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Reis do Povo

Pelé e Lula na Comemoração do cinquentenário do primeiro mundial (1958)

Já é possível sentir o bater de asas dos abutres esperando o Pelé morrer para despejar seu racismo em forma de críticas morais ao Rei do Futebol. Não é fácil para o Brasil Branco exaltar um Rei Negro. Nunca o aceitaram, e não será agora. Agora nas redes, e do alto de sua pureza moral, identitários estão postando críticas à vida privada de Pelé, numa tentativa de destruir a imagem do maior ídolo do esporte mais importante do planeta.

Sempre que eu escuto a narrativa da filha é nítido que aqueles que a contam não conhecem a história toda e estão fazendo críticas baseadas em meias verdades, mentiras e fofocas. Poucos se dão ao trabalho de escutar os dois lados do enredo. Mas antes desse episódio Pelé já era atacado por “não ajudar Garrincha” – sendo desmentido por Elza Soares – ou de “não ter ido ao seu enterro“, como se cuidar do craque das pernas tortas (que jamais foi seu amigo) fosse sua obrigação. Sempre existiu uma enorme patrulha sobre quaisquer atos de Pelé, como se o fato de ser negro e famoso lhe conferisse uma dívida com os brancos que permitiram a sua notoriedade.

Quando Pelé dedicou o milésimo gol às crianças, naquele jogo emblemático no Maracanã contra o Vasco, foi porque não passava de um ingênuo que estava fazendo demagogia. Quando levou o nome do Brasil para todo o mundo, sendo eleito o maior atleta do século XX e patrimônio da humanidade, o fez apenas por dinheiro. Se foi o maior jogador do mundo é apenas porque “naquele tempo era mais fácil”, mesmo que as agruras do futebol violento a que foi submetido nos anos 60-70 fossem inimagináveis quando comparamos com o que é praticado nos dias de hoje.

Em verdade os ataques a Pelé muito se assemelham às agressões sofridas por Lula desde que este se destacou como líder no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. Quando Lula ressaltou a importância de dona Marisa na criação do PT em seu velório foi atacado por estar fazendo comício sobre um corpo já sem vida. Se Lula vai a um restaurante caro é um “comunista gourmet”, mas se faz um piquenique com dona Marisa e carrega um cooler de isopor na cabeça é porque não passa de um populista criando um personagem. Quando Lula visitou um apartamento, sem jamais ter a posse do mesmo, foi caçado impiedosamente por uma horda de promotores fanáticos e um juiz corrupto.

A verdade é que, inobstante o que façam, Pelé e Lula jamais serão aceitos pela burguesia deste país exatamente por serem quem são: representantes das camadas populares, do povo pobre, dos descamisados, dos negros, dos operários, dos mulatos, nordestinos e retirantes. Ídolos dos torcedores cuja alegria máxima é o gol e heróis para os pobres que sonham com uma vida digna para sua família. Não há perdão para os ídolos que, emergindo das camadas inferiores da sociedade, tornam-se ícones planetários por suas habilidades, seja no esporte ou na política.

Não terei pena daqueles que resolverem tripudiar sobre o corpo frágil do Rei do Futebol, o atleta máximo do século XX, o maior gênio que o esporte já criou neste planeta. Eu me impressiono muito com o esforço imenso que algumas pessoas fazem para odiar Pelé. Pois eu digo: odeiem o Chico Buarque também. Apesar de ser branco, se procurarem bem vão achar alguma razão para ele ser cancelado. Vamos, sei que imaginação não lhes falta.

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Heróis e Vilões

O futebol é pródigo em criar vilões e heróis, em especial na copa do mundo onde as emoções e projeções que lançamos em direção aos ídolos se misturam com sentimentos de nacionalismo e fervor patriótico. Isto é natural. O que me parece necessário é que estas paixões guardem alguma relação com a realidade, e não sejamos presa fácil das fantasias de “capa e espada”, criando mocinhos e bandidos, onde o Mau é vil e perverso, e o Bem é simples, humilde e puro, sem matizes e sem contradições.

Na busca de construir o vilão perfeito obscurecemos suas qualidades e priorizamos seus defeitos e falhas, enquanto exaltamos apenas as virtudes do herói, para produzirmos a imagem mais perfeita e acabada dos nossos ídolos. Por isso mostramos a imagem da esquerda, e suprimimos a foto da direita. Afinal, o Neymar companheiro, solidário e que compartilha a alegria com seus parceiros não cabe nessa narrativa.

