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Futebol e apostas

O jornalismo de opinião do futebol está totalmente cooptado por empresas que controlam sites de apostas situadas fora do Brasil – portanto imunes à legislação nacional que as proíbe. Curiosamente, essa imoralidade (ao meu ver) é tratada pelos jornalistas como “diversão”, “brincadeira”, “entretenimento para a família” e mesmo como uma forma de investimento, para ganhar um “dinheiro extra”.

Pois eu creio que a cooptação do jornalismo para este tipo de jogatina produz uma mistura profundamente perigosa para o próprio futebol. Aqueles que acreditam que jogos de azar podem ajudar o esporte esquecem os escândalos na Itália e no Brasil onde a pressão de investidores compravam resultados improváveis, e fizeram gente esperta ganhar muito dinheiro por algum tempo.

Vejam aqui mais sobre o escândalo das apostas na Itália aqui:

Jornalistas já estão TODOS amarrados. Nenhum deles, a partir de agora, poderá criticar essas empresas de apostas e a mistura que fazem entre enormes quantias de dinheiro e os resultados das partidas. Estão todos na folha de pagamento, impedidos de criticar a invasão dessas instituições no cenário do futebol brasileiro. E já são dezenas de empresas, que compram não apenas os jornalistas, mas espaços no YouTube e Facebook.

O jornalismo corporativo – financiado pelas empresas e grandes corporações – é um modelo falido. Bastam poucos tostões para comprar a opinião de jornalistas para que algo deletério e moralmente questionável vire “diversão para a família”.

Mas…quem se importa, né?

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Garoto Neymar

Para além de ser um futebolista, o garoto Neymar é mais um ídolo negro desprezado pelas elites. Essa é a razão da disputa de narrativas que envolve há muito tempo a figura desse jogador e a controversa defesa que o PCO faz de sua representatividade no imaginário nacional.

Basta uma pesquisa simples para vermos que ninguém jamais se perguntou se Zico, Piquet, Fittipaldi ou Airton Senna sonegavam impostos, se tinham amantes, e muito menos a qualidade do seu caráter. Senna já morreu, mas os outros três são, a propósito, bolsonaristas. Mas é claro que não se pergunta isso para ídolos brancos. Por outro lado, Neymar não pode ter esse tipo de falha.

Eu pessoalmente acho o Neymar um chato; um bebê imaturo. Um Michael Jackson da bola, gênio desde os 11 anos, infantilizado e mimado. Ser tratado como Rei – ou Rainha – desde a mais tenra infância costuma destruir personalidades brancas de Hollywood, mas Neymar não tem esse direito, por ser negro. Ainda por cima é cercado de gente do pior tipo, como o seu pai trambiqueiro e sonegador. Mas só ele é julgado por ser assim, e essa é uma clara face do racismo e do ataque sistemático ao futebol brasileiro.

A chantagem que recebeu naquele caso de falso abuso sexual há alguns anos mostra que, ao colocar-se automaticamente ao lado da suposta vítima, estimulando um linchamento público, e antes que as evidências (ou a falta delas) viessem à tona, a imprensa fazia coro às tentativas de destruir um ídolo que ousa ser negro em uma sociedade fortemente racista.

Desta forma o PCO tem razão ao criticar quem tenta destruir a imagem do Neymar e do próprio futebol, tratando-os como fenômenos menores. Assim como fizemos com Pelé e as críticas à sua paternidade, Neymar é outro ídolo negro que precisa ser destruído – assim como o futebol brasileiro, um dos poucos fatores de integração do negro em nossa sociedade.

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Rollerball

Quando eu era menino lembro de ir assistir uma superprodução de ficção científica do ano de 1975 estrelada por James Caan chamada “Rollerball”. No ano de 2018 (!!!) era famoso um esporte assustadoramente violento onde boa parte da diversão era a ocorrência graves ferimentos e até mortes durante os confrontos. Apesar – ou em função – da desmedida violência e os casos não raros de morte durante o jogo, o Rollerball tinha popularidade gigantesca e mundial.

