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O Menino

Sim, eu tenho pena da desgraça destes personagens para quem um fosso enorme se abre sob os pés, de onde se podem ver as labaredas do Hades. Não me sinto bem associado à enorme energia destrutiva que se forma como resposta à condenação de seus atos. Talvez seja uma reminiscência de outras tantas fogueiras que presenciei, onde sempre imperam os sentimentos mais primitivos.

Esclareço apenas que sofrer por condescendência e empatia não significa aceitar ou concordar, muito menos absolver. Todavia, quando vejo o peso de tanto ressentimento acumulado recaindo sobre estas cabeças eu me associo à tragédia destes que caem. Digo também que olhar desta forma não é uma escolha racional, é um impulso. Também não significa que não devam pagar por seus delitos.

Existe uma circunstância que me é inevitável nestas passagens: eu sempre penso que poderia ser um filho meu. Tenho filhos da idade destes pobres personagens que agora se encaminham ao calvário. Mas já vi mães chorando no pronto-socorro a morte de seu filho bandido. Elas diziam “Ele sempre foi um bom menino. Foram as companhias e a maldita da droga”. Como não entender que, para uma mãe, este filho – por mais degenerado que seja – será sempre seu guri, que

“Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar”

Eu prefiro não cultuar o ódio por essas figuras, todas elas. Quando vejo se disseminar o gozo da vingança sinto um gosto de fel, que sempre me assusta e angustia.

Eu já fui alvo de ataques desse tipo, em especial na internet, por ter opiniões que ofendiam algumas pessoas. Vi gente fazendo discursos enormes carregados de ódio e que sequer me conheciam. Percebi que nestes momentos eu era colocado em um lugar e ocupava um posto. Não exatamente o que eu era, mas o que queriam que eu fosse. Nessa topografia eu podia ser atacado sem dó ou piedade. Eu era a “coisa” a ser destruída, e para isso não havia problema algum em me arrancar a humanidade.

A última vez que expressei meu sentimento com esses linchamentos fui vítima – que surpresa – de um pequeno linchamento por parte de uma antiga companheira. Defender que estas pessoas em desgraça sejam tratadas com alguma humanidade soa ofensivo para quem já sentiu algumas das dores que eles disseminam. Mas, para mim, passada a raiva inicial – quando me esforço por nada dizer – me assombra a imagem de um menino, sua face surpresa diante do mundo, suas dúvidas, seus projetos, suas paixões e seus sonhos. Ao lado dele um homem de túnica branca e barba sobre a pele escura, o dramaturgo cartaginês Publius Terentius Afer, o africano. Ele me olha e balbucia palavras que acompanho de memória. “Homo sum: humani nihil a me alienum puto”.

“Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Aquele menino poderia ser eu, se o meu caminho tivesse o mesmo rumo que o dele.

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Perdoar…

“Perdoar é construir empatia, e não uma manifestação pública de superioridade”.

Perdão não é um sentimento que se possa cobrar de alguém, nem de nós mesmos. Se o perdão significa a conexão profunda com o sentimento de empatia fica claro que se trata de uma construção pessoal e subjetiva. Desta forma, interno, jamais externo. É uma porta que só pode ser aberta por dentro.

Perdoar não trata de uma manifestação arrogante de superioridade, mas da busca por compreender os alicerces que levam um sujeito a cometer um ato egoístico e maléfico. Perdoar é entender.

Qualquer terapia deveria, eventualmente, chegar a essa compreensão superior sobre o mal recebido. Por certo, que o ódio e a indignação podem ter – e frequentemente têm – um efeito apaziguador para a vítima de qualquer malefício, mas não há dúvida que esses sentimentos são úteis apenas por um determinado período de tempo. Manter-se sintonizado indefinidamente na vibração do ódio destrói e aniquila qualquer sujeito. “O ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contém”…

Portanto, estes sentimentos precisam ser transformados para que possam produzir um efeito libertário, e não há dúvida que isso demanda tempo para maturação.

Não se trata de um sentido religioso sobre o perdão, mas transcendental. Significa enxergar no outro o que nos conecta e torna similares, ao invés de enxergar nele apenas o estrangeiro e o diverso. Aliás, quando falo dessa concepção de perdão isso significa e inclui o auto perdão; é preciso entender-se para poder se perdoar.”

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Ódio motriz

Não, ódio não é o caminho.

Mais do que uma força exonerativa o “ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contém” e por isso mesmo nenhum movimento social sobrevive a ele. Durante minha vida vi muitas pessoas morrerem de ódio, consumidas física e psicologicamente por um rancor incoercível. O ódio, por ser um poderoso motivador, nos joga à frente e com intensa propulsão, porém de forma desordenada e cega. Apostar no ódio é garantia de fracasso em longo prazo, mesmo quando ele é capaz de aliviar angústias ao apaziguar nossas contradições.