O problema é que estas imagens são construções midiáticas que nem sempre se adaptam à vida real. Servem tão somente ao nosso desejo de criar projeções e espantalhos, mas com isso inevitavelmente produzimos injustiças. Existe muita maldade no bem, e muita bondade no mal aparente. Ou, como diria Caetano, “O mau é bom e o bem cruel“. Acreditar que aquele é um anjo de braços abertos enquanto este é um demônio frio e insensível é falso. A vida é um pouco mais complexa do que as novelas mexicanas nos fazem crer. Não se deixar capturar pela armadilha da imagética é uma forma de se proteger dos maus julgamentos.

Vou explicar da seguinte maneira: se o Brasil HOJE fosse invadido pela Argentina do “esquerdista” Fernandes, ou pelos Estados Unidos do Biden, eu estaria ao lado de Bolsonaro defendendo o ESTADO brasileiro, mesmo sendo crítico ao seu governo. É uma hierarquia de valores. Não gosto do Neymar, mas ele está com a camiseta do Brasil, e não vou torcer contra os interesses do meu país.

A discussão é entre “autor e obra”, mas também entre “governo e Estado”. O único problema é que esse tipo de lógica só é usada para alguns, e não para todos. Se vocês cancelassem TODOS que tem este tipo de falha moral a sociedade ocidental teria que eliminar todos os livros do racista Fernando Pessoa, ou de Simone de Beauvoir por seu comportamento e algumas teses que sustentou. E a lista seria imensa; em verdade duvido que sobre alguém. Mas as pessoas escolhem alguns alvos enquanto passam pano para outros. É uma “lei de cancelamentos” que ora é aplicada, ora desconsiderada. A postura política de Neymar agora nos serve como falha moral, mas no passado já foi seu comportamento sexual. A verdade é que Neymar gera esse tipo de sentimento e a gente fica escolhendo coisas que se encaixem no “index cancelatorium” para poder atacá-lo.

Aliás, a propósito da Argentina, eu tenho uma dúvida. A sociedade Argentina também é dividida entre posições à direita e à esquerda. Seu maior ídolo no futebol, quase uma divindade do ludopédio, foi Diego Armando Maradona. Pergunto: será que a direita Argentina cancelou e torceu contra sua seleção quando ele tatuou a imagem de Che Guevara, um comunista e guerrilheiro argentino, em seu braço? Ou os hermanos conservadores perceberam que, apesar das diferenças políticas, ele continuava a ser o maior representante da história e da glória da sua seleção?

Só curiosidade mesmo….

A culpa, como sempre, é da Globo. Não fossem por suas novelas e hoje não estaríamos tratando a seleção e seus jogadores como personagem de um folhetim de Gilberto Braga. Richarlison é o formoso galã, o rapaz que exala virtudes e humildade por onde passa. Neymar é nossa Odete Roitman, o vilão para quem Vale Tudo, cuja queda será o gozo mórbido para uma parte da nação.

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Festa dos Identitários

Então vejamos… “Se não quer que passem a mão em você não saia de casa com vestido curto”. A tática é a mesma: transformar a vítima em algoz. Neymar sai com o tornozelo destruído, parecendo uma abóbora, mas a culpa é dele por “pegar a bola”. Sério que a perseguição ao Neymar vai chegar nesse nível? Não acredito que por posições políticas discordantes vamos fazer coro a este tipo de estultice. Não se trata de “sofrer falta”. Pelé foi caçado em 62 e 66, Neymar em 2014, o que nos fez perder a Copa. Agora foi atacado violentamente de novo. Será que isso é “mimimi“?

Tenha em mente apenas que o meu exemplo compara a lógica utilizada, não os fatos. Por isso é uma ana-logia. Faltas no futebol são diferentes de abusos contra mulheres, mas a lógica para justificá-los pode ser a mesma. Usar a ideia de que levar faltas graves e violentas é o “ônus natural de quem carrega a bola” é o mesmo que dizer que ser apalpada é o ônus natural de ser bonita e/ou provocante. Não há nada natural nestas violências e tanto as mulheres quanto os jogadores não podem ser considerados culpados pela condução da bola ou por suas formas exuberantes. A explicação do jogador rival de Neymar não convence, apenas explica a brutalidade. Da mesma forma, a explicação do abusador não me faz mudar de ideia.

