamente de ter usado as ferramentas da mentira, da interpretação viciosa e dos ataques cruéis contra seus inimigos e de ter esquecido os valores da liberdade e livre expressão que deveriam norteá-la.

PS: gente da esquerda usando Karl Popper para sustentar seus argumentos expõe nossa fragilidade conceitual.

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Violência

Hoje me mandaram os vídeos e áudios de um caso de atenção violenta ao parto numa grande cidade brasileira. Não acho razoável que o nome do profissional seja citado por nós, e acredito que poderei explicar as razões para essa discrição nas linhas que se seguem abaixo.

Quando eu ouvi os diálogos na sala de parto fiquei espantado, mas talvez de uma forma diferente da maioria das pessoas. Em verdade, eu me senti como o cicerone de um campo de refugiados que mostra aos visitantes as condições precárias do lugar onde os exilados vivem. Para mim, algo banal, para os visitantes um quadro de horror. Assim, as cenas de violência verbal e abusos que eu escutei nada mais eram do que o padrão da assistência ao parto de que eu fui testemunha por tantos anos. Meu espanto não era pelo conteúdo, mas pelo fato de que ainda existem expressões dessa violência na terceira década do terceiro milênio depois de Cristo.

Eu bem sei o quanto o parto é estressante para os profissionais que o atendem. A configuração constrita das famílias contemporâneas produz uma concentração de expectativas e projeções inédita nos poucos filhos que nascem. Alie-se a isso o projeto da obstetrícia – desde sua criação – de produzir sobre o fenômeno fisiológico do parto todo o apavoramento possível, para assim garantir aos médicos – personagens da undécima hora na atenção a esse evento – a garantia do quinhão maior e mais suculento desse corpo esquartejado de mulher. Por estas razões, o parto no mundo ocidental opera sob o signo do medo, de um pânico que ultrapassa o medo natural das mulheres diante de fenômenos especiais que ocorrem em seu corpo. Esse medo atinge o parceiro, a família, a equipe, a instituição e toda a sociedade. Com todo esse estímulo ao pavor que circunda o nascimento é fácil entender porque ele se torna, muitas vezes, um circo de horrores.

Enganam-se aqueles que, com os archotes nas mãos, procuram no linchamento do profissional que usou da violência, da arrogância e do abuso como linguagem a solução punitivista – portanto equivocada – deste tipo de problema. Fazer isso seria tratá-lo como uma “exceção”, o que está longe da verdade. O problema não está com um profissional que perdeu o rumo da atenção, deixando que a sensação de impunidade, a ansiedade e a angústia dominassem seu discurso e contaminassem suas palavras com desdém e prepotência. Seria muito fácil se assim fosse; bastaria obrigá-lo a um processo de reeducação sobre a atenção à mulher, encaminhando-o a uma “reciclagem”. Mas, infelizmente, não é esse o drama que temos de encarar.

A verdadeira tragédia é o fato de que este é o discurso hegemônico da obstetrícia. Esta não é uma exceção. A atenção ao parto, conforme a sua vertente médica, tecnocrática e contemporânea, olha para a mulher como o estorvo do parto. A mulher e seu sistema defectivo e falho de gestar e parir, são os problemas que atrapalham a adequada atuação do médico. A incompetência essencial do organismo feminino é a responsável pelas demoras, falhas, complicações e tragédias, e não a incapacidade dos profissionais de lidar com esse evento.

Recordei agora de uma paciente grávida que me mostrou o vídeo do seu parto prévio. Nos momentos imediatamente anteriores à expulsão do bebê o médico perdeu o foco dos batimentos cardíacos, quando já estava ocorrendo o coroamento – talvez porque o peito do bebê estava atrás do púbis. Apavorado diante da falta de batimentos ele grita para a mãe: “Menina, faça força. Agora você precisa me ajudar!!”. Isto é, até aquele momento ele, o médico, havia trabalhado sozinho, mas a partir da pseudo emergência (o bebê nasceu em perfeitas condições) seria necessário que a mulher também colaborasse no nascimento da criança. Longe de ser um equívoco, tratava-se de um “freudian slip”, um ato falho, que demonstrava qual a posição que ele acreditava se encontrar no cenário do nascimento. Na percepção desse obstetra, ele estava parindo, enquanto a mulher representava as dificuldades que ele tinha a vencer para salvar a ambos, mãe e bebê.

