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Tragédias cotidianas

Não quero ler sobre esse fato do menino que faleceu aqui no Estado. Escutar os relatos me causa dor e angústia. Parece muito com aquela outra historia, igualmente brutal, do menino do Norte do estado, cujo pai é um cirurgião. Muito triste, muito desesperador.

Pior ainda é o fato de que a gente acaba se revoltando, sentindo raiva e indignação, mas o ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contêm. Odiar é destrutivo, envelhece o corpo e calcifica a alma.

O que se segue a esses crimes é quase tão ruim quanto a morte em si: uma onda de identificações, ódio, ressentimentos eruptivos, raiva incontida e sentimentos de vingança. Esse clima é horrível. Eu lembrei agora imediatamente do julgamento dos Nardoni quando pessoas saiam de suas casas e iam para a frente do fórum com cartazes de “assassinos”, “pena de morte”, etc. Eu pensava: “O que move essas pessoas? Sãoo pessoas comuns, que souberam do caso pela TV!! Que gozo condenatório é esse?“. Depois eu pensava na turba ensandecida que gozava vendo os leões comendo criminosos no Circus Romano ou gargalhava olhando as bruxas sendo queimadas pela inquisição e penso que tais personagens continuam a existir nos dias de hoje, com cartazes no lugar de archotes, mas com a mesma raiva doentia a escorrer pelo canto da boca.

Pelo menos agora vejo pessoas se perguntando “o que leva uma mulher a cometer um ato de tamanha violência?“. Pois esta pergunta, que nos impele à empatia, é o que nos livra dos dedos apontados, da dureza, da inexorabilidade. Tentar se colocar nos sapatos de um criminoso e perceber o mundo através de seus olhos é uma tarefa tão difícil quanto sublime.

Espero apenas que esse menino tenha paz e essa mãe a justiça.

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Feliz Ano Novo

Há exatamente 39 anos eu estava de plantão como interno (estudante) no Pronto Socorro Cruz Azul em Porto Alegre quando, ao voltar de um atendimento domiciliar na madrugada da virada do ano, nos deparamos com uma cena insólita quando nossa ambulância fez a curva e entrou na Rua Duque de Caxias. Sobre o viaduto Loureiro da Silva jazia, ainda balançando, um Fusca de cabeça para baixo. Quando o avistamos as rodas ainda giravam lentamente, enquanto o capô do carro se apoiava no chão parecendo uma tartaruga derrubada por uma onda mais forte

Paramos nossa viatura a uma certa distância olhando aquela imagem bizarra que contrastava com a rua totalmente deserta nos minutos que antecediam o nascimento do primeiro sol da década de 80. Não havia outro som senão o girar das rodas que aos poucos desaceleravam

Subitamente, duas mãos aparecem na janela do carro tateando o solo e tentando sair. Descemos da ambulância para ajudar, mas antes de chegarmos o sujeito já havia saído totalmente. Colocou-se de pé de forma cambaleante e ficou claro que estava embriagado. Tipo, muito. Vestia uma roupa toda branca combinando com o Fusca da mesma cor.

Há mais alguém no carro? perguntei

Só eu, disse ele enrolando a língua

E você está bem? meu colega indagou.

Claro, exclamou sorrindo. Estou muito bem, só um pouco tonto.

Tonto, sei. Bebeu todas e saiu dirigindo. Podia ter morrido. Só então pude ver que sua calça branca estava rasgada na altura da coxa. Pedi licença e me aproximei para ver se não havia se cortado.

Sente alguma dor? Aqui na perna?

Nada, está tudo bem. Pode seguir seu caminho, vou pegar um táxi e depois volto pra buscar o carro.

Ele não fazia ideia do que estava falando. Imagine deixar um carro virado de “ponta cabeça” na rua e voltar para buscar mais tarde.

Posso ver sua perna?

Ele aquiesceu e eu olhei pela abertura deixada pelo rasgo na calça. Nos meus poucos anos de escola médica nunca tinha visto aquilo. Havia um corte de uns 15 cm de comprimento e muito profundo, mas com pouquíssimo sangue. Uma boca aberta com bordas precisas que pareciam ter sido feitas por bisturi.

Você não está sentindo nada mesmo na perna?

Eu me olhou com assombro e respondeu:

Já disse que não. Acaso encontrou alguma coisa aí?