Não existe nada mais direitista do que expressar ódio a um jogador da seleção durante uma copa do mundo. Eu, que não gostava muito do cara, estou virando fã. Essa exigência com o Neymar curiosamente não se aplica a outros membros da seleção, quase todos bolsonaristas, nem com outras figuras públicas. Esse tipo de perseguição sempre obedece as linhas mestras do imperialismo: destruam seus ídolos, encontrem falhas neles que possam eclipsar seus feitos e suas vitórias.

O mesmo foi feito com Lula, que de herói passou a ser tratado como “ladrão”, depois de uma intensa campanha midiática de iconoclastia. A mesma estratégia de atacar Lula por elementos alheios à política – sua vida privada – agora é usada contra outro herói, outro negro que, assim como Pelé teve sua imagem vilipendiada por fatos bem distantes do futebol. Torcer contra Neymar é fazer o jogo do Império, e nessa armadilha eu não caio.

Não dou ouvidos a fofocas de jogador. São garotos e, como eu, diziam muita bobagem antes dos 30 anos. Não o convocamos para ser professor de ética,mas para representar o futebol brasileiro. Eu não chamaria esse cara pra tomar um chimarrão na minha casa, mas apenas para representar meu país numa Copa do mundo.

E mais…. os ataques de Neymar são muito menos frequentes do que os ataques que sofre desde os 16 anos. Ele é muito mais vítima do que agressor. Vocês odeiam o Neymar porque ele é exibido e egocêntrico? Consegue imaginar que alguém que, aos 14 anos era considerado um super craque e que antes dos 30 é bilionário, não fique assim? Qual o problema disso? O que isso nos ofende? Os colegas adoram ele e não se importam com isso!!!! Por que a gente fica dodói com essas histórias???? Os jogadores estão fechados com seu amigo, e a torcida contra não ajudará a manter a União do grupo.

Força Neymar, cala boca Casagrande!!!!

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Neimá

É importante não cair na sedução de misturar os dois temas: a pessoa e o jogador Neymar. Existe, sem dúvida, uma espécie de boicote a Neymar protagonizado pela imprensa (em especial o Casagrande), que insiste nas críticas ao comportamento do jogador, menospreza suas conquistas e ressalta de forma insistente os fracassos nas Copas. Essa rejeição também ocorre por uma parte grande da torcida, em especial a esquerda identitária e festeira, que mistura a figura pública com sua performance futebolística. No caso de Neymar, assim como na vida de muitos heróis e ídolos de muitos aspectos da cultura, há uma mistura entre “autor e obra”, mas sabemos o quanto existe de esforço para denegrir a obra de alguns autores quando sua mensagem interessa à burguesia, ao mesmo tempo que “passamos pano” e esquecemos falhas graves de muitas personalidades quando sua exaltação vai no mesmo sentido dos interesses da classe que está no poder. Sabemos do interesse do imperialismo em destruir ídolos e líderes nacionais, exatamente porque eles funcionam como canalizadores de desejos populares, que via de regra não coincidem com aqueles da burguesia. .

Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de “desprezo moralista”, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta perseguição.

Porém, mesmo sabendo que existe interesse de alguns em atacar aspectos da personalidade Neymar Júnior, ainda acho que é apressado tratá-lo como o melhor jogador de futebol do mundo, acima de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandowski, Benzema, etc. Acho um exagero, uma “pachecada”, e não o vejo nessa posição. Ele é top 10, por certo, mas não me parece ter atingido o posto de melhor do mundo. Todavia, como dito acima, pode se tornar caso destrua nessa Copa. Messi, ao que tudo indica (escrevo essas palavras logo após a desastrosa estreia da Argentina para a Arábia Saudita), vai fracassar de novo.

Torço por Neymar e pela seleção, e não vou me deixar seduzir pela campanha de desprezo que alguns fazem contra nosso produto mais famoso e valioso.

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Ludopédio

O futebol, além dos seus elementos estéticos e anticapitalistas (como disse Túlio Ceci Villaça), mais um fator importante, que eu poderia chamar de decisivo para que seja considerado o rei dos esportes: seu caráter democrático, que inexiste no basquete, no vôlei e até no tênis: você pode ser um gênio da bola e ter apenas 1.70m de altura, como Pelé, Maradona, Messi e Romário. Também dois pares de Havaianas já fazem um campo, ou mesmo se pode armar uma cancha em lugares improváveis, como o famoso jogo improvisado entre alemães e ingleses na trégua das batalhas da 2a Guerra Mundial. Por certo que isso seria muito pouco provável nos outros esportes, com suas redes e cestas nas alturas.