O drama, que agora fica evidenciado pelo escândalo, se estabelece pelo fato de que, ao contrário das outras especialidades médicas – onde os pacientes são objetos inermes sob o controle do profissional – no parto é a mulher quem o faz acontecer. Assim, ela não é uma paciente – o nome “paciente” se refere àqueles que sofrem, que padecem – mas agente ativa do que está ocorrendo com seu corpo e suas reações. Ela não está doente, e nem está padecendo de nenhum mal, mas inobstante esse fato, é tratada pela medicina contemporânea como se assim o fosse, colocada numa posição objetual, negando-se a ela posição ativa no processo, impedindo-a de ser sujeito – e não objeto – de suas ações. Mas, para ser justo com os médicos, como pedir que eles passem anos objetualizando seus clientes para melhor intervir em seus corpos e, na obstetrícia, esta lógica se apresente a eles absolutamente invertida?

Na mentalidade médica contemporânea os insultos e os gritos estão colocados na posição do escalpelo e da tesoura, entendidos como instrumentos para subjugar um corpo que não colabora com os desejos e os tempos do médico e se contrapõem à lógica da medicina. Não deveria causar espanto que a adoção dessa perspectiva centrada nos cirurgiões invariavelmente redundaria na artificialização do nascimento e na expropriação do processo, retirando-o das mulheres e colocando-o nas mãos do médicos. Justo, parece, que eles reclamem quando as mulheres atrapalhem o “seu” trabalho.

Portanto, para que as violências verbais e os abusos contra a autonomia e a dignidade das mulheres deixem de ser o padrão não basta apenas utilizar a lógica serjomorista de “vigiar e punir”, imaginando que a punição, a exclusão e o linchamento público poderão produzir resultados positivos. A vingança é sempre traiçoeira; oferece um suave sabor ao ser consumida, mas uma inexorável indigestão depois de metabolizada. Mais demorado, mais custoso e mais difícil é colocar o dedo na ferida da atenção médica e institucional ao parto normal eutócico, questionando seus alicerces, denunciando suas falhas grotescas e seus resultados pífios. Apesar de mais complexo e demorado, este é o caminho mais seguro para garantir um valor revolucionário ao nascimento que, ao ser transformado (como bem o sabemos), transformará toda a sociedade.

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Gozo perverso

Todo mundo curtindo a desgraça que está prestes acorrer com a Geni, digo, Karol, mas ainda há aqueles que não conseguem sentir prazer algum testemunhando o despedaçamento público de alguém. Ou que, pelo menos, reconhecem seus sentimentos e sentem-se envergonhados de participar de um ritual de “malhação do Judas” em nível nacional. Estas pessoas descrevem um sentimento semelhante à “vergonha alheia”, o mesmo que lhes impede de assistir a Vanusa cantando o hino nacional ou que não lhes permite achar graça ao ver um sujeito sendo vítima de um vexame ao vivo.

Mais do que simplesmente a vontade de fazer justiça existe um gozo perverso na humilhação alheia. Um desejo de que suas próprias mazelas pessoais sejam queimadas no corpo de outro, como se assistir a execração pública de uma pessoa nos deixasse mais limpos, puros e elevados. No íntimo dizemos “Sim tenho meus defeitos, mas ainda há alguém mais abaixo, e quero deixar isso bem claro”. Recusar-se a fazer parte dessas catarses coletivas e sentir-se mal diante de linchamentos – inobstante a culpa do acusado – é sinal de que nem toda a sua empatia foi destruída.

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Enjaular

Há alguns dias foram mostradas as imagens de mais uma agressão contra a mulher. No caso uma advogada espancada covardemente por um jovem de 24 anos, filho de um politico influente de Goiás. O caso já corre em juízo e poucas dúvidas há de que ele deve ser condenado pelas agressões. Entretanto, sempre me impressiona o grito de algumas pessoas exigindo a prisão do infrator. “Como ainda não foi preso?”, perguntam espantadas. “Como podem deixar solto esse sujeito?”.

