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Palavra morta

Eu comecei a escrever sobre a Palestina há uns 15 anos, quando tudo era mato no debate público do Oriente Médio. Claro, não entre os intelectuais e ativistas originais, mas na opinião pública e nas mídias sociais nascentes. Eu era adolescente quando ocorreu a guerra do Yom Kippur, e os meus colegas de escola tratavam Moshe Dayan como um “herói contemporâneo” de histórias em quadrinhos, com aquele tapa-olho de piratas. Levariam ainda 30 anos para eu descobrir que ele era um monstro. Na minha juventude, defender os “terroristas” da Palestina, que atacavam Israel com suas bombinhas feitas em casa, ainda era considerado uma heresia. Afinal, Israel era a única democracia no Oriente Médio, “a villa in the jungle“, como eles mesmos se declaravam, ou as “flores que brotam no deserto”. Os palestinos não passavam de fanáticos muçulmanos, que sacrificavam a si e aos seus filhos em nome de suas ideias religiosas obscuras e imorais. Nesta época assisti um documentário sobre a Palestina onde um interlocutor inglês dizia, referindo-se aos palestinos: “É impossível debater com fanáticos”.

Todavia, essas definições nunca foram suficientes para mim. Alguma coisa me incomodava na descrição que faziam do problema e dos habitantes da região. Civilizados contra fanáticos; pessoas de bem contra terroristas. Um grupo de pioneiros que retorna para “sua terra” e é atacado por gente primitiva e ignorante que os agride por “antissemitismo”. Homens maduros que usam seus próprios filhos como “escudos humanos“. Havia algo de estranho nessa definição pasteurizada e maniqueísta. Apesar das opiniões serem muito negativas em relação aos palestinos, eu me perguntava: o que faz um sujeito tirar a própria vida em nome de uma ideia? Seria possível usar os filhos para se defender? Quem faria isso? As mães palestinas não amam seus filhos? O que faz esse povo continuar lutando apesar da imensa disparidade de forças e o suporte que seus adversários recebem da maior potência do mundo? O “fanatismo” explica isso?

A resposta para estas perguntas e minha mudança interior iniciou-se quando fui convidado a comparecer ao Festival Internacional de Cinema no Rio de Janeiro para acompanhar minha amiga Debra Pascali-Bonaro, que apresentaria “Orgasmic Birth“, o filme que ela produziu e no qual fiz uma pequena aparição. Depois da nossa apresentação no festival eu assisti a entrevista de um diretor libanês que estava apresentando um documentário sobre a guerra de resistência do Líbano contra Israel. O documentário se chama “Entre deux Fronts” O tema é justamente a retirada israelense do sul do Líbano em maio de 2000 e a situação que se seguiu, com o Hezbollah assumindo o controle da região e antigos membros do Exército do Sul do Líbano (aliado de Israel) ficando frente a frente com integrantes do Hezbollah. Eu fiquei impactado com a descrição daquele diretor, pois pela primeira vez eu havia visto um sujeito da região falando da luta do seu povo contra um agressor. Eles pareceram, pela primeira vez, pessoas humanas, indignadas e com um propósito nobre. Não tinham jeito de fanáticos.

Depois disso comecei a ler sobre o assunto. Consegui baixar um documentário chamado “Cinco Câmeras Quebradas“, sobre um palestino que usava uma câmera para gravar o cotidiano de humilhações, agressões, violência, medo e abusos que os palestinos eram obrigados a suportar em Gaza e na Cisjordânia. O título se refere às câmeras quebradas pelos israelenses durante a produção de seu documentário caseiro. Depois de assistir este filme a minha cabeça já estava completamente transformada, e pela primeira vez eu me sentia na pele do povo que lutava em nome da própria soberania contra os ataques de potências ocidentais – como Israel. E foi então que tive a experiência, pela primeira vez, de ser chamado de “antissemita”, apenas por fazer perguntas e por defender a autodeterminação do povo palestino. Mal sabia eu que essa marca, tatuada na testa de quem ousa questionar o supremacismo sionista, é feita para dar a quem a usa uma marca moral de degradação.

Cabia para mim a pergunta: por que eu nunca havia visto ou escutado esta história na perspectiva dos povos ocupados? Por que nunca ninguém me contara a história da Palestina na visão das pessoas que moravam lá e que foram expulsas pelos colonos europeus que chegaram por meio do movimento sionista do início do século XX? Por qual razão a perspectiva dos oprimidos sempre foi silenciada? Nesta época de efervescência eu conheci o documentário “Reel Bad Arabs – How Hollywood Vilifies a People” e a estigmatização fabricada dos árabes começou a fazer sentido. Depois que eu descobri que eu havia sido enganado a vida inteira é que surgiram personagens como Schlomo Sand, Miko Peled, Norman Finkelstein, Max Blumenthal, Gideon Levy e Ilan Pappe. Eu não estava sozinho em minha inquietude.

