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Catastrofismo

Uma das formas de preservar a saúde emocional nestes tempos de Corona é não dar ouvidos a prognósticos catastrofistas – mesmo que venham de profissionais confiáveis. Eles carecem de valor, assim como as análises que os economistas fazem dos rumos da economia. Tais manifestações não passam de especulações, sejam positivas ou negativas.

Não esqueçam que as visões negativistas do futuro frequentemente escondem interesses escusos, via de regra ligados ao capitalismo mais abjeto. “Se não investirmos na compra de …… morrerão 1 milhão de pessoas”. A experiência com o Tamiflu deveria nos servir de exemplo. O remédio foi comprado na epidemia do H1N1 e nunca se mostrou superior a uma prosaica aspirina. Todavia, muita gente enriqueceu com o pânico e a compra insensata dessa droga.

O que temos como verdade no momento é a ideia de ficar em casa. Preservar os idosos e os imunodeprimidos. O número de mortos – ou o tamanho do desastre financeiro que teremos adiante – são tiros no escuro. Não se deixe impressionar por isso, porque ninguém sabe exatamente a intensidade do problema que no Brasil.

Prepare-se para o pior e visualize o melhor.

Nesse momento de dados incertos e previsões conflitantes é importante evitar o catastrofismo inútil pois ele causa pânico e até imobilismo. Não esqueça: ser alarmista é diferente de ser realista. Enquanto isso, veja as pesquisas e as evidências que surgem, evitando ao máximo os reducionismos, as projeções matemáticas que ignoram outros elementos e as fantasias mórbidas que agora estão na moda.

Aos muito jovens não custa lembrar de algo que foi muito debatido no final dos anos 70: a “explosão demográfica”. Pelas contas catastrofistas da época o mundo em 2020 deveria ter uns 15 bilhões de pessoas, todas amontoadas e vivendo num mundo pós apocalíptico. Os recursos seriam escassos, as guerras constantes e a fome uma dura realidade. Nada disso aconteceu, e até o reverso se percebe em muitos países europeus. Por quê?

Ora… porque os nossos prognósticos nunca levam em consideração os OUTROS fenômenos sociais que vão ocorrer ao lado dessa tendência, mantendo congelados para o futuro os condicionantes de HOJE. Por isso é INÚTIL fazer previsões deste tipo, assim como foi ridículo e vexatório ver os economistas neoliberais prevendo dólar a 3 Reais se a Dilma viesse a cair. Barrigadas sem sentido, pois eles não sabiam (na verdade, ninguém sabia) o que ocorreria no seguimento do golpe contra a presidente.

Eu não sou contra precauções, pelo contrário, mas sou contra os mensageiros do apocalipse…

As ciências biológicas erram pra caramba todas as suas previsões. Não a tratem como ciências exatas!! Avançamos nos diagnósticos mas ainda somos fracos em prognósticos, exatamente porque o curso das doenças tem características subjetivas e únicas, impossíveis de prever com exatidão.

As epidemias, assim como os sujeitos, também tem inúmeros condicionantes (idade da população, clima, cultura, hábitos, alimentação, recursos, genética, época do ano, etc). Por esta razão, extrapolar a performance de uma pandemia de um país para outro, é quase impossível – ou no mínimo muito arriscado.

Por isso eu repito: NÃO devemos dar importância a previsões catastróficas!!! Elas não tem base na realidade, tanto quanto as pessoas que dizem que se trata de uma “gripezinha“. Só o que nos cabe no momento é tomar as ÚNICAS medidas que aparentemente funcionam bem: higiene e isolamento. Dizer que 1 milhão de pessoas morrerão no Brasil é um alarmismo que não ajuda ninguém – mesmo que ajude os gestores a se prepararem para os piores cenários – porque trata realidades diferentes como se fossem semelhantes ou iguais.

Essa gripe não tem cura exógena. Não tem remédio, nem vacina e nem droga alguma comprovadamente efetiva. Portanto, só nos resta manter o isolamento e aguardar a primeira onda do tsunami passar.