A cena me trouxe imediatamente à memória uma outra, esta descrita em um livro muito especial: “O Século dos Cirurgiões“, de Jurgen Thornwald. No livro ele descreve a noite em que Horace Wells participava de uma festa em Hartford, no ano de 1844, onde a atração principal da noite era aspirar óxido nitroso até se espatifar no chão de tanto rir. As festas com “gás hilariante” eram comuns naquela época. Nesta em especial Horace estava ao lado de Sam Cooley quando este caiu do tablado e bateu com a canela na quina de uma cadeira. Quando ele, que era dentista prático, examinou a perna de Sam encontrou um rasgão que pela descrição parecia ser do mesmo tamanho deste eu eu testemunhava no motorista do Fusca. Tanto o ferimento do rapaz saindo da festa de Réveillon quanto aquele de meados do século XIX – que estimulou o surgimento da anestesia inalatória – não produziram dor alguma em suas vítimas, tamanha a impregnação de substâncias estupefacientes.

O mesmo tipo de corte e a mesma anestesia. Mais do que uma ação direta sobre as terminações nervosas atingidas era a alteração mental química quem produzira a insensibilidade dolorosa. Mas, se o cérebro é capaz dessa proeza, que mais seria capaz de fazer para suprimir a dor? Alguns anos depois eu veria tais “milagres” ocorrendo no parto.

Pedi que o jovem ébrio entrasse na ambulância para que o levássemos até o Pronto Socorro Municipal, mas não sem uma notável resistência da parte dele. “Não sinto nada; estou bem!!!

E assim começou a década de 80, com um ensinamento muito claro: “Caso venha a capotar seu carro, certifique-se antes que haja uma ambulância bem atrás de você“.

Feliz 2019 a todos.

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A Trágica História de Mastuf e Marisca

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Mastuf, o pastor manco, tropicava pelas colinas e sonhava cortejar a bela Marisca, dona de olhos azuis tão cristalinos que mal nos dávamos pela sua face corada e brilhante, coberto pela franja resplandecente a lhe descer pela testa. Marisca trabalhava no Salão “Harod” no vilarejo de Kungrat. Todos os dias tirava leite de camelo para fazer o queijo que alimentava seus irmãos, limpava o estábulo, arrumava a mesa para o café – onde comiam o Tigrith, pão feito de cevada e azeitonas, e depois caminhava dois quilômetros até o centro da cidade, onde ganhava uns poucos trocados como esteticista. Era linda e meiga, mas muito infeliz, pois lhe faltavam duas coisas: um prendedor de cabelos de cor verde que havia perdido quando foi tirar água do poço e um grande amor em sua vida. Sempre fora cortejada, e por por muitos homens, mas jamais havia se decidido, pois eles apenas se interessavam pelo seu corpo e seu cheiro (as azeitonas do pão Tigrith lhe deixavam com um aroma inconfundível). Isso era pouco.

– Quero que me amem pelo que “sou”, dizia ela, mas poucos conseguiam entender o que uma menina podia querer além de um marido forte e trabalhador.

Mastuf podia ser este homem, pelo menos em suas infindáveis fantasias. Ele sim via nela mais do que um belo par de ancas e uma franja sedutora. Ela era carinhosa com as crianças, em especial seus irmãos menores. Era gentil com os mais velhos e muito esperta. Dificilmente errava quando fazia um penteado ou aparava as unhas de uma cliente. Era hábil com o arado e boa cozinheira. Como não se apaixonar por uma mulher tão cheia de virtudes, belezas e atrativos?

O aldeão um dia resolveu que seria o momento adequado para cortejá-la. Passando próximo ao salão em que ela trabalhava adentrou o pequeno espaço para ver se conseguia vê-la. Não sabia o que dizer, muito menos como iniciar uma conversa com alguém que jamais havia conversado diretamente. Mesmo que ela fosse uma personagem frequente de seus sonhos, um encontro até então era algo impossível. Entrou no modesto salão e girou o olhar pelo ambiente. Umas poucas mesas vazias e um espelho grande na parede eram toda a mobília do lugar. Antes que pudesse falar ou dizer qualquer coisa uma bela jovem se aproximou e, segurando-o pelo braço, perguntou se desejava cortar o cabelo ou arrumar as unhas.

Mastuf congelou. Era ela, a moça bela da aldeia, a quem seus olhos perseguiam sem descanso. Ainda em pânico, e lembrando sua aparência rude e simples, deu a única resposta que lhe parecia sensata:

– Vim fazer as unhas, disse ele com voz trêmula.

