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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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Dor e luto

Eu entendo a dor, sei o quanto essa geração viu a importância da seleção brasileira decrescer no grande cenário mundial nos últimos 24 anos. Sei quanto dói perder para um país que tem a mesma população de alguns bairros de São Paulo. Porém…

Os ataques aos jogadores são injustos, porque nossos atletas são apenas comuns. Neymar é o nosso último craque excepcional e ele sofreu demais com as seguidas lesões, a falta de continuidade na equipe e também o excesso de dinheiro que nós pagamos a ele, assim como pagamos a todas estas estrelas. Quando o dinheiro de contratos e negócios paralelos é obsceno, e o futebol se torna apenas a vitrina que eles usam para vender seus produtos – entre eles as BETs – a fome passa. Como já dizia Renato Portaluppi, “só se joga com fome”, e por isso garotos de apartamento não prosperam no futebol. Da mesma forma, meninos milionários perdem o principal combustível para a excelência.

Uma análise mais ponderada por fim vai reconhecer a mediocridade dos nossos jogadores, a falta de talentos que desmontam nosdiscadversários e que possam decidir uma partida, assim como fizeram Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, etc. Não temos um Messi, um Mbapé ou um Haaland no nosso time, que decidem um jogo na única bola que recebem. Tivemos o jogo nas mãos por duas vezes contra os noruegos e não conseguimos marcar, por falha dos atacantes. Incapacidade? Inexperiência, talvez.

A maturidade também vai surgir quando pararmos de criticar a personalidade de Neymar para justificar nossos fracassos em campo, usando para isso seu bolsonarismo, seus negócios e seu comportamento. Ele estava na seleção para jogar bola, e não numa seletiva para genro. Mas eu sei exatamente como é essa dor, por isso vou aguardar que o luto passe e comecem a surgir as análises mais serenas e mais racionais.

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Racismo e capitalismo

No universo literário, o que conta é o quanto o autor vai gerar de lucro para a empresa. Ponto. O resto é muito menos importante. Não acredito quer qualquer autor seja desmerecido apenas por ser “negro”, gay, asiático, trans, mulher, etc. Estes escritores são desmerecidos quando suas vendas não são do agrado de quem enxerga no livro a possibilidade de gerar dividendos; essa é a regra do sistema no qual estamos inseridos. Se isso não fosse verdade, jogadores de futebol, sambistas, porta-bandeiras, e demais posições sociais marcadamente ocupadas por negros seriam objeto de discriminação. O mesmo com estilistas de moda e cabeleireiros no mundo gay. Por que aqui o racismo e a homofobia não funcionam? Conseguem imaginar no Brasil a torcida de um clube de futebol se manifestando contra a contratação de um ídolo de pele escura?

Na verdade, estes personagens – jogadores, mulheres, cabeleireiros, sambistas – que pertencem às “minorias” até são discriminados nos campos em que atuam, mas com uma forma positiva de discriminação – até as mulheres. Em profissões historicamente femininas, como educadoras e enfermeiras, mulheres têm clara vantagem sobre os homens nas escolhas. Quando eu advoguei em nome do direito de homens serem “doulas” (auxiliares de mulheres durante o parto) fui duramente atacado por identitárias que acreditavam que o parto e seus cuidados eram um terreno restrito às mulheres. Sim, e fui cancelado duramente por falar em nome da …. diversidade. Desta forma, não acredito num racismo que se sobreponha os cânones do capitalismo; não faz sentido e não se observa na realidade à nossa volta. Por isso eu digo: o racismo – que realmente existe e machuca – é o filho dileto da sociedade de classes e da propriedade privada. Qualquer tentativa de atacar o racismo com mensagens moralistas ao estilo “somos todos iguais” se choca com o real da economia, onde as populações negras são condenadas a viver em uma sociedade que as excluiu em função da escravidão a que foram submetidas a algumas poucas décadas.

