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Argumentos sobre o abraço

De todos os argumentos para defender a atitude de Dráuzio existem dois com os quais não concordo, mas que são usados por gente da esquerda amiúde.

O primeiro se refere à ideia de que Dráuzio não sabia o crime cometido por Suzy – no que eu acredito. Entretanto, as pessoas afirmam que, caso soubesse, não deveria fazer a matéria. Pois eu discordo. É exatamente nos extremos da perversidade onde encontramos a face mais terrível do ser humano. E o que mais nos causa horror é que nesse recanto sombrio da alma humana sempre encontramos um espelho. Se Dráuzio se negasse a abraçar por saber do crime, estaria sendo o juiz que insistiu em não ser.

Em segundo lugar vejo as pessoas dizendo que Dráuzio estava ali como médico. Ora, é evidente que não. Dráuzio é médico, mas sua ação NÃO foi médica, foi jornalística. Sua atitude como funcionário da Globo foi realizar uma reportagem, não uma ação profissional médica. Uma consulta médica não se propõe a ser espetacular e pública. Também não se presta a ser “Fantástica”, mas procura garantir intimidade, profundidade e – essencial!! – privacidade. O objetivo da entrevista não era semiótica, no sentido de descobrir causas e auxiliar um paciente em suas dificuldades, mas procurava expor um problema comum de prisioneiras trans. Dráuzio foi jornalista – como tantas vezes foi – mas não o médico de Suzy naqueles momentos em que ocorreu a matéria.

Pode-se arguir que ele se portou como “cientista e pesquisador”, mas mesmo neste caso ele falhou terrivelmente ao expor seu entrevistado ao risco. Mesmo nas entrevistas de pesquisa os colaboradores precisam ser protegidos através do anonimato. Suzy agora corre riscos na penitenciária por ter seu passado exposto. Cientistas pesquisadores sequer precisam ser médicos para coletar dados.

O abraço de Dráuzio não foi uma ação de um médico; foi um ato humano de empatia, compaixão e afeto. Não julgar não é uma virtude médica, mas uma ação humana digna de elogios.

Eu tenho facilidade em desenvolver empatia com todos esses bandidos cujos rostos são estampados nos telejornais para o gozo do ódio coletivo. A razão para isso é porque – sem dúvida alguma – eu não me considero muito diferente deles. O que nos difere – a mim e aos criminosos – é uma série de pequenos e grandes privilégios, alguns evidentes e outros escondidos nos detalhes de uma vida. Um pai existente, um teto, água corrente, energia eletrica, uma mãe amorosa, irmãos, ética, livros, bons exemplos, escola, comida… enfim, detalhes que só nos ocorrem quando os perdemos.

Quando eu vejo essas pessoas, os deserdados, os párias, os feios, sujos e malvados, honestamente não consigo enxergar nada de tão distante do que sou em essência, apenas diferenças nas rotas que seguimos guiados pelas circunstâncias e pelos contextos.

Acho que o ódio ao criminoso fala muito mais das nossas fraquezas e fragilidades do que das perversões que ele cometeu.

Continuarei achando sua atitude humana, correta, justa, afetuosa e compassiva. Entretanto, ele não a fez por ser um profissional médico, mas por ser um bom ser humano.

Claro que Suzy é TAMBÉM vitima!!!! Que maniqueísmo insensato!! Parece pergunta pra casal que se separa: “de quem foi a culpa?”.

Ora, todos somos vítimas e algozes de muitas coisas na vida. Um casal, via de regra, se separa por uma miríade de fatores, onde as posições subjetivas se alternam entre a vítima e o opressor, atuando com mudos silêncios, raivas, decepções e solidão que ambos compartilham. Um crime horroroso também tem suas origens, muitas vezes recheada com fatos obscuros e inconscientes.

Suzy é vítima do preconceito por ser trans, gay, pobre, negra e marginal. Mas ao mesmo tempo é CRIMINOSA por ter cometido um crime hediondo que a muitos chocou. Vítima e criminosa, qual a dificuldade de entender que somos seres com múltiplas facetas?

O erro infantil de uma parte vingativa da direita bolsonarista é imaginar que sua condição de vítima a desculparia dos erros cometidos. Que tolice!! Apenas mostra que erros – mesmo os mais brutais – podem ser a culminância de uma corrente gigantesca de circunstâncias, contextos, traumas, dores, ressentimentos, violência e dramas terríveis, dos quais a nossa vidinha de classe média não nos permite sequer imaginar.

O fato de ela também ser vítima de inúmeros crimes cometidos contra si não a inocenta de nada, mas a humaniza.

O problema do crime da Suzy e sua questão central, como sempre… é o perdão. A imensa maioria das pessoas acredita que perdoar alguém é o mesmo que inocentá-lo dos seus crimes. Errado; perdoar não significa negar crimes ou minimizar sua gravidade. Perdoar é um ATO SOLITÁRIO e subjetivo. Para além disso, o ato de perdoar é uma demonstração de liberdade em relação ao criminoso.

