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A obrigação moral de resistir

Não fiquem bravos comigo: a libertação da Palestina é o grande clamor civilizatório da nossa época. Não há como me calar diante da necessidade de apoiar a grande luta libertária do século XXI.

Não me perguntem se eu aceito os ataques do Hamas às bases militares sionistas situadas ao lado de Gaza. Sim…. eu aceito as bombas, os foguetes, os ataques e as emboscadas, sim. Por mais que sejam inaceitáveis e injustificáveis a violência e a brutalidade, há que aceitar a motivação de tais ações heroicas. Entendo perfeitamente que aos palestinos, depois de sete décadas de massacres e humilhações, só restava a possibilidade do ataque militar aos fascistas de Israel. Acreditar que depois de 75 anos de massacres haveria consideração e interesse de debater a questão palestina por parte dos invasores é uma ingenuidade que os palestinos não se permitirão nunca mais.

Ou por acaso a liberdade dos povos se consegue com abaixo-assinados? Por acaso o fim da monarquia na França e a ascensão da burguesia ao poder na Revolução Francesa se deu por uma petição no Avaz? Os americanos venceram os ingleses e conquistaram sua independência através do diálogo? A liberdade da Argélia do jugo horrendo da França se deu numa mesa de bar? E o que houve com todas as colônias em África que se libertaram do colonialismo? Por acaso sua liberdade ocorreu numa sala acarpetada na ONU?

Seria justo pedir moderação a quem sofre a barbárie racista e colonial há décadas? A estratégia do consenso e da diplomacia funcionaria agora, depois de jamais ter produzido resultados? O que houve com Camp David? Qual o resultado dos acordos de Oslo? E por que exigimos diálogo por parte dos Palestinos, mas jamais exigimos isso dos brancos europeus invasores sionistas? Por que os passos para a paz são exigidos apenas de quem é oprimido, mas não da parte opressora? Porque nós (as vitimas do imperialismo) somos pressionados a dialogar, esperar, aceitar, suportar e nos resignarmos, enquanto aos invasores é oferecido tudo: aviões, armas, foguetes, canhões, tanques, o controle da narrativa e ainda por cima uma máquina gigantesca e mortífera de propaganda?

Se a guerra é necessária que seja aceita, lutada e vencida. Chega de abuso, chega de racismo e apartheid. Chega de opressão e morte. Os povos de todo o planeta exigem: Palestina livre!!!

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Bibi

Creio que as críticas à Netanyahu como primeiro ministro de Israel seguem há décadas o mesmo roteiro repetitivo, para posteriormente serem disseminadas através do sionismo de esquerda que se espalhou pelo mundo. A ideia de construir uma disputa fulanizada onde, de um lado está um líder corrupto e assassino e do outro uma organização terrorista, sempre é usada para nos impedir de ver a realidade do colonialismo na Palestina e seu sistema de opressão. No caso de Benjamin Netanyahu ele é sempre a desculpa perfeita para os sionistas diante da barbárie cotidiana contra a população de Gaza e da Cisjordânia, mas está na hora de olharmos este personagem de uma maneira mais realista para entender as verdadeiras origens de sua ascensão ao poder.

Em primeiro lugar, é possível que Netanyahu seja o mais moderado entre os chacais fascistas que o acompanham no Knesset. Basta escutar e ler as declarações de alguns ministros e membros do Likud para ver o nível de barbárie racista e genocida que são capazes de expressar. Portanto, dizer que o problema de Israel é o seu líder inconsequente e a extrema direita que tomou conta do país há muitos anos, e afirmar que a queda de Netanyahu seria mandatória, é no mínimo uma proposta ingênua. Imaginar que um outro primeiro ministro teria uma atitude mais humana, condescendente e que objetivasse a paz com a Palestina não encontra respaldo algum na história recente. Nunca houve um representante de Israel que aceitasse a paz com os palestinos, seja através da constituição de uma nação plurinacional seja através da combalida proposta dos “dois Estados”. Os acordos de Camp David (1978) e Oslo (1993) demonstram de forma inequívoca que nunca houve real interesse em Israel para negociar. Assim sendo, a simples retirada de Netanyahu do poder não deveria nos oferecer qualquer esperança de mudança. Talvez até o pior viesse a acontecer: seu substituto poderia apoiar a “solução final”, que está na boca de muitos israelenses desde há muitos anos.

O que é preciso entender sobre o Estado Sionista de Israel é de que essa “rogue nation” está assentada sobre a criação de um “Estado Judeu“. Ou seja, foram muito mais adiante do que até a própria África do Sul se aventurou a fazer, criando um país artificial para uma única etnia. Seria como se o Brasil criasse um país cristão onde todas as outras religiões não teriam acesso à plena cidadania; ou se nosso país se tornasse a nação para apenas uma cor de pele, a qual teria direito exclusivo à moradia ou a postos no governo. Todavia, ao contrário do que a farsa da esquerda sionista tenta nos convencer, esta não é uma proposta do governo de extrema direita que governa o país, mas um projeto de Estado, um modelo excludente e racista que vai se manter inobstante o governo que estiver à frente dos cidadãos israelenses. O sionismo que apregoa a exclusão dos habitantes da Palestina e que nega a própria existência do povo palestino, é a espinha dorsal da sociedade de Israel, e nenhum governante chegaria ao topo da escala de poder sem respeitar suas premissas. Como dizem muitas autoridades israelenses, para o cidadão Palestino só restariam 3 opções: 1- emigrar, 2- submeter-se aos israelenses como serviçais e 3- morrer.

Gritar “Fora Netanyahu” é um ato diversionista, incapaz de produzir qualquer solução em médio prazo. Esta não passa de uma tentativa desesperada de maquiar a estrutura apodrecida de Israel, ao conectar os dramas atuais à contingência política, como se o governo de Netanyahu fosse diferente dos demais. Na perspectiva dos palestinos todos os governos sionistas são idênticos. É preciso entender, de uma vez por todas, que esse primeiro ministro é tão somente a consequência de uma estrutura colonial e opressora sobre a região, e não sua causa. Afastá-lo do poder sem entender as forças que o conduziram para lá apenas retira o tirano da ocasião, sem estabelecer um novo paradigma. Tanto quanto Bolsonaro, Trump ou Milei, estes sujeitos são construções sociais que obedecem à demanda de um sociedade que os comanda, e é esse povo que precisa ser transformado – ou vencido.

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