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Feliz Ano Novo

Há exatamente 39 anos eu estava de plantão como interno (estudante) no Pronto Socorro Cruz Azul em Porto Alegre quando, ao voltar de um atendimento domiciliar na madrugada da virada do ano, nos deparamos com uma cena insólita quando nossa ambulância fez a curva e entrou na Rua Duque de Caxias. Sobre o viaduto Loureiro da Silva jazia, ainda balançando, um Fusca de cabeça para baixo. Quando o avistamos as rodas ainda giravam lentamente, enquanto o capô do carro se apoiava no chão parecendo uma tartaruga derrubada por uma onda mais forte

Paramos nossa viatura a uma certa distância olhando aquela imagem bizarra que contrastava com a rua totalmente deserta nos minutos que antecediam o nascimento do primeiro sol da década de 80. Não havia outro som senão o girar das rodas que aos poucos desaceleravam

Subitamente, duas mãos aparecem na janela do carro tateando o solo e tentando sair. Descemos da ambulância para ajudar, mas antes de chegarmos o sujeito já havia saído totalmente. Colocou-se de pé de forma cambaleante e ficou claro que estava embriagado. Tipo, muito. Vestia uma roupa toda branca combinando com o Fusca da mesma cor.

Há mais alguém no carro? perguntei

Só eu, disse ele enrolando a língua

E você está bem? meu colega indagou.

Claro, exclamou sorrindo. Estou muito bem, só um pouco tonto.

Tonto, sei. Bebeu todas e saiu dirigindo. Podia ter morrido. Só então pude ver que sua calça branca estava rasgada na altura da coxa. Pedi licença e me aproximei para ver se não havia se cortado.

Sente alguma dor? Aqui na perna?

Nada, está tudo bem. Pode seguir seu caminho, vou pegar um táxi e depois volto pra buscar o carro.

Ele não fazia ideia do que estava falando. Imagine deixar um carro virado de “ponta cabeça” na rua e voltar para buscar mais tarde.

Posso ver sua perna?

Ele aquiesceu e eu olhei pela abertura deixada pelo rasgo na calça. Nos meus poucos anos de escola médica nunca tinha visto aquilo. Havia um corte de uns 15 cm de comprimento e muito profundo, mas com pouquíssimo sangue. Uma boca aberta com bordas precisas que pareciam ter sido feitas por bisturi.

Você não está sentindo nada mesmo na perna?

Eu me olhou com assombro e respondeu:

Já disse que não. Acaso encontrou alguma coisa aí?

A cena me trouxe imediatamente à memória uma outra, esta descrita em um livro muito especial: “O Século dos Cirurgiões“, de Jurgen Thornwald. No livro ele descreve a noite em que Horace Wells participava de uma festa em Hartford, no ano de 1844, onde a atração principal da noite era aspirar óxido nitroso até se espatifar no chão de tanto rir. As festas com “gás hilariante” eram comuns naquela época. Nesta em especial Horace estava ao lado de Sam Cooley quando este caiu do tablado e bateu com a canela na quina de uma cadeira. Quando ele, que era dentista prático, examinou a perna de Sam encontrou um rasgão que pela descrição parecia ser do mesmo tamanho deste eu eu testemunhava no motorista do Fusca. Tanto o ferimento do rapaz saindo da festa de Réveillon quanto aquele de meados do século XIX – que estimulou o surgimento da anestesia inalatória – não produziram dor alguma em suas vítimas, tamanha a impregnação de substâncias estupefacientes.

O mesmo tipo de corte e a mesma anestesia. Mais do que uma ação direta sobre as terminações nervosas atingidas era a alteração mental química quem produzira a insensibilidade dolorosa. Mas, se o cérebro é capaz dessa proeza, que mais seria capaz de fazer para suprimir a dor? Alguns anos depois eu veria tais “milagres” ocorrendo no parto.

Pedi que o jovem ébrio entrasse na ambulância para que o levássemos até o Pronto Socorro Municipal, mas não sem uma notável resistência da parte dele. “Não sinto nada; estou bem!!!

E assim começou a década de 80, com um ensinamento muito claro: “Caso venha a capotar seu carro, certifique-se antes que haja uma ambulância bem atrás de você“.

Feliz 2019 a todos.

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Arquivado em Histórias Pessoais