Eleonora sentou-se à mesa e lançou ao Coronel Dmitri um olhar duro. Já havia conversado por diversas vezes com ele sobre a questão das execuções sumárias. Diversas vezes ouvira – não dele, mas de seus assessores – que uma guerra não permite as digressões e análises que se podem encontrar em tempos de paz. Na época foi chamada de “frouxa”, e alguns militares presentes não se furtaram de comentários misóginos, tratando-a como alguém que, pela “circunstância de ser mulher”, não poderia entender o que uma guerra significa, e muito menos avaliar a conduta dos soldados jogados no teatro de combate e obrigados a lutar pela própria vida.
Eleonora não aceitava ser considerada desta forma diminutiva. Sua militância em diversas outras guerras emancipatórias incluiu a resistência palestina em Gaza e os confrontos contra a Insurgência Jihadista em Burkina Faso, ocasião em que quase pereceu diante dos ataques de grupos ligados ao Al-Qaeda e ao Estado Islâmico em 2015. Nestes combates, ela foi ferida e obrigada a submeter-se a uma cirurgia para a retirada de inúmeros estilhaços de granada, muitos dos quais ainda permanecem no seu corpo. Dmitri tinha, minutos antes, dito que “nenhum exército na história da humanidade havia sido vitorioso tendo pena do inimigo”. Foi nesse momento que Eleonora indignou-se e pediu a palavra.
– Sentir pena, tovarish Dmitri, é um ato de arrogância, pois significa colocar-se acima daquele que sofre. Essa guerra não é contra um povo inferior, ou contra o “mal”, mas contra a ameaça clara de um conglomerado de nações contra a soberania da Rússia. É necessário para nós entendermos os crimes dos nossos inimigos, forçados a eles pelo contexto das batalhas. Entretanto, a ninguém é permitido julgar, pois que é necessário calçar os sapatos de quem errou e andar com eles sete vezes sete mil quilômetros antes de apontar dedos acusatórios. Isso não invalida o que lhe falei anteriormente: defender as vítimas de uma guerra é essencial, assim como acolher sua dor e oferecer-lhes a justiça. Não nos cabe, entretanto, lutar em nome da vingança.
O Coronel Dmitri, que até então se mantinha olhando fixamente para Eleonora, percorreu com os olhos os demais presentes para captar a resposta de seus compatriotas. Aquela breve explanação representava o contraponto às decisões que se seguiriam.
Nya Dnar, “Eclipse of a Star” (Eclipse de uma Estrela), ed. Perdue, pág. 135
Nya Konigsberg Dnar nasceu em Praga, na Tchecoslováquia, no dia 2 de fevereiro de 1965. Com pouca idade demonstrou ser uma criança muito vivaz e inteligente, e com quatro anos de idade aprendeu sozinha a ler e escrever. Com oito anos começou a escrever histórias curtas, pequenos contos e relatos em formato de crônicas. Em 1984 graduou-se em Pedagogia e História. Nesse mesmo ano ingressou no Instituto Nacional de Cinema para estudar roteiro, diagramação e direção de arte. Em 1986, com 21 anos recém completados, emigrou para os Estados Unidos para seguir carreira como roteirista e diretora de cinema. Nos estúdios de Hollywood conheceu inúmeros diretores que foram inspiradores para sua trajetória, e de sua amizade com o diretor Brian de Palma surgiu o interesse pelas películas e histórias de suspense que tanto o caracterizaram. Casou-se com Frank O’Maley em 1989 e começou sua carreira de roteirista na Miramax, empresa fundada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein, onde permaneceu por quase três décadas, até que sua história na empresa fosse abruptamente interrompida pelos escândalos sexuais que envolveram o famoso produtor e diversas mulheres que ele teria assediado. Depois da queda e do descrédito da Miramax, passou a dedicar-se à escrita tendo lançado uma biografia chamada “Os anjos vêm de Praga”, onde conta a sua vida como imigrante e roteirista de sucesso. Em seguida, lançou um romance ambientado na Primavera de Praga, chamado “Não há flores em Valdštejnská zahrada”, sobre o amor conturbado de uma florista da cidade com um soldado russo. Publicou em muitas revistas feministas e de esquerda americanas, em especial sobre os temas do identitarismo e do aborto. Em “Epílogo da História Circular”, ela transita por temas tão diversos quanto a revolução dos costumes e crônicas sobre mulheres e crianças desassistidas nos assentamentos de imigrantes na fronteira com o México. Seu último livro foi “Eclipse of a Star” (Eclipse de uma Estrela), que foi vertido para o cinema com Lana Forrest como Eleonora Dawkins, a revolucionária americana que luta na Ucrânia ao lado do exército russo. A direção é de Frank Wilcox e tem estreia prevista para 2027. Mora em Los Angeles.



