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Serra

José Serra deveria ser preso se comprovado que cometeu crimes?

Se José Serra cometeu os crimes pelos quais é suspeito, que se estabeleça algum tipo de reparação. Combater o primitivismo no judiciário e na cultura não significa aceitar a impunidade, mas imaginar que a retirada da liberdade de alguém deveria ser revestida de uma extrema excepcionalidade, reservada para casos de risco iminente à vida das pessoas.

Todavia, prisão para idosos é pura crueldade e não é solução para nada. Pelo menos no Brasil não é, mas desafio que me apresentem algum país desenvolvido que acredita em encarceramento como remédio adequado para a criminalidade – e que não seja o catastrófico exemplo da sede do Império.

Vou mais adiante: se Serra fosse preso sairíamos todos perdendo. O país, por ter que arcar com acomodações e cuidados médicos de um sujeito depauperado dentro de um sistema penitenciário sem recursos e falido e o criminoso por ser exposto a um tratamento cruel e desumano dentro dos nossos presídios superlotados. Também é digno de nota que este sujeito em especial já é prisioneiro de sua condição de saúde frágil.

Aliás, não esqueçam que não há nada mais à direita no espectro politico – e até fascista – do que desejar que seus adversários sejam presos. Quem é de esquerda é abolicionista penal, recusa o encarceramento como punição padrão para os crimes, tanto quanto é contrário à uma policia militarizada, cruel e genocida. Quem gosta de sair gritando “prendam”, “que apodreçam na cadeia” está infectado por uma ideologia punitivista arcaica, derivada da contaminação por filmes americanos, onde se anda de pistola na cintura, exaltam-se justiceiros e o ícone máximo é a cadeira elétrica.

É preciso amassar esses velhos conceitos e jogá-los na lata de lixo da história.

Por uma questão de justiça eu gostaria apenas de complementar dizendo que, a despeito de erros que porventura tenha cometido, José Serra fez uma excelente administração no Ministério da Saúde, onde plantou as sementes para programas importantes até nos governos do PT, em especial no que diz respeito às políticas de saúde para a mulher e as bases da humanização do nascimento.

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Tragédias cotidianas

Não quero ler sobre esse fato do menino que faleceu aqui no Estado. Escutar os relatos me causa dor e angústia. Parece muito com aquela outra historia, igualmente brutal, do menino do Norte do estado, cujo pai é um cirurgião. Muito triste, muito desesperador.

Pior ainda é o fato de que a gente acaba se revoltando, sentindo raiva e indignação, mas o ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contêm. Odiar é destrutivo, envelhece o corpo e calcifica a alma.

O que se segue a esses crimes é quase tão ruim quanto a morte em si: uma onda de identificações, ódio, ressentimentos eruptivos, raiva incontida e sentimentos de vingança. Esse clima é horrível. Eu lembrei agora imediatamente do julgamento dos Nardoni quando pessoas saiam de suas casas e iam para a frente do fórum com cartazes de “assassinos”, “pena de morte”, etc. Eu pensava: “O que move essas pessoas? Sãoo pessoas comuns, que souberam do caso pela TV!! Que gozo condenatório é esse?“. Depois eu pensava na turba ensandecida que gozava vendo os leões comendo criminosos no Circus Romano ou gargalhava olhando as bruxas sendo queimadas pela inquisição e penso que tais personagens continuam a existir nos dias de hoje, com cartazes no lugar de archotes, mas com a mesma raiva doentia a escorrer pelo canto da boca.

Pelo menos agora vejo pessoas se perguntando “o que leva uma mulher a cometer um ato de tamanha violência?“. Pois esta pergunta, que nos impele à empatia, é o que nos livra dos dedos apontados, da dureza, da inexorabilidade. Tentar se colocar nos sapatos de um criminoso e perceber o mundo através de seus olhos é uma tarefa tão difícil quanto sublime.

Espero apenas que esse menino tenha paz e essa mãe a justiça.

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Argumentos sobre o abraço

De todos os argumentos para defender a atitude de Dráuzio existem dois com os quais não concordo, mas que são usados por gente da esquerda amiúde.

O primeiro se refere à ideia de que Dráuzio não sabia o crime cometido por Suzy – no que eu acredito. Entretanto, as pessoas afirmam que, caso soubesse, não deveria fazer a matéria. Pois eu discordo. É exatamente nos extremos da perversidade onde encontramos a face mais terrível do ser humano. E o que mais nos causa horror é que nesse recanto sombrio da alma humana sempre encontramos um espelho. Se Dráuzio se negasse a abraçar por saber do crime, estaria sendo o juiz que insistiu em não ser.

