Arquivo da tag: espancamento

Atire a primeira pedra

unnamed

Esta semana fomos atropelados pelas imagens angustiantes de uma dupla de jovens espancado violentamente um vendedor ambulante dentro de uma estação do metrô em São Paulo. O resultado foi a morte da vítima.

Muitas vezes eu acho as reações à violência tão danosas e doentias quanto os atos cruéis a que se reportam. A gente quase nunca é suficientemente testado na vida a ponto de poder afirmar “isso eu jamais faria”. Como diria Terêncio, “O que é humano não me é estranho”. De minha parte posso me ver em qualquer dos personagens: nas travestis, nos espancadores, na vítima, nos espectadores petrificados e até nos milhares de “juízes” que imediatamente condenaram os infratores. Não me sinto – em essência – diferente de nenhum deles.

Com uma breve pesquisa na memória posso lembrar de coisas que eu fiz na minha juventude que só não se tornaram tragédias por pura sorte. Quando tinha 15 anos estava em um Grenal e joguei uma laranja de longe em um torcedor rival. A chance de acertar era desprezível, mas mesmo assim arrisquei. Ela acabou se chocando contra a cabeça de um menino da minha idade, explodindo em mil fragmento alaranjados. Sei que nada grave ocorreu porque ele saiu correndo com sua turma. Fui cumprimentado por meus parceiros pela minha “pontaria” certeira mas passei os últimos 40 anos lamentando essa atitude, só por imaginar que poderia ter se tornado uma tragédia.

Mais de 99.9% das brigas de rua e espancamentos terminam com escoriações e orgulhos feridos; esta briga no metrô de São Paulo terminou em morte – por azar. Este azar poderia ter ocorrido comigo há 40 anos em uma tola partida de futebol. Diga aí quão melhor que aqueles espancadores você me considera. Eu coloco minha ação e a dos espancadores no mesmo nível… só o acaso nos separa.

Qual a minha motivação para jogar uma laranja na cabeça de um torcedor rival? A motivação dos  espancadores foi ódio, mas não apenas do ambulante, mas de toda uma sorte de frustrações, ódios, tristezas e rancores que não me cabe julgar. A minha foi ainda mais tola: machucar alguém cujas cores na camisa eram diferentes das minhas.

No caso do metrô foi azar, mas também foi homicídio. Na minha opinião eles não queriam matar, queriam bater, mas mataram, por isso são homicidas. Eles erraram a “pontaria”, sim. Não era o objetivo a morte do ambulante; era para dar socos, pontapés e machucar, como são 99.98% das brigas de rua.

Erraram, tiveram azar e mataram.

Quando brigamos de cabeça quente não se pensa racionalmente. Tive muitas brigas na vida e sei como fica nosso estado mental. Algumas pessoas acham confortável se afastar desses sujeitos, achando-os muito diferentes de si mesmos, desumanizando-os. Eu não, pois suas atitudes são semelhantes a muitas que já tive.

Para nós é mais fácil perdoar pessoas com quem conseguimos construir uma ponte de empatia. Posso me identificar com crimes hediondos que me falam de experiências em comum, mas não é fácil fazer o mesmo com erros distantes da minha realidade.

O que estamos, afinal, medindo? O crime em si ou  nossa capacidade de compreender os dramas e angústias alheias?

E vejam, os CRIMES precisam ser julgados, mas quem se acha em condições de julgar o criminoso, no emaranhado de significados e significantes que o constitui? Quem atira a primeira pedra?

Eu sei o quão tênue é a linha que separa a barbárie da civilização. Eu consigo perceber que, oferecidas as condições de contexto e circunstância, eu mataria, mesmo sem ter nenhuma intenção e nenhuma justificativa razoável para um ato extremo como esse.

As vezes a direção incerta de uma laranja arremessada de forma irresponsável e tola pode ser a diferença entre o criminoso e o menino abusado.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Assalto

assalto

Minha filha foi assaltada. Um rapaz roubou seu celular e saiu em disparada. Ela saiu atrás gritando histericamente até encontrar uma viatura da polícia. Os policiais a fizeram percorrer na viatura as redondezas do Parque da Redenção, onde ocorreu o roubo, até encontrarem o pobre ladrão.

Reconhecido por ela, foi recolhido ao Palácio da Polícia para o flagrante. Bebel conseguiu recuperar seu celular. Na marra e na coragem.

Onde foi que eu errei? Por que não consegui criar uma filha para ser uma moça bela, recatada e pronta para o lar? Encontrei a Bebel logo depois e ela me contou que quando os policiais interceptaram o rapaz começaram a bater nele. Desnecessário dizer que ele era preto, muito mais preto do que a decência branca determina. Ele roubou a mulher branca, safado, degenerado. Como ousa???

