Arquivo da tag: Afeganistão

Biscoiteiros

O Facebook está cheio de gente que usa a rede para fazer propaganda de si mesmo, do seu saber, do seu conhecimento de vinhos, filmes e literatura. Esse exibicionismo é uma praga muito disseminada, em especial entre membros da Academia, mas por si só não é algo detestável; ao meu ver é apenas um mau costume, tão (des)importante quando tirar fotos de si mesmo várias vezes e todos os dias com roupas, penteados ou unhas diferentes.

O problema é que estas torres de vaidade não suportam contradição. Basta que você discorde de uma das posições expostas, mesmo que de forma absolutamente respeitosa, para o sujeito partir para os impropérios. E se você insistir no seu ponto de vista – que poderia ser interpretado como “resistência à prisão” dos seus argumentos – a solução é o bloqueio, o que produz duas vantagens: faz desaparecer um sujeito que contesta suas verdades absolutas ao mesmo tempo que apaga da sua página a argumentação usada para contrapor suas ideias.

Podem ter certeza que esse tipo de acadêmico, por mais que tenha algumas ideias arejadas, não é um verdadeiro democrata. Qualquer contestação ao seu pensamento é vista como ameaça à sua autoproclamada importância mas, diante de tamanha fragilidade, não é mais possível aceitar suas verdades, que passam a perder autoridade na medida em que não suportam o crivo do contraditório.

É essa esquerda biscoiteira acadêmica que precisamos questionar…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Imperialistas

As pessoas que acusam aqueles que ficaram felizes (com a expulsão dos americanos do Afeganistão pelo Talibã) de serem “machistas” aceitam ser chamados de “genocidas” por sua conivência com as mortes de meninas e mulheres durante a ocupação americana? Aceitam o rótulo de neocolonialistas? Aceitam a pecha de “bandeirantes da América”?

Dizer que celebrar a derrota do Império no Afeganistão é saudar a misoginia do Talibã é o mesmo que afirmar que festejar a derrota de Trump significa se alegrar com a vitória dos democratas imperialistas e sua máquina de guerra. Com um pouco de esforço dá para entender que é possível desprezar tanto o imperialismo quanto o Talibã, mas acreditar que um precisa ser derrotado primeiro, até por ser a principal causa do outro.

Da mesma forma dá para combater Trump e Biden, por que são diferentes apenas em nível interno, mas iguais no seu pendor imperialista.

O biscoitismo – em especial partindo de figuras públicas da Academia na capital brasileira – é um cacoete terrível de intelectuais que se aventuram nas redes sociais. É preciso agradar em primeiro lugar ao seu eleitorado, e só depois fazer algumas concessões à realidade. O salário são os “likes” e os elogios rasgados ao seu idealismo que não suporta 10 minutos de mergulho da verdade dos fatos.

Quem, entre as pessoas horrorizadas com a entrada do Talibã – um grupo de reacionários e fascistas de direita muito parecidos com os bolsonaristas no Brasil – lembrou das 500 crianças mortas pelos bombardeios americanos SÓ ESSE ANO? Por acaso dá para comparar a PORCARIA REACIONÁRIA do Talibã com 500 crianças explodidas pelas bombas imperialistas?

Qual a dificuldade de entender que a entrada dos Talibãs e a expulsão dos americanos é um mal menor diante do DESASTRE GENOCIDA do Império em qualquer lugar do mundo????

Em suma, ressaltar a importância da derrota do Império não é o mesmo que passar pano para os abusos do Talibã, mas reconhecer que só com o fim do imperialismo a cultura misógina do Talibã poderá ser atacada. Assim como no século XIX, o colonialismo eurocêntrico não é a resposta, pois com ele vem abusos, mortes e torturas – em especial com os mais frágeis, as mulheres e as crianças.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

Afeganistão livre

Para ponderar sobre as repercussões da iminente retomada de Kabul e a expulsão dos gringos do Afeganistão.

Sim, partidos marxistas comemoram a vitória do povo afegão contra o Imperialismo, depois de vinte anos de lutas e 2 trilhões de dólares gastos no esforço de uma guerra inútil e perdida. Aliás: imaginem apenas o que poderia ter sido feito para a modernização do Afeganistão e seu povo se o dinheiro americano não fosse gasto para matá-los, mas para desenvolvê-los…

Mas, espere aí… teremos de volta os Talibãs? Ora, “eles são machistas, misóginos e bárbaros!!” Como em “The Kite Runner” veremos de novo o menino Amir tendo que fugir do seu país para se proteger dos abutres e pedófilos? Como podemos comemorar esta vitória sabendo que isso significará uma série de retrocessos, em especial para as mulheres?

Bem, minha posição pode ser entendida da seguinte maneira: se os Estados Unidos invadissem o Brasil e Bolsonaro fosse o presidente, a atitude óbvia e natural de um partido marxista revolucionário seria JUNTAR-SE a Bolsonaro no combate ao imperialismo! A questão Bolsonaro – assim como a questão Talibã – deverá ser resolvida internamente e a posteriori, mas a emergência em devolver o país ao seu povo é muito mais importante – e grave. Por certo que qualquer processo revolucionário significa muita dor, mas não há país que possa se desenvolver sendo dominado e escravizado, por “melhores” que sejam seus invasores. A guerra do Afeganistão e o surgimento dos Talibãs – “estudantes“, em pachto – se deu na esteira da entrada dos Estados Unidos na região após a retirada dos soviéticos. Os talibãs são apenas o resultado ruim de uma intervenção catastrófica, mas a expulsão do Império era uma questão de honra para o povo afegão.

O mesmo sentimento eu tive quando da revolução iraniana em 1979 e a queda do Xá Reza Pahlavi – com o surgimento do Aiatolá Khomeini e o fundamentalismo xiita. Da mesma forma, eu sabia que haveria um retorno a valores que se contrapunham a minha visão ocidental, mas ainda achei melhor que assim fosse do que ver a imposição de um estilo de vida ocidental em um país subjugado ao Império. O mesmo com a revolução haitiana ou cubana; é melhor ser livre e poder lidar com suas contradições internas do que manter-se escravo e incapaz de se afirmar como nação.

Ou ainda existe quem justifique as aventuras imperialistas que, a pretexto de levar “democracia” (leia-se expropriação dos recursos) e “modernidade” para países em crise, acabem por espalhar uma visão homogeneizante de sociedade baseada nos valores ocidentais? Continuamos achando justo espalhar a varíola do capitalismo e da “democracia liberal” em troca de oferecer camisa do Vasco para os índios e sutiãs para suas esposas? Bíblia para todos? Saias curtas para as moçoilas do Irã?

Além disso, o Brasil não tem nenhuma condição moral para apontar dedos em direção ao Afeganistão. Se existem problemas sérios em relação aos direitos das mulheres, não somos nós os mais adequados para acusá-los. Existem mais mulheres na política afegã do que no Brasil, e isso deveria nos fazer pensar o que os nossos “talibãs tupiniquins” – fanáticos fundamentalistas – estão fazendo com os direitos das mulheres por aqui. Comecemos esta batalha por aqui mesmo…

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Gancho

Fiquei de castigo por 3 dias no Facebook. Tomei um gancho por “discurso de ódio”. Querem saber por quê?

Fiz um breve comentário na foto, colocada em um site de piadas americano, onde se via uma criança negra chorando ao lado do caixão em que jazia seu pai, soldado morto em batalha no Afeganistão. Abaixo da foto se lia a legenda: “Militares americanos mágicos: ficam 3 anos fora de casa e voltam transformados em uma bandeira”.

Pode-se dizer que é uma piada de mau gosto, ou inadequada. Cruel talvez, mas preferi levar a sério o tema. Respondi dizendo:

“Não é difícil descobrir o segredo desta magia. Basta parar de mandar pretos, pobres e latinos para matar outros pobres e periféricos em nome do “Exército Imperial”. Só no governo do democrata Obama foram SETE países destruídos pelos imperialistas. Centenas de milhares de mortos e mutilados, entre eles mulheres e crianças. Enquanto estes sujeitos forem tratados como heróis, e não como marionetes do Império para fazer os ricos ficarem ainda mais ricos, estaremos no caminho errado. E não esqueçam: antes de morrer este pai de família deixou órfãs várias crianças que agora choram também a falta do seu pai. Se é para lamentar pela tragédia e pela tristeza da cena, vamos chorar pela imagem completa, e não só por parte dela”.

Gancho merecido, não?

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

China

“A China, recém-eleita para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, acaba de analisar os EUA e insta o país a: erradicar o racismo sistemático, enfrentar a brutalidade policial e a proliferação de armas, parar de estigmatizar a pandemia, interromper a intervenção militar em outros países.”

Desculpe, mas qual o motivo do espanto? Racismo sistemático na cultura americana é impossível de não enxergar; brutalidade policial é uma realidade impressionante nos Estados Unidos, proliferação de armas produz o “mass shootings” praticamente diários no país que mais valoriza o armamento pessoal, politizar a pandemia é uma realidade lá e em outros países (como o Brasil) e o imperialismo e a intervenção militar em outros países não pode ser negado por qualquer pessoas que leia o jornal. Por que isso causaria espanto e surpresa?

Vejam, a China não é nenhum paraíso, mas erradicou a fome e a pobreza que são crescentes nos Estados Unidos. Aos poucos se torna a maior potência econômica e tecnológica do planeta. A proibição de armas na China faz com que mortes e assassinatos sejam raríssimos. O racismo na China nunca foi institucionalizado como nos Estados Unidos, cujo modelo “Jim Crow” deixou Hitler tão apaixonado, querendo explicitamente importar o modelo racista americano para a Alemanha pois achava que o racismo Yankee era o mais adequado para seu país.

A brutalidade policial na China jamais será semelhante àquela dos Estados Unidos, a mais violenta polícia do mundo, a que mais mata (depois da polícia brasileira) e a que mais é motivada por diferenças raciais. A China não tem nem de longe este tipo de problema. A China encarou a pandemia como devia ser encarada, com seriedade e ações de saúde pública e sem partidarização. Por essa razão, mesmo com uma população 4-5 vezes maior que os Estados Unidos teve apenas uma fração de suas mortes.

A China pós revolução de 1949 nunca invadiu outros países (com exceção do Tibete, onde imperava um sistema escravagista e teocrático), nunca teve uma atitude imperialista, jamais bombardeou países da Ásia como a Coreia, onde 1/3 da população morreu pelas bombas americanas. Sim UM TERÇO de todas as pessoas de lá morreram (mulheres e crianças) pelas ações imperialistas. Vietnã, Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen, Líbia foram DESTRUÍDOS pelo imperialismo americano, produzindo dor, morte e destruição. Sem falar nas ações de espionagem e sabotagem nas democracias da América Latina.

Não se trata de achar que a China é um paraíso e que não tenha problemas graves. Poluição e corrupção são dois muito chamativos. Entretanto, acreditar que o mundo ocidental tem mais liberdade do que a China é algo que só pode ocorrer pelo desconhecimento do sistema chinês, o sistema mais meritocrático de todos aqueles criados para a administração pública.

O modelo político liberal burguês é que precisa explicar o seu fracasso, que pode ser facilmente entendido quando vemos Bolsonaro como presidente e os Estados Unidos tendo que decidir entre um psicopata e um “senhor da guerra” senil.

Mais uma vez: não considero a China um exemplo a ser seguido cegamente, mas permitam que eu me surpreenda com o preconceito com a China e a aparente exaltação do sistema brutal do imperialismo americano.

Pergunta final: quantos cidadãos do mundo foram mortos nos últimos 10 anos por americanos e quantos o foram por chineses? Quantos chineses foram mortos por forças do seu próprio Estado na China e quantos americanos foram mortos pela polícia americana? Perceba: o sistema capitalista MATA seus próprios cidadãos, enquanto no socialismo a ideia não é matar através das ações do Estado.

Desafio a assistirem este TED Talk que trata do debate sobre a democracia representativa e o modelo chinês.

Deixe um comentário

Arquivado em Política