Quem perdoa de verdade está simplesmente dizendo: “Eu lhe entendo. O que há de humano em mim compreende o que há de humano em você”. Isso jamais significaria negar a violência de um crime, muito menos a reparação que tais crimes demandam. Significa apenas que a distância humana que separa qualquer um de nós do mais doentio dos criminosos pode ser colocada em perspectiva. Somos muito mais parecidos entre nós do que imaginamos. Assumir posturas duras e inexoráveis é criar a ficção arrogante de que jamais faríamos o que um criminoso faz – ou um dia fez.

Mentira. Se cada um tivesse andado mil quilômetros calçando as sapatilhas desses meninos sem pai, sem paz, sem proteção contra os abusos, sem amor, sem afeto, sem condições econômicas mínimas e ainda envoltos em uma sociedade que premia o sucesso e despreza o fracasso, jamais teria coragem de apontar tantos dedos para quem sucumbiu ao crime e ao delito.

Portanto, o perdão é o reconhecimento humilde da proximidade que temos com os que caíram no abismo do crime. Abraçar um estuprador ou assassino significa mais do que dizer da nossa solidariedade com sua solidão e sua dor; significa também aceitar a fragilidade das diferenças entre nós e o detento, entre as “pessoas de bem” e os criminosos.

A recusa em entender isso significa não apenas a dificuldade em compreender o que leva alguém a delinquir, mas também a incapacidade de reconhecer a proximidade humana que todos temos com quem erra.

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Fim dos Tempos

Você aí, petralha, esquerdista, que luta pelos direitos humanos, pela liberdade, pela organização sindical, pela diversidade, a favor do casamento gay, contra o racismo e o machismo, contra a misoginia e pela extinção do fascismo.

Pense o seguinte…… cada vez que você grita “cadeia para…”, ou quando sua indignação o(a) leva a pedir a prisão de qualquer pessoa (de políticos, policiais, traficantes, bandidos, Richtofen e até o goleiro Bruno) lembre que o encarceramento é uma estratégia neoliberal e de direita. Esta ideologia determina que os condicionantes para a prática de qualquer crime NÃO são socialmente determinados, mas tão somente escolhas pessoais, direcionadas pela moral subjetiva.

Nada mais falso e meritocrático. O crime é, segundo Emile Durkheim, um fato social que só pode existir alicerçado em vários outros determinantes sociais, sendo absurda a ideia de que ele venha a ocorrer apenas pela livre volição de um sujeito cujo passado é uma folha em branco. Gritar pelo aprisionamento de sujeitos que cometeram erros faz parte da ideologia dominante que separa as pessoas entre bandidos e “cidadãos de bem”. Quem luta por este tipo de vingança social e se diverte vendo o criminoso “pagar pelos seus erros” com a própria dignidade – e a vida – não consegue entender a longa conexão entre o crime cometido e o passado de abusos e violências que estrutura esse criminoso.

Essa indignação que “pede sangue” também pode ser entendida e contextualizada, mas jamais será um discurso solidário, inclusivo e de esquerda.

Veja mais aqui sobre o tema, no excelente vídeo do “Coisas que você precisa saber“, em “Fim dos Tempos” com Igor Leone.

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Abolicionismo

*Bota na cadeia e joga fora a chave!!!*

Peço humildemente que pensem um pouco sobre o uso dessa retórica para se referir às personalidades das quais discordamos no cenário atual. Creio que é importante que troquemos esse discurso agressivo de exigir a prisão dos nossos adversários. Não importa quem sejam; ninguém precisa ir para a prisão e perder seu bem mais valioso: a liberdade.

Nenhum criminoso se cura numa prisão e a sociedade não melhora quanto mais construímos cadeias e presídios. Presídios são como avenidas: abri-las não melhora o tráfego, pois convida mais motoristas a dirigir por elas. Presídios apenas produzem a reciclagem de criminosos, que são o produto inexorável de uma sociedade intrinsecamente injusta.

Vamos deixar de lado por um breve instante os assassinos cruéis e os perversos, que são muito menos do que 0.1% dos prisioneiros, e focar na grande massa de apenados que lá estão pelo apartheid social e racial do nosso planeta. Sobre estes sujeitos – cujo afeto foi destruído por vivências precoces catastróficas – precisamos descobrir alternativas que não se choquem com os direitos humanos, mas que protejam a sociedade.

Mandar “prender, matar e arrebentar” é o discurso de personagens como Moro e Dalanhol e de boa parte da blogosfera nazifascista. É o discurso fascista travestido de “justiça depurativa”. Essa é a fala da direita punitivista – botar os maus na cadeia para sobrarem apenas os “cidadãos de bem” – invariavelmente brancos e de classe média. Nós da esquerda progressista precisamos oferecer uma alternativa humanista, solidária e compreensiva melhor do que esta.