Prender? Como assim? Sem trânsito em julgado? Com qual justificativa? Que sentimento é esse que nos leva a exaltar a prisão de todo mundo? Qual o sentido de encarcerar diante de qualquer crime? O que realmente nos move para exigir a detenção diante de um delito? Que justiça é essa cuja ideologia – e aparentemente a única função que nos interessa – é encarcerar cidadãos diante de acusações, até mesmo antes de os envolvidos serem ouvidos?

Há poucos meses foi pedida a prisão de um doente mental – que perdeu metade do cérebro num acidente anos atrás – por se masturbar em um coletivo. Que sentimento bizarro de vingança é esse de tal amplitude que nos leva a gozar (perdão…) com a desgraça de um descapacitado psiquiátrico sendo enjaulado? Isso de alguma forma diminuiria o constrangimento de suas vítimas?

Para mim a questão continua sendo a nossa negativa em olhar para o agressor. Queremos mais justiciamentos do que a prevenção das tragédias. É mais uma faceta da lógica punitivista, tão popular quanto inútil.

Não é suficiente condená-lo e execrá-lo publicamente. Os homens (e até às mulheres) abusadores precisam ser entendidos, compreendidos e estudados. O agressor é parte ativa e um sintoma da revolução social insidiosa e silenciosa que acompanha a perda dos papéis masculinos clássicos. Temos agora diante de nós a necessidade de reacomodação da masculinidade.

Os homens sentem-se ameaçados e perdidos e a violência se apresenta para alguns como a única possibilidade. Para resolver a epidemia precisamos entrar na mente do criminoso e entender o que o motiva.

O texto abaixo, do juiz Luís Carlos Valois, lança um pouco de luz sobre as trevas punitivistas que se abatem sobre nós.

JUSTIÇA
(Texto publicado em Carta Capital)

Você, sim você, que está lendo estas palavras no computador, no celular, neste momento, pense em uma hipótese comigo. Se você encontrasse um policial, um deputado, ou uma autoridade qualquer, e essa autoridade, sem motivo algum, por uma paranoia momentânea, uma crise de autoritarismo, porque talvez não tivesse ido com a sua cara, acusasse você de qualquer coisa, estupro, o roubo da semana passada, porte de drogas – de uma droga que a própria autoridade iria providenciar – e algemasse você, levasse você preso para ser exposto no jornal das oito, imagine isso, imagine o que aconteceria.

Imaginou, pensou na hipótese? Agora continuemos, o que você acha que aconteceria com você? Nada, continuaria preso, porque todo mundo, inclusive você, quando vê uma pessoa algemada na televisão, no jornal, nas redes sociais, não espera processo, não espera pronunciamento da justiça, e aponta logo o dedo: bandido, deve ficar preso.

Do jeito que a coisa anda, com todo mundo aplaudindo quando uma pessoa é presa, elogiando a justiça quando uma pessoa é encarcerada, mas xingando a mesma justiça quando uma pessoa é solta, em pouco tempo não vai mais sobrar ninguém para aplaudir, estaremos todos presos.

Essa necessidade de ver pessoas presas nasce sim do sentimento de impunidade, do sofrimento de qualquer um que já teve o celular roubado, que paga impostos altíssimos sem ver nenhum benefício, que vê o playboy passar em uma Mercedes sem nunca ter trabalhado, é um sentimento bem abstrato e amplo, um espectro que paira sobre toda a sociedade.

Uma sociedade sofrida que precisa ver pessoas sofrendo para amenizar o próprio sofrimento, independentemente de quem sofra. Não importa se a pessoa presa não foi a que furtou o meu celular, se alguém está algemado na televisão, se alguém está sofrendo porque cometeu um crime, que bom, alguém está pagando, alguém está sofrendo mais do que eu, um alívio. Nessa sociedade de troca, sempre quando alguém perde, a sensação dos outros é de ganho, uma imolação, como toda a imolação, para diminuir a dor geral.

Não é de se admirar o prestígio que goza a polícia nos dias de hoje, porque é ela quem normalmente prende. Todos querem ser polícia para prender também, Ministério Público e Judiciário prendem para aparecer bem para a opinião pública e assim ninguém falar de seus altos salários, auxílios, carros oficiais, etc. A prisão de qualquer pessoa causa um êxtase, é a catarse que possibilita tudo continuar como sempre foi.