Ato contínuo à imobilização imediata, e já indefeso, os policiais lhe aplicaram vários tapas, mais para humilhar do que para machucar, mas ouviram os protestos de Bebel.

– Hei, ele já foi imobilizado. Já pegamos o celular. Não há razão alguma para bater nele! Parem!

Os policiais relaxaram a pressão sobre seu corpo forte e negro, mas não se furtaram ao comentário óbvio.

– Ah… você é uma dessas. Não gosta que batam em ladrão. Pois fique sabendo, mocinha, que…

Bebel o interrompeu com o dedo indicador à proa

– Fiquem vocês sabendo que quem bate em uma pessoa que não pode se defender é bandido. O comportamento de vocês deve ser diferente daqueles a quem vocês perseguem.

Recebeu como resposta um riso debochado, mas surtiu efeito. Eles o algemaram, mas não foi mais agredido.

Há quem sustente que bater num bandido que acabou de lhe assaltar é algo normal e que deveria ser estimulado. Tivesse Bebel se associado ao espancamento e muitos diriam “Seus socos e sopapos me representam“.

A mim não representam e sei que muitas pessoas concordam comigo. Nossa resposta, enquanto pessoas ou sociedade, não pode ser na mesma sintonia daqueles a quem criticamos. Se algum exemplo de fraternidade precisa acontecer, que venha de nós. Só com o perdão se quebra o ciclo de ódio.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Violência Infantil

maltrato-infantil-030513

Espancamento de crianças ainda é um FATO, e centenas de pessoas o aprovam. Acreditem, eu mesmo vi comentários sobre um clip que está rolando na Internet sobre uma mulher que bate no filho com um cinto e um policial dá um sermão na criança dizendo que ele mesmo faria isso se ele ousasse reclamar novamente. Os comentários abaixo desse clip são horrendos e absolutamente inaceitáveis. Todavia, eu acho que eles escondem uma outra realidade. Eu creio que a maioria das pessoas que escreve a FAVOR das chineladas sofreu este tipo de violência na infância. Ser a favor disso é uma forma de mostrar amor pelos seus pais, e tentar retirar de quem se gosta esta culpa. Isso acontece com as mulheres que protegem seus obstetras depois de uma cesariana claramente desnecessária.

Vi isso milhares de vezes na Internet nos últimos 15 anos escrevendo em redes sociais, de “list servers” a Facebook. Mulheres submetidas a cesarianas defendiam seus médicos até o último argumento, dizendo que ele era consciente, que cordão enrolado era perigoso, que ele não permite “passar da hora”, que ele a protegeu da dor excruciante, que ele agiu de boa fé, que ele apoia o parto mas não é fanático e assim por diante. A “queda” que se seguia para algumas era normalmente espetacular. O momento em que se percebe que, por mais que você tenha afeto pelo profissional, ele lhe enganou, é terrível, e demanda muita coragem. Nós protegemos os nossos seres amados mais importantes, os pais, da mesma maneira, e por isso negamos que as palmadas tenham deixado marcas.

Eu apanhei do meu pai por causa de travessuras, mas tenho certeza que ele não se orgulha disso. Provavelmente hoje ele diria: “Estávamos nos anos 60. Era o modelo. A gente batia para impedir que más condutas se mantivessem, e tínhamos boas intenções. Educar era assim. A gente era a favor da virgindade, contra o divórcio, contra maconha, e tudo isso está caindo hoje em dia. O mundo muda, os valores se modificam, e só podemos ser julgados em nosso próprio tempo.”

Eu prefiro acreditar que as virtudes de um homem são dele, os pecados são de sua época. O que era racismo no século XVIII é diferente do que é hoje, pelo menos do ponto de vista do julgamento social, mesmo que os atos sejam os mesmos. Muitas coisas que fazemos hoje serão consideradas crimes inaceitáveis no futuro. Você acharia justo ser chamado de “assassino” por comer hoje carne de outros animais, coisa que no século XXII será proscrita? Ou comer carne é do nosso tempo, e tal fato só pode ser julgado pelos valores de agora?

O que eu acho incorreto é que HOJE, depois de tanta informação a respeito dos padrões que se repetem, criança espancada —> adulto espancador, ainda haja MUITA gente que defende esse paradigma. Gente demais, eu diria. Uma coisa é você bater no seu filho em desespero – por não saber o que fazer e se sentir pressionado – e ENTENDER que não se deve fazer isso. “Mea culpa, mea máxima culpa“, porque também agi assim. Outra coisa é bater em crianças que estão crescendo, que cometem erros, que estão olhando para o valores do mundo e tentando aprender com cada experiência, e achar que sua violência está “educando”.

Pior mesmo é vangloriar-se disso e chamar a todos os outros de idiotas.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais