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Garotinhos inocentes

Futebol local

Você aí garotinho inocente, criado a leite de pera, com ovomaltino, na geladeira…

Você que torceu pro Barcelona ou pra Juventus na final da xêmpions. Você que compra camisa importada de time europeu para se fazer de chique. Você aí que despreza o que é do Brasil porque sofre de “xenofilia” e complexo de Macunaíma. Você que curte times comprados por mafiosos do leste europeu ou do oriente, que usam o futebol para lavar o dinheiro sujo do tráfico, venda de armas e da prostituição. Você aí que exalta o que é dos outros e despreza o que é seu….

Comece a valorizar os clubes locais, da sua cidade em especial. Isso demonstra grandeza e amor ao lugar que lhe acolhe.

Abaixo o futebol ovomaltino!!!!!!

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Cala boca…. negro!

Ela ainda não acabou em nossos corações
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Até quando vamos fechar os olhos para a realidade dos excluídos?

Estávamos, eu e meu irmão Roger, assistindo uma partida de futebol nos anos 80, em um estádio da capital gaúcha. Os chutes incertos, as pisadas na bola, a monotonia do placar não ajudavam a melhorar aquela noite de quarta-feira. Não era a ruindade dos times, era…. a fase. Talvez uma sinistrose, uma falta de conjunções estelares adequadas, ou mesmo uma falha do esquema tático.

Fossem os anos 90 e diríamos: “Tem que jogar com três zagueiros para liberar os alas”. Mais recentemente diríamos: “Também, eles fizeram duas linhas de quatro, assim não dá para furar a retranca”. Talvez alguma dessas explicações pudesse se adequar à partida. Ou tratava-se simplesmente de azar. “Mau humor da Deusa Álea”, diria Max, referindo-se à Deusa que coordena os eventos inesperados e imprevisíveis.

O jogo morfético repetia lances banais, sem que a periculosidade eminente de um gol nos oferecesse um estímulo para despertar. Com os queixos apoiados nas mãos devaneávamos deixando o jogo como pano de fundo para pensamentos mais produtivos.

Subitamente, o centroavante do nosso time, um negro possante, comprido e que não tinha na velocidade o seu mais forte atributo, vê escorrer por baixo dos pés a bola que, fosse dominada, poderia produzir calafrios no guarda-balas adversário. Ouviu-se um “Uuuuu”, pelo estádio, seguido de uma série de palavrões usuais em estádios de futebol. Coisas desopilativas, exonerativas e fundamentais na catarse coletiva do esporte bretão. Passados alguns segundos, quando já se fazia o silêncio e as pessoas voltavam a se sentar, escuto o grito de um torcedor que estava sentado dois lances de arquibancada acima de nós.

“TE MEXE… NEGRO!!”

Voltei a cabeça para ver de onde vinha, e pude ver um jovem, não mais de 30 anos, sentado ao lado de um senhor mais velho. Ele apenas sorriu de forma debochada quando viu que sua exclamação chamou a atenção de muitas pessoas em volta. Olho para o meu irmão, um tanto incrédulo, e pergunto: “Ele disse isso mesmo?”

Meu irmão baixou os olhos e aquiesceu. Depois olhou para mim e disse: ”Não te mete. Fica quieto”.

Sempre que escuto histórias de racismo e violência eu imediatamente recordo dessa cena da minha juventude. Curiosamente, o que mais me chamava à atenção não era a palavra grosseira, aquela mesma que os americanos chamam de “n word”, mas o hiato violento e obtuso que a precedeu. A brutalidade de um espaço entre as palavras corrói meus ouvidos e me envergonha até hoje. A distância entre “mexe” e “negro” é que tornou essa cena violenta, estúpida e inaceitável. Para mim soava como “Mexa-se, porque você é negro!!” A ênfase na cor funcionava como uma viagem de um século e meio para trás. Lá, em muitas partes desse país, um senhor de escravos teria dito a mesma coisa, e com as mesmas palavras, e por sobre os mesmos direitos presumidos. “Mexa essa carne escura que me pertence, Negro. Não esqueça que eu te dou de comer para que trabalhes na minha terra. Anda, negro, levanta. Deixa de ser mole.

Naquele dia senti vergonha de ser branco. Mais ainda, senti vergonha de ser humano. Senti vergonha do meu silêncio e da minha cumplicidade. Senti pena do homem que a disse, mas raiva por ter me omitido. Passou, agora eu lamento.

