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Moedinhas

Reflita: quando artistas e empresários doam remédios, cilindros de oxigênio, roupas e brinquedos para os necessitados durante calamidades como a que hoje estamos atravessando, eles apresentam sua caridade no Instagram e a chamam de “solidariedade”. Ainda nos fazem reclamar de outros empresários ou jogadores de futebol que nada fizeram para diminuir a dor dos desvalidos. Surge uma competição estúpida entre aqueles que são os “bons” e os “maus” milionários.

Estas doações são, via de regra, grandes ações de marketing para alavancar a imagem dos milionários. Nada de novo na história do capitalismo. Doam uma fração minúscula de seus ganhos diários para servir de alimento ao noticiário sensacionalista. Infelizmente, continuamos a nos ajoelhar diante das moedinhas jogadas por Rockefeller.

Todavia, essa máscara de benevolência não é o pior resultado deste tipo de exaltação midiática dos “benfeitores”. Com este tipo de manipulação reforçamos a ilusão de que a solução para as graves e insolúveis contradições do capitalismo se encontra na boa vontade dos ricos capitalistas em distribuir algumas migalhas e não na luta de classes e na justa distribuição das riquezas produzidas pelos trabalhadores de todo o mundo.

A caridade mantém intacta a injustiça, mas lhe oferece uma máscara reluzente – e falsa – de virtude. Em uma sociedade equilibrada, fraterna e igualitária nenhum ato caridoso seria necessário, pois a justiça social e a distribuição correta da riqueza já nos teria tornado – de fato – irmãos.

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Filantropos

Não há mais justificativa para negar que a filantropia em sua forma moderna, enquanto modelo empresarial, é a forma como os ricos e poderosos jogam migalhas aos pobres para que sua imagem seja melhorada e/ou aprimorada. Desde o início do capitalismo americano funciona assim, como nos ensinou John Rockefeller – o homem mais rico da história, que chegou a ser dono de 2% do PIB americano – jogando moedinhas (Dimes) para que as crianças na rua pudessem juntar. Era publicidade deslavada, tentando criar a imagem tão falsa quanto absurda de um “velhinho bondoso”. Na verdade se tratava de um dos lobos mais astutos e inescrupulosos do nascente império americano.

Todos esses sistemas de “ajuda aos pobres” só existem porque insistimos em um modelo capitalista injusto e que produz a brutalidade da iniquidade social. Nenhum país precisaria de ONGs para combater a fome, o analfabetismo ou as doenças endêmicas. Para oferecer este atendimento à população bastaria que os recursos PÚBLICOS fossem distribuídos de forma adequada e que não houvesse a concentração obscena de riqueza na mão de poucos capitalistas, que posteriormente devolvem uma fração minúscula de seus lucros como forma de publicidade, através de seus “institutos” e “fundações”.

É exatamente a perversidade desse sistema social e econômico que precisa ser combatida no século XXI. Quando a gente olha para estas instituições de ajuda à África, no combate à AIDs, à pobreza da América Latina, de proteção dos animais e de preservação da Amazônia e conhecemos os ativistas honestos e dedicados que dela participam, perdemos a noção do contexto amplo onde estas instituições são criadas, e ficamos incapacitados de perceber que a existência delas só pode ocorrer diante da falência do Estado. Sem a opressão sobre os povos e as desigualdades fomentadas entre os seres humanos nenhuma caridade seria necessária pois nenhuma filantropia faz sentido em um estado operante e que ocupe o posto de motor da distribuição equitativa de renda.

Enquanto isso não ocorre ficamos a mercê de seres desimportantes e sem brilho algum, como as primeiras damas de alguns Estados, as esposas de industriais que comandam fundações ou algum artista que tira milhões de seus seguidores e depois devolve uma parcela pequena – sempre para quem ele próprio escolhe, e não para quem mais necessita.

Os grandes filantropos americanos financiam Universidades pagas – como as da Ivy League – para que brancos de classe média possam estudar através de um sistema falsamente meritocrático, que sempre coloca em vantagem a classe que repousa sobre privilégios. Financiam também orquestras filarmônicas e museus (para a mesma classe), mas alguns fazem pior: estimulam pesquisas de medicamentos em negros e pobres africanos e da Ásia para serem posteriormente usados em brancos na América e Europa. Nada disso é bom, nada disso é adequado para a sociedade. Nada disso é justo e correto em uma sociedade que se pretende fraterna e justa.

“Caridade é ofensa; o povo quer – e merece – justiça social”.

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