A sociedade retratada era uma distopia opressora e totalitária capitalista, onde grandes corporações controlavam a vida e a morte dos cidadãos. O filme sempre me remeteu ao espetáculo mórbido dos concursos de dança de “They shoot horses, don’t they?”, filme de Sidney Pollack de 1969, onde uma sociedade arrasada pela depressão pós 1929 saciava sua necessidade de circo através do sacrifício dos dançarinos.

Curiosamente esta semana houve um feminicídio causado por uma disputa de um casal sobre futebol e hoje vi conhecidos perdendo completamente a compostura e a educação ao tratarem da derrota do seu time no mundial de clubes. Essas coisas não são coincidências.

Na sociedade distópica onde se praticava o Rollerball as pessoas arrefeciam suas angustias e sua infelicidade em um mundo caótico e violento, divertindo-se com as disputas de gladiadores sobre patins que se enfrentavam até a morte. Hoje se matam amores e desfazem amizades pelo futebol, enquanto o Big Brother serve como um catalisador de frustrações e rancores recalcados.

Por certo que se não há pão, que não falte circo. A brutalidade desses espetáculos é a medida exata do buraco gigantesco aberto pelo capitalismo no mundo atual, o qual nos sufoca e oprime.

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Exemplos

Exaltar personalidades é sempre ficar refém de suas atitudes. Por isso mesmo é importante deixar o entusiasmo de lado para não se enganar com fatos isolados que, muitas vezes, são produzidos de forma oportunista. No mundo do espetáculo tudo é fantasia e nada é de graça. Diante da pergunta “qual o verdadeiro Neymar?”, eu arriscaria dizer “nenhum dos dois”….

O jogador fazendo festa com os parça com muita mulher, cerveja e pagode. Muito brega, muito kitsch, muito caro mas, afinal, de que vale tanto sacrifício se não foi possível aproveitar com estes exageros e com os arroubos que ocorrem nestas comemorações?

Um menino que passou a ser vigiado desde cedo, amado pela torcida ainda na infância, adorado por fãs, reverenciado por críticos do futebol não tem condições de ver a vida a não ser por esta perspectiva de “centro do mundo”.

Cobrar dele que tenha consciência social não faz sentido, pois o mundo gira em torno de suas chuteiras. Ele jamais foi devidamente ensinado a ter limites, pois a cada ato irresponsável havia um tratamento de “príncipe temperamental” reservado a ele.

No fundo a gente queria que o garoto mentisse um pouco, que nos oferecesse uma imagem pública de respeito aos outros, que fosse mais solidário nas aparências e que levasse uma mensagem mais positiva para os meninos e meninas que admiram seu futebol.

Mas eu creio que ele não seja capaz disso. Sequer uma imagem fabricada e falsa de responsabilidade social e respeito ele admite assumir. Parece mesmo que ele sequer precisa fingir o que não é.

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Futebol e masculinidade

Essa história do jogador e do abuso me afeta muito, não sei exatamente o porquê. Mas a sensação que eu tenho não é de raiva – não sou mulher para entender todas as dimensões dessa violência – mas de tristeza e decepção. É como quando ocorre um acidente entre dois carros com vítimas em ambos. Descobrir o culpado, apesar de ser essencial, não vai trazer de volta a vida de ninguém.

Então fica a tristeza pela dor imposta a uma menina e a destruição da vida do sujeito por atitudes absurdas e inconsequentes. Fico me perguntando: “com toda essa fama e dinheiro qual o sentido dessa barbárie, desse desrespeito e desse abuso?” Todos acabamos um pouco destruídos – inclusive a nossa esperança na humanidade – e não há nada que eu possa fazer a não ser aguardar que a justiça prevaleça.