Esses pensamentos todos vieram a minha mente ao ler um relato de parto de uma mãe negra que foi publicado no blog “Blogueiras Negras” , de autoria de Raíssa Gomes.

(http://blogueirasnegras.org/2013/08/12/negra-gravida/)

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As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível.

A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às mulheres negras pode ajudar a explicar esses números.

Eu comecei a me deparar com este tipo de atendimento quando, ao sofrer um sangramento, com apenas cinco semanas de gestação, imaginei, como a maioria das mulheres em início de gravidez, que aquilo significava que eu estava perdendo o filho que tinha acabado de descobrir que teria. Corri com a minha mãe para a emergência de um hospital particular de Brasília, demorei muito para ser atendida e, quando conseguimos realizar uma ecografia, o técnico responsável pelo exame, que foi grosseiro desde o início do atendimento, me disse: “Não tem NADA aí dentro de você.”

Não sei dizer exatamente o que me fez ficar calma naquele momento. Perguntei pra ele se eu havia perdido meu filho e ele disse, sem olhar nos meus olhos, que eu nunca havia estado grávida. Algo me dizia que eu deveria desconsiderar as palavras daquele homem. Vesti-me e fui para o consultório do obstetra que me acompanhava, sem saber direito o que pensar. “Durante a consulta, o médico me disse para ficar calma e fazer exames de sangue nos próximos dias, se as taxas que indicam a gravidez continuassem subindo, eu estava grávida, senão, não.”

Realizei os tais exames, a gravidez se desenvolveu muito bem. As consultas com o médico eram sempre tranquilizadoras e práticas, como eu achava que gostava. Mas sempre me colocavam num lugar de coadjuvante da gravidez. O que interessava era o bem estar do bebê e quem sabia tudo o que eu deveria fazer, era o médico.

Já aos nove meses de gravidez, esperando Malik chegar a qualquer momento, tive uma infecção urinária. Fui a uma emergência para conseguir tratar a infecção o mais rápido possível para que não fosse necessário cair numa cesariana por conta disso. Fui atendida por uma médica, que mais uma vez não olhou no meu rosto. Fez perguntas sobre porque estava ali, eu disse que estava com cistite. Ela disse com um tom irônico (sem me olhar): como você sabe? Eu respondi que já tinha tido isso anteriormente, solicitei o exame e saí da sala. Quando voltei com o resultado do exame, ela me passou um antibiótico fortíssimo, que eu tinha certeza que não poderia tomar estando grávida. E questionei: “Doutora, mulheres grávidas podem tomar esse medicamento?” e ela disse: “Você não me disse em momento nenhum que estava grávida”. Não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu achei que com uma barriga dessas, não seria necessário avisar que estava grávida.

Eu grávida aos 9 meses de gestação

Naquele momento não consegui nem questionar a médica. Apenas disse que achei que minha gravidez era evidente tomei a receita da mão dela e saí totalmente revoltada do consultório. Tudo o que já tinha ouvido falar, lido, escutado e vivido na minha trajetória como mulher negra militante veio com toda força. Até que ponto conseguimos ser invisibilizadas mesmo com uma barriga deste tamanho? O que me tornou tão invisível? Chorei. Primeiro por passar por isso a essa altura e perceber que a minha vida e a do meu filho não valem nada na mão de pessoas que supostamente deveriam cuidar da nossa saúde, e depois porque não consegui reagir, não consegui me defender e nem defender meu filho desse racismo atroz contra o qual eu decidi dedicar a minha vida.

Algumas semanas depois, chegou o momento de Malik nascer. Eu tinha feito muitos exercícios, caminhada, subi e desci ladeiras. Já estávamos com 40 semanas e 3 dias de intimidade e eu morrendo de ansiedade para conhecê-lo e sofrendo os “avisos” do médico de que ele não deixaria a gravidez passar de 41 semanas (a OMS orienta que uma gestação normal pode chegar até 42 semanas sem risco para mãe e bebê).