Vejo como justa a reclamação sobre as “panelas”, mas permitam que eu diga que não há absolutamente nada no universo da literatura que não exista em qualquer outro campo de ação humana. Durante mais de 40 anos transitei no ambiente da Medicina e posso lhe afirmar que pouca coisa é tão cheia de favorecimentos injustos e até ilícitos quanto as posições de poder conquistadas pelos médicos através dos hospitais, clínicas, Academia, corporações médicas e suas associações. Sempre que eu vejo uma pessoa do povo elogiando um profissional da Medicina dizendo ser ele “um grande médico” pode ter certeza que o doutor foi colocado nessa posição no imaginário popular por forças bastante distantes da qualidade do seu trabalho e dos resultados de sua ação. Como qualquer outra atividade humana, a rede de contatos, as facilidades de acesso, o sobrenome, os recursos financeiros, a sedução e as portas que são deixadas abertas são os mais valiosos elementos para garantir o sucesso; o talento pessoal, apesar de não ser desprezível, ocupa uma posição bastante tímida nesse contexto.

Por fim, acredito que a reclamação contra os preconceitos faz sentido; entretanto, a ideia de que existem preconceitos raciais, de gênero, de orientação sexual ou de origem que sejam tão ou mais importantes que o poder financeiro – a ponto de se tornarem superiores aos mandamentos primeiros do capitalismo – é um exagero. Nenhum editor recusaria as “Memórias do Neymar” ou se negaria a produzir um filme sobre “Liberace” baseado em suas posturas racistas ou homofóbicas. O que manda em nossa sociedade ainda é o dinheiro, e aqueles que o controlam. Inobstante carregarem seus preconceitos pessoais, se preocupam primeiramente em manter seus bolsos recheados, mesmo que às custas de explorar a arte e o talento de mulheres, negros, gays, etc.

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Maçãs e Peras

Primeiramente deixo claro que eu debato o que eu quiser e quando eu quiser. Não há o que possam fazer, a não ser me bloquear caso minhas opiniões machuquem. Eu, em verdade, prefiro ser bloqueado (e sou diariamente) quando o livre direito de expressão não é respeitado ou bem-vindo. Quanto ao debate sobre Neymar x Rivaldo, ele é realmente inútil; apesar disso, está na Internet e muita gente está fazendo essa comparação. Eu mantenho a minha opinião sobre esse tipo de discussão: o debate é sem sentido porque são jogadores diferentes, de posições diversas e de gerações diferentes, mesmo que próximas. Essa história de “quem foi melhor” é um debate caça níquel, pois as pessoas tendem a desvalorizar um jogador para valorizar o outro. No caso, dois craques máximos do futebol brasileiro, na galeria dos Top 10.

Passei boa parte da minha vida escutando esse debate sobre Pelé x Maradona e nada de produtivo pode ser retirado das toneladas de textos escritos sobre essa comparação. Muitos até reconhecem que se trata de “uma discussão praticamente sem fim“. Ora… o que é uma discussão infindável? É exatamente aquela que impossibilita uma conclusão, tornando-a sem utilidade, pois esbarra em preferências pessoais e modos distintos de analisar futebol. No caso, estamos comparando “maçãs com peras” e tentando afirmar qual é a melhor das duas, mas felizmente não há gostos e perspectivas idênticas, e o debate se torna um “cul de sac”, um beco. A complexidade das visões subjetivas sobre a qualidade (das maçãs, das peras e dos jogadores) nos condena a jamais chegar a uma conclusão definitiva.

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Renato

Com a provável saída de Renato do Grêmio voltaram às especulações de que ele poderia ser o técnico da nossa combalida e impopular seleção brasileira. Entretanto, corre o boato de que suas opções políticas seriam um empecilho para que assumisse o cargo, já que Renato adotou uma franca posição de apoio a Bolsonaro (e antes para Sérgio Moro e a LavaJato). Entender as razões para esta vinculação em todas as suas nuances é complexo, mas por certo que Bolsonaro sempre agradou as pessoas que ganhavam salários acima de 1 milhão mensais.