Assim, ajeitou-se na modesta cadeira e viu a bela jovem sentar-se à sua frente, segurando delicadamente sua mão calejada de pastor. Provavelmente em toda a sua vida sofrida ele jamais havia sentido tamanha emoção. Imediatamente foi invadido por uma sensação profunda de contentamento e plenitude, sem comparação com qualquer outra em sua vida. Nos poucos minutos em que sua mão esteve sob a guarda das mãos de Marisca o mundo pareceu interromper seu curso e estancar seu giro celeste.

– Vamos começar pelas unhas do polegar, que é o mais forte e o que tem a unha mais suja e grossa, disse ela com um sorriso envergonhado. Retirando delicadamente camadas de sujeira sob a unha, esta foi paulatinamente tornando-se mais clara, límpida e translúcida. As cutículas grosseiras e espetadas foram aos poucos sendo desbastadas, e a poeira que cobria o leito ungueal aos poucos foi saindo. Uma lixa terminaria o serviço, deixando uniformes as irregularidades da unha.

Mastuf fechou os olhos e sua mente vagou para o infinito cósmico, o lar celestial das ninfas. A luz que emanava dos olhos de Marisca perfurava suas pálpebras que, mesmo fechadas, não impediam que este brilho ofuscante impregnasse suas retinas. As ninfas dançavam alegremente ao som de milhares de harpas, embaladas pelos cânticos angelicais da Falange de Herwitt, a deusa dos amores virginais.

Não foi possível a Marisca passar para o próximo dedo, pois foi neste instante que o céu das ninfas se fechou com um trovão avassalador. Subitamente desperto de seu sono, Mastuf pôde observar Korgut, o Alcaide, entrando ruidosamente na pequena sala do Harod. Seu corpo volumoso e seu chapéu pontiagudo assustavam a qualquer um que ousasse cruzar o olhar com ele. Todos sabiam das suas investidas em direção à Marisca, mas ela jamais acolhera nenhuma de suas tentativas. “Ele cheira a alcachofra molhada“, dizia ela aos seus irmãos mais velhos, que apenas davam de ombros e lamentavam que ela refutasse um bom partido.

Certamente que Korgut estava a procura dela, mas não gostou nada de vê-la sozinha na sala atendendo o jovem aldeão. Enfurecido de ciúme apontou-lhe o indicador, acusando-a de vadia, irresponsável, fácil e de “oferecer sorrisos a estranhos como quem vende arenque no mercado“. Marisca só fazia chorar diante do furacão violento de acusações maldosas e injustas. Mastuf, surpreso, nada podia fazer a não ser se afastar.

Depois de uma saraivada de ofensas cuspidas por Korgut em direção à pobre moça, o Alcaide levantou a mão ao ar, para desferir a derradeira ofensa sobre o corpo esquálido da pequena Marisca. Entretanto, para sua surpresa, seu gesto congelou no ar, e seu punho fechado paralisou-se sobre sua cabeça.

Mastuf segurava o pano de sua camisa de seda. Tremendo de medo pela represália, o pobre rapaz ainda assim juntou a coragem suficiente para impedir a pancada do monstro enfurecido pelo ciúme. Korgut, virando-se para o lado, respondeu, atônito, a ousadia do pequeno Mastuf.

– Como ousa me impedir, moleque? Como ousa colocar seu braço sujo de pastor em minha camisa de seda? Quem você pensa ser? Nada mais é do que um mísero cuidador de ovelhas, catador de bolotas, analfabeto e estúpido. Como pensa me interromper? Acaso trouxe seus irmãos e primos? Tem uma armadura a proteger seu peito contra os golpes que vou desferir? Como acha que vai impedir que eu faça a justiça contra uma mulher que me iludiu com seu sorriso meigo e sua face cândida?

Mastuf prendia-se ao braço de Korgut como quem se agarra a um bote salva-vidas. Não ousava largar, pois o punho livre poderia terminar o que havia começado. Temia por si, mas muito mais por Marisca a quem, apesar de amar com toda sua alma, jamais havia confessado seus sentimentos.

Korgut não esperou que Mastuf livrasse seu braço direito, e com um golpe de esquerda jogou-o para longe. O corpo esquálido cruzou a sala e foi chocar-se contra a parede à frente, fazendo estilhaçar o espelho em milhões de imagens de horror e pânico a refletir seu rosto. A dor era menor do que o medo da próxima investida. O sangue escorria pela boca, cujo lábio rasgado permitia o curso livre de um córrego de sangue. Os ouvidos zuniam pela potência do soco, que fizera balançar toda a arquitetura de seu crânio. Levantando-se sofregamente segurou-se na cadeira rústica que até então estivera sentado e derrubou a mesa de utensílios usada por Marisca para corrigir os defeitos de seus dedos toscos. Ainda tentando se erguer viu o corpanzil de Korgut aproximar-se para mais um ataque.