Em segundo lugar vejo as pessoas dizendo que Dráuzio estava ali como médico. Ora, é evidente que não. Dráuzio é médico, mas sua ação NÃO foi médica, foi jornalística. Sua atitude como funcionário da Globo foi realizar uma reportagem, não uma ação profissional médica. Uma consulta médica não se propõe a ser espetacular e pública. Também não se presta a ser “Fantástica”, mas procura garantir intimidade, profundidade e – essencial!! – privacidade. O objetivo da entrevista não era semiótica, no sentido de descobrir causas e auxiliar um paciente em suas dificuldades, mas procurava expor um problema comum de prisioneiras trans. Dráuzio foi jornalista – como tantas vezes foi – mas não o médico de Suzy naqueles momentos em que ocorreu a matéria.

Pode-se arguir que ele se portou como “cientista e pesquisador”, mas mesmo neste caso ele falhou terrivelmente ao expor seu entrevistado ao risco. Mesmo nas entrevistas de pesquisa os colaboradores precisam ser protegidos através do anonimato. Suzy agora corre riscos na penitenciária por ter seu passado exposto. Cientistas pesquisadores sequer precisam ser médicos para coletar dados.

O abraço de Dráuzio não foi uma ação de um médico; foi um ato humano de empatia, compaixão e afeto. Não julgar não é uma virtude médica, mas uma ação humana digna de elogios.

Eu tenho facilidade em desenvolver empatia com todos esses bandidos cujos rostos são estampados nos telejornais para o gozo do ódio coletivo. A razão para isso é porque – sem dúvida alguma – eu não me considero muito diferente deles. O que nos difere – a mim e aos criminosos – é uma série de pequenos e grandes privilégios, alguns evidentes e outros escondidos nos detalhes de uma vida. Um pai existente, um teto, água corrente, energia eletrica, uma mãe amorosa, irmãos, ética, livros, bons exemplos, escola, comida… enfim, detalhes que só nos ocorrem quando os perdemos.

Quando eu vejo essas pessoas, os deserdados, os párias, os feios, sujos e malvados, honestamente não consigo enxergar nada de tão distante do que sou em essência, apenas diferenças nas rotas que seguimos guiados pelas circunstâncias e pelos contextos.

Acho que o ódio ao criminoso fala muito mais das nossas fraquezas e fragilidades do que das perversões que ele cometeu.

Continuarei achando sua atitude humana, correta, justa, afetuosa e compassiva. Entretanto, ele não a fez por ser um profissional médico, mas por ser um bom ser humano.

Claro que Suzy é TAMBÉM vitima!!!! Que maniqueísmo insensato!! Parece pergunta pra casal que se separa: “de quem foi a culpa?”.

Ora, todos somos vítimas e algozes de muitas coisas na vida. Um casal, via de regra, se separa por uma miríade de fatores, onde as posições subjetivas se alternam entre a vítima e o opressor, atuando com mudos silêncios, raivas, decepções e solidão que ambos compartilham. Um crime horroroso também tem suas origens, muitas vezes recheada com fatos obscuros e inconscientes.

Suzy é vítima do preconceito por ser trans, gay, pobre, negra e marginal. Mas ao mesmo tempo é CRIMINOSA por ter cometido um crime hediondo que a muitos chocou. Vítima e criminosa, qual a dificuldade de entender que somos seres com múltiplas facetas?

O erro infantil de uma parte vingativa da direita bolsonarista é imaginar que sua condição de vítima a desculparia dos erros cometidos. Que tolice!! Apenas mostra que erros – mesmo os mais brutais – podem ser a culminância de uma corrente gigantesca de circunstâncias, contextos, traumas, dores, ressentimentos, violência e dramas terríveis, dos quais a nossa vidinha de classe média não nos permite sequer imaginar.

O fato de ela também ser vítima de inúmeros crimes cometidos contra si não a inocenta de nada, mas a humaniza.

O problema do crime da Suzy e sua questão central, como sempre… é o perdão. A imensa maioria das pessoas acredita que perdoar alguém é o mesmo que inocentá-lo dos seus crimes. Errado; perdoar não significa negar crimes ou minimizar sua gravidade. Perdoar é um ATO SOLITÁRIO e subjetivo. Para além disso, o ato de perdoar é uma demonstração de liberdade em relação ao criminoso.

Quem perdoa de verdade está simplesmente dizendo: “Eu lhe entendo. O que há de humano em mim compreende o que há de humano em você”. Isso jamais significaria negar a violência de um crime, muito menos a reparação que tais crimes demandam. Significa apenas que a distância humana que separa qualquer um de nós do mais doentio dos criminosos pode ser colocada em perspectiva. Somos muito mais parecidos entre nós do que imaginamos. Assumir posturas duras e inexoráveis é criar a ficção arrogante de que jamais faríamos o que um criminoso faz – ou um dia fez.

Mentira. Se cada um tivesse andado mil quilômetros calçando as sapatilhas desses meninos sem pai, sem paz, sem proteção contra os abusos, sem amor, sem afeto, sem condições econômicas mínimas e ainda envoltos em uma sociedade que premia o sucesso e despreza o fracasso, jamais teria coragem de apontar tantos dedos para quem sucumbiu ao crime e ao delito.