Renato é um reacionário bolsonarista, fez inúmeras manifestações explícitas de apoio ao ex-presidente, mas afastá-lo apenas por isso seria um absurdo. A seleção não pode ser regulada por este tipo de perspectiva, até porque no mundo do futebol de ponta, dos jogadores milionários e dos técnicos ricos, poucos se salvam da sedução fascista. Quase todos os jogadores que ficam muito ricos facilmente adotam um pensamento de direita, acham-se burgueses, casam com modelos loiras e queimam seu dinheiro com festas suntuosas, álcool, bacanais, carros e todo tipo de consumismo pueril. Por que deveríamos exigir apenas do técnico uma postura social mais responsável e politicamente coerente?

Quase todos os jogadores exaltam partidos de direita e namoram com posições claramente fascistas, exaltam a polícia e aplaudem ações punitivistas contra a população pobre – e aqui vai a lembrança de Tite, clara exceção. Entre os jogadores famosos muitos (maioria?) são garotos criados sem a presença do pai e enxergam nos políticos populistas de direita, com discurso autoritário e ações conservadoras na moral, a função paterna de que tanto carecem. Renato é um exemplo típico disso, mas ninguém contrata um técnico para ser representante popular, para falar sobre aborto ou distribuição de renda, mas para escolher e treinar seus jogadores com o máximo de profissionalismo e seriedade.

Caso decidam barrar Renato, acaso impedirão Neymar – ainda mais reacionário que Renato – na seleção? Criaremos na seleção brasileira um “vestibular” ideológico para os treinadores? Aliás, quem sobraria numa seleção que tivesse uma postura política progressista?

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Bate boca

Acho curioso como as brigas entre celebridades são tratadas por nós. A última treta é esta dos últimos dias envolvendo o jogador Neymar e uma atriz aposentada que mora em Portugal. Creio que a gente erra quando espera destes sujeitos muito mais do que são capazes de oferecer. Neymar é um craque do futebol, um dos maiores jogadores que este país já produziu. Poucos futebolistas do mundo poderiam estar na mesma prateleira que ele. Dito isso, ficar acompanhando as fofocas da sua vida pessoal é uma enorme perda de tempo, e um brutal click bait de franco atiradoras que desejam notoriedade com esta polêmica.

Enquanto cidadão, Neymar é um claro produto de seu meio: um sujeito pobre tornado rico que se identifica com os valores burgueses. Todavía, quando olhamos para seus colegas de profissão, quem escapa dessa sina? Quem reconhece de onde veio e tenta mudar essa realidade – sem ser através de doações pontuais e caridade midiática? Entretanto, este não é um comportamento exclusivo de jogadores de futebol. Conheço meninos muito pobres e ambiciosos que cursaram medicina e hoje são fiéis defensores de Bolsonaro e da extrema direita, fazendo pouco caso das pessoas sue se encontram no mesmo extrato social de onde vieram. As posições empresariais de Neymar são características de “boleiros” cheios de dinheiro e sem qualquer perspectiva ecológica e social. Sua parceria com Luciano Huck, um neoliberal aecista e bolsonarista, associado a tudo que se relaciona com a direita mais retrógrada deste país, é uma conexão absolutamente natural. Bizarro mesmo é encontrar jogadores de esquerda ou defensores da justiça social.

Ademais, as pessoas que agora o atacam são tão ou mais socialmente irresponsáveis do que ele. Moristas e lavajatistas de primeira hora, abraçaram o fascismo bolsonarista com todo o fervor. Expõem suas aventuras sexuais na Internet, confessam o uso de drogas diariamente ao mesmo tempo em que acusam o jogador de ser um “mau pai”. Ora, façam o favor; mesmo que seja verdade, tudo isso não passa do conhecido “roto que fala do rasgado”.

