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Sobre Kamala Harris

Não tão rápido com este entusiasmo sobre a eleição de uma negra para a vice-presidência dos Estados Unidos. Lembrem apenas que eles já tiveram um presidente negro, e esse negro jogou bombas e matou milhares de cidadãos de pele escura no Oriente Médio. A cor dela é importante, mas pode facilmente sucumbir a outras vinculações e compromissos.

Eu pessoalmente acho que há muitas outras questões em disputa. A celebração por Obama resultou numa gigantesca frustração, pois ele foi um presidente genocida e cruel. Do ponto de vista da saúde pública um desastre; para os imigrantes um terror. A cor de sua pele não fez diferença alguma e os alvos mais afetados de sua política continuaram sendo as pessoas de pele escura. Quem quiser pode ver aqui as palavras breves de Cornel West – filósofo e pensador contemporâneo americano – para que a miragem da cor da pele não deixe as pessoas – mais uma vez – iludidas.

E veja bem, para a comunidade imigrante, gay e negra a vitória de Biden é um alívio, exatamente porque representa a queda de Trump. Entretanto, eu apenas peço “calma” na comemoração. Não vou torcer contra o sucesso dela, pelo contrário. Entretanto, a nossa experiência prévia com essa representatividade nos exige ponderação, pois a cor da pele não produziu nenhum benefício palpável para a comunidade negra americana.

Outro dica é esse debate entre Chris Hedges e Cornel West, extremamente útil nestes tempos de desencanto – mas de esperança. É longo porém muito elucidativo. No meio do debate eles falam do legado de Obama e o significado prático de um presidente negro à frente do Império. Sugiro que vejam, até porque são dois grandes expoentes da cultura americana falando sobre vários temas, em especial racismo e representatividade

Mas não se deixem enganar; os argumentos para deslegitimar Obama e sua governança não vem da direita; vem de todos os lados, principalmente da esquerda e dos negros, extremamente frustrados com sua administração. E vejam, vou repetir: não quero julgar o governo desses gringos antes que ele aconteça. Apenas pedi ponderação para não haver uma cobrança desproporcional gerada por uma expectativa ilusória. Os Estados Unidos são um império decadente que despenca vertiginosamente e não há presidente que possa negar esse fato, muito menos interromper seu notável declínio. Qualquer um, de qualquer cor, verá as tensões raciais aumentarem. Kamala é uma punitivista, promotora durona. Não joguem suas fichas todas em gente da direita.

Esta é a minha postura no momento:

– Comemorar a derrota de um supremacista branco é algo não só plenamente defensável como necessário. Nenhum militante suporta psiquicamente por muito tempo essa proibição de gozar vitórias, mesmo quando parciais e de um certo ponto de vista insuficientes. Na pior das hipóteses o Bolsonaro está irritado e isso, por si só, é motivo de comemoração de todos os progressistas.

– Ficou evidente para o mundo inteiro a farsa plutocrática da “democracia” americana e a falência de suas instituições. Um país que, em pleno século XXI não adota “1 person = 1 vote” não pode ser considerado democrático.

– Kamala Harris é uma punitivista que mandou vários jovens negros para a cadeia por posse de maconha. É uma virtual candidata a criminosa de guerra impune. Como Obama. Não coloquem a cor de sua pele acima de seus compromissos com a direita americana.

– O candidato que representaria alguma mudança estrutural, Bernie Sanders, foi interditado pelos oligarcas do partido democrata americano. Creio que a esquerda americana (que, sim, existe) deverá em futuro próximo centrar suas forças no fim do colégio eleitoral. Esta é a condição mínima para o surgimento de um partido de fato de esquerda com alguma viabilidade eleitoral. (adaptado de Alexandre Vasilenskas)

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Conselhos

Vou deixar bem claro: eu acho uma profunda ingenuidade imaginar que os Conselhos de Medicina deveriam “proteger a sociedade”. Essa é uma acusação injusta a estas entidades. Um conselho é feito para proteger a CORPORAÇÃO, os médicos e suas práticas, as quais são validadas por seus pares (e não necessariamente pelas evidências científicas).

Não existe NENHUM compromisso explícito de defender a saúde da população e isso é mais do que óbvio. Afinal, você cidadão comum, em quem vai votar na próxima eleição do Conselho de Medicina? Ahhh, só os médicos votam? Então como é posível imaginar que um grupo que não aceita seu voto vai lhe representar?