O interessante é que o prestígio da polícia, como quase todo mal, só serve para os outros. Temos uma sociedade que não gosta de ir à delegacia, tem horror de ser intimada, implora para não ter que prestar testemunho e muitas vezes sequer faz um boletim de ocorrência quando é vítima de um crime, em suma, uma sociedade que não acredita na polícia para ela mesma.

Mas quando é o outro, uma outra pessoa, um desconhecido, que está na delegacia, preso, acusado de um crime, a polícia é o órgão mais capaz e imune a erros do mundo. A contradição é a imagem perfeita de uma sociedade individualista, egoísta, que sofre com essa dor tão dispersa, mas goza quando essa dor é individualizada em um desconhecido qualquer.

Prender é o verbo. Soltar a ofensa. E nessa fixação, morre a Justiça, que é diálogo, que é sempre a possibilidade, a prioridade mesmo, da liberdade. Doente uma sociedade que fica feliz quando ocorre uma prisão, que não passa da demonstração do seu próprio fracasso como sociedade humana.

Volto a me dirigir a você. Então, não importa se você é de direita ou de esquerda, prender e soltar já se misturou com o sentimento moral de todos nós, foi preso, é bandido. E chamar alguém de bandido é o sinal, a autorização para se tirar qualquer dignidade, qualquer aspecto de cidadania, daquela pessoa presa.

O limite da cidadania está nas correntes e naquelas pequenas argolas com fechaduras que se chamam algemas, esvaziando a política, submetida à polícia, e, quando você for preso, por qualquer motivo, não vai adiantar gritar por Justiça, pois a que temos, a justiça atual, já foi feita naquele exato momento das algemas, que terão algemado também a sua voz, a sua dignidade. Você não será mais você.

Luís Carlos Valois é Juiz de direito no Amazonas, mestre e doutor em direito penal e criminologia pela USP, pós-doutorando em criminologia em Hamburgo – Alemanha, membro da Associação de Juízes para Democracia e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

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Vítimas

“Aprendi a duras penas que não se dialoga com as vítimas. Cabe a nós apenas escutá-las e apoiá-las para a cura de suas feridas. O diálogo – onde dois escutam – é via de regra impossível para quem está passando por um trauma, pois a dor entorpece o raciocínio e bloqueia o entendimento.

Tudo que a vítima quer é se livrar da dor e do remorso, e não encontrar soluções plausíveis para problemas recidivantes. É muita dor, um salto excruciante no deserto das esperanças. Em casos públicos e espetacularizados de assalto, com armas, ameaças e medo, TODOS NÓS SOMOS VÍTIMAS e, portanto, nossa razão fica embaçada pela fumaça das emoções flamejantes.

Pedir ponderação e equilíbrio é uma tarefa dura, mas necessária. Sem a porção mínima de consciência – que nos torna humanos – como o necessário o verniz de intelecto que cobre nossas crenças e nossos medos ancestrais, não passamos de animais cuja forma de justiça se esgota nos linchamentos e execuções sumárias.

Olhar o trabalho da policial e fazer sobre ele uma crítica – positiva ou negativa – não deveria nos impedir de olhar de forma panorâmica e menos emocional para o caso. Se a segurança das crianças e das mães estava em primeiro lugar isso não significa que a gênese do mal que ali se expressava não possa ser avaliada.

Mais um negro pobre foi executado pela nossa sociedade racista, mesmo que admitamos que a policial agiu certo. Quanto tempo e quantas mortes de jovens negros serão necessárias para que a gente se dê conta da miséria de nossa estrutura social?

Para mim nada pode ser mais atual do que Terêncio: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”.

Nenhuma tara, insânia, crueldade, violência, racionalidade, virtude, loucura e transcendência está fora do alcance dos meus braços e dos meus olhos. Sou tudo aquilo que vejo nos outros; o que me assombra e o que me enleva.”

