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Opressões

Por mais estranho que pareça, diante da imagem idealizada que deles fazemos, os médicos têm o DIREITO de se negar a fazer algo que implica em dano ao seu paciente, por razões éticas. Não há como um paciente fazer este nível de imposição a um profissional que tem o dever profissional de não causar dano. Como já dito, o protagonismo feminino não pode transformar os profissionais em escravos do desejo materno.

Pacientes oprimem médicos também. As taxas de mortalidade de médicos recentemente divulgadas mostram que a condição de médico é uma doença insidiosa que leva à morte prematura. Médicos tem uma vida muito mais curta do que os pacientes que eles atendem. Médicas tem taxas de tumores maiores do que a população em geral, com uma expectativa de vida de 57 anos nessa pesquisa.

A opressão dos pacientes sobre os médicos se expressa de uma forma mais sutil e subliminar, mas não menos danosa e dolorosa. A execração pública e os ataques à honra são os mais comuns. As fofocas, a maledicência e a destruição de reputações por erros presumidos ou simplesmente por não se adaptarem à imagem construída se tornaram banais no universo das redes sociais. Basta a palavra de uma paciente insatisfeita e a credibilidade do profissional se despedaça.

Dr Fulano não é humanizado coisa nenhuma, ele operou uma amiga minha“, ou “Ele não passa de um mercenário” ou então “Cobra uma fortuna porque só pensa em dinheiro“, são as acusações mais corriqueiras. Isso destrói a paixão de qualquer pessoa normal. Muitos dizem “Quer saber? Passei 20h de TP ao lado dessa paciente, e outros tantos dias angustiado com o caso dela sempre na minha cabeça para agora ser acusado de ter feito uma cesariana quando joguei a toalha diante de tantos problemas que surgiram. Eu podia ter feito como todos: contado uma mentira, feito a cesariana há 1 semana, e ninguém me acusaria. Só tolos se imolam publicamente em nome dos seus ideais. Ou kamikazes“.

Sim, os médicos também se sentem oprimidos, em especial os que enfrentam o sistema e sentem na pele o ostracismo e a violência de seus pares.

Criar modelos estanques e simplórios de “oprimidos e opressores” é um excelente método para esconder a verdade. Esta é sempre muito mais complexa e contraditória do que as novelas mexicanas onde o Bem e o Mal se confrontam estereotipados e sem matizes. No mundo real o oprimido também desvela o gozo com sua condição – o vitimismo – e dele tira vantagens, enquanto o opressor sofre na carne o peso de sua posição, pela culpa e pela responsabilidade que lhe recai.

O mundo é menos simples do que parece a realidade é mais complexa e paradoxal do que desejamos.

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Sobre os Poderes

Pessoas poderosas (imagine aqui qualquer uma, dos políticos aos artistas) sofrem pela terrível pressão do poder. Eu não sei exatamente como é isso – sou um mísero parteiro da província – mas posso ter uma ideia do que seja este peso pelas experiências reveladoras pelas quais passei. Uma delas foi importante, e a ela sou muito grato.

Quando eu servi como militar nos primórdios da década de 90, fiquei de início – como qualquer calouro – muito intrigado e impactado com o modelo hierárquico rígido existente na unidade médica em que eu trabalhava como obstetra. É importante destacar que as hierarquias são absolutamente necessárias em um modelo que prepara homens para o combate. Não fosse assim, existiria um exemplo de “exército democrático” na história da civilização, mas isso obviamente nunca ocorreu. A rigidez desses níveis de poder e responsabilidade são fundamentais para certas ações que ocorrem nos cenários de guerra. Entretanto, para mim era estranho, e até constrangedor, que um sargento que tinha idade para ser meu pai precisasse me chamar de “senhor” (por eu ser um oficial médico) e eu fosse obrigado a chama-lo de “tu”, mesmo sendo ele muito mais experiente e maduro do que eu. Apesar de entender a lógica por trás dessa determinação, o costume de mais de 30 anos com a vida fora da caserna produzia em mim esse “choque de valores”. Quando por fim me acostumei com esse modelo (muito à contragosto e de maneira forçada) eu prometi a mim mesmo que, exatamente por ser um oficial temporário, jamais usaria esse tipo de prerrogativa – a patente militar – como um argumento válido em uma disputa qualquer.