Não… os conselhos de Medicina protegem a medicina, seus profissionais e seus privilégios sociais, mesmo quando sua prática é capaz de prejudicar pacientes. A cesariana é apenas um dos exemplos fáceis para demonstrar que não se pode confiar num Conselho de Medicina para tomar ações que contrariam os desejos dos médicos que, em última análise, elegem os conselheiros para representar seus desejos – e não os de seus clientes.

Por isso é importante sempre ter no horizonte que os conselhos médicos – estaduais ou federal – são órgãos corporativos e que tem como compromisso o médico e sua proteção, e não a saúde dos pacientes. Para estes objetivos é necessário criar outros representantes ou modificar o MS para que este possa trabalhar de forma efetiva na defesa dos pacientes e suas questões. Talvez esteja no horizonte a “Ordem dos Doentes”, uma organização criada para a defesa dos pacientes em todas as instâncias e que, em inúmeras circunstâncias, vai se opor diametralmente à “ordem dos médicos” na defesa dos seus interesses.

Não é justo cobrar dos Conselhos de Medicina algo que eles não tem obrigação de fazer, mas também é ingenuidade acreditar que eles trabalham por você ou por sua saúde.

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Diplomas

 

“O maior gênio da política brasileira de todos os tempos nunca teve um curso universitário. O maior político da história da África do Sul passou 27 anos preso. O maior revolucionário da política australiana era um operário.

Política NÃO é concurso público. Política é REPRESENTATIVIDADE. Ouso dizer que (infelizmente) Alexandre Frota é muito mais representativo do que alguns candidatos que emergem das universidades, cheios de títulos, graduações e experiências no exterior. Para comprovar o que digo basta ver os votantes do Bolso. Ciro Gomes falou certo ao se referir ao Daciolo como “o preço a pagar pela democracia”. Sem isso teríamos uma aristocracia perversa de concurseiros, e se alguém tem curiosidade para saber como isso seria olhe para o nosso judiciário, uma instituição que 90% da população não confia em sua lisura, mesmo com tantos diplomas na parede de trás.

Os sujeitos com mais qualificação superior no congresso são, via de regra, os mais reacionários. Tratá-los como “excepcionais” e levá-los ao congresso apenas por sua performance acadêmica é um erro que já cometemos muitas vezes. Está na hora de varrer esse conceito da nossa sala.

Para ser político precisa MUITO mais do que um diploma. Precisa falar a língua do povo e sentir na pele o que ele sente.”

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Duas mães

Uma vez, aos 10 anos de idade, saí na porrada com um colega de aula. Ao chegar em casa a história ja tinha sido contada pela minha irmã fofoqueira. Levei pito do meu pai e da minha mãe. Expliquei: ele me chamou de “filho da puta”. Minha mãe deu uma risada e disse: “E tu achas que eu me incomodo com o que o pirralho do teu colega diz de mim?”. Eu suspirei fundo e expliquei: “Não era de você que ele estava falando, era da minha “mãe”. A minha mãe e você são duas pessoas diferentes e eu não admito que aquela outra seja ofendida. Entendeu?”

Meus pais ficaram me olhando assustados. Eles certamente anteviam que não poderia sair coisa boa daquele moleque.

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Ativismo e Política

Jean Wyllys 1

No episódio do encontro do deputado Bolsonaro com seu desafeto político Jean Wyllys em um voo recente, creio que o comportamento do Bolsonaro foi absurdamente infantil e grosseiro para um cidadão na sua posição e idade. Filmar seu colega de congresso da forma como ele fez não tem justificativa, nem se eles fossem colegiais. Também acredito que Bolsonaro representa as forças mais retrógradas e conservadoras do país, além de significar uma ameaça a própria sobrevivência da democracia. Jean Wyllys, por sua vez, representa o novo, o diferente, e sua defesa aberta e corajosa das comunidades LGTB – e mesmo da humanização do nascimento – são novidades no parlamento, e que nos enchem de esperança.

Porém acho que a atitude do Jean Wyllys no episódio do avião foi despreparada e pouco esperta. Ele poderia ter capitalizado para suas causas. Poderia ter sido simpático, feito uma piada, esboçado um sorriso. Infelizmente faltou a ele o que sobrou ao deputado Bolsonaro: jogo de cintura e agilidade para encontrar uma brecha nos fatos para fazer política.

Ficar emburrado apenas mostrou seus limites. Não acho que todo mundo tenha que suportar calado ou hipocritamente sorridente a presença de um ogro, ou mesmo aceitar a presença destes sujeitos, mas os estadistas aprendem como fazer isso, a ponto de conquistar o respeito até dos adversários. Por isso existem políticos e estadistas.

