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Paixão

Paixão

Do outro lado da rua escuto uma briga de casal. Os decibéis eram tantos que pensei chamar a polícia. Escutei apenas pedaços de desespero e fragmentos de rancor. “Chega“, “não chegue perto do meu filho“, “vá embora“. Tudo muito dolorido. A voz dele era mais forte e raivosa, mas a dela não ficava muito atrás. Muita dor, raiva e angustia.

Em outras palavras, pura paixão.

Sim… o que eu escutei foi amor. Degenerado e doente, caótico e violento, mas feito da mesma energia que une os amantes desde que o mundo se criou das cinzas de nossa animalidade. Paixão intensa, na sua forma enferma e destrutiva, mas por trás disso amor deturpado.

“Paixão vem do latim passio, cuja tradução seria algo como “sofrimento, ato de suportar”, de pati, “sofrer, aguentar”, do grego pathe, “sentir ”. Com o tempo, entretanto, lá pelo século XIV, ela passou a designar também “forte emoção, desejo”, e mais tarde ainda, “entusiasmo, grande apreço, predileção”. (Wikipédia)

Como canta João Bosco: “Quem quer viver um amor, mas não quer suas marcas qualquer cicatriz. Ah, a ilusão do amor, não é risco na areia desenho de giz“.

A paixão é sempre dor e sofrimento. Os sons da noite passada nada mais eram do que a paixão em megafonia, o amor em sua versão trash, o desejo rechaçado que retorna como mágoa e dor. Porém, não consigo deixar de ver – e ouvir – nesta cena o mesmo gemido e a mesma languidez dos amantes envoltos na energia inebriante que um dia os uniu. O que era amor tornou-se ódio; o que era desejo tornou-se dor.

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Ativismo e Política

Jean Wyllys 1

No episódio do encontro do deputado Bolsonaro com seu desafeto político Jean Wyllys em um voo recente, creio que o comportamento do Bolsonaro foi absurdamente infantil e grosseiro para um cidadão na sua posição e idade. Filmar seu colega de congresso da forma como ele fez não tem justificativa, nem se eles fossem colegiais. Também acredito que Bolsonaro representa as forças mais retrógradas e conservadoras do país, além de significar uma ameaça a própria sobrevivência da democracia. Jean Wyllys, por sua vez, representa o novo, o diferente, e sua defesa aberta e corajosa das comunidades LGTB – e mesmo da humanização do nascimento – são novidades no parlamento, e que nos enchem de esperança.

Porém acho que a atitude do Jean Wyllys no episódio do avião foi despreparada e pouco esperta. Ele poderia ter capitalizado para suas causas. Poderia ter sido simpático, feito uma piada, esboçado um sorriso. Infelizmente faltou a ele o que sobrou ao deputado Bolsonaro: jogo de cintura e agilidade para encontrar uma brecha nos fatos para fazer política.

Ficar emburrado apenas mostrou seus limites. Não acho que todo mundo tenha que suportar calado ou hipocritamente sorridente a presença de um ogro, ou mesmo aceitar a presença destes sujeitos, mas os estadistas aprendem como fazer isso, a ponto de conquistar o respeito até dos adversários. Por isso existem políticos e estadistas.

Um estadista pensa longe e dialoga até com ditadores e assassinos. Por isso ele é especial. Qualquer um que estivesse sendo assaltado tentaria dialogar com o criminoso, para ao menos garantir uma redução de danos. Infelizmente o deputado Jean se portou como uma pessoa comum, sangue quente, e que preferiu manter sua coerência e os SEUS valores a ganhar pontos para suas lutas. NÃO é assim que se faz política de qualidade, que nada mais é do que a arte de compor, de ajustar, de aproximar e de provocar acordos e consensos. Porque não negociar com Bolsonaro? Ora, porque Jean Wyllys não se deu conta que a postura PESSOAL dele vale muito menos do que os MILHARES que ele representa. Nesse episódio Bolsonaro saiu com jeito de bem humorado e fanfarrão, e Jean saiu com cara de garoto emburrado.

