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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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Sobre as Medidas

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Sobre as últimas medidas do governo relativas ao parto…

Ninguém tem interesse em restringir o direito de escolha para as mulheres. Isso não está escrito em nenhuma normativa do Ministério da Saúde e não há como interpretar dessa forma quando se conhece o texto e a intenção das medidas. Pelo contrário, o que se pretende é oferecer alternativas VERDADEIRAS, e não as falsas opções que nos acostumamos a ler e ouvir. Vemos com frequência as mulheres sendo obrigadas a optar por aquilo que não desejam, mas que são condicionadas a escolher, seja por um medo induzido, por pressões diversas e por uma cultura que criminaliza o parto de forma tão vigorosa que muitas mulheres acabam rechaçando uma função vital e um processo fisiológico natural como o nascimento pela via vaginal. As medidas do governo pretendem estancar a hemorragia de indicações cirúrgicas esdrúxulas, maquiadas com desculpas que tristemente conhecemos: “a dor é terrível” (mas a cesariana é bem mais dolorosa e a dor permanece por mais tempo), “a cesariana é segura” (verdade, mas o parto normal é MUITO mais seguro, para mães e bebês), “o cordão enrolado sufoca” (outra lorota, pois 38% dos bebês nascem com circulares e muito bem), “bebês grandes“, “bacias pequenas” (avaliados pelo “olho” do cirurgião), “falta de passagem” (leia-se “falta de paciência“), “sofrimento fetal” (excesso de intervenção, abandono, oxitocina e decúbito forçado) e tantas outras “viagens” que conhecemos.

Quanto às mulheres que optam por cesarianas, eu ainda acho que em nome do protagonismo pleno vale a pena aceitar esta escolha. Porém é preciso garantir que estas mulheres estejam informadas das vantagens e desvantagens dessa opção, e de que essa escolha AMPLIA os RISCOS tanto para ela quanto para o seu bebê. Todavia, eu ainda questiono se o SUS deve pagar esta conta. Uma cirurgia de nariz meramente estética (sem indicação médica curativa), ou de mamas, barriga, implante de cabelo, etc… não é custeada pelo SUS (isto é, todos NÓS), pois não é um tratamento médico, mas estético. Uma cesariana sem indicação clínica (física ou psicológica) poderia cair na mesma definição. Acho, entretanto, que se trata de um ponto aberto para o debate, e não acho que se deva fechar questão sobre este aspecto das medidas.

Uma mulher que deseja ser operada para o nascimento do seu filho pode fazer esta opção, que é válida e deve ser respeitada, por mais que me desagrade pessoalmente (mas a minha opinião não vale NADA diante da opção legítima de uma mulher). Entretanto não consigo enxergar um exagero ou uma pressão pelo parto normal. Vejo algumas mulheres ofendidas com a ênfase que se dá à fisiologia do nascimento, e se sentindo mal por escolherem o oposto que os estudos mostram, mas estas mulheres certamente pertencem aos 30% que escolhem cesarianas desde o princípio, e sobre ela pouco temos para agir, até porque respeitamos suas escolhas. Todavia, estas medidas se dirigem principalmente às outras SETENTA POR CENTO  de gestantes que desejam partos NORMAIS e acabam fazendo cesarianas, que NÃO foram a sua escolha inicial quando se souberam grávidas. Para as mulheres que escolhem a via cirúrgica mesmo depois de confrontadas com os riscos aumentados para ela e para o seu bebê, só podemos respeitar esta decisão, e sem julgamentos. Infelizmente muitas mulheres ainda acham que expor estatísticas e estudos é ofender sua opção, quando na verdade é apenas a tentativa de oferecer escolhas verdadeiras e éticas.

A propósito, o número de mulheres que PEDEM cesarianas no início de uma gravidez é de 30% no setor privado, mas muito menor no setor público. Mesmo aqui no Brasil a imensa maioria das mulheres escolhe respeitar a fisiologia de um parto. As mulheres mais pobres percebem facilmente como uma cesariana é de recuperação mais difícil e lenta. Ela também prejudica o seu trabalho diário de cuidar da casa e dos filhos. Estas bravas mulheres também conhecem as vantagens infinitas de um parto fisiológico sobre uma cirurgia. Mas… sabem qual é o percentual de mulheres que fazem a mesma opção na Inglaterra? Menos de 2% escolhem uma cesariana quando iniciam o pré-natal. E por quê? Certamente é porque elas não temem os maus tratos e o abandono que muitas mulheres relacionam com o parto normal. A violência obstétrica lá é uma coisa muito distante, enquanto aqui é o dia-a-dia. Para mudar a mentalidade antiga de “parto-sofrimento-dor-angústia-trauma” é necessário que transformemos a CULTURA através de medidas proativas, na direção que está sendo oferecida pelo governo. Algumas medidas podem ser impopulares entre os profissionais, podem irritar as corporações e as instituições que nunca aceitaram ser questionadas, mas seguramente são um avanço pela democracia plena no acesso à saúde e na ampliação do espectro de escolhas que as mulheres podem ter.

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Cesariana “Humanizada”

O problema de expressões como “cesariana humanizada” ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais “humanizada”, pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não existe “apendicectomia humanizada”, “histerectomia humanizada”, ou qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo será sempre do médico, e jamais da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica, não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos, e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas.

O parto, pelo contrário, é ATIVO. É algo que a mulher FAZ, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa (bio-psico-social-emocional-espiritual) e a vinculação com a medicina baseada em evidências.

Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido quando está focado no bem estar das pessoas. Veja bem, até a biblioteca Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Acredito que as nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o individualismo – mesmo com sua tendência egocêntrica – é o único anteparo que temos à barbárie. Com a ideia SEMPRE PRESENTE de que CADA MULHER É DIFERENTE DA OUTRA fica impossível dizer “eu jamais faria isso“. No que concerne a um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por uma cesariana “sem andar 100 km calçando seus mocassins“, assim como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão BEM ESPECÍFICA E RARA, realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.

A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano, expresso no nascimento, as posturas “fechadas” como “eu sempre” ou “eu nunca” acabam se tornando slogans do passado, um pouco cafonas, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da  sabedoria que vem com o amadurecimento.

Mesmo que não compactuemos com a barbárie das cesarianas desmedidas, isso não pode significar abandonar as pessoas em função de suas escolhas. Podemos condenar as CESARIANAS sem indicação clínica, mas não as PESSOAS que por traumas, sofrimentos passados ou até desinformação fazem escolhas que nos parecem tolas e inadequadas. Nosso compromisso é em primeiro lugar com aqueles que precisam de nossa ajuda, e em segundo lugar com nossos ideais. Mas entenda que isso não significa abrir mão da radicalidade de nossas propostas, que se direcionam ao bem estar, a segurança, a liberdade e a autonomia de nossos pacientes. Nada disso; tal posicionamento reforça a ideia de que não nos cabe julgar as motivações recônditas que direcionam as escolhas que nossos pacientes fazem.

Quando defendemos o arrefecimento das posturas radicais, não o fazemos pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que as ideias de nada valem sem as pessoas.    

E só pode ser para elas, em sua característica única, a nossa atenção.

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