E isso não tem NADA a ver com abrir mão da necessária indignação com o estado de coisas contemporâneo!!! Se me permitem a audácia, peço que comecemos a nos expressar de uma forma mais justa e em sintonia com nossa visão de mundo. Precisamos exigir que as pessoas que destroem nosso país “sejam responsabilizadas“, que “paguem pelo seu erro“, ou que “ofereçam o devido ressarcimento à sociedade pelo mal que fizeram“, mas sem continuar incluindo em nosso discurso os métodos desumanos e medievais que não representam os ideais de solidariedade e fraternidade que trazemos ao debate com nossas propostas e ideias.

Não se associar ao discurso malévolo da direita fascista e dos punitivistas racistas é uma ferramenta fundamental para mudar a narrativa de forma global e, assim, mostrar o quanto a violência gera apenas mais violência e não nos oferece nenhuma solução para os dilemas sociais.

Uma sociedade sem prisões é uma utopia da esquerda – solidária, humana e justa. Cabe a nós devolvermos toda essa violência com uma postura superior e acolhedora.

Abolicionismo penal já!!
Por um mundo SEM prisões!!

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Papa

Na boa… não precisa ficar dando sermão dizendo que o Francisco também é “humano” como cada um de nós. Não tem justificativa para o que ele fez. Está errado, e muito. Ele é exemplo para o mundo inteiro. Se fosse ele um cantor de Heavy Metal estaria errado, seria atacado por comentaristas de música e entretenimento do mundo todo, mas para um líder mundial que prega a “paz e a tolerância entre os povos”… nem se fala.

Sejamos francos: a atitude dele foi absurda, grosseira, violenta e injustificável. Quanto mais eu vejo a fúria nos seus olhos mais eu me assombro com o seu despreparo para a fama e a posição de líder espiritual de mais de 1 bilhão de pessoas. Mas, como sempre, tem gente passando pano, perdoando, chamando-o de “humano” e ressaltando que ele é o primeiro Papa que pediu desculpas publicamente, o que demonstra que quando gostamos e admiramos alguém TUDO pode ser perdoado e contextualizado, mas quando não gostamos até o mais banal dos deslizes passa a ser um pecado capital.

Não seria necessário bater na mão mulher. Os seguranças já estavam a postos. Quando explicamos que não se bate em criança ou que desprezamos a violência é DISSO que estamos falando. Quando falamos que agressões não educam é a esse tipo de ato que nos referimos. Quando dizemos que a violência nunca é a melhor resposta, ou quando lembramos de “dar a outra face”, é sobre este tipo de atitude.

Portanto, não precisa defender tanto o Papa porque até ele está envergonhado do péssimo exemplo que deu. E tem mais: ele já pediu desculpas e o reconhecimento do erro é essencial. Já vi textos por aí insinuando que ele se “machucou” com o puxão (??) e que a moça era uma “fanática”. Sério? Por segurar a mão do seu ídolo? Que absurdo.

Que o Papa aprenda essa lição e seja mais humilde. Aliás, por que não convidam esta senhora para um café com o Sumo Pontífice como um gesto de desculpas públicas?

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Greta

As atitudes de Greta incomodam o “establishment” por servirem de contraponto às posições hegemônicas. Greta ataca o cerne do capitalismo destruidor e autocida. Esta é a origem do “backlash” às suas palavras e atos. O que incomoda em seu discurso não é o fato de ser mulher, autista ou jovem, mas por representar uma vertente política que se contrapõe ao modelo de desmonte da natureza que agora está em curso. As ações de Greta são muito mais importantes do que seu gênero, idade ou condição. Ela é atacada por trazer evidências incontestes da nossa estupidez e egoísmo e jogá-las na cara dos poderosos. Seu rosto infantil e sua figura miúda funcionam como um potente veículo para transmitir a ideia de que, como ela, o meio ambiente é frágil e delicado e, por isso mesmo, precisa ser protegido.

Não é difícil entender a revolta de setores conservadores, nem sua natural virulência.

Por muitos anos testemunhei o peso que representa pensar fora das caixas estreitas da corporação. Atender em hospitais com 90% de cesarianas e ainda assim lutar pela autonomia das mulheres e seu direito de escolha pelo parto normal sempre foi visto como uma grave ofensa. As atitudes dos “diferentes” os “do contra” são tomadas como agressões a um modo de pensar que é assumido pela maioria, mesmo quando ilegal ou agressivo.

O parto humanizado no ambiente da cesariana oportunista, o respeito aos direitos humanos no universo policial, a lisura na política e a postura ecológica e sustentável no trato do meio ambiente ofendem aqueles que lucram com as posturas violentas, agressivas e desrespeitosas, em especial para os que estão em posição de poder.

Como o debate racional se torna perigoso – pois os argumentos e as evidências sustentam as posturas em oposição aos modelos atuais – a forma mais eficaz de combater as ideias incômodas – verdades inconvenientes – é atacar os mensageiros e destruir sua reputação. Com Greta não seria diferente.

Entretanto, seria ingenuidade imaginar que alguém tocasse na ferida exposta do capitalismo predatório e suicida sem receber os ataques inevitáveis do paradigma moribundo. Greta terá o mesmo tratamento cruel que muitos recebem quando decidem expor suas paixões e suas propostas.

Sua resiliência será posta à prova.

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