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Há na lista


Quando eu conto que fiz quase 30 anos de análise as pessoas geralmente se espantam e me perguntam, com genuína estupefação: “Mas afinal, o que foi que você descobriu?”

Eu acho que essa curiosidade é legítima, mas sempre fico com dificuldade em dar uma resposta objetiva, baseada em fatos claros para este questionamento. Parece que todo mundo aguarda uma réplica ao estilo: “Descobri que sempre odiei meu pai e amei a minha mãe” (ou vice versa), “durante a gestação minha mãe me rejeitou”, “sempre quiseram um(a) menino(a)” ou então aquela tradicional “nunca me recuperei do fato da minha mãe ter me esquecido no portão da escola”.

Tenho uma regra básica para os eventos marcantes da nossa vida: se eles podem ser resgatados com essa facilidade, emergindo ao consciente como uma bola que largamos no fundo da piscina, então é porque se trata de uma “falsa explicação”, provavelmente algo que usamos no lugar do conflito verdadeiro. Mesmo que eu acredite na dor que cerca tais eventos, eles apenas existem como intensificadores de sofrimentos mais antigos, recônditos e não-sabidos. Estes, por serem violentos e estruturadores de nossa neurose, estão, via de regra, escondidos nos porões úmidos e frios do nosso inconsciente.

Imaginar que uma análise se presta a descobrir estes fatos catastróficos é desmerecer a importância dos pequenos eventos na formação do sujeito. Lembro de uma conversa como uma amiga psicanalista a respeito de um quadro psíquico muito pesado, e a pergunta que lhe fiz: “Que evento escondido em seu passado pode ter ocasionado tamanha repercussão?”, ao que ela respondeu: “as vezes um olhar, uma palavra, ou a falta de ambos”.

A psicanálise atua na sutileza, na delicadeza, nas filigranas do discurso. Sua busca é pela imbricação de afetos, o conflito dos amores, a disputa de desejos e o desatar destes nós que carregamos. Não aguarde de uma sessão o espetáculo ilusório dos “insights” maravilhosos, uma sucessão de epifanias, um “ah-rá!!” a nos confirmar antigas suspeitas ou para abrir “as portas da esperança”.

Não, uma análise é algo que se faz até mesmo depois de terminada a sessão, quando nossas próprias palavras fazem eco em nossa mente, ao voltarmos para casa enquanto nossas lembranças dominam a paisagem. A boa análise é paciente e silenciosa, muda a nossa percepção oferecendo um conceito muito mais humilde de nós mesmos.

Assim, quando a pergunta “o que você descobriu” me atinge os ouvidos, minha resposta invariavelmente é: “milhares de coisas, mas nenhuma que eu me lembre no momento“.

PS: quando fiz minha primeira sessão de análise eu disse: “Pensava em fazer esta consulta a mais tempo, e tentei lhe ligar faz alguns meses, mas descobri que “telefone de analista não há na lista.” É inacreditável que uma análise tenha se estabelecido depois de um trocadalho miserável desses…

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Epifanias

Vulcão04

A gente sempre tenta estabelecer uma data, um marco, um linha divisória entre dois momentos da nossa vida. Falar do momento exato em que acordamos para uma realidade pode ser difícil, e as vezes impossível. Eu costumo citar o nascimento dos meus filhos como este momento definitivo, mas por certo que quando eles nasceram não havia nenhuma noção clara de humanização do nascimento em minha mente. Sobrou apenas uma espécie de indignação e dor pelo que poderia ter sido. Quando atendi uma paciente no chão da sala de exames do hospital esta indignação tomou a forma de uma vergonha. Não era apenas um mal que existia; era uma mal que dependia de mim para existir.

Todavia, esses eventos são artificialmente construídos, e o são sempre a posteriori. Na verdade o que te leva a mudar de paradigma é um sequência de minúsculos fatos, muitos deles insignificantes quando vistos de forma isolada, mas que adquirem sentido quando formam um conjunto coerente. Essas mudanças estão frequentemente escondidas de nossa percepção mais grosseira mas as epifanias as expõe pelo intenso afluxo emocional que propiciam.

Nossas mudanças são determinadas pelo trabalho diário e subterrâneo da lava incandescente de nossas experiências cotidianas. Uma pequena fissura na crosta das convicções é capaz de fazer uma erupção transformadora em nossas vidas.

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