O erro, mesmo que seja difícil admitir, é esperar de simples jogadores de futebol e atrizes de TV que sejam algo além do que seu talento específico lhes permite. Pedir para Neymar que seja um bom cidadão, mesmo virado de costas para o Brasil, é inútil. Ele joga futebol; não exijam dele nada mais que isso. Pedir para uma artista em crise profissional (como ocorre com muitas atrizes lindas quando a idade chega) que tenha consciência de classe, empatia com o povo brasileiro (autoexilada na Europa) e bom senso político é pedir muito mais do que é capaz de oferecer. Esses bate bocas servem para garantir publicidade a estas personalidades, mas nesta equação somos essencialmente massa de manobra, conduzidos a tomar posição e levados a assumir um lado, mesmo quando se trata de pessoas cujas semelhanças em termos de alienação ultrapassam em muito qualquer diferença que possa existir.j

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Influências

Qualquer um de nós foi a influência de alguém em algum momento da vida. Somos espelho sempre, mas o número de pessoas que olham para você como modelo pode variar. Alguns, como Neymar ou Taylor Swift influenciam milhões, outros apenas aqueles muito próximos. De qualquer forma, tocamos e somos tocados por outras almas todos os dias.

Como dizia minha mãe, “Cuida como vives, talvez sejas o único Evangelho que teu irmão lê”. Ou seja: todo mundo influencia e é influenciado; todo adulto já teve 18 anos e entende o peso de adolescer. Cobrar dos outros, em especial jovens atores, jogadores, artistas em geral para que sejam o “bom” exemplo para o mundo é uma carga demasiado alta, mesmo que compreensível. Todos que já passaram pela idade das descobertas bem sabem o quanto é confuso e desafiador. Além disso, a maioria de nós cruzou a adolescência com as óbvias restrições determinadas pela falta de dinheiro. Imagine o peso para quem não as teve.

Como gerenciar sua própria vida, seus conflitos, suas dúvidas, suas inseguranças sem o benefício das interdições? Acredite, não existe nada mais enlouquecedor do que a falta de limites. Os homens mais poderosos da Terra enlouqueceram: dos 12 césares que comandaram o Império romano 10 deles morreram insanos. O poder sem barreiras é brutal. Acredito que a família – o que ela traz de superegóico – é a mais valiosa proteção para os dramáticos desafios de uma vida de opulência. Isso não invalida a procura de ajuda psicológica, mas a coloca em seu devido lugar.

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Epidemia

É importante dizer que a epidemia de falsas acusações que assola o mundo todo – de Amber Heard às assediadas de Taubaté passando pelo golpe no jogador Neymar e pela menina no clube chique da facistolândia – é um fenômeno primo irmão da cultura do cancelamento. A lógica utilizada pelas supostas vítimas é simples: “Vamos atacar sua fé pública, sua honra, destroçar a sua respeitabilidade. E vamos fazê-lo do jeito que a gente sabe que dura a vida toda. Vamos chamar nosso antigo amigo de abusador, o pai dos nossos filhos de estuprador, nosso chefe de assediador. Não é preciso provar nada, basta jogar o nome deles na lama que as redes sociais fazem o resto. Quem ousaria desconfiar das vítimas?”

Estes são apenas exemplos de casos famosos, mas vai saber o que acontece nas varas de família pelo mundo afora como estratégia de vingança e de destruição moral. Quantas vítimas existem no mundo que sofreram por acusações falsas, destruindo toda a sua credibilidade? Quantos inocentes foram jogados na fogueira com a mesma crueldade que se jogavam bruxas nas fogueiras da inquisição? Quantas mulheres realmente vitimadas por seus parceiros(as) agora têm suas versões questionadas por estes casos ruidosos de acusações mentirosas e oportunistas?

O drama dessas mentiras socialmente apoiadas por gente que supostamente defende a causa (mas na verdade apenas descarregam nestes casos seus dramas pessoais), é que o problema do assédio e do estupro REALMENTE existe e temos visto seu crescimento nos últimos anos de dominância fascista, o qual deve ser combatido com toda a seriedade pelos governos e pela mídia. Por certo que a pandemia e o “lockdown” realizado têm influência no aumento dos conflitos domésticos, assim como a agudização da situação econômica das famílias durante a recessão mundial do Covid. Porém, para além dessa situação existe uma agressividade maior por parte das organizações fascistas, que combatem de forma aberta qualquer avanço contra conquistas femininas.