Portanto, o perdão é o reconhecimento humilde da proximidade que temos com os que caíram no abismo do crime. Abraçar um estuprador ou assassino significa mais do que dizer da nossa solidariedade com sua solidão e sua dor; significa também aceitar a fragilidade das diferenças entre nós e o detento, entre as “pessoas de bem” e os criminosos.

A recusa em entender isso significa não apenas a dificuldade em compreender o que leva alguém a delinquir, mas também a incapacidade de reconhecer a proximidade humana que todos temos com quem erra.

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Fim dos Tempos

Você aí, petralha, esquerdista, que luta pelos direitos humanos, pela liberdade, pela organização sindical, pela diversidade, a favor do casamento gay, contra o racismo e o machismo, contra a misoginia e pela extinção do fascismo.

Pense o seguinte…… cada vez que você grita “cadeia para…”, ou quando sua indignação o(a) leva a pedir a prisão de qualquer pessoa (de políticos, policiais, traficantes, bandidos, Richtofen e até o goleiro Bruno) lembre que o encarceramento é uma estratégia neoliberal e de direita. Esta ideologia determina que os condicionantes para a prática de qualquer crime NÃO são socialmente determinados, mas tão somente escolhas pessoais, direcionadas pela moral subjetiva.

Nada mais falso e meritocrático. O crime é, segundo Emile Durkheim, um fato social que só pode existir alicerçado em vários outros determinantes sociais, sendo absurda a ideia de que ele venha a ocorrer apenas pela livre volição de um sujeito cujo passado é uma folha em branco. Gritar pelo aprisionamento de sujeitos que cometeram erros faz parte da ideologia dominante que separa as pessoas entre bandidos e “cidadãos de bem”. Quem luta por este tipo de vingança social e se diverte vendo o criminoso “pagar pelos seus erros” com a própria dignidade – e a vida – não consegue entender a longa conexão entre o crime cometido e o passado de abusos e violências que estrutura esse criminoso.

Essa indignação que “pede sangue” também pode ser entendida e contextualizada, mas jamais será um discurso solidário, inclusivo e de esquerda.

Veja mais aqui sobre o tema, no excelente vídeo do “Coisas que você precisa saber“, em “Fim dos Tempos” com Igor Leone.

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Abolicionismo

*Bota na cadeia e joga fora a chave!!!*

Peço humildemente que pensem um pouco sobre o uso dessa retórica para se referir às personalidades das quais discordamos no cenário atual. Creio que é importante que troquemos esse discurso agressivo de exigir a prisão dos nossos adversários. Não importa quem sejam; ninguém precisa ir para a prisão e perder seu bem mais valioso: a liberdade.

Nenhum criminoso se cura numa prisão e a sociedade não melhora quanto mais construímos cadeias e presídios. Presídios são como avenidas: abri-las não melhora o tráfego, pois convida mais motoristas a dirigir por elas. Presídios apenas produzem a reciclagem de criminosos, que são o produto inexorável de uma sociedade intrinsecamente injusta.

Vamos deixar de lado por um breve instante os assassinos cruéis e os perversos, que são muito menos do que 0.1% dos prisioneiros, e focar na grande massa de apenados que lá estão pelo apartheid social e racial do nosso planeta. Sobre estes sujeitos – cujo afeto foi destruído por vivências precoces catastróficas – precisamos descobrir alternativas que não se choquem com os direitos humanos, mas que protejam a sociedade.

Mandar “prender, matar e arrebentar” é o discurso de personagens como Moro e Dalanhol e de boa parte da blogosfera nazifascista. É o discurso fascista travestido de “justiça depurativa”. Essa é a fala da direita punitivista – botar os maus na cadeia para sobrarem apenas os “cidadãos de bem” – invariavelmente brancos e de classe média. Nós da esquerda progressista precisamos oferecer uma alternativa humanista, solidária e compreensiva melhor do que esta.

E isso não tem NADA a ver com abrir mão da necessária indignação com o estado de coisas contemporâneo!!! Se me permitem a audácia, peço que comecemos a nos expressar de uma forma mais justa e em sintonia com nossa visão de mundo. Precisamos exigir que as pessoas que destroem nosso país “sejam responsabilizadas“, que “paguem pelo seu erro“, ou que “ofereçam o devido ressarcimento à sociedade pelo mal que fizeram“, mas sem continuar incluindo em nosso discurso os métodos desumanos e medievais que não representam os ideais de solidariedade e fraternidade que trazemos ao debate com nossas propostas e ideias.

Não se associar ao discurso malévolo da direita fascista e dos punitivistas racistas é uma ferramenta fundamental para mudar a narrativa de forma global e, assim, mostrar o quanto a violência gera apenas mais violência e não nos oferece nenhuma solução para os dilemas sociais.

Uma sociedade sem prisões é uma utopia da esquerda – solidária, humana e justa. Cabe a nós devolvermos toda essa violência com uma postura superior e acolhedora.

Abolicionismo penal já!!
Por um mundo SEM prisões!!

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