Falo do “sentimento de ódio”, que ajuda a aliviar as tensões e não vejo razão para que seja bloqueado, em contraposição ao “projeto de ódio” que é quando investimos pesado nesse sentimento, para funcionar como elemento agregador; é quando o ódio é a força que nos une.

Aliás, os movimentos sociais amadurecem quando aos poucos abandonam o ódio como “cola” de integração entre seus defensores. Tornam-se adultos quando percebem que não existe nenhuma diferença essencial entre as pessoas que combatemos e nós mesmos, e nossas diferenças são tão somente contextuais e circunstanciais. É exatamente quando enxergamos a humanidade em quem combatemos que percebemos o vazio de nosso ódio.

Sting nos anos 80 cantava uma música típica da Guerra Fria – e do medo do Armagedom nuclear – chamada “Russians“, onde dizia “I hope the Russians love their children too”, e na qual ele reafirmava sua fé na humanidade pois sabia que mesmo aqueles que aparentemente são tão diferentes de nós compartilham conosco o amor por seus filhos – que nada mais é que o próprio amor pela vida e a esperança no futuro.

Eu sei o quanto o ódio pode ser mobilizador, mas não tenho dúvida alguma do quanto ele é capaz de destruir boas ideias e belos projetos.

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O ódio

O texto de uma defensora de Bolsonaro – médica da minha cidade, de uns 60 e poucos anos – atacando uma crônica de Marta de Medeiros (“Salvos pelo Atraso” – Jornal Zero Hora, 22/02/20) nos ajuda a entender os intrincados mecanismos de ódio presentes no psiquismo dos (e das) bolsonaristas e outros elementos da extrema direita que saiu do armário a partir dos movimentos de 2013.

A manifestação raivosa e ultrajada parte de uma perspectiva típica de classe média alta, centrada sua na visão particular e elitista de mundo, sem considerar que esta parcela – ou bolha – na qual circulam neste país não soma mais do que 20% da nossa população. Chama à atenção igualmente o uso dos velhos chavões com os quais acusam o ex-presidente Lula, chamando-o de “cachaceiro”, “ladrão”, “semialfabetizado”. Não se furta de repetir as fake news que falam do envio de dinheiro para países marcadamente de esquerda, como Cuba e Venezuela – mesmo depois que estas notícias plantadas pelos robôs da direita foram clara e amplamente desmentidas pela auditoria contratada pelo próprio governo atual.

As agressões à “presidentA” (é assim que se referem a ela) Dilma também seguem o mesmo roteiro de ofensas sem sentido (sim, é possível estocar a energia dos ventos) e uma combinação de misoginia com o clássico preconceito de classe. Como aceitar que uma mulher honesta seja representante de um país e tenha a audácia de pensar nos desfavorecidos? Inadmissível…

No fundo, o que sempre transparece é o desprezo pelo pobre e pelo negro. O nojo dessa classe pelo próprio brasileiro, pela nossa cor mestiça, pela nossa arte, nossas festas, nossos personagens, nossa música e nossa cara. Desprezam o carnaval exatamente por ser uma festa de “vagabundos”, sem entender a profunda vinculação do nosso povo com esta festa e a enorme quantidade de trabalho e renda que ele representa para milhões de pessoas.

O drama se faz agudo e histérico porque esses sujeitos brancos se sentem ameaçados por esta “nação mulata”, prisioneiros em um “enclave de branquitude”, avessos ao mundo de diversidade que os rodeia – e os ameaça. Nunca foi a economia, a fala popular de Lula ou as gafes de Dilma que produziram tanto ódio; foram o racismo, a síndrome da Casa Grande e a ferida ainda aberta da escravidão que os fez odiar tanto qualquer um que represente o Brasil profundo.

É o nojo do diferente e a ilusão de superioridade que tanto os motiva. É o desejo de “ser como era antes”, quando todos sabiam seu lugar. É a saudade da subserviência de tantos negros, migrantes, pardos e pobres, outrora acostumados à fidelidade trocada por migalhas.

Para estas pessoas, atreladas a um passado de desprezo pelos de baixo, o Brasil fraterno precisa responder, mesmo que a energia da indignação seja a força motriz para levar adiante essas necessárias mudanças.

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Linchadores

Na internet há sempre um linchador de plantão cheio de esqueletos escondidos no armário e pronto para jogar acusações vazias em algum personagem. Assim o faz para que este pobre sujeito possa absorver suas culpas e aliviar suas angústias.

Zoe Papaniakos, “Media, Love and Hate”, Ed. Jasper, pag 135

Zoe Papaniakos é uma romancista grega nascida em Atenas, tendo estudado jornalismo nos Estados Unidos na Duke University, no Texas. Atualmente escreve artigos sobre feminismo, costumes e identitarismo numa perspectiva crítica, em especial ao “woke generation” e a “cultura do cancelamento”.

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