Entretanto, a ação dos ativistas que dão suporte às mentiras usadas contra homens com o argumento sexista de que um gênero (e nunca o outro) “jamais mentiria” acaba trazendo um total descrédito às queixas legítimas que aparecem – e que, infelizmente, ainda vão aparecer por muito tempo. As propostas de novas leis punitivistas e a criação de novos tipos legais têm sempre resultados pífios ou nulos. Na realidade, nunca se discutem as razões profundas das mazelas sociais como o tráfico de drogas e a violência doméstica, porque não parece de bom tom colocar o dedo na ferida do sistema desigual e cruel que estrutura nossa sociedade. Neste contexto vai aparecer o trabalho nefasto de algumas organizações identitárias que, para ressaltar seu corporativismo de gênero, encampam acusações frívolas ou mentirosas que acabam destruindo pessoas muitas vezes inocentes.

Pessoas que mentem por vingança ou oportunismo merecem punição severa, talvez recebendo uma pena tão violenta quanto o pretenso crime que levianamente inventaram. Para acabar de vez com a violência doméstica é preciso encontrar onde o mal nasce e destruir sua semente, sem perder tempo e recursos com visões moralistas sobre homens “bons” e homens “maus”, uma perspectiva que na verdade apenas encobre a perversidade do capitalismo e da sociedade de classes.

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Futebol de mulheres

Quando eu era estudante de medicina tive como colega um rapaz que foi trabalhar com futebol. Coube a ele ser auxiliar do departamento de futebol feminino de um clube da capital. Por convite dele comecei a assistir as partidas de futebol feminino da minha cidade que, naquela época, passavam na TV local (TVCom, talvez?). Bem, há 40 anos o futebol feminino era praticamente um espetáculo humorístico. As meninas não tinham a mais leve noção de como se pratica futebol. Passes errados, chutes ridículos, erros na interpretação de regras simples e total falta de preparo físico. Pareciam crianças de 4-5 anos jogando na pracinha. Uma coisa que me chamava muito a atenção ao assistir os jogos era a quantidade de vezes que se estatelavam no campo e chamavam os médicos – no caso, o meu colega. Ele me contou que faziam isso porque lhes parecia uma boa ideia para descansar, mas também porque “tinham direito”.

Hoje em dia é fácil perceber o quanto o futebol feminino evoluiu, e me arrisco a dizer que é a prática esportiva que mais progrediu nos últimos anos. Em nenhum outro esporte popular se constatou tamanha diferença estética, técnica, tática e física do que no futebol feminino. Apesar dessa inegável evolução, é equivocado tentar fazer paralelos com o futebol masculino, porque são “reinos” distintos. O futebol que as melhores jogadoras do mundo praticam é equivalente ao futebol de meninos de menos de 15 anos, que sequer terminaram a puberdade. Um século e meio de prática entre os homens e as notáveis diferenças físicas são determinantes.

Usando os mesmos argumentos morais que via de regra aparecem nos debates, alguns defensores do futebol feminino afirmam que nenhuma jogadora se joga ao solo simulando lesões como Neymar (vide ao lado). A verdade é que nenhuma jogadora sabe explorar a torcida e condicionar a arbitragem como Neymar – e outros tantos craques do futebol – o fazem. Todavia, no dia em que houver torcida, pressão, dinheiro “de verdade” e emoção à flor da pele as mulheres serão levadas a aprender esse recurso. Com o tempo as mulheres aprenderam a usar o recurso da violência, porque seria diferente com a catimba?

Por outro lado, a idealização do futebol feminino ainda é muito irracional. Apenas analisem dessa forma: na várzea e nos jogos entre amigos de fim de semana também não há jogador que fica rolando no gramado e as faltas nunca são teatralizadas, mas é porque se trata de várzea mesmo, se joga por cerveja, por diversão – ou por nada. No profissionalismo – onde as mulheres recém estão chegando – é muito diferente; os valores são distintos e as pressões incomparavelmente mais fortes. E basta ver cinco minutos de jogos de mulheres para ver como elas estão aos poucos se adaptando ao “ethos” do futebol, com faltas, violência e a famosa malandragem, inclusive essa de ficar rolando no gramado após uma falta para condicionar o juiz.