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Suicídio

O despreparo para lidar com a morte é uma das características mais dramáticas da formação médica ocidental. As dificuldade em lidar com o nascimento e com a autonomia dos pacientes lhe seguem. Entretanto, a morte é o maior tabu. Morte é fracasso, erro, fim. Perdemos todos, paciente e profissionais, derrotados pelo fantasma do fim. Morte mostra nossos limites e nossa falibilidade última. Não salvamos a todos e sempre haverá um truque do destino a nos trair.

O suicídio é onde testemunhamos essa incapacidade de forma mais gritante. Não aceitamos que alguém deseje se atirar no abismo do qual nos esforçamos para salvá-las. A nossa abordagem com os suicidas é, via de regra, baseada em julgamentos, em uma postura moralista e opressiva.

Um episódio ocorrido no Pronto Socorro, há 35 anos, foi relatado a mim por colegas de outra escala de plantões. Um colega estudante atendeu um sujeito que havia tentado o suicídio com um revólver de baixo calibre dando um tiro na própria boca. A tentativa foi frustra: a bala apenas transpassou sua bochecha. Diante disso, o colega do plantão disse ao paciente que aquele tinha sido “um trabalho mal feito”, e que o correto seria atirar de cima para baixo e com um revólver mais potente. O homem escutou calado enquanto tratavam do seu ferimento. Um mês depois o paciente volta ao pronto socorro tendo realizado o trabalho da forma correta. Ao saber disso o colega se defendeu dizendo que “poupou o trabalho de muita gente”.

Os aspectos psicológicos da atenção médica sempre foram negligenciados durante a minha formação. Mais do que isso: qualquer tentativa de abordá-los era vista como “fraqueza”, falta de “seriedade acadêmica” ou “frescura”. Em se misturando os dois temas – autonomia do paciente e morte – o buraco era gigantesco, um vazio de palavras, conceitos, preparo e, acima de tudo, empatia.

Encarar a morte dentro da vida e enxergar o suicídio como uma tentativa desesperada de escapar à dor é um grande desafio. Como a depressão, em especial, não aparece em nenhum exame de laboratório ou de imagem somos levados a desacreditar em sua própria existência, rotulando as dores da alma e os desejos de acabar com a vida como carências pontuais.

Nada poderia estar mais errado. A dor é real e corrosiva, a ponto da morte se tornar menos dolorosa que ela. Enquanto não houver preparo para a abordagem empática de paciente diante dos dilemas do aborto, do suicídio e dos transtornos mentais jamais conseguiremos oferecer o alívio e o auxílio que são as nossas tarefas mais primordiais e essenciais.

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Ativismo e Política

Jean Wyllys 1

No episódio do encontro do deputado Bolsonaro com seu desafeto político Jean Wyllys em um voo recente, creio que o comportamento do Bolsonaro foi absurdamente infantil e grosseiro para um cidadão na sua posição e idade. Filmar seu colega de congresso da forma como ele fez não tem justificativa, nem se eles fossem colegiais. Também acredito que Bolsonaro representa as forças mais retrógradas e conservadoras do país, além de significar uma ameaça a própria sobrevivência da democracia. Jean Wyllys, por sua vez, representa o novo, o diferente, e sua defesa aberta e corajosa das comunidades LGTB – e mesmo da humanização do nascimento – são novidades no parlamento, e que nos enchem de esperança.

Porém acho que a atitude do Jean Wyllys no episódio do avião foi despreparada e pouco esperta. Ele poderia ter capitalizado para suas causas. Poderia ter sido simpático, feito uma piada, esboçado um sorriso. Infelizmente faltou a ele o que sobrou ao deputado Bolsonaro: jogo de cintura e agilidade para encontrar uma brecha nos fatos para fazer política.

Ficar emburrado apenas mostrou seus limites. Não acho que todo mundo tenha que suportar calado ou hipocritamente sorridente a presença de um ogro, ou mesmo aceitar a presença destes sujeitos, mas os estadistas aprendem como fazer isso, a ponto de conquistar o respeito até dos adversários. Por isso existem políticos e estadistas.

