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Vento

Passam-se os anos e os ventos não mudam. O mesmo disco quebrado repete em monocórdio o réquiem de uma alma que se foi, condenada pelo desejo, mesmo quando o desejo não é seu. “Assassina, assassina”, vocifera a turba em êxtase ao ver o cortejo, e enquanto isso, como numa procissão macabra, a mulher desfila sua marcha fúnebre, calada, pálida, impedida de oferecer seu testemunho. “Fez-se a vontade de Deus”, diz a moça branca, enquanto do outro lado da rua, de dentro de um carro a voz rouca de um homem grita “Vadia!!”.

“Pobre anjo”, diz a senhora idosa, mas engana-se quem pensou na pobre falecida. Era para o embrião que se escondera no seu ventre o lamento da velha. Para ele as homenagens; para sua mãe o inferno.

Kathy McGuire-Daniels, “The Hell of Ourselves”, Ed. Printemps, pag 135

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Tristes solilóquios

“Muitos insistem em vociferar verdades nas mídias sociais, mesmo que elas não venham acompanhadas de uma prova sequer do que afirmam. São sujeitos carregados de certezas e ideias simples, repletas de embates do “bem contra o mal”. Acusam a todos, julgam e condenam sem piedade. São carrascos virtuais, prontos a colocar seus desafetos no pelotão de fuzilamento.

Porém, é fácil perceber que estas pessoas se comportam tal qual os fanáticos religiosos que gritam versículos bíblicos na praça. Seus discursos cheios de fervor não servem para que os outros se convertam; são ferramentas para que eles mesmos acreditem em suas palavras. Diante da incerteza do que afirmam insistem na veemência de suas convicções, mesmo quando tudo à sua volta lhes prova que estão no caminho errado. Não são discursos reais; são tristes solilóquios.

Seus gritos funcionam como uma proteção contra o medo de estarem errados. Com este discurso tentam bloquear a realidade, porém esta, mais cedo ou mais tarde, acaba mostrando sua face dura. Triste o momento em que percebem que suas convicções não eram mais do que seus desejos transformados em discurso. Mas não será esta a verdadeira iluminação?”

André Capuani Riggo, “Mídia e psicanálise”, Ed. Lambert, pág 135

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Monstros

“Ele não passa de um monstro”

A solução fácil para resolver o problema é considerar que os sujeitos que cometem estes crimes não são pessoas. “Sim, eles são monstros, não podem ser considerados como nós”. O fascismo é um produto numa prateleira de supermercado ao alcance de nossas mãos.

Aliás, a liberalidade como matamos durante toda a história os nativos das Américas (norte, sul e central), os judeus na Europa e os Palestinos sempre se faz com argumentos desumanizantes. Torná-los monstros não-humanos (como cães) nos desobriga de exercitar qualquer empatia. A partir desse artifício podem ser eliminados como uma ninhada de gatos inoportunos.

Ainda soa para mim com sentido a máxima de Terêncio. “Sou humano, e o que é humano não me é estranho”. Existe dentro de mim a fagulha das maiores genialidade e a das piores monstruosidades humanas. O que faz uma delas brilhar é, muitas vezes, algo completamente alheio à minha decisão. Colocar estas pessoas num estrato inferior ao nosso é um crime muito pior do que o que ele mesmo cometeu, pois aquele crime solitário prejudica um punhado de pessoas, enquanto desumanizar pode colocar milhões em risco, como a história nos mostrou reiteradas vezes.

A demonização dessas criaturas e a retirada de suas características humanas – sua história, seus motivos, suas angústias, seus medos e suas fragilidades – é a face mais horrenda deste fato. Eu esperava mais compaixão por todos e não apenas por aqueles cuja identificação é simples e automática. Entender o algoz e seu drama também faz parte do processo, mesmo reconhecendo que “entender” não significa “inocentar“.

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Julgamentos

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Os julgamentos feitos sobre mulheres que pedem auxílio farmacológico para o alívio de suas dores em nada ajudam esta mulher – ou  a humanização do parto – mas fazem parte do processo de amadurecimento de um movimento social. Tais críticas surgem da necessidade de estabelecer valores sólidos através da radicalização.  Abandonar, ou simplesmente questionar, tais pontos é tratado como um sinal de fraqueza. Só o tempo permite suavizar estas posturas e oferecer um melhor entendimento. Abandonar radicalismos é demonstração de fortalecimento de uma ideia. Os dogmas nada mais são do que muletas ideológicas.

O parto é uma construção subjetiva e que se inicia na primeira infância.  É ali que são firmados seus alicerces, numa época onde ainda não há o trânsito das palavras. Portanto, os medos, as tensões e as percepções dolorosas no processo de parir estarão subjugados a estas estruturas psíquicas muito precoces.

Quando eu imaginei qual seria a definição mais completa e sucinta para o nascente movimento de humanização eu desenhei na minha frente um triângulo em que nos vértices de baixo se encontravam a “visão interdisciplinar” e a “medicina baseada em evidências“. Estes são os elementos formais e técnicos desta filosofia. Entretanto no vértice de cima eu coloquei o “Protagonismo garantido à mulher” como o elemento estruturante e fundamental, sem o qual nenhum dos outros se sustenta. Garantir o comando à mulher é o vértice ÉTICO do movimento de humanização, o qual jamais podemos abrir mão, sob pena de desfigurar completamente o valor libertário essencial desta proposta.

Julgar quem solicita um recurso de alívio para o furacão físico e psíquico de um nascimento, seja pela analgesia ou mesmo por uma cesariana, é um ato que contraria toda a filosofia da humanização do nascimento, a qual preconiza que o parto é um evento único e subjetivo no qual somente quem sofre sua dor e seu gozo pode entendê-lo por completo.

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Judiciário

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“Enquanto o judiciário continuar com seus mitos e preconceitos contra o parto normal, agindo embasado na mitologia da transcendência tecnológica, acreditando na “cesariana salvadora”, aceitando qualquer intervenção como “natural” e necessária, e todo respeito à fisiologia como “risco”, será difícil seduzir os médicos a adotarem uma postura mais serena e embasada em evidências. Sem uma modernização do pensamento jurídico será muito mais lento qualquer progresso na atenção ao parto. Por isso mesmo os “Cursos de Violência Obstétrica” para a área jurídica são tão importantes.”

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