A atitude do Jean foi pessoalmente coerente, e politicamente burra.

Aliás, os mais velhos podem lembrar: a postura do Lula e do “velho PT” nos anos 80 era assim: “não falamos com burgueses, que exploram o povo, roubam, são corruptos, defendem os interesses dos banqueiros e blá, blá, blá.“. Isso era apenas infantilidade e imaturidade do PT, que foi corrigida posteriormente com uma ampla política de alianças, com a ideia de que não existe pessoa suficientemente suja com quem não seja possível fazer um acordo, desde que isso ajude a produzir avanços e conquistar espaços.

Eu não acuso o deputado Jean de ter feito algo errado; apenas o “acuso” de ser normal, de agir como qualquer pessoa diante do mesmo desafio. MEU erro foi esperar dele uma atitude inteligente e diferenciada, curiosa e única, brilhante e propositiva. Meu equívoco foi criar uma expectativa exagerada sobre um político – aparentemente – comum, que diante de um desafio preferiu ficar emburrado, perdendo uma rara possibilidade de capitalizar politicamente o evento.

Se for possível fazer uma análise isenta e desapaixonada, serei obrigado a reconhecer que, se há alguém com espaço para crescer diante de seu eleitorado, este é o Bolsonaro. Jean é um militante, um representante ainda politicamente imaturo.

Agressões verbais para o Bolsonaro é o que o faz crescer. Analisar esse episódio de forma pessoal, chamando o ex milico de “monstro” é tolice. Convido a todos para que observem este evento pela ótica verdadeira: o teatro político. Visões pessoais e morais (nesse caso) são inúteis. Verme, monstro, animal… Enquanto for esse o discurso Bolsonaro vence, e avança mais e mais. Ganhou 400.000 votos no Rio por causa disso, e ganhou mais alguns pelo episódio tosco do avião.

Sabe o que seria uma atitude genial do Jean Wyllys? Sentar do lado dele e fazer bullying, gravar um vídeo, dizer palavras de amor, segurar a mão dele e tentar fazer o Bolsonaro ficar envergonhado, emburrado e constrangido. E cair na risada!!!!

Xingar o Bolsonaro… quanta criatividade.

Diante do que ocorreu me permito perguntar: “Que ganho há para os homossexuais e minorias ficar zangado diante da chacota do Bolsonaro? O que avançamos com essa atitude mal humorada?” Eu respondo: NADA!!! E xingar também não. Ali era o lugar de uma grande sacada armada pelo destino: inimigos lado a lado. Foi o que o Bolsonaro fez, e o Jean Wyllys caiu!!!

Mas agir de forma bem humorada não é ficar em cima do muro, pelo contrário. É mostrar que o SEU jogo não é o da mágoa, do rancor e do ódio!!!

Política é mais do que atacar posições contrárias: é almoçar com o diabo e jantar com o demo, negociando algumas almas, salvando alguns poucos pecadores e avançando terreno. Não acredito que o deputado Jean agiu errado. Ele apenas foi medíocre, e (meu erro) eu esperava mais dele. Tolice minha. O grande erro é confundir atitudes pessoais com atitudes políticas.

É possível que eu tivesse as mesmas atitudes que o Jean teve: sairia de perto e ficaria em silêncio, emburrado e brabo. Mas eu sou medíocre e comum, e não um signatário do povo. Meu erro foi esperar política de quem, até agora, só aprendeu a militar para o seu eleitorado.

Espero que Jean Wyllys possa fazer uma leitura madura desse episódio, para perceber que em política estes encontros não se repetem e que precisam ser capitalizados em benefício das causas que defendemos.

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Abraço, Fabrício…

Fabrício

Abraço, Fabrício…

Sabe o que é desumano?

