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Educação e Parto

Para muitos pais, em especial na minha época, a escola significa um local para adquirir conhecimentos técnicos para o encaminhamento de uma profissão e, com ela, a autonomia. Tenho vívida a lembrança de meus tempos de escola – mas também na universidade – onde o foco era a aquisição de ferramentas e habilidades específicas para a preparação de uma vida profissional adulta. Não havia nenhuma relevância na didática ou na pedagogia e nenhuma importância era dada à formação do sujeito. Um médico era, acima de tudo, um sujeito que obedecia regras e protocolos, com pouca ou nenhuma importância dada aos outros aspectos do doente.

Quando debatemos escolas militares esta questão vem à tona de uma forma bem nítida. Os pais dizem que querem alunos que se comportem, tenham disciplina, saibam respeitar a autoridade e tenham a devida absorção dos conteúdos apresentados em aula. Nenhuma relevância é dada à formação da cidadania, às questões sociais, à história das lutas sociais e nenhuma ênfase na produção de pensamento crítico. Assim, estas escolas são produtoras de sujeitos complacentes, obedientes e doutrinados a se comportar segundo as regras, não importando o quão injustas elas sejam.

Vejo correlações nítidas com o parto. Também na minha época – e mais fortemente antes dela – as famílias procuravam os médicos para a atenção ao parto com o interesse de acompanhar o processo de nascimento de um novo membro da sociedade, sem levar em consideração os significados últimos deste evento para a mulher e futura mãe. Esta era, como regra, relegada a uma posição secundária, como contêiner fetal, e todas as suas dimensões subjetivas – afetivas, psíquicas, sociais, espirituais e sexuais – eram desprezadas em nome do foco no bebê e sua sobrevivência. Ali se formavam as mães submissas e dóceis que criariam seus filhos para uma sociedade igualmente opressiva.

Educação e a maternidade estão inseridas de forma marcante no conjunto profundo de valores de uma sociedade. Por isso as mudanças em seus pressupostos fundamentais causam espanto nos grupos que as controlam. Uma educação libertária levará a mudanças na sociedade, e por isso ela é tão fortemente combatida. Não é à toa que um pensador como Paulo Freire é atacado por suas propostas na Educação. A ideia do “parto como parte da vida sexual de uma mulher” ofende aqueles que enxergam nessa tese a potencialidade capaz de ameaçar as bases do patriarcado. “Mulheres livres colocam medo homens que temem mulheres sem medo”, como dizia Eduardo Galeano. Por esta razão aqueles que defendem o protagonismo do parto garantido às mulheres serão igualmente atacados e perseguidos.

Toda a nudez (das ideias que nos aprisionam) será castigada.

Uma nova educação centrada na crítica social e a proposta de um nascimento que valoriza a experiência sexual das mulheres serão as sementes da sociedade do futuro, livre das amarras da opressão e do patriarcado.

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Cadetes

Hoje vi pessoas reclamando das regras das escolas cívico-militares como se esses regramento pudesse ser entendido desvinculado do todo. “Qual o problema do cabelo comprido?“, perguntam. “Afinal, por que as saias abaixo dos joelhos?“, dizem sem entender.

Minha resposta é simples: praticamente nenhum problema com cabelos ou saias. Para estes sujeitos o cabelo ou o comprimento da saia tem pouca importância. Os cabelos poderiam ser todos compridos e encaracolados até. Não é essa a questão. O que se busca com estas medidas é a UNIFORMIZAÇÃO. Todo mundo igual. Mesmo cabelo, mesma roupa, sem maquiagem, adereços ou qualquer sinal externo que denuncie a subjetividade, ou que permita ver a alma única que habita aquele corpo.

É pelas mesmas razões que soldados, clérigos, prisioneiros e gestantes se uniformizam: para que possam ser tratados pela sua FUNÇÃO, e não pelo que realmente são. O nosso sistema educacional procura como elemento primordial de sua ação a domesticação dos alunos, a sua conformação às regras e normas, mesmo que para isso seja necessário fragilizar seu espírito inventivo e sua criatividade.

As escolas cívico-militares funcionam na lógica militar, onde se ensina a obedecer cegamente – e jamais questionar!! – as hierarquias artificialmente construídas por uma sociedade de castas. Com estes fortes sinais semióticos, como o cabelo igual, roupas idênticas e obediência servil às figuras de autoridade, se almeja a doutrinação de crianças para a produção de “cidadãos de bem” – ou seja, sujeitos que perderam a capacidade de questionar as injustiças e se satisfazem com migalhas de dignidade.

Cortar os cabelos funciona da mesma forma como funcionam as roupas comuns retiradas das gestantes, ou a forma como as tratamos. Servem como uma potente mensagem de submissão à ordem estabelecida. Aceitar isso muitas vezes é empurrar a primeira peça do dominó…

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