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Ódio nosso de cada dia

Diante do desafio simples de pedir uma única prova de um deslize do ex presidente Lula que justificasse ser chamado de “ladrão”, a resposta é igual para todos os que assumem uma atitude autoritária. Na verdade estes sujeitos não conhecem nenhum crime de Lula, mas isso não lhes impede de odiá-lo com todas as forças porque este sentimento não tem absolutamente NADA A VER com algo que ele tenha feito ou deixado de fazer, mas com sua figura simbólica, o que ele representa como ameaça à estrutura social do Brasil.

A verdade é que se ele fez algo de errado ou não é totalmente irrelevante para quem escolhe odiá-lo por ser quem é. Isso explica que as acusações de corrupção ou de roubo nunca tenham materialidade; nenhum acusador é capaz de citar uma prova sequer, e todos dizem “ah, Moro escreveu 300 páginas, está tudo lá”, e fogem de qualquer desafio de mostrar uma evidência qualquer de que tenha “roubado”, “prevaricado” ou se corrompido. Nada… Nenhuma conta, imóvel, mansão, carros de luxo, conta secreta, telefonema, recibo, gravação (compare com as do Aécio), joias, dinheiro vivo. Nada, absolutamente nada.

Sabem porquê? Porque não se trata de uma acusação racional. O ódio aos pobres e aos negros não pode ser dito em voz alta em uma sociedade que condena racismo e preconceito de classe, mesmo que estes sentimentos existam no submundo de nossas emoções. Por esta razão eles surgem na superfície com a fantasia do moralismo. Até os pastores travestem seu ódio com essas ferramentas – como o Pastor Feliciano falando da bala na cabeça dos esquerdistas – e ainda o fazem em nome de Jesus.

Portanto, minhas palavras em defesa da democracia e da constituição servem apenas de retórica jogada ao alto, e não direcionada a quem se nega a pensar com justiça e com respeito ao Estado Democrático de Direito. Quem se alegra e faz carnaval com a possível prisão de Lula está completamente alheio a qualquer abordagem racional e já mergulhou profundamente no poço das emoções mais primitivas, onde a luz da razão é incapaz de alcançar.

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Mata!!!

Se eu fosse exposto à sanha justiceira de uma massa ensandecida, você me defenderia? Pense bem: ajudaria a colocar uns gravetos em solidariedade às mulheres e às crianças ou pensaria nas outras hipóteses (exagero, ilusão, mentira, fantasia)? Vou mais longe: se fosse um filho, marido, namorado, amigo, seu pai você teria o mesmo sangue frio e decretaria que “criança não mente” ou “não se duvida da vítima“? Ou diria “ah, mas esse caso é diferente“?

Eu não li nada sobre o caso de abuso da menina no avião além da manchete que é jogada na nossa cara pelas redes sociais. Em verdade eu me nego a ler sobre isso porque me dói pelas duas possibilidades: se for verdade e se não for. Se for um caso verdadeiro de abuso a descrição do que ocorreu me faz identificar com a indignação da família e com a sensação de impotência diante da violência cometida. Porém, se não for verdade, penso na dor terrível de sofrer uma acusação dessa gravidade sem ter cometido crime algum. Posso sentir ambas as dores e por esta razão me protejo ao não querer saber nenhum detalhe. Se alguém tiver curiosidade em entender como me sinto diante desses relatos assista “The Hunt”, um filme brilhante e sensível sobre uma acusação de pedofilia. Qualquer um que já tenha sido vítima de uma injustiça e sofreu julgamentos pelo “senso comum” poderá entender a minha angústia.

Já participei de perto de uma situação que ocorreu com um amigo de parentes meus. Uma menina acusou na policia o ex-namorado de abuso em uma situação aparentemente normal. O caso teve seguimento na justiça, não houve nenhuma prova substancial que sustentasse a acusação e nenhuma evidência de que o rapaz que tivesse agido com violência. Por isso foi absolvido. Essa foi a decisão do processo, mas nunca fiquei sabendo dos detalhes pelas razões que expus acima. Se houve ou não algum abuso é algo que ficará sepultado na memória dos dois envolvidos.

Entretanto, pude ver como as mulheres próximas apoiaram o rapaz diante da acusação. A irmã, a mãe, as amigas e outras mulheres próximas ofereceram a ele o apoio fundamental para suportar os ataques. Desta forma percebi que a adoção de uma postura de defesa irrestrita à narrativa feminina não é automática ou natural; outros afetos entram em pauta.