É quando retiramos as qualidades humanas de um sujeito, sua unicidade e subjetividade, aquilo que o transforma em uma pessoa única. É quando ele deixa de ser alguém, e passa a ser uma “coisa”.

Ontem testemunhamos um fato raro no futebol. O jogador Fabrício do Inter, após ser vaiado por uma parte da torcida, investiu contra ela com gritos, insultos e gestos obscenos. Uma cena lamentável de violência e descontrole. Ato contínuo, foi expulso pelo juiz e tirou a camisa do seu clube. Arremessou-a ao solo e, mesmo sendo contido pelos colegas de profissão, rumou célere para a saída do campo, sinalizando com gestos que jamais voltaria. Boa parte da torcida colorada, em especial aquela que o estava vaiando, vibrou com a sua expulsão e a saída. O futebol, haja vista sua má fase, pouco perdeu. Mas e o nosso senso de humanidade?

Poucos dias atrás, uma outra desgraça, desta vez atingindo o (ex) todo poderoso José Dirceu, foi tratada com deboche e escárnio por centenas de internautas. Quando do anúncio de seu AVC (Acidente Vascular Cerebral) inúmeros comentários depreciativos surgiram nas redes sociais, fazendo troça com a doença do ex-ministro. Com os candidatos e a presidenta, o mesmo. O ministro Guido Mantega, em visita a um hospital, foi brutalmente hostilizado por pessoas na recepção. As figuras públicas perdem a sua condição de humanas, e passam a ser meros personagens, sem vida, história, subjetividade ou porvir.

Desumanizar é tirar do sujeito sua essência humana. É coisificá-lo para o nosso gozo, seja ele qual for. É olhar para uma mulher e reduzi-la a peitos e bunda, para um homem e torná-lo apenas força, poder e dinheiro. Um jogador de futebol vale apenas para o nosso gozo, sem que seus sofrimentos, sua vida, suas fragilidades e sua história sejam levadas em consideração.

O jogador Fabrício, soube-se hoje, tem um irmão que está preso, e outro que já morreu pelas mesmas razões: tráfico de drogas. Sofria pressão desumana de torcedores que achavam que ele não estava jogando o quanto devia. A pressão também chegava de uma “crônica esportiva” espetaculosa, insensível e grosseira, que ressalta ainda mais a objetualização dos jogadores, tornando-os marionetes de seus conceitos e alvos fáceis para suas piadas de gosto duvidoso. Por mais que se entenda que as gratificações monetárias para os jogadores são muito altas (para uma elite restrita e minúscula, como no caso do Fabrício) também é verdade que a tensão para cumprir metas, nunca errar, jamais falhar, lutar como um gladiador, oferecer o sangue, destruir a própria saúde em nome de uma bandeira é uma tarefa pesada demais para qualquer um, e mais ainda para meninos de origem pobre.

Não foram poucos os jogadores que pensaram em suicídio. Outro famoso jogador do Internacional, quando jogava no exterior, longe da família, sem falar o idioma local, sem amigos e sem referências, subiu no alto de um prédio e por pouco não se arrojou de lá, acabando com sua vida. Teve mais sorte do que Fabrício.

Fabrício explodiu, rompeu a corda. Diante de tanta tensão acumulada ele não aguentou a(s) pressão(ões). Não suportou o desprezo da torcida por quem se dedicava ao limite e jogou tudo para o ar. Todavia, quando o que ele mais precisa é de compreensão e de uma palavra amiga, ele recebe deboche, críticas, mais violência e desprezo. O objeto Fabrício passa a ser desimportante e, mais ainda, incômodo. “Joguem fora essa peça, ela já não nos serve mais.

Fabrício precisa de um abraço. Se serve o abraço de um gremista, aqui vai. Erga a cabeça, olhe para frente, pense na sua família, tente se acalmar. Existe um grande futuro ainda possível, se você puder ultrapassar este momento.

Vai passar, vai passar…

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