Desta vez a potência do choque foi sentida diretamente na boca do estômago. O pobre aldeão teve a sensação de sentir as vísceras saltarem pela boca afora. O sangue inundava seu rosto e sua boca, pintando de rubro a cena de violência brutal. Korgut tinha os olhos inflamados, saltados para fora de suas órbitas e totalmente cegos de ódio e ciúme. Seus ouvidos também eram surdos para os gritos de Marisca, que implorava piedade, que não atacasse o pobre rapaz e que tivesse compaixão pela sua alma, a meio passo entre este mundo e Astárides, o céu das ninfas que há poucos minutos enchera de alegria o agora moribundo.

Caído ao solo com o estômago esmagado e o rosto desfigurado nada mais restava a Mastuf do que esperar o derradeiro golpe. Que viesse com presteza, sem dó, para que a passagem fosse rápida, o mais indolor possível. Preferia assim, mesmo que soubesse a dureza de partir sem a despedida de suas ovelhas amadas, mas, acima de tudo, sem ter a oportunidade de declarar a Marisca todo o seu amor e seu desejo.

O monstro gigante ficava cada vez maior a cada passo que dava ao se aproximar de seu corpo caído. Os objetos da manicure espalharam-se pelo chão da sala fazendo uma aterradora algazarra. Um pequeno pote de barro, uma jarra d’água vazia, sangue, cabelos, minúsculas unhas cortadas, lágrimas, afastadores de cutícula e uma tesoura. O cenário à frente de Mastuf parecia ser a derradeira imagem que ele veria nesta curta e sofrida vida. Fechou os olhos e esperou o golpe final.

Um grito surdo e longo, aterrador e dramático, cruzou a sala. Marisca cala suas súplicas e um vazio eterno de alguns segundos encheu a sala da manicure de silêncio. O Alcaide abre os olhos pela última vez e cai ao chão fulminado. Estatelado ao solo, quase sem vida, ainda olha para o peito e encontra, cravado em seu coração, a tesoura de Marisca.

No limiar de suas forças Mastuf rastejou até a pequena tesoura cortadora de unhas que jazia próximo de seus pés. Tão preocupado estava Korgut de aplicar o golpe mortal derradeiro que sequer se importou com o rápido movimento de seu oponente. O golpe foi sutil, rápido, preciso e fatal. A pequena tesoura de ponta aguda penetrou o peito do homenzarrão entre as costelas, atingindo a câmara inferior esquerda de seu coração frio.

Marisca voltou a chorar e atirou-se sobre o corpo de Mastuf, que jazia inerme. Com o pouco de força que tinha em seus braços a moça ergueu o corpo ferido de Mastuf e colocou-o sentado contra a parede. O sangue estava por toda a parte, seus dentes eram pura vermelhidão, e sua face era pálida como Zillut, a águia branca da neve. Sua respiração era ofegante e seu olhar pesado. Suas mãos trêmulas seguraram as de Marisca sem força e sem cor.

– Perdão Marisca…

– Porque me pedes perdão, Mastuf, se acaba de me salvar a vida?

A voz desaparecia como os últimos raios de sol ao entardecer, mas ainda conseguiu completar sua derradeira frase.

– Perdão por nunca dizer que te amei desde que te vi pela primeira vez. Perdão por deixar o tempo passar e só te dizer quando nada mais importava. Desculpe por nunca ter te oferecido o amor que merecias. Perdão, perdão…

Marisca chorava a dor de uma perda irreparável. O amor que sempre sonhou, construído na nobreza e na bravura, se esvaía por entre seus dedos. O rosto de Mastuf ficava cada vez mais frio, sua voz mais baixa. Ele estava partindo.

Marisca aproximou seu rosto mais uma vez para poder olhar o corpo caído quase sem vida de seu salvador. Se existe nobreza e virtude em uma morte aquela seria a escolhida pelos mais puros e fiéis servidores do Criador. Soltou o corpo de Mastuf e com suas mãos suaves e limpas fechou-lhe os olhos vítreos.

O peão simplório fechou os olhos, enquanto sua cabeça se aconchegava no colo da amada. Expirou pela última vez e dormiu o sono eterno dos justos.

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