Chegou o dia da consulta, o médico estava operando algumas mães para tirar os filhos dela via cesariana, e iria se atrasar. Fui então, para o hospital que tinha uma propaganda de humanização. O site mostrava salas com bolas, música ambiente, banqueta, um monte coisas. Corri pra lá. Fui atendida por uma médica plantonista, que fez um detestável exame de toque e me disse que eu estava com 4 centímetros de dilatação, mas que eu tinha que chamar meu médico, porque meu filho não poderia nascer naquele hospital, já que ela não ia deixar de atender 18 pessoas no plantão só para fazer UM parto. E que se fosse realmente necessário eu ter meu filho ali, ela iria me submeter a uma cesariana porque não poderia ficar esperando.

Saí, mais uma vez, indignada do hospital. Meu filho nasceu algumas horas depois, num parto muito diferente do que eu havia imaginado pra gente, mas, imagino, melhor do que o que poderia ter acontecido, com o auxílio do médico que acompanhou a gestação inteira, mas que imaginei que não estaria presente no momento do parto. Enquanto sentia a ocitocina sintética nas minhas veias e quase perdi o controle da situação, respirei fundo e conversei com Malik sobre como o momento que tanto esperávamos havia chegado. Não poderia permitir que as intervenções naquele momento fossem mais fortes e importantes do que o nascimento do meu filho e o meu nascimento como mãe. Respirei fundo, e enquanto sentia o meu corpo se mobilizando para o encontro de Malik com este mundo. Quando ele nasceu, olhando tudo e chorando forte, veio para os meus braços, nos olhamos e conversamos. Naquele momento, renasceu em mim toda a força e desejo de transformação possível. Com todo o medo e a responsabilidade de criar uma criança negra no Brasil, mas com a certeza de que eu e outras companheiras podemos transformar o mundo ao nosso redor, por nós e pelas que vieram antes de nós, por todos os meios necessários.

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Torcidas Ferozes

Apesar de ter colocado aqui a imagem de uma torcida paulista – envolvida em inúmeros atos de vandalismo e violência – cujos torcedores continuam presos na Bolívia, não vejo nenhuma diferença substancial entre as torcidas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e a maioria das que existem pelo Brasil. Na verdade elas todas se assemelham em suas origens e forma de expressão. A paixão é o adubo, mas um caráter débil é o solo fértil onde vão germinar as ações abusivas e carregadas de ódio. Sou um gremista “moderado”, e aqui no sul as torcidas dos nossos clubes ainda não chegaram à sofisticação de vandalismo e marginalidade das paulistas, mas caminhamos celeremente para isso. É necessário que algo seja feito a respeito da atuação de torcedores que extrapolam sua ação como espectadores, para que as famílias e os cidadãos normais possam voltar a gostar de futebol. Busco na psicanálise a minha explicação para esse fenômeno: o participante de uma torcida organizada – normalmente medíocre, marginalizado e uma espécie de humilhado crônico de periferia – pretende tornar-se protagonista do espetáculo que frequenta, e faz isso através de sua ação violenta. É como se, ao ver os jogadores usufruindo de dinheiro, fama e mulheres pelo futebol que jogam, ele pretenda também associar-se ao show; assistir o sucesso dos outros é complicado demais para quem é apenas um figurante no espetáculo da sua própria vida.

Para além disso, existe um fenômeno mais contemporâneo e, todavia, mais grave: a profissionalização dos torcedores. Assim como ocorreu de maneira catastrófica com as “barra-bravas” argentinas – que estão levando o futebol do Prata à decadência acelerada – aqui no Brasil também se vê torcedores que “gerenciam” a torcida, cobram propinas, assumem a venda de materiais pirateados do clube, controlam o transporte de torcedores para outras cidades, formam verdadeiras quadrilhas e usam a violência como “modus operandi”. Estas ações “empresariais” se assemelham àquelas dos “hermanos” de Boca e River. Lá, como é sabido, as torcidas mandam nos clubes, e atuam de forma criminosa. O entorno do estádio “La Bombonera”, por exemplo, é controlado por “flanelinhas” que trabalham para os poderosos da torcida organizada do Boca Juniors, e tudo isso com o beneplácito da polícia, que não tem força ou vontade política de acabar com essas arbitrariedades. No rival, o River Plate, há poucos anos ocorreu o julgamento pelo assassinato de um líder de torcida, morto pelos rivais da MESMA torcida, em uma luta fratricida pelo poder no clube. O resultado já sabemos: estádios com meia-torcida, e o futebol argentino cada vez mais pobre e sem craques (estão todos na Europa ou no Brasil).

