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Cirurgias e hegemonias

A Episiotomia (corte perineal para alargamento da vagina no parto), pelo seu significado histórico na medicina, será sempre defendida muito mais pelo que representa para a prática médica e menos pelo que promete fazer de benefício para a mãe e para o bebê. A moderna obstetrícia deve muito a essa cirurgia, que produziu o golpe de misericórdia na ação das parteiras do início do século passado e serviu como esteio ideológico para a supremacia médica na assistência ao parto.

O ocaso da história gloriosa das episiotomias, e o reconhecimento da fisiologia do parto como suficiente, representará um golpe duro na dominação hegemônica da narrativa médica sobre o processo do nascimento, e um reforço das perspectivas mais suaves, menos invasivas e baseadas em evidências clínicas consistentes.

Há mais de 30 anos sabemos da inutilidade das episiotomias como protetores do períneo feminino ou garantidores do bem estar de bebês. Defender a episiotomia, como ainda o fazem representantes da corporação médica, nada mais é do que um esforço para manter essa hegemonia intacta, pois que está vinculada ao próprio poder médico de discriminar sobre o corpo da mulher, sua vida, seu destino e sua sexualidade.

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Falsos consensos

Infelizmente o padrão na atualidade não é a confrontação de ideias, o contraditório e o respeito pelas visões discordantes mas o cancelamento, a perseguição pelas posturas, os abaixo-assinados com pedidos de demissão, a difamação, as pressões pela punição severa e a destruição sumária da reputação.

Pouco ou nada importa que o alvo da ira de agora seja alguém que durante décadas esteve ao lado da “nossa causa”; basta uma única posição discordante e você é jogado na lata de lixo, descartado, aniquilado e humilhado publicamente.

Esse sistema de terror faz com que, diante de casos públicos conhecidos e muito publicizados, aqueles que tem uma visão diferente da massa enfurecida se calem, com medo dos ataques e das violências virtuais. Reina um silêncio constrangedor nas redes, criando a falsa impressão de unanimidade. Tornou-se comum que, nos agora raros encontros pessoais, algumas pessoas sussurrem entre si: “eu não vejo dessa forma e não concordo, mas não posso falar sobre isso publicamente pois serei executado se disser o que penso”.

A tirania do senso comum faz vítimas todos os dias nas redes sociais. Quem escreve sabe que uma mínima palavra descontextualizada pode acender o estopim de uma reação violenta e cruel.

Minha opinião? No futuro próximo vai acontecer um fenômeno de reação a isso. A intolerância de alguns grupos será vista como realmente é: um sistema cruel de silenciamento, cujo objetivo é forjar consensos na marra e através da violência virtual. Por fim, as pessoas vão se voltar contra estes ativistas que se escondem por trás das belas causas para melhor espalhar opressão e despotismo.

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Verdades

Não existe “verdade ou mentira. Aliás, não existem sequer fatos, apenas perspectivas. A “verdade” é uma ficção contada por quem controla a narrativa, por aqueles que detém o discurso hegemônico.

Verdade e mentira se inserem nessa luta pelo discurso autoritativo, e não podem ser analisados de forma positiva. Sempre existirá uma disputa por narrativas, pois que essa é a essência humana. Já a verdade é uma construção coletiva que depende de poder e persuasão para estabelecer hegemonias. A construção da “verdade” nunca é solitária e pessoal, mas uma construção de uma coletividade. Você pode ter sua opinião pessoal e seu viés, mas não pode produzir seus próprios fatos. A disputa por versões da realidade é inalienável do humano. As muitas versões construídas sobre qualquer tema estabelecem uma disputa entre perspectivas e julgamentos. Vence a versão mais poderosa, mesmo quando falsa.

É óbvio que nosso ego sempre cultivará a ilusão de tudo saber, basta escutar qualquer sujeito falando de suas perspectivas Entretanto, a “verdade” não é uma construção subjetiva ou pessoal; ela se constrói socialmente nos choques paradigmáticos tão bem descritos por Thomas Kuhn em sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Por isso a verdade contemporânea é de que a terra é esférica, mesmo que visões pessoais a tratem como plana. Não esqueça que o terraplanismo já foi a vertente hegemônica de saber sobre a forma da terra!!!

Assim como no modelo darwiniano de sobrevivência das espécies, a sobrevivência das ideias também obedece as mesmas regras. Não são os mais fortes ou os “corretos” que sobrevivem na natureza, mas os mais adaptados. Mutatis mutandis, algumas ideias toscas – e inclusive comprovadamente falsas – sobrevivem pela sua maleabilidade e pelos poderes e interesses que a sustentam.

O capitalismo é apenas uma dessas ideias que sobrevivem pela força e pelo poder de quem o mantém, mesmo dando sinais inequívocos de decadência e incapacidade de solucionar os graves entraves do planeta.

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