Em todos os outros esportes com bola a qualidade superior dos poucos atletas em quadra fará o resultado na maioria das vezes. As zebras são muito mais raras. Já no futebol o medíocre por vezes ganha do excelente e, exatamente por isso, faz história. O “maracanaço“, nosso mais amargo insucesso, foi a derrota para um time tecnicamente inferior, mas com uma garra e determinação invejáveis, elementos “mágicos” do futebol. Nossa derrota ofereceu ao Uruguai o mito fundador de uma escola inacreditável de craques, impossível de imaginar para um país que não é maior do que alguns poucos bairros da cidade de São Paulo.

E paro por aqui para não falar da “Batalha dos Aflitos”, o acontecimento mais épico da história do futebol. Só este esporte é capaz de tamanha magia…

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Ludopédio e Saudosismo

“Contando com jogadores como Gabigol, Arrascaeta e David Luiz no elenco, o Flamengo divulgou balanço em 2021 que aponta que a folha salarial foi de R$ 199,1 milhões por ano, algo em torno de R$ 16,6 milhões por mês. Ou seja, sozinho, Neymar recebe por ano cerca de R$ 17 milhões a mais que todo o elenco flamenguista” (UOL, Julho de 2022)

A existência desse tipo de aberração, onde um único jogador ganha na Europa muito mais que todo o time mais caro da América Latina não é um problema do futebol, mas uma decorrência natural da sociedade bizarra construída pelo capitalismo. Não é o futebol, somos nós. Essa situação era mais do que previsível, na medida que o capitalismo fecha as portas para a realização pessoal do cidadão comum, restando a ele apenas a projeção. “Eu não tenho valor, mas meu time é campeão”.

Reza a lenda que pesquisadores adentraram na África bravia em meados do século passado e encontraram uma tribo nativa muito primitiva. Passaram a trocar experiências e presentes com o uso de um intérprete da região. Num dado momento um pesquisador ligou o rádio de ondas curtas e os aborígenes escutaram pela primeira vez a música captada de uma estação distante através das ondas de rádio. Perguntado sobre o que achava daquela “máquina de música” o chefe da tribo respondeu:

“Que vida triste a de vocês que precisam usar caixas cantantes ao invés de cantarem vocês mesmos”.

Nós não nos divertimos mais jogando futebol com a garotada (ou a velharada) do bairro como fazíamos antigamente, improvisando meias de mulher enroladas como bola. Não há mais “campinhos”, várzeas, terrenos baldios onde se possa jogar nosso sagrado ludopédio. Terceirizamos a emoção do gol para os ídolos, figuras geralmente desprovidas de qualquer qualidade além do talento futebolístico, alçados, entretanto, à condição de “gênios” ou “semideuses”. Triste sociedade que paga fortunas para que os escolhidos gozem por nós.

Quando eu era garoto os jogadores eram seres humanos. Frequentavam lugares comuns, como padarias, mercados ou cinemas. No edifício na esquina da Getúlio Vargas com a Botafogo (Menino Deus, bairro que Caetano cantou) moravam Carpegiani e Tovar – campeões nacionais pelo Inter – e o Opalão verde do Carpegiani dormia na rua; a gente passava por ele quando ia pra escola, o Infante Dom Henrique. Falcão (do Inter) dava carona escondido para o Iúra (do Grêmio) até o Estádio Olímpico; eram amigos pessoais, mais ferrenhos rivais em campo.

Uma vez eu encontrei no ônibus – o famoso T2 – altas horas da noite um zagueiro titular do Internacional conversando com um amigo. Nos Grenais a distância entre as torcidas era de 3 metros, separados por duas linhas de “brigadianos” e metade da arquibancada era oferecida para o adversário. Todos saiam juntos do estádio, e as brigas eram raras.

Mas, repito, é errado pensar que foi o futebol que mudou; o futebol nada mais é do que o espelho da sociedade onde está inserido. Foi a sociedade, o capitalismo e sua influência nefasta que transformaram esse esporte num negócio de milhões. O futebol, enquanto veículo da angústia social, transformou-se a partir das mudanças sociais, que nos fazem jogar a fragilidade de nossas vidas nas mãos (e principalmente nos pés) de nossos ídolos.

“Rollerball”, filme de 1975 com o falecido James Caan, fala dessa realidade distópica, numa sociedade futurista onde os jogadores são gladiadores modernos que morrem em nome do circo midiático. Todavia, é preciso reconhecer que não existirá nenhuma mudança no futebol sem que haja uma transformação profunda na sociedade. Até lá veremos jogadores medíocres e suas fortunas, gastando seu dinheiro em baladas milionárias, cercados de garotas de capa de revista, usufruindo dos milhões que são pagos pela nossa neurose.