As torcidas organizadas são, por fim, o possível prenúncio da morte do futebol como nós o conhecemos. Talvez no futuro o futebol seja um espetáculo circense, tipo “Malabaristas Chineses” ou “Circ du Soleil”, que alguns admiradores assistirão em “teatros ovomaltinados”, sem paixão e sem interesse pelas cores de uma camiseta mítica, já que torcer pelo time do seu coração deixou de ser possível pela privatização do amor clubístico, através da ação de torcidas organizadas ferozes e criminosas.

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Homossexualidade e Futebol

Vou abrir um espaço para falar o que penso, sem brincadeiras (que, aliás, não apenas curto como estimulo, pois se trata da possibilidade de fugir do politicamente correto). Eu não acredito que exista um clube mais homossexual (em termos de torcida) que outro. Simplesmente não faz sentido. Aliás, se houver algum será o Flamengo, e depois o Corinthians, simplesmente porque detém as maiores torcidas. Simples assim, mas isso não significa que eles sejam percentualmente mais gays que outros. Aqui mesmo nana Internet apareceram fotos de homossexuais (postadas pela torcida adversária, claro) de todas as agremiações; basta procurar por alguns minutos na Internet que se acha.

Olha… eu sou do tempo em que o Grêmio teve uma torcida chamada “Coligay”. Era formada por um grupo de jovens homossexuais que frequentavam uma boate chamada Coliseu. Eu cheguei mesmo a assistir Grenal em que estava esta torcida, e ela era não apenas tolerada, mas até exaltada como um exemplo de diversidade; alegre, divertida, barulhenta e colorida. Havia também outra torcida no Grêmio chamada de “Força Azul” comandada pelo “Careca” que era um notório homossexual. Há relatos que ele praticava felação com os jovens  durante os jogos, escondido no meio das bandeiras. Entretanto, mesmo sabendo esse tipo de “viadagem”, isso não nos incomodava ou ofendia: entendíamos como o exercício da liberdade sexual. Olhava quem queria, chegava perto quem tinha curiosidade e entrava na roda quem precisava. Havia, curiosamente, um respeito pela diversidade sexual, algo impensável para os dias de hoje. Mas por quê?   O que se modificou na relação que nós temos com esse tipo de atitude? O que houve nos últimos 30 anos que modificou a estrutura da sociedade contemporânea penalizando a atitude homossexual, com as óbvias repercussões nos fenômenos de massa, como o futebol?  

Há várias interpretações.  A minha é a queda do muro de pedra. Não, nada a ver com o muro de Berlim. É sobre outro muro, do outro lado do mundo. Este muro é igualmente de pedra, chamado de “Stone Wall”, uma famosa boate gay na cidade de Nova York, no início dos anos 70. Uma feroz e desumana batida policial realizada naquele local colocou seus frequentadores diante das câmeras pela prática da “pederastia”.  Diante dos televisores dos lares americanos apareceram os “doentes”, os “transviados”, ou “perversos” praticantes de uma doença que parecia se alastrar, colocando em risco a estrutura da família americana. Mas, para o assombro geral, os sujeitos presos e humilhados durante a abordagem policial eram pessoas como nós: pais, jovens, velhos, advogados, avós, médicos, professores, arquitetos. Gente. Pessoas perigosamente parecidas demais conosco, os heterossexuais.  

É importante recordar que para nós, nos anos 70, não havia homossexualidade, que só foi inventada nos anos que se seguiram. Havia um distúrbio, uma doença, um desvio e uma aberração biológica e moral chamada “pederastia”. Diante desse nome, dessa marca e desse diagnóstico paradoxalmente sentíamo-nos seguros e protegidos. “Eu não sou homossexual, não tenho essa enfermidade”. A homossexualidade era tratada, curiosamente – e de forma um tanto jocosa – como uma doença contagiosa, num modelo “vampiresco”. Os próprios homossexuais ingenuamente diziam “Ah, você se julga hetero, mas se um dia você “der” nunca mais vai ser o mesmo”. Era folclore, misturado com preconceito e com a ignorância do determinismo de desejo que se aplica à orientação sexual.  

