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Diabo

Como enxergas o diabo? À frente ou ao teu lado?

Há muito se diz que o valor de um homem se mede pelos inimigos que produz durante sua trajetória. Não há como fazer omelete sem quebrar ovos; da mesma forma não há como mexer nas estruturas calcinadas da sociedade sem esbarrar nos velhos paradigmas.

Quando encontrares alguém que por muitos é atacado pense apenas em qual vespeiro ele pode ter mexido. A verdade não é democrática, e o fato de muitos o criticarem não significa que está errado; ele pode estar apenas questionando velhos conceitos e ameaçando podres poderes.

Nenhum zagueiro de respeito ganha troféu Belfort Duarte” e nenhum grande jornalista passa a vida sem ser processado por poderosos que se sentem atingidos por seu trabalho. “Jornalista não tem amigo, ele só gosta da verdade”, já dizia Joseph Pulitzer. Posso dizer o mesmo para outras profissões; um profissional que não esbarrar no diabo durante sua trajetória de vida é porque o tem ao seu lado.

Desconfie daquele que é amado por todos; somente os tolos o são. O verdadeiro gênio transformador sabe que durante a vida vai cultivar inimizades e não será aceito por muitos, às vezes pela maioria. Todavia, como diria Nietzsche, o verdadeiro brilhantismo não aparece em vida, e muitas vezes um século é necessário para que a névoa do tempo se dissipe e sua luz se torne visível.

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Paralaxe

Paralaxe

Alguém escreveu uma frase a respeito de um tema que sempre me interessou, e ultimamente de uma forma mais intensa e profunda. Disse ela:

“Assim, se você opta por acreditar que um lado é bom e o outro é mau, que só há dois extremos, que só existem dois lados, então você automaticamente exclui todas as infinitas nuances e possibilidades com que a vida nos contempla.”

Concordei de pronto com a manifestação de minha amiga. Entretanto, alguns minutos depois outra amiga escreveu um post declarando que em algumas circunstâncias – em especial na necessidade de “sobrevivência” – é importante “não perdoar“, e adequado “não compreender“. Não posso reproduzir o que ela escreveu, mas a tese central era a de que em momentos especiais temos que fazer escolhas e optar por um lado, colocando o outro lado como inimigo e aceitando “não compreendê-lo“.

Achei confusa a manifestação e respondi indagando se eu tinha entendido de forma correta, mas acabei sendo bloqueado, provavelmente por questões passadas. Mas o que eu queria dizer, e acho que isso sim tem importância, é que a visão compreensiva sobre a posição do outro, e a possibilidade de analisar um fenômeno por diferentes perspectivas, permite fugir do reducionismo maniqueísta e injusto no qual frequentemente incorremos. A busca de uma “paralaxe”, o olhar múltiplo sobre o mesmo objeto, enriquece nossa compreensão sobre qualquer fenômeno. “Para combater o racismo e o nazismo é preciso entender porque eles foram (e são) tão populares…”, disse eu.

Simplesmente eleger os nazistas, xenófobos, homofóbicos, racistas e coxinhas (mas poderiam ser os esquerdopatas, ok) como inimigos, desreconhecendo as razões que os motivam, impede que possamos defender nossas ideias com determinação e abrangência. Não é necessário concordar com tais atitudes, por certo, mas perceber que elas são expressões legítimas do pensamento humano é importante até para que um dia possam, finalmente, desaparecer.

Eu respondi à amiga: “Mas, abrir mão de uma visão imparcial e abrangente em nome do quê? Compreendo que se deva tomar partido e fazer escolhas, mas daí a reduzir o adversário à sua condição de “inimigo” e aceitar “não compreendê-lo” como uma desculpa para não aceitar suas razões é demais para mim. Não entender as razões do outro pode ser considerado certo? Por quê? Pois é exatamente no momento da “sobrevivência” que essa compreensão se torna uma ferramenta fundamental! Revoltar-se é legítimo e necessário, até no que diz respeito à violência obstétrica, entre outras mazelas. Mas “não entender” as razões daqueles que perpetuam estas atitudes seria o mais inaceitável dos erros.”

Olhar para o outro como igual, na infinitude de diferenças que a vida nos contempla, é tarefa árdua. Entretanto, sem esta mirada respeitosa com a experiência alheia jamais poderemos absorver as verdades que o adversário graciosamente nos propicia com a oferta do contraditório.

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