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A Verdade

Já era do conhecimento de todos que o bebê carregava uma doença genética grave, o que provavelmente o levaria ao óbito em algumas semanas. Apesar do preparo emocional que se empreendeu durante a gestação, o cenário era de desolação e pesar. Agora, pouco havia o que fazer além de oferecer aos pais a solidariedade e ao recém-nascido o conforto e o carinho que lhe era devido em sua curta travessia. O casal, consternado e abatido, tentava se apegar a qualquer esperança, qualquer sinal de que algo poderia subverter o diagnóstico cruel e inexorável.

A mãe, envolta na bruma de sua tristeza, me conta que, durante a visita ao berçário, e por detrás dos fios, tubos, esparadrapos e acrílicos que a separavam do filho, pode perceber no seu bebê um sutil e tímido sorriso, que foi despertado pelo toque de sua mão.

– Ele sorriu para mim, Ric. Ele sentiu a energia quando encostei minha mão na sua pele. Ele percebeu que eu estava conectada a ele. Eu não tenho nenhuma dúvida de que ele é um guerreiro, um bravo e que deseja muito estar aqui ao meu lado.

Seu marido a abraçou e ambos choraram.

À minha frente a pediatra não permitiu sequer que um suspiro desse fim àquelas lágrimas.

– Na verdade não é um sorriso. São contraturas reflexas da musculatura. Os recém nascidos não conseguem sorrir, algo que só se desenvolve bem mais tarde.

Fiquei em silêncio. A mãe me sorriu timidamente, mas seus olhos pediam para mim a cumplicidade que precisavam. Em seu olhar ela me dizia: “Eu estava lá e vi o sorriso. Senti na ponta dos dedos a energia que nos uniu. Não há como tirar de mim a fé, o pouco que me resta de esperança”.

Por instantes me mantive fixado no olhar severo da pediatra. É bem provável que ela estivesse certa e o sorriso do pequeno não fosse nada além de filetes de miosina deslizando uns sobre os outros no seu rostinho emagrecido. Um movimento automático, reflexo, em nada relacionado à sua vontade ou aos seus sentimentos primitivos. Uma travessura da deusa Álea, a divindade dos fatos aleatórios e fortuitos. Seria tão somente o acaso se manifestando.

Todavia, eu imediatamente questionei em pensamentos qual seria o sentido em oferecer a frieza congelante de uma verdade crua para a alma de uma mãe destroçada pela tristeza? Se existe algum valor na verdade, seria este superior à característica tão humana de manter a esperança de quem sofre? Seria lícito usar cegamente a verdade e fazer dela um instrumento de dor? Seria justo deixar a pretensa correção técnica de uma informação médica substituir o afeto e a empatia necessários em um momento de pesar?

Olhei para minha paciente e devolvi o sorriso que ela havia me lançado. Mesmo sem dizer nada queria transmitir a ela uma mensagem. Meu rosto lhe dizia que eu acreditava no sorriso que testemunhara, e que ele se formou na energia do encontro dessas almas. Que ela mantivesse a fé pois, se mais não fosse, o breve passeio do seu filho pelo mundo seria de profundos ensinamentos para todos nós. “Eu acredito em você”

A verdade precisa ter um caráter construtivo. Usá-la acreditando que possui valor em si é desprezar o impacto que pode ter nos sentimentos. Jogar suas sementes ao vento, sem cuidar do terreno onde irão cair, não produzirá frutos, e muitas vezes será apenas razão para mais dor.

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Travesseiro

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“Compassiva, ela sofria por tudo e por todos. Bastava ver uma tristeza alheia que logo a tomava para si. O mundo era uma fonte inesgotável de dissabores. Tanta pena tinha que à noite colocava sua cabeça sobre um travesseiro cheio delas”.

James Elwood McCormick, in “The bright shade of the Moon“, Ed Palmarinca, pag 135.

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Ódio

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Qual o sentido publicar textos de ódio pela Internet contra pessoas que cometeram crimes famosos? Qual o sentido de agredir pessoas que já foram presas a condenadas pelos seus erros e falhas?

 Qual o sentido de odiar uma pessoa que já está destruída? Qual o sentido em destroçar quem já foi despojado de tudo? Não percebem que isso – odiar alguém que cometeu um erro – as aproxima do criminoso? Somente o oposto disso – o perdão – é capaz de produzir esse saudável afastamento. Somente o perdão que surge de uma profunda autocrítica pode nos colocar ACIMA destas questões.

 Meu pai sempre dizia, quando recebia uma “fechada” no transito: “Não posso xingar esse sujeito, pois ainda está vívida em minha lembrança a ultima vez que, por desatenção ou descuido, fiz exatamente a mesma coisa“.

 Mas…claro que não vou pedir que perdoem quem fez tanto mal. Isso serve apenas para as pessoas que, como Terêncio, são capazes de dizer “o que é humano não me é estranho”. Para o resto eu peço tão somente que não disseminem ou distribuam seu ódio publicamente, até porque isso em nada atinge o pobre criminoso, mas mostra que seus algozes não são tão diferentes dele quanto pensam… O motivo foi a constante crucificação da mulher que mandou matar o enteado. Mas basta um olhar muito rápido para perceber que ela é um farrapo humano. Resta pouco nela que possamos ainda tripudiar. Mas … para quê? Qual a razão de carbonizar um corpo quase destituído de vida? O que se ganha ao jogar ainda mais para baixo essa mulher? Eu digo: nada.

 Entretanto, ao fazer isso nos aproximamos de sua miséria e provamos que somos mais parecidos com ela do que pensamos. São pobres seres humanos, dignos de comiseração. Nenhum de nós admitiria trocar de lugar com esta pessoa, nem por cinco minutos. Quando se reconhece a miséria alheia isso não significa inocentá-la de todos os crimes, mas apenas que seus erros não podem nos afetar porque não encontram nenhuma ressonância em nós. Poderia ser esse caso ou qualquer outro.

 Ódio não nos leva a lugar algum. Não estou pregando moral, e talvez eu mesmo também sucumbisse à proteção que o ódio e o rancor prometem. Entretanto, não acredito que algo de construtivo possa surgir desse sentimento.

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