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Ludopédio e Saudosismo

“Contando com jogadores como Gabigol, Arrascaeta e David Luiz no elenco, o Flamengo divulgou balanço em 2021 que aponta que a folha salarial foi de R$ 199,1 milhões por ano, algo em torno de R$ 16,6 milhões por mês. Ou seja, sozinho, Neymar recebe por ano cerca de R$ 17 milhões a mais que todo o elenco flamenguista” (UOL, Julho de 2022)

A existência desse tipo de aberração, onde um único jogador ganha na Europa muito mais que todo o time mais caro da América Latina não é um problema do futebol, mas uma decorrência natural da sociedade bizarra construída pelo capitalismo. Não é o futebol, somos nós. Essa situação era mais do que previsível, na medida que o capitalismo fecha as portas para a realização pessoal do cidadão comum, restando a ele apenas a projeção. “Eu não tenho valor, mas meu time é campeão”.

Reza a lenda que pesquisadores adentraram na África bravia em meados do século passado e encontraram uma tribo nativa muito primitiva. Passaram a trocar experiências e presentes com o uso de um intérprete da região. Num dado momento um pesquisador ligou o rádio de ondas curtas e os aborígenes escutaram pela primeira vez a música captada de uma estação distante através das ondas de rádio. Perguntado sobre o que achava daquela “máquina de música” o chefe da tribo respondeu:

“Que vida triste a de vocês que precisam usar caixas cantantes ao invés de cantarem vocês mesmos”.

Nós não nos divertimos mais jogando futebol com a garotada (ou a velharada) do bairro como fazíamos antigamente, improvisando meias de mulher enroladas como bola. Não há mais “campinhos”, várzeas, terrenos baldios onde se possa jogar nosso sagrado ludopédio. Terceirizamos a emoção do gol para os ídolos, figuras geralmente desprovidas de qualquer qualidade além do talento futebolístico, alçados, entretanto, à condição de “gênios” ou “semideuses”. Triste sociedade que paga fortunas para que os escolhidos gozem por nós.

Quando eu era garoto os jogadores eram seres humanos. Frequentavam lugares comuns, como padarias, mercados ou cinemas. No edifício na esquina da Getúlio Vargas com a Botafogo (Menino Deus, bairro que Caetano cantou) moravam Carpegiani e Tovar – campeões nacionais pelo Inter – e o Opalão verde do Carpegiani dormia na rua; a gente passava por ele quando ia pra escola, o Infante Dom Henrique. Falcão (do Inter) dava carona escondido para o Iúra (do Grêmio) até o Estádio Olímpico; eram amigos pessoais, mais ferrenhos rivais em campo.

Uma vez eu encontrei no ônibus – o famoso T2 – altas horas da noite um zagueiro titular do Internacional conversando com um amigo. Nos Grenais a distância entre as torcidas era de 3 metros, separados por duas linhas de “brigadianos” e metade da arquibancada era oferecida para o adversário. Todos saiam juntos do estádio, e as brigas eram raras.

Mas, repito, é errado pensar que foi o futebol que mudou; o futebol nada mais é do que o espelho da sociedade onde está inserido. Foi a sociedade, o capitalismo e sua influência nefasta que transformaram esse esporte num negócio de milhões. O futebol, enquanto veículo da angústia social, transformou-se a partir das mudanças sociais, que nos fazem jogar a fragilidade de nossas vidas nas mãos (e principalmente nos pés) de nossos ídolos.

“Rollerball”, filme de 1975 com o falecido James Caan, fala dessa realidade distópica, numa sociedade futurista onde os jogadores são gladiadores modernos que morrem em nome do circo midiático. Todavia, é preciso reconhecer que não existirá nenhuma mudança no futebol sem que haja uma transformação profunda na sociedade. Até lá veremos jogadores medíocres e suas fortunas, gastando seu dinheiro em baladas milionárias, cercados de garotas de capa de revista, usufruindo dos milhões que são pagos pela nossa neurose.

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Polícia, para quê polícia…

policia porto alegre

“Sempre que a resposta das forças públicas se aproxima da selvageria que tenta combater é o momento de questionar se, para confrontar bandidos, não estamos ficando parecidos demais com eles.”

Com essa lógica do “bandido bom é bandido morto” não é possível debater. Mas o resultado óbvio desse das ações brutais de uma polícia que JULGA quem merece ou não viver é que um criminoso não terá nenhuma razão para se entregar daqui para diante. Se for oferecida a ele uma chance de desistência ele vai negar, e combaterá até a morte, pois sabe que os policiais não são dignos de confiança.

O mesmo aconteceu no ônibus 174 no Rio: uma execução de alguém desarmado e indefeso. “Ah, mas ele sequestrou pessoas”. Não importa, não cabe à policia julgar. Aqui em Porto Alegre houve o “Caso do Homem Errado”, também executado pela polícia, ou o menino que levou um tiro de um brigadiano em Novo Hamburgo. E o caso Amarildo no Rio?

Casos assim vai aos poucos deixando a polícia com cara de bandida. Mas tudo bem… são bandidos que estão do nosso lado, certo? Errado… quando esse poder não tem limites na lei o resultado é o autoritarismo e por eles todos pagam. Mais cedo ou mais tarde.

Hoje mesmo muitas associações saíram em defesa dos policiais envolvidos, e fiquei sabendo que foram inclusive homenageados (o que em outro país seria absurdo). Eu também defendo os policiais militares porque reconheço a bravura e a coragem que eles tem para defender a sociedade, mas acho extremamente perigoso quando pessoas acham uma execução a coisa mais normal do mundo. Ninguém quer morrer por bandidos, e ninguém defende que policiais não reajam, mas para isso existem regras e protocolos a serem seguidos. Atirar num sujeito desarmado, à queima roupa, com as mãos atrás da cabeça ultrapassa todos os limites de civilidade. Creio que a sociedade deveria se questionar sobre os limites da ação da polícia, sob pena de criar uma policia “acima da lei”.

“Cria cuervos y ellos te comen los ojos”

Por isso eu acho que as ações policiais, mesmo quando são praticadas para nos defender e tem sucesso, não podem extrapolar os limites legais. Não podemos nos associar à barbárie. Duvido que um comandante de qualquer polícia discorde do que eu disse. Pode até não agir assim, mas concorda. Discordar disso é oferecer às forças policiais a autoridade para julgar quem deve e quem não deve sobreviver aos confrontos. E isso é inaceitável em uma democracia.

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