Quando vejo linchamentos assim (ou desejos de justiciamento) sou sempre tomado de uma espécie de pânico, talvez por coisas bem pessoais e subjetivas. Consigo entender o mal que um abuso pode causar à uma criança, uma mulher e sua família, mas já vi tantas injustiças sendo cometidas pelo “fenômeno de boiada” que sempre temo que esse possa ser mais um sujeito destruído pela ânsia de linchamentos causados por uma raiva esparsa que se concentra em um sujeito, como ocorre com o menino que rouba seu celular e é espancado à morte por uma multidão que encontra nessa catarse de ódio uma espécie de alívio para suas tragédias pessoais.

Diante de uma acusação dessa gravidade  como o abuso sexual, eu jamais correria a dizer que o sujeito é culpado sem ter plena certeza disso. A possibilidade de atingir um inocente me paralisa. A ideia de sacrificar alguém que nada fez apenas por sentimentos de raiva e indignação me causam profundo horror. A sensação é semelhante àquela de quando algo desapareceu da sua casa e todas as suspeitas recaem sobre a faxineira negra e pobre. A possibilidade, mesmo minúscula, de não ser ela a culpada pelo desaparecimento me impede de tomar qualquer atitude acusatória, pois para mim é simples e fácil me identificar com a dor de ser acusado desta forma, ainda mais por gente poderosa contra a qual não se tem chance alguma.

Tentem enxergar essa história pelo outro lado. Procurem imaginar-se na outra ponta do dedo em riste. Mais uma vez: nada sei do que houve nesse e em outros relatos. Não sei qual a narrativa da mãe ou quais as provas que ela possui. Este é apenas um desabafo diante do monstro de indignação que se forma, cujos olhos ficam muitas vezes embaciados pelo calor de uma raiva justa, mas que não raro acusa e destrói inocentes.

Posso, todavia, afirmar que se a acusação fosse contra um amigo dileto eu correria para lhe defender, mesmo correndo o risco de “quebrar a cara”. Prefiro mil vezes errar por proteger meus amigos de uma possível injustiça do que ser fiel a conceitos abstratos e, assim, acabar por permitir – por ação ou omissão – que um afeto seja levado à fogueira.

Alguns argumentos deste debate me deixam com muito medo. Tipo “a mulher nunca é escutada“, ou “o depoimento dela não vale nada“. Ora, isso é verdadeiro na maioria das situações, mas ninguém pode ser julgado por ser homem ou por vivermos em um mundo machista. Precisa haver provas concretas de que um crime foi cometido, caso contrário haverá um caos jurídico onde qualquer acusação é tomada como verdadeira apenas por ter sido feita por um sujeito que pertence a um grupo oprimido. Lembrem que há poucos séculos as bruxas eram julgadas assim. Diante de um mal social qualquer os dedos eram apontados para elas, de forma imediata. Talvez tenha sido a partir daí que eu desenvolvi minha aflição.

Eu reconheço o sentimento de pessoas que acham que a solidariedade a uma causa (as mulheres, as crianças, o fim da impunidade, etc.) se sobrepõe à dor de alguém que pode estar sendo injustiçado. Eu entendo está atitude, mas só de pensar sinto calafrios.

Podemos então aceitar como verdade que qualquer ação peremptória de acusação é errada, seja ela dirigida ao suposto autor ou quando dirigida à queixosa. Mas eu defenderei a inocência de qualquer um até prova em contrário e trânsito julgado. E não sou eu que defendo esta posição; a própria evolução civilizatória escreveu este preceito de presunção de inocência nas constituições.

Como eu disse, defendo qualquer pessoa que está sendo acusada e se julga inocente, exatamente porque ela É inocente…. até se provar o oposto. Defender um homem só porque ele é homem é tão errado quanto defender uma mulher por ser mulher, ou uma criança por ser assim. Isso é preconceito. Eu não me identifico com os homens e não faço para eles defesas peremptória, mas me identifico com o sujeito – homem ou mulher – que vê a horda sequiosa de sangue se aproximar com a lenha e a gasolina sem que sua voz possa ser escutada.