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O Pote Cheio

O futebol não ocorre num vácuo social e não pode ser isolado do circuito simbólico onde está inserido. A violência nos estádios é a encenação desta cultura, assim como as lutas de gladiadores eram para a sociedade romana. Como válvula de escape das frustrações, ele será um dos primeiros sinalizadores de situações limítrofes. O futebol é depositário e disseminador dos valores culturais, mas também da nossa neurose social.

Os surtos de violência de torcedores que agora ocorrem em vários pontos do país são reflexos de uma conjuntura social que está doente. Entender estas manifestações como “fatos isolados” é ignorar o grande contexto e perder de vista que, o que vemos agora, é tão somente a manifestação local de uma enfermidade sistêmica que se abate sobre toda a sociedade.

Claro, a imprensa agora bate na tecla da necessidade de “punição exemplar” aos criminosos, sem perceber que, sem tratar a doença de base, este fenômeno tende a se repetir. Os que hoje agridem e apedrejam são aqueles sujeitos que depositam no futebol as suas frustrações e martírios, transformando o time adversário nos representantes de suas mazelas pessoais cotidianas. As manifestações violentas que agora vem à tona nada mais são do que o espelho de uma sociedade no seu limite, a água que transborda pela última gota que cai sobre um pote cheio.

Não é o futebol que se enfermou, somos todos nós…

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Renato

Eu falei há muito tempo que um possível fracasso de Renato no Flamengo seria completamente diferente das dificuldades que teve aqui no sul. No tricolor gaúcho ele é o ídolo supremo, a memória viva da sua maior glória – o mundial de 1983 – e alguém que tem até uma estátua a ornamentar sua arena. No Flamengo ele não tem esse lastro. Cantei a pedra de que Renato seria no Flamengo um técnico comum, sem o crédito que os mitos locais carregam.

Mas também acho que se deposita nos técnicos bem mais do que eles representam. No futebol existem tática, mecânica de jogo e estratégia, sem dúvida. Há técnicos que dominam como poucos esses aspectos do jogo. Outros, por seu turno, mobilizam o grupo pela emoção, o que também é uma arte complexa. Entretanto, há sempre um quinhão de aleatoriedade inerente à esse esporte. Alguns técnicos perdem por isso, enquanto outros se tornam vitoriosos.

Não vi o jogo – porque não assisto partidas em que torço para os dois perderem – mas vi o compacto. O Flamengo perdeu um gol dentro da pequena área nos instantes finais da partida. Caso Michael tivesse acertado, Renato seria hoje um mito, carregado pela multidão de flamenguistas, desculpado de todas suas falhas? Creio que sim…

Ontem foi comemorado o aniversário de 16 anos da Batalha dos Aflitos*. Nesse jogo emblemático, quando faltavam 10 minutos para o fim da partida, o goleiro do Grêmio – Galattooo – pegou um pênalti. Com 7 jogadores na linha o Grêmio faz o seu gol na continuidade do lance, míseros 71 segundos após a defesa de seu goleiro. Um MILAGRE que nunca mais vai se repetir na história das finais de campeonato profissionais de futebol. Em 71 segundos ganhou do Náutico e voltou à série A.

Todavia, naquele jogo (e em outros) o técnico do Grêmio, Mano Menezes, cometeu vários erros incompreensíveis. Entre ele deixar Anderson, o melhor jogador do time, no banco, o mesmo que salvou o time no final, e esses erros foram narrados ao vivo pelos jornalistas. Porém, graças ao seu goleiro, o Grêmio tornou-se campeão e levou esse técnico à glória, chegando à seleção brasileira alguns anos depois.

Até hoje me pergunto: se Galatto não pegasse o pênalti e o Grêmio se mantivesse na segunda divisão, o que seria da carreira desse técnico, cujos erros foram todos esquecidos pela euforia da conquista? Nesse caso a Deusa Álea – a divindade dos fatos aleatórios – sorriu para o técnico. No caso de Renato, prejudicado por uma falha grotesca de seu jogador na prorrogação, ela não foi de nenhuma ajuda.

Tirar os fatores aleatórios do futebol seria mais justo, mas como cobrar racionalidade a um esporte que só existe em função da paixão amaurótica e irracional?