Pois a queda de Stone Wall acabou por provocar uma onda de protestos por todos os Estados Unidos, pelos direitos da livre expressão da sexualidade. O início desse movimento pode ser visto no filme MILK, grande obra de Sean Penn. Daquele ponto em diante a homossexualidade passou a ser vista como uma bandeira de luta pela liberdade, contra o moralismo e a favor da autonomia do sujeito sobre seu próprio corpo e seu desejo. A bandeira multicolorida, o orgulho gay, as paradas e as manifestações, assim como o surgimento de grupos em todo o mundo (como o “Nuances” no Brasil) marcam a trajetória de um movimento de resgate da homossexualidade como manifestação legal e legítima de afeto entre as pessoas.

Entretanto, a saída do armário acabaria produzindo um notável movimento de reação. Somente depois do surgimento da homossexualidade é que nós criamos a homofobia. Esse sentimento (que em geral não se expressa de forma organizada, mas como uma posição subjetiva) é derivado do medo de que os sentimentos homossexuais, derivados de nossa configuração sexual primitiva na tríade amorosa primordial, sejam descobertos pelo outro, e expressos como preconceito. A homofobia, portanto, nasce como contraponto à expressão livre da sexualidade na cultura. Ela é a forma como nos defendemos de nossas próprias inseguranças, refugiando-nos num estereótipo “macho” para esconder nossas fragilidades. O homossexual é sempre o outro, assim como na escola nos apressávamos em chamar o colega de “baixinho” antes que alguém pusesse os olhos em nós e visse que nossa altura era igualmente desfavorecida. 

Homossexuais são as torcidas adversárias : As Marias, o Gaymio, os Coloridos (moranguinhos), o Gaylo, os Bambis e todos aqueles que não são “nós”, num exorcismo que fala muito mais de nossas inseguranças do que de uma verdadeira preferência sexual do outro.   Hoje em dia vemos que os xingamentos de torcida são todos exorcismos sexuais. Os outros são “putos”, são “viados” e “bixas”. Na minha época de criança xingávamos a mãe, foco de nosso amor desmedido e centro da nossa proteção. Tudo mudou: ofendemos o outro por suas preferências supostas, imaginadas e/ou temidas.  

Eu achei que seria interessante abordar um fenômeno novo (porque não tem mais do que 30 anos) no futebol: a homofobia. Muito mais do que a defesa ingênua e tutelante que eu as vezes presencio, eu acredito ser mais interessante entender as origens da homofobia em função da conjuntura atual, decorrente dos movimentos de liberação gay. Nessa perspectiva, a homofobia (como manifestação, não como sentimento e nem como prática) é uma consequência dos movimentos GLTB (ou queers, que engloba tudo). Antes da extroversão dessas modalidades de expressão sexual não havia necessidade de expressão homofóbica, pela simples razão de que ela não ameaçava a maioria heterossexual. Bastou os homossexuais se assumirem publicamente, mostrarem seus rostos na rua, para nos apavorarmos com a semelhança (e não com as diferenças) que eles possuem com o mundo dos “normais”.

É isso, exatamente, que gerou a homofobia: a parecença, o fato de eles serem humanos, amarem, odiarem, terem medo e orgulho. Como qualquer um. Portanto, ninguém mais estaria a salvo. Saíram dos armários e do DSM (lista de doenças psiquiátricas), e isso os deixou perigosamente próximos de todos os héteros, os que sustentavam a ideia de família cristã e prolífica. Assim, tornou-se imperioso expurgar a suspeita e colocá-la no outro. Foi essa a razão pela qual os xingamentos homofóbicos se tornaram lugar comum nos estádios, e também na vida das cidades: o medo, pânico de que descubram minhas fragilidades…  

Mas sou um otimista inveterado. Eu ainda gostaria de ver de novo uma torcida homossexual no meu clube. Mais ainda: gostaria que a orientação sexual não fizesse diferença alguma para o torcedor, e que as barreiras entre homos e héteros simplesmente ficassem restritas aos leitos e aos corações. Gostaria que os homossexuais gostassem de futebol, se interessassem pelo espetáculo e se apaixonassem pelos gols e vitórias. Gostaria que meu clube não impedisse, através da direção ou da torcida, a livre expressão de amor clubístico pelos grupos homoafetivos. A repressão que qualquer preferência sexual é um mal para a sociedade. Mesmo que eu defenda com unhas e dentes a livre expressão, e o direito à homofobia, eu sonho com uma sociedade livre desses preconceitos, em que a comunhão em torno da alegria do futebol seja o traço de união entre todos que o procuram.

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