Mas é tudo lamentável, triste e inaceitável, e a onda de ódio que sobrevém me deixa ainda mais deprimido.

Não gosto de chutar cachorro caído, mas concordo que o meio do futebol é violento e abusivo com as mulheres. Entre as razões para isso está que o futebol assume no imaginário social os valores atribuídos aos guerreiros de outrora. Nestes ambientes, nos quais uma criança entra aos 12 anos e só sai aos 35 – adolescência e juventude inteiras – existe um estímulo constante à hipersexualização, o desprezo por gays e por mulheres e a exaltação do herói mítico duro e inexorável.

O mesmo ocorre com policiais, no exército e nas Igrejas – com os padres. Um mundo masculino, cheirando a testosterona, onde ocorre sistematicamente a supressão de valores que são considerados femininos, como a cooperação, a solidariedade, a delicadeza, o perdão e a entrega. Nesses grupos impera a supremacia, a competição, a luta e a dureza como marcas de afirmação pessoal. Fugir deles é ver fechadas as portas de aceitação.

No futebol ocorre algo interessante. Apesar de ser um jogo de cooperação, onde todos jogam juntos e precisam dos companheiros, a progressão na carreira é solitária, numa luta do sujeito contra os demais, sendo violento e competitivo 24 horas por dia. O mesmo que acontece no exército, onde o estimulo ao companheirismo se alia a um individualismo brutal no enfrentamento da carreira. Um universo de Rambos onde a mulher não tem vez e muito menos importância.

Nestes lugares a brutalidade acaba virando a regra, na espera que algum dia seja modificado este padrão. Eu costumo dizer que até na medicina ocorre um mecanismo semelhante. Esta sempre foi uma área de homens, de energia, de força física e moral, de insensibilidade à dor e ao sofrimento. Não era admissível imaginar uma mulher – mãe e dedicada esposa – arrancando uma perna sem anestesia nos anos que antecederam a sua descoberta.

Todavia, no início do século passado a entrada das mulheres no mundo masculino da medicina não se deu sem um preço alto a pagar. Mulheres médicas eram – e ainda o são – cobradas por qualquer atitude que não seja medida pela regra da masculinidade. Precisam ser duras, fortes e insensíveis para receber o respeito de seus pares. É por isso que o ingresso das mulheres na seara da obstetrícia não surtiu a reforma que esperávamos. Numa estratégia de sobrevivência, as mulheres se associam mais aos homens e suas regras do que às mulheres e suas dores.

Há muito ainda a fazer para encontrar este equilíbrio. A entrada das mulheres no exército, futebol e medicina com o tempo vai impor uma nova perspectiva, e introduzir novos valores, determinando uma mudança significativa nestas funções sociais.

Oxalá seja breve…

PS: O que aconteceu ao jogador em questão é lamentável, mas sua adesão ao bolsonarismo é oportunista e planejada. Quis atrair a simpatia da face obscura do país, a mesma que venera a tosquice do presidente e suas falas “sinceras” e “diretas”, mas que apenas desvelam a pobreza de sua ética.

De qualquer modo, não rolou. Santos rescindiu o contrato e sua carreira acabou. Não creio que arranje clube em lugar algum. Robinho é o gênio das pedaladas, o craque que não foi mas poderia ter sido.

“Ludopédio finis est”, little Robson

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Futebóis

Para todos os que aplaudiram o Gabigol, imaginando uma postura política e nobre ao não dar atenção ao governador ajoelhado, lembrem que os jogadores de futebol, salvo raríssimas exceções (Sócrates, Roger Machado, Juninho Pernambucano, Wanderley Luxemburgo, Afonsinho, etc) são alienados, afastados das comunidades de onde vieram, vivendo em redomas, ganhando milhões, reacionários, direitistas, meritocráticos, ignorantes da realidade social e, não por acaso, apoiadores de soluções radicais e violentas. A recente comemoração do Palmeiras (clube criado por imigrantes e operários) ao lado do Bolsonaro (um fascista) não pode ser esquecida.