Daquele dia em diante perdi o medo de ser acusado de “antissemita”. Se essa palavra significava lutar pela liberdade do povo palestino, para que eles reconquistassem a sua dignidade e sua terra, então eu não mais me importaria de ser tratado dessa forma. Hoje podemos perceber que essa ofensa perdeu completamente o valor; de tanto ser usada para calar dissidências ela virou palavra morta, um xingamento sem sentido. E o mundo inteiro hoje se levanta para celebrar um mundo onde a Palestina estará, finalmente, livre do sionismo.

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O Levante de Gaza

Existem fatos cuja grandiosidade não é facilmente perceptível no momento em que ocorrem. Muitas vezes apenas o tempo, com seu sopro incansável, é capaz de lapidar os eventos e mostrar sua importância real. Por esta razão, não há dúvida que os livros de história contarão os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 por uma perspectiva completamente distinta daquela que temos hoje. Como poderia ser diferente se temos a informação controlada pelas grandes corporações? Nosso jornalismo é colonizado pelos interesses imperialistas, impedindo que vejamos a realidade do que em realidade ocorreu. Todas as grandes empresas de comunicação do ocidente são francamente sionistas ou controladas por pessoas com laços econômicos com os Estados Unidos ou Israel, o que nos oferece uma perspectiva claramente facciosa dos fatos daquele dia. Só o tempo poderá desfazer a rede complexa de mentiras criadas para disfarçar os crimes horrendos do imperialismo contra os povos subjugados.

Entretanto, mesmo com as informações mentirosas que surgiram, descrevendo atrocidades contra os israelenses que festejavam ao lado do campo de concentração de Gaza – os abusos sexuais, as decapitações, as pessoas incineradas – ainda assim foi possível enxergar a verdade por trás destas versões falsificadas. Até a imprensa israelense foi obrigada a reconhecer as ações criminosas do seu exército e a insanidade da “diretriz Hannibal”, que sacrificou seus próprios cidadãos no intento de matar palestinos e evitar o aprisionamento de reféns. Entretanto, o futuro nos permitirá ver em perspectiva o “Levante de Gaza”, que estabeleceu um basta definitivo da população encarcerada da Palestina sobre os abusos dos invasores sionistas. Esta data será lembrada por gerações como o grito de liberdade de um povo subjugado há 76 anos pelas nações imperialistas, em especial os sionistas e os Estados Unidos.

Mas terão os palestinos, libaneses , iraquianos, iemenitas força para deter o exército tecnológico de Israel? Ora, quando dizem que o poder de fogo de Israel é invencível, nutrido pelos Estados Unidos que, por sua vez, é a maior força bélica do planeta, e que o Hamas e o Hezbollah serão aniquilados mais cedo ou mais tarde, é necessário lembrar o que ocorreu na Coreia Popular nos anos 50, no Vietnã nos anos 70 e há poucos meses no Afeganistão. Inobstante a disparidade incalculável de forças entre o exército imperialista e as forças de resistência, o resultado foi o mesmo: a vitória daqueles que lutavam pela liberdade e pela independência do seu povo. Portanto, a diferença de poder de fogo, apesar de imensa, não foi a determinante em longo prazo; as forças libertárias, mesmo que às custas de enormes sacrifícios, acabaram sempre vencendo no final.

Assim, por mais que Israel tenha apoio irrestrito do Império, a queda do regime sionista – racista, supremacista, teocrático, opressor e excludente – é uma questão de tempo. Mesmo que ocorresse algo improvável, como a derrota completa das forças resistentes do Líbano, Palestina, Síria, Iêmen, Irã e Iraque e todos os grupos que lhes dão suporte, ainda assim a imagem de Israel está profundamente deteriorada na percepção da população do mundo inteiro. As manifestações que denunciam os massacres covardes dos sionistas, contra crianças, mulheres, jornalistas, médicos, enfermeiras numa matança jamais vista no século XXI (e que nos faz lembrar dos horrores nazistas) deixaram claro que o planeta inteiro não aceitará mais a existência de um país que faz do racismo institucional seu principal cimento social.

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O horror sionista deixou uma marca indelével na memória de todos, que hoje em dia rejeita de forma clara a ideia de um “povo escolhido”. Por que razão o Criador escolheria como seu povo predileto aquele capaz de ações demoníacas, que contrariam todas as ideias de fraternidade e que aviltam a noção de civilização? O mundo não vai acordar amanhã esquecendo os horrores e a desumanidade promovidos pelos sionistas de Israel, e não há “hasbara” (propaganda sionista) forte o suficiente para produzir uma amnésia da barbárie contra a população civil que ocorre há 1 ano em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Portanto, nos anos vindouros o 7 de outubro será celebrado como o grande “uprising”, o “levante da Palestina”, o marco inicial da liberdade do povo que durante mais de sete décadas lutou contra um sistema opressivo, violento, injusto, racista e imoral. Será uma vitória importante das nações insurgentes contra o imperialismo brutal e assassino, um exemplo de coragem para todas as nações que buscam sua independência e sua autonomia. Essa dívida todos teremos com o povo palestino. Sua força e sua coragem, seu sacrifício e sua resiliência serão exemplo para todas as gerações vindouras.

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