Exemplo: um negro rouba um celular e tem várias testemunhas. Ele se diz inocente. O juiz o absolve porque nessa sociedade “ninguém escuta os negros”. Sério???? Seria lícito a um juiz falsear a realidade para contrabalançar a injustiça social histórica contra os negros????

Existe um preconceito histórico contra as mulheres e uma desconsideração da fala das crianças. Entretanto, não se conserta estes erros milenares criando outras injustiças ou oferecendo às mulheres uma voz que não possa ser contestada. Está errado. Não são a polícia e o juiz que vão consertar os preconceitos deixando de agir dentro da lei. O fato de crianças e mulheres serem desconsideradas nesta sociedade é um problema cultural que precisa ser resolvido…. pela cultura, e não pela justiça!!!

Quero apenas que as pessoas que o julgarem o façam sem preconceitos contra ou a favor, e que a verdade prevaleça. Espero que essa menina esteja bem e ouso esperar que o próprio acusado também fique bem. Se for inocente que consiga suportar os ódios que recebe; se for culpado que possa suportar o castigo merecido e que isso sirva de lição para o que resta de sua vida.

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Empatia

Lembrei agora que há poucas semanas ativistas indignados(as) queriam colocar nas masmorras um sequelado cerebral que se masturbava em público. Como não existe um movimento forte de apoio aos doentes mentais ele foi massacrado sem perdão nas redes sociais. “Crime hediondo”, “pena de morte” e “prisão perpétua” foram usados para descrever o ato e punição merecida para o crime de espalhar sêmen corrosivo. Seu pênis foi comparado a uma arma apontada contra a cabeça de suas vítimas. Toleramos esses exageros em função de nossa culpa patriarcal atávica com relação às mulheres.

Defender a “moderação” nos linchamentos é visto como um ato de condescendência com o crime. Triste realidade.

Quanto a soltar o homem após o flagrante o juiz agiu certo diante da lei, pelo menos na opinião de muitos juristas. Talvez tenha faltado bom senso, todavia, o massacre foi sem dúvida absurdo e desproporcional. Faltou empatia com o outro lado da história por parte de quem exige isso todos os dias.

A solidariedade com as vitimas não teve uma contrapartida de compreensão com a situação dramática da vida do agressor e sua doença. O rapaz acabou pagando por ser homem e doente em uma sociedade que não perdoa mais nenhum destes crimes.

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The Pain of the Oppressed

For Ina May Gaskin

I received with surprise an online petition against one of the most important fighters for the humanization of childbirth in the world, Ina May Gaskin, in which the petitioners accuse her of racism. The words they use are harsh, violent and cruel, and offered me the opportunity to reflect on the existence of such cruelty, in life and especially in the virtual world. It was only after talking to some friends that I could understand the context, and combine them with circumstances of the contemporary American political moment—this made a lot of difference in my perspective on the problem.

There is great dissatisfaction with the fact that the birth movement in the United States was created and led by mostly white and middle-class women. From my perspective, nothing could be more natural than this if we take into account the obvious characteristics of this social class: more money, more time to devote to unpaid tasks/volunteer work, more access to cultural advantages, higher education and so many other class and race privileges that we know so well. Add to that the fact that the American black community constitutes no more than 10% of the population in this country, and it is little wonder that the birth movement has been driven primarily by white middle-class women, and that African-American women feel marginalized in the birth movement as well as in the wider society. However, what could be seen as an aid to the privileged people to the unprivileged – and an effort to decrease the distances between them–is instead seen by a group of activists-black feminists as an invasion and an attempt to undermine the protagonism of the disadvantaged non-white women in America. This subject goes back and forth and one needs to understand the whole context to deal with this kind of resentment.

When I read the statements of these activists and compared them to the actual character of my friend Ina May, I was astonished at the absurd moral penalties to which she was subjected. It is like someone stealing a bag of cookies at the grocery store and being sentenced to death. The condemnation of the activists, in turn, was not directed at her ideas, her propositions, her narrative or the phrase – politically incorrect or not – they say she used. No, the penalty is supposed to destroy her morale and her honor, and rewrite her personal history. It is not something like “We disagree with you for your phrase, which can add a further burden to American black women, victims of a racist society.” No, the petition makes it clear that the people who wrote it believe that this person, this long-time pioneer and heroine of the birth movement, is a “racist,” a “white supremacist,” Ku Kux Klan type, and it is because of “people like her” that there is racism in women’s care in the United States.