A lista de jogadores que se identificam explicitamente com o binômio biblia-bala é extensa e citar alguns e esquecer outros poderia parecer clubismo ou perseguição. Imaginar que desse estrato social sairá alguém com consciência de classe é uma ilusão na qual a esquerda não pode embarcar.

Gabigol é um herói para o futebol, mas não exijam dele o que não pode dar. Não lhe peçam que seja um exemplo de luta contra a desigualdade, a exclusão e o genocídio protagonizados pelo governador do Rio. Para a galera favelada, preta e pobre do Flamengo, essa mesma que o Witzel mira “na cabecinha”, ele não chegará a ser mais do que um pôster na parede.

Outra questão é o que significa a vitória do Flamengo. Já há muito anos denuncio a espanholização do futebol brasileiro que só não aconteceu antes pela incrível incompetência do Flamengo em gerenciar seus recursos e pelos desmandos políticos do Corinthians. Somente os Flamenguistas mais fanáticos enxergariam a situação falimentar de TODOS os outros clubes cariocas como algo positivo. Não posso aceitar o desaparecimento de grandes e tradicionais clubes do Rio em nome de abrir espaço para o surgimento de um time de galácticos milionários.

Nesse contexto o Flamengo é o Walmart do futebol.

E vamos combinar que o Flamengo tem a maior torcida porque tem mais investimento de mídia e tem mais mídia porque tem a maior torcida, num circulo que tende a esmagar os outros clubes e criar um desnível de recursos que se escora em muito dinheiro.

Concordo com a ideia de que nada disso desmerece o duplo sucesso que o Flamengo conquistou nestes dois dias. Todavia, o desnível econômico e a gentrificação do esporte bretão podem criar um futebol previsível e sem graça.

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Futebóis

Existe uma diferença marcante e um fosso BRUTAL entre os futebóis da América e da Europa atuais, e isso se deve à questão econômica. Forma-se um ciclo virtuoso que premia o primeiro mundo e penaliza o terceiro. Quando a gente assiste Real x Barcelona achando que estamos assistindo “futebol de qualidade” em verdade estamos gastando nosso dinheiro (via anunciantes) para financiar os times europeus.

Ninguém na Europa assiste Libertadores e muito menos o campeonato brasileiro, mas nós assistimos o campeonato inglês, o francês, o italiano e principalmente o Espanhol. Tem criança no Brasil que já ouviu falar do “Albacete” mas não conhece o Olaria ou a Portuguesa (Santista, então, nem pensar). Isso é colonização cultural. Nossos jogadores de 15 anos, mal saídos das fraldas, querem jogar a “Xêmpions”. Querem ir embora do Brasil por causa do endeusamento e do glamour do futebol europeu. Querem dinheiro, fama e mulheres (não nessa ordem). Isso é triste para nós, mesmo sendo um sonho para eles.

Todavia, os responsáveis por esse desequilíbrio somos NÓS que assistimos as “bonecas” jogando em gramados lustrosos e maravilhosos, estádios de cristal construídos por bicheiros russos ou traficantes da Arábia. Vendemos nossos jogadores para o tráfico de mulheres da Ucrânia e o submundo do leste europeu. Ao invés de investir no futebol brasileiro compramos as transmissões europeias e criamos um padrão de irrealidade no nosso país.

Eu não assisto. Sou gremista e torço pelo meu time apenas; não tenho o “meu time na Espanha” ou “meu preferido na Premié Lig”. Que se explodam, que se ferrem. Esses caras exploram o futebol brasileiro e enriquecem às nossas custas, produzindo uma legião de torcedores de TV, ovomaltinos nutridos a leite de pera, criados pela vó, torcedores do Manchesti ou do Xélcea. Bostinhas!!!