Aliás, nenhuma jogadora apanha 10% do que o Neymar apanha, e não fazem isso porque são mais éticas, educadas, compreensivas ou corretas. Não, isso não acontece apenas porque até para bater é preciso experiência. A distância entre o futebol dos homens é física, por certo, mas também é temporal. Faltam muitos anos de prática para o futebol das mulheres se tornar semelhante ao masculino. No momento eles são tão distantes que é injusto comparar os jogos, traçando paralelos entre o que ocorre nos jogos dos homens e das mulheres, pois isso só serve para desmerecer a incrível evolução que ocorreu nos últimos anos no futebol feminino.

Digo sobre o futebol feminino o mesmo que digo sobre qualquer conquista feminina: achar que o futebol feminino ficará melhor desmerecendo o futebol e os craques masculinos é um erro absurdo, que gera ressentimento e afasta aqueles que admiram futebol praticado por mulheres. Melhor é fazer como a empresa francesa de telefonia Orange, que mostrou como é possível fazer o grande contingente de torcedores do futebol masculino admirarem o futebol cada vez mais técnico e vistoso das mulheres.

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Futebol Moderno

Não há como comparar, na atualidade, o futebol europeu com o futebol praticado no resto do mundo. Na condição de tricolor, o jogo do meu Grêmio contra o Real Madrid em 2017 marcou esta diferença, que a partir de então ficou muito clara para mim. Eram (para usar a palavra da moda) patamares diferentes de futebol. No campeonato mundial patrocinado pela FIFA os sul-americanos chegam lá para fazer um “crime”, jogar por uma bola, tentar o milagre, fazer história. Parecemos clubes do interior jogando contra potências futebolísticas da capital. Já os gringos vão fazer compras e curtir os hotéis de luxo das cidades árabes. Estamos muito mais próximos do futebol da Arábia e mesmo da África do que do futebol da Europa. Prova disso é que nas últimas 10 semifinais os clubes da América Latina foram batidos por clubes africanos e de outras praças. O futebol dos anos 80-90 foi último suspiro dessa proximidade; a distância se tornou insuperável pela força do poder econômico; o dinheiro destruiu a competitividade no futebol; um fosso gigantesco se abriu separando o futebol praticado no centro do Imperialismo com aquele da periferia.

Eu sei: os clubes europeus são “legiões estrangeiras” cheios de jogadores da periferia, mas eles apenas arrecadam a mão de obra no sul global; o dinheiro, a organização, os estádios e o marketing é todo deles. Pensem apenas o seguinte: o jogador Neymar ganha sozinho mais do que todos os jogadores do Palmeiras e do Flamengo juntos – que já tem salários obscenos para a realidade do país. Ou seja: ele ganha mais que o plantel inteiro dos dois clubes mais ricos do país. Segundo dados da revista Forbes de 2022, Neymar ganha US$ 55 milhões anuais entre salários e bônus por metas em campo. Por mês arrecada ao redor de US$ 4,5 milhões, o que representa na cotação atual quase R$ 23 milhões. Ainda de acordo com a publicação, Neymar ganha mais US$ 32 milhões por seu trabalho fora de campo, principalmente emprestando seu nome para publicidade de inúmeros produtos. O jogador mais bem pago do Brasil ganha um décimo do que ganha o Neymar. É um poder econômico contra o qual não há como competir.

Com o futebol europeu sendo comprado por bilionários do petróleo ou novos ricos do leste europeu a tendência é que este esporte fique cada vez mais distante do povo. Cada vez mais concentrador de renda – e de títulos – e paulatinamente afastado do trabalhador pobre, o destino desse esporte é se tornar um jogo para as elites, controlado por magnatas, com uma estrutura que visa essencialmente o lucro, na mais acabada perspectiva neoliberal. Enquanto isso, vai se afastando das torcidas, expulsas dos estádios e cada vez mais alienadas das decisões do clube.

O futebol também precisa de uma revolução, para evitar que venha a desaparecer pelo extermínio de sua motivação mais primitiva: a paixão.

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