Yet it would take only five minutes of conversation with Ina May to discover the nonsense of such aggression. As another birth activist said to me, “There is not a single racist bone in her body.” This made it clear to me that the petition says much more about the hatred, frustration, and long-held resentments against white society emanating from these people than from any flaws committed by my friend and activist. It is a tragedy that they have chosen Ina May as their current focal point for revenge.

Immediately I realized that the petition was part of a strategy of attacking historical activists who fought for the humanization of birth. I re-read Ina May’s statement—the one that got her into so much trouble—and I could not perceive any racism in it, but rather a phrase that could be interpreted in a number of different ways. I remembered what my father said about a black guy in Brazil who was becoming a football coach. Said my father, having a coffee with me at the mall: “Against him weighs the fact of being black.” When you take that phrase out of context it seems that your intention was to say that “being black” is a defect for someone who wants to be a football coach. What he meant, however, is that being black would make him suffer many prejudices and encounter tremendous barriers that never occur against whites pursuing the same position. The same sentence can be read in two different ways, according to the desire of the one who reads it; it can be considered racist by people who prefer to attack all who mention race, but can mean the opposite if you understand the context and realize that the phrase was said by a known combatant in the fight against racism.

After my conversations with other birth activists about the petition being circulated against Ina May, I was able to understand that she is the victim of a process that is not happening only now. It is being used by a “race patrol” who tries to attack the movement of humanization for its white and middle-class roots as if the guilt should fall on the few white activists who have decided to bring up the idea of dignifying and spiritualizing birth.

My first reaction was to think “I do not want to argue with fanatics, people who believe in hatred and revenge as elements of positive transformation and who do not mind dividing a movement that is already small and suffering attacks from the powerful forces all the time.

After a few minutes, a little calmer, I thought that there is a huge need to narrow the differences between social classes and races in our society, in America and in my own country, Brazil. Both countries have many disparities and black women are at the bottom of our social strata. The struggle of these black women is fair and noble, and the importance of their ideas cannot be sacrificed because of their misuse by these bitter activists. The fact that they are bearers of hatred and negativity cannot lead me to disregard their struggle – as well as the struggles against chauvinism, oppression, inequity, sexual rights of minorities and many others. If their message seems to me – and many others – to be full of hatred, our response must not be of despair—rather it has to be necessarily guided by respect and consideration for their pains, sorrows and wounds.

The sad reality is that, in fact, drug overuse IS one of the major causes of maternal and infant mortality in the United States among both white women and women of color:

“The biggest killers during and after pregnancy are cardiac problems and overdoses involving prescription opioids and illegal drugs. (“America’s Shocking Maternal Deaths” by the Editorial Board of the New York Times Sunday Review https://nyti.ms/2civjl3)”

“Overdosing is the second-biggest cause of maternal mortality in Texas. Another is racism: In Texas [the state with the highest maternal mortality rate in the US] black women are 11.4% of all pregnant women and a whopping 29% of those who die. Texas is one of 19 states that have refused to expand Medicaid under the Affordable Care Act. . . Help with drug abuse is scarce, as is maternal health care. (Katha Pollitt, “The Story behind the Maternal Mortality Rate in Texas Is Even Sadder Than We Realize”, Sept. 8, 2016, www.thenation.com/login/)”

The important thing is not to blame women who overdose, black or white, which Ina May did not, but rather to understand the racial, social, and economic stratifications that push them into drug abuse to cope with lives often too hard to bear, through no fault of their own.

I am sure that my friend, Ina May Gaskin, does not deserve the unworthy treatment she is now receiving daily. The attacks directed at her affect all those who care about human birth and its repercussions in society. Ina May is an example of woman, mother, grandmother, activist and women’s fighter of any color, religion or social stratum. I will be with her always because she is one of the most enlightened, loving, egalitarian human beings I have ever had the honor of knowing.

Ric Jones
ReHuNa
Brazil

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