Jogador do meu time que é vendido para a Europa deixa de existir para o futebol – aos meus olhos apenas. Não acompanho, não sei onde foi, não me interesso pela “carreira” e apenas esqueço.

Boicotar o futebol das “estrelas” certamente fortaleceria o nosso. Deixem que joguem o futebol bonito por lá, mas eu não aceitarei jamais contribuir para o encolhimento do futebol do Brasil.

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Futebol e Política

É evidente que manifestações de jogadores de futebol relativas à política são raras e a imensa maioria dos jogadores e clubes não se posiciona politicamente, por desinteresse, ignorância ou pura alienação.

Entretanto cabe ressaltar 4 episódios recentes que demonstram as relações de personagens do futebol com a política:

  1. Os apoios de Neymar e Ronaldo Fenômeno à campanha de Aécio Neves;
  2. A intenção de Ronaldinho Gaúcho de concorrer ao senado no mesmo partido do candidato da direita mais reacionária;
  3. A frase gritada de cima do caminhão de bombeiro, por Renato Portaluppi, em apoio ao “juiz” da Lava Jato, nas comemorações do campeonato da América;
  4. Os jogadores Felipe Melo, Jadson e Roger declaram apoio a um candidato de extrema direita à presidência, cujas posições incluem racismo, misoginia, ditadura, apoio a torturadores, penas capitais e ataque aos homossexuais

Existem, mesmo que de forma tímida, manifestações de caráter político circulando no mundo futebol. Entretanto é evidentemente um setor dominado pelos conservadores e pelas posições à direita no espectro político-partidário. A esquerda é uma expressão bissexta na cultura do futebol. Os clubes são controlados desde sempre pela burguesia empresarial, advogados, membros do MP e magistrados aposentados. Na CBF quem manda é o dinheiro e as ligações com as empresas de TV, material esportivo, etc. Isto é: o futebol está ligado de forma umbilical à nata das classes altas. São estes atores que puxam os cordéis dos marionetes de chuteira, enquanto manipulam a paixão do povo pelo ludopédio. Berlusconi e Macri são os ícones máximos dessa realidade.

Não é difícil de entender as razões para este divórcio entre os jogadores de periferia pobre e o mundo de significantes que deixam para trás. Ao ascender socialmente eles entram no mundo da fama e do consumo e, via de regra, assumem os valores da cultura que os recebe. Esquecem rápido de onde vieram e olham deslumbrados para o mundo de luzes que os recebe. Muitos, como Ronaldo Fenômeno, chegam a mudar de cor e assumem o tom de pele que mais representa suas aspirações.

Assim, o que é mesmo raro não é a adoção de posições política ativas e explícitas, mas que estas sejam relacionadas com o desejo de transformar o mundo do qual os jogadores são egressos. As posições progressistas e de esquerda podem ser contadas nos dedos; já as conservadoras se multiplicam na mídia. Na contramão do conservadorismo chamou atenção o apoio do técnico Wanderley Luxemburgo ao presidente Lula durante o cerco ao Sindicato dos Metalúrgicos, uma ilha de legalismo de esquerda num oceano de punitivismo, conservadorismo e o mais escancarado reacionarismo. As posições de Casagrande, sobrevivente da democracia do mito Sócrates, são notáveis exceções no universo da bola.

Há política no futebol, mas o que nos falta são personagens verdadeiramente engajados numa postura de esquerda, pelas minorias, pela democracia e, principalmente, pelos pobres, exatamente o que eles tentam de toda forma esquecer que um dia foram.

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Futebol

O futebol carrega em seu âmago uma brutal e incontornável contradição. Se futebol fosse encarado como as mulheres gostariam (ok, um exagero que serve apenas para este debate) ele seria arte pura. O problema é ninguém vai ao estádio para ver arte; vai para ver guerra. Queremos gladiadores carregando nossa bandeira. “Meio a zero de mão já me serve“, diz o apaixonado tresloucado torcedor enrolado na bandeira. Esse futebol em que todo mundo é civilizado prenunciaria a morte do futebol como nós o conhecemos.