* A Batalha dos Aflitos foi um jogo que ocorreu no quadrangular final da série B no ano de 2005. Além da vitória o Grêmio foi garfeado escandalosamente nesse jogo. Houve dois pênaltis inexistentes marcados contra si, mas apesar dos erros de arbitragem alcançou uma glória que nenhum time do Brasil possui. O jogo foi no final de 2005. Desafio qualquer um a me dizer sem pesquisar quem foi o campeão mundial daquele ano; quem foi o vice campeão brasileiro da série A e quem foi o campeão da Libertadores. Nenhum deles lembramos sem pesquisar, mas quando alguém recorda dessa batalha épica imediatamente tem arrepios.

Todos os torcedores do Brasil sabem o que foi a Batalha dos Aflitos, um jogo em que 7 jogadores ganharam de 10 adversários no estádio do inimigo, contra o juiz, contra a tinta tóxica no vestiário, contra a torcida local fazendo barulho na frente do hotel e contra uma arbitragem acovardada e frágil. Um jogo para sacramentar a imortalidade de um clube.

E não adianta chorar.
Veja mais sobre esse jogo aqui.

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Futebol e apostas

O jornalismo de opinião do futebol está totalmente cooptado por empresas que controlam sites de apostas situadas fora do Brasil – portanto imunes à legislação nacional que as proíbe. Curiosamente, essa imoralidade (ao meu ver) é tratada pelos jornalistas como “diversão”, “brincadeira”, “entretenimento para a família” e mesmo como uma forma de investimento, para ganhar um “dinheiro extra”.

Pois eu creio que a cooptação do jornalismo para este tipo de jogatina produz uma mistura profundamente perigosa para o próprio futebol. Aqueles que acreditam que jogos de azar podem ajudar o esporte esquecem os escândalos na Itália e no Brasil onde a pressão de investidores compravam resultados improváveis, e fizeram gente esperta ganhar muito dinheiro por algum tempo.

Vejam aqui mais sobre o escândalo das apostas na Itália aqui:

Jornalistas já estão TODOS amarrados. Nenhum deles, a partir de agora, poderá criticar essas empresas de apostas e a mistura que fazem entre enormes quantias de dinheiro e os resultados das partidas. Estão todos na folha de pagamento, impedidos de criticar a invasão dessas instituições no cenário do futebol brasileiro. E já são dezenas de empresas, que compram não apenas os jornalistas, mas espaços no YouTube e Facebook.

O jornalismo corporativo – financiado pelas empresas e grandes corporações – é um modelo falido. Bastam poucos tostões para comprar a opinião de jornalistas para que algo deletério e moralmente questionável vire “diversão para a família”.

Mas…quem se importa, né?

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Garoto Neymar

Para além de ser um futebolista, o garoto Neymar é mais um ídolo negro desprezado pelas elites. Essa é a razão da disputa de narrativas que envolve há muito tempo a figura desse jogador e a controversa defesa que o PCO faz de sua representatividade no imaginário nacional.

Basta uma pesquisa simples para vermos que ninguém jamais se perguntou se Zico, Piquet, Fittipaldi ou Airton Senna sonegavam impostos, se tinham amantes, e muito menos a qualidade do seu caráter. Senna já morreu, mas os outros três são, a propósito, bolsonaristas. Mas é claro que não se pergunta isso para ídolos brancos. Por outro lado, Neymar não pode ter esse tipo de falha.

Eu pessoalmente acho o Neymar um chato; um bebê imaturo. Um Michael Jackson da bola, gênio desde os 11 anos, infantilizado e mimado. Ser tratado como Rei – ou Rainha – desde a mais tenra infância costuma destruir personalidades brancas de Hollywood, mas Neymar não tem esse direito, por ser negro. Ainda por cima é cercado de gente do pior tipo, como o seu pai trambiqueiro e sonegador. Mas só ele é julgado por ser assim, e essa é uma clara face do racismo e do ataque sistemático ao futebol brasileiro.

A chantagem que recebeu naquele caso de falso abuso sexual há alguns anos mostra que, ao colocar-se automaticamente ao lado da suposta vítima, estimulando um linchamento público, e antes que as evidências (ou a falta delas) viessem à tona, a imprensa fazia coro às tentativas de destruir um ídolo que ousa ser negro em uma sociedade fortemente racista.

Desta forma o PCO tem razão ao criticar quem tenta destruir a imagem do Neymar e do próprio futebol, tratando-os como fenômenos menores. Assim como fizemos com Pelé e as críticas à sua paternidade, Neymar é outro ídolo negro que precisa ser destruído – assim como o futebol brasileiro, um dos poucos fatores de integração do negro em nossa sociedade.

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