Um estadista pensa longe e dialoga até com ditadores e assassinos. Por isso ele é especial. Qualquer um que estivesse sendo assaltado tentaria dialogar com o criminoso, para ao menos garantir uma redução de danos. Infelizmente o deputado Jean se portou como uma pessoa comum, sangue quente, e que preferiu manter sua coerência e os SEUS valores a ganhar pontos para suas lutas. NÃO é assim que se faz política de qualidade, que nada mais é do que a arte de compor, de ajustar, de aproximar e de provocar acordos e consensos. Porque não negociar com Bolsonaro? Ora, porque Jean Wyllys não se deu conta que a postura PESSOAL dele vale muito menos do que os MILHARES que ele representa. Nesse episódio Bolsonaro saiu com jeito de bem humorado e fanfarrão, e Jean saiu com cara de garoto emburrado.

A atitude do Jean foi pessoalmente coerente, e politicamente burra.

Aliás, os mais velhos podem lembrar: a postura do Lula e do “velho PT” nos anos 80 era assim: “não falamos com burgueses, que exploram o povo, roubam, são corruptos, defendem os interesses dos banqueiros e blá, blá, blá.“. Isso era apenas infantilidade e imaturidade do PT, que foi corrigida posteriormente com uma ampla política de alianças, com a ideia de que não existe pessoa suficientemente suja com quem não seja possível fazer um acordo, desde que isso ajude a produzir avanços e conquistar espaços.

Eu não acuso o deputado Jean de ter feito algo errado; apenas o “acuso” de ser normal, de agir como qualquer pessoa diante do mesmo desafio. MEU erro foi esperar dele uma atitude inteligente e diferenciada, curiosa e única, brilhante e propositiva. Meu equívoco foi criar uma expectativa exagerada sobre um político – aparentemente – comum, que diante de um desafio preferiu ficar emburrado, perdendo uma rara possibilidade de capitalizar politicamente o evento.

Se for possível fazer uma análise isenta e desapaixonada, serei obrigado a reconhecer que, se há alguém com espaço para crescer diante de seu eleitorado, este é o Bolsonaro. Jean é um militante, um representante ainda politicamente imaturo.

Agressões verbais para o Bolsonaro é o que o faz crescer. Analisar esse episódio de forma pessoal, chamando o ex milico de “monstro” é tolice. Convido a todos para que observem este evento pela ótica verdadeira: o teatro político. Visões pessoais e morais (nesse caso) são inúteis. Verme, monstro, animal… Enquanto for esse o discurso Bolsonaro vence, e avança mais e mais. Ganhou 400.000 votos no Rio por causa disso, e ganhou mais alguns pelo episódio tosco do avião.

Sabe o que seria uma atitude genial do Jean Wyllys? Sentar do lado dele e fazer bullying, gravar um vídeo, dizer palavras de amor, segurar a mão dele e tentar fazer o Bolsonaro ficar envergonhado, emburrado e constrangido. E cair na risada!!!!

Xingar o Bolsonaro… quanta criatividade.

Diante do que ocorreu me permito perguntar: “Que ganho há para os homossexuais e minorias ficar zangado diante da chacota do Bolsonaro? O que avançamos com essa atitude mal humorada?” Eu respondo: NADA!!! E xingar também não. Ali era o lugar de uma grande sacada armada pelo destino: inimigos lado a lado. Foi o que o Bolsonaro fez, e o Jean Wyllys caiu!!!

Mas agir de forma bem humorada não é ficar em cima do muro, pelo contrário. É mostrar que o SEU jogo não é o da mágoa, do rancor e do ódio!!!

Política é mais do que atacar posições contrárias: é almoçar com o diabo e jantar com o demo, negociando algumas almas, salvando alguns poucos pecadores e avançando terreno. Não acredito que o deputado Jean agiu errado. Ele apenas foi medíocre, e (meu erro) eu esperava mais dele. Tolice minha. O grande erro é confundir atitudes pessoais com atitudes políticas.

É possível que eu tivesse as mesmas atitudes que o Jean teve: sairia de perto e ficaria em silêncio, emburrado e brabo. Mas eu sou medíocre e comum, e não um signatário do povo. Meu erro foi esperar política de quem, até agora, só aprendeu a militar para o seu eleitorado.

Espero que Jean Wyllys possa fazer uma leitura madura desse episódio, para perceber que em política estes encontros não se repetem e que precisam ser capitalizados em benefício das causas que defendemos.

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