Um estadista pensa longe e dialoga até com ditadores e assassinos. Por isso ele é especial. Qualquer um que estivesse sendo assaltado tentaria dialogar com o criminoso, para ao menos garantir uma redução de danos. Infelizmente o deputado Jean se portou como uma pessoa comum, sangue quente, e que preferiu manter sua coerência e os SEUS valores a ganhar pontos para suas lutas. NÃO é assim que se faz política de qualidade, que nada mais é do que a arte de compor, de ajustar, de aproximar e de provocar acordos e consensos. Porque não negociar com Bolsonaro? Ora, porque Jean Wyllys não se deu conta que a postura PESSOAL dele vale muito menos do que os MILHARES que ele representa. Nesse episódio Bolsonaro saiu com jeito de bem humorado e fanfarrão, e Jean saiu com cara de garoto emburrado.

A atitude do Jean foi pessoalmente coerente, e politicamente burra.

Aliás, os mais velhos podem lembrar: a postura do Lula e do “velho PT” nos anos 80 era assim: “não falamos com burgueses, que exploram o povo, roubam, são corruptos, defendem os interesses dos banqueiros e blá, blá, blá.“. Isso era apenas infantilidade e imaturidade do PT, que foi corrigida posteriormente com uma ampla política de alianças, com a ideia de que não existe pessoa suficientemente suja com quem não seja possível fazer um acordo, desde que isso ajude a produzir avanços e conquistar espaços.

Eu não acuso o deputado Jean de ter feito algo errado; apenas o “acuso” de ser normal, de agir como qualquer pessoa diante do mesmo desafio. MEU erro foi esperar dele uma atitude inteligente e diferenciada, curiosa e única, brilhante e propositiva. Meu equívoco foi criar uma expectativa exagerada sobre um político – aparentemente – comum, que diante de um desafio preferiu ficar emburrado, perdendo uma rara possibilidade de capitalizar politicamente o evento.

Se for possível fazer uma análise isenta e desapaixonada, serei obrigado a reconhecer que, se há alguém com espaço para crescer diante de seu eleitorado, este é o Bolsonaro. Jean é um militante, um representante ainda politicamente imaturo.

Agressões verbais para o Bolsonaro é o que o faz crescer. Analisar esse episódio de forma pessoal, chamando o ex milico de “monstro” é tolice. Convido a todos para que observem este evento pela ótica verdadeira: o teatro político. Visões pessoais e morais (nesse caso) são inúteis. Verme, monstro, animal… Enquanto for esse o discurso Bolsonaro vence, e avança mais e mais. Ganhou 400.000 votos no Rio por causa disso, e ganhou mais alguns pelo episódio tosco do avião.

Sabe o que seria uma atitude genial do Jean Wyllys? Sentar do lado dele e fazer bullying, gravar um vídeo, dizer palavras de amor, segurar a mão dele e tentar fazer o Bolsonaro ficar envergonhado, emburrado e constrangido. E cair na risada!!!!

Xingar o Bolsonaro… quanta criatividade.

Diante do que ocorreu me permito perguntar: “Que ganho há para os homossexuais e minorias ficar zangado diante da chacota do Bolsonaro? O que avançamos com essa atitude mal humorada?” Eu respondo: NADA!!! E xingar também não. Ali era o lugar de uma grande sacada armada pelo destino: inimigos lado a lado. Foi o que o Bolsonaro fez, e o Jean Wyllys caiu!!!

Mas agir de forma bem humorada não é ficar em cima do muro, pelo contrário. É mostrar que o SEU jogo não é o da mágoa, do rancor e do ódio!!!

Política é mais do que atacar posições contrárias: é almoçar com o diabo e jantar com o demo, negociando algumas almas, salvando alguns poucos pecadores e avançando terreno. Não acredito que o deputado Jean agiu errado. Ele apenas foi medíocre, e (meu erro) eu esperava mais dele. Tolice minha. O grande erro é confundir atitudes pessoais com atitudes políticas.

É possível que eu tivesse as mesmas atitudes que o Jean teve: sairia de perto e ficaria em silêncio, emburrado e brabo. Mas eu sou medíocre e comum, e não um signatário do povo. Meu erro foi esperar política de quem, até agora, só aprendeu a militar para o seu eleitorado.

Espero que Jean Wyllys possa fazer uma leitura madura desse episódio, para perceber que em política estes encontros não se repetem e que precisam ser capitalizados em benefício das causas que defendemos.

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