Entretanto, certo dia, lá estava eu discutindo com um sargento sobre as famigeradas “escalas vermelhas”, que eram as escalas de oficiais em fins de semana e feriados. Lá pelas tantas da conversa eu percebi que meu nome havia sido colocado em uma data muito inadequada. Não havia como estar de plantão, pois me faltava o “dom da ubiquidade”. Imediatamente expliquei ao sargento responsável que nesse dia específico eu estaria fazendo um curso (provavelmente minhas aulas de pós-graduação em homeopatia) e que eu poderia fazer este plantão em outra data, bastando para isso que trocassem meu nome pelo de um colega. O sargento me interrompeu dizendo que a escala já havia sido enviada para o “boletim” e que nada mais havia a fazer.

Virei uma fera. Expliquei que não poderia deixar de ir à aula por causa de uma burocracia e disse que chamasse o soldado de volta trazendo a escala e que, depois disso, trocasse a data que iria para o boletim. Ele respondeu que não faria isso, pois isso seria burlar uma regra existente sobre as escalas de plantão.

Nesse momento, irritado pela negativa peremptória da “praça”, eu disparei: “Ah, você vai fazer isso sim, …sargento“. A última palavra estava frisada propositadamente, destacada para mostrar que eu estava dando uma ordem baseada na minha hierarquia, e não na minha razão ou na correção do meu pedido. Era violência, pura arrogância. O poder explicitado; a determinação inquestionável.

Imediatamente eu me lembrei do compromisso que havia assumido alguns poucos anos antes. Meu olhar inexpressivo fixou-se na parede em frente e o filme da minha “promessa” passou diante dos meus olhos, tal qual o filme que Pedro assistiu depois de negar o Mestre por três vezes. Petrifiquei-me em silêncio e, envergonhado, nada falei. Vi o sargento buscar a folha de escalas e trocar as datas na minha frente. Nada disse, nada comentei. Silenciei diante da minha escandalosa prepotência.

Um pouco de mim eu conheci naquele dia, e a partir de então pude entender a pressão que existe pela prática do poder. Eu falhei vergonhosamente no meu teste, e tive plena certeza desse fato. Eu por muito tempo cultivara a ingênua ilusão de que, mesmo tendo a possibilidade de dar ordens inadequadas em função de uma posição artificialmente construída pela corporação, eu jamais usaria tal prerrogativa em benefício próprio. Engano. Falhei como falham muitos os que subestimam a força coercitiva de uma posição de destaque. Errei como tantos os que acusam os corruptos, os assassinos e os ladrões, como se estivessem infensos à sedução de usar o poder – todo ou em parte – que lhe foi concedido ou conquistado. Errei ao supor que minhas frágeis convicções poderiam suportar o peso das necessidades egoísticas emergentes.

Publius Terentius Afer (Terêncio) já dizia: “Eu sou um homem, e nada do que é humano me é estranho”, e com isso nos ensinava que a iniquidade, a falha, o egoísmo, a vaidade e o medo, que tão facilmente percebemos nos outros, habita igualmente em nós. Apenas depois dos testes que a vida nos oferece é que podemos acreditar em nossos valores. Sem a prova da realidade, ficamos apenas com as palavras vazias e as boas intenções. Mas A Virtude espera mais do que belas citações; elas nos chamam à pratica dessas posturas.

Nossos amigos que abusam do poder provavelmente acreditam estar fazendo o melhor que podem diante do peso que carregam. Mesmo parecendo lícito combater e criticar o suborno, a corrupção, a mentira e a falsidade, também é verdadeiro que tais ações, quando analisadas subjetivamente, não podem ser alcançadas pelo nosso juízo pessoal. Para criticá-las talvez seja mesmo necessário caminhar os tais mil quilômetros usando os mocassins de quem as praticou.

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