Todo dirigente sabe que o torcedor precisa ser domado, controlado, cerceado em sua volúpia clubística …. mas não tanto. Se ele for domado a ponto de racionalizar o futebol ele acorda do seu sono futebolístico e começa a questionar porque paga 1 milhão por mês para um cara chutar uma bola. Futebol enquanto esporte de massas só (sobre)vive da nossa neurose. Ela é um torpor, um inebriamento, uma catarse irracional e poderosa. Civilizá-lo é matá-lo.

No jogo Brasil x França na copa em que perdemos de 1 x 0 para eles o jogador Roberto Carlos confraternizava com Zidane antes da partida no túnel de acesso (eram colegas no Real Madrid) e jamais foi perdoado por isso. Ser um pouco cordial é aceitável, mas ninguém suporta ver amizade entre as pessoas que lutam por nós. Essa é a contradição inerente desse jogo e o futebol se equilibra entre a razão e a paixão. É mesmo como o amor… precisa ser racional para não haver arrependimentos e tragédias, mas se passar da conta morre estrangulado pela própria racionalidade insossa. O futebol europeu é, via de regra, odiado pelo torcedor da geral, o sujeito que se exalta agarrado ao alambrado. Esse gosta da animalidade do grito, da lama, do sangue, da raiva e da conquista, mas também da depressão, da tristeza e dos sonhos de um porvir radiante.

Tratar o futebol como “arte” – para gente sofisticada e educada – determinaria o fim da paixão que torna o futebol o que é. Futebol é como o amor: se você traduz a paixão em palavras ou ideias racionais ele se desfaz como poeira diante dos seus olhos. Para mantê-los – o amor e o futebol – é necessário reconhecer que o universo em que habitam está muito distante do mundo dominado pelas nossas vãs filosofias.

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Títulos

Uma pausa para o esporte “bretão“:

Depois dos títulos “mundiais” por fax inaugurados pelo Palmeiras agora alguns torcedores de clubes (não por acaso atravessando fase de vacas magras) inauguram outra modalidade: o confisco do título alheio por e-mail.

Tais aficionados insistem no tal “título mundial FIFA” como sendo o único válido, o único “legitimamente” conquistado, quando o universo inteiro reconhece há décadas os títulos obtidos antes da FIFA encampar a competição. Essa estratégia fala mais do desespero de torcedores de clubes que atravessam crise sem precedentes do que um argumento válido para questionar estas conquistas.

Ora, sejamos justos. Para tirar os títulos de grandes clubes como Grêmio, São Paulo, Flamengo e Santos (assim como Boca, Real Madri, etc) precisa mais que um e-mail. Seria preciso apagar todos os livros de história do futebol, todos. Não poderia sobrar uma única página sequer, pois se encontrarem uma só nota sobre o assunto já será possível lembrar de Miller, Raí, Zico, Nunes, Pelé, Coutinho, Renato, De León e tantos outros heróis que tornaram verdade o sonho de fazer de seus clubes os maiores do mundo. Seria igualmente necessário arrombar todos os museus de todas as sedes de clubes para arrancar de lá os vistosos troféus e apagar da memória de todos os fatos relacionados a estas épicas e gloriosas conquistas.

Essa tarefa é impossível de se concretizar, além de ser abjeta e tola. A história não se apaga: se aprende com ela e se tenta imitar. Para aqueles novatos nestas conquistas aprendam com quem tem essa faixa pendurada há mais de 30 anos: ninguém se torna maior tentando diminuir os adversários. A grandeza ocorre pelo oposto, quando ao exaltar a conquista de todos nós nos tornamos maiores, pois a nossa vitória também é contemplada.

Obrigado

Na foto, Eurico Lara, goleiro e mito.

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