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Ninguém deseja Cuba

Ahh, mas eu nunca vejo gente que quer se mudar para Cuba ou Venezuela. Estes esquerdistas todos vão para a França, Japão ou Estados Unidos. Por que isso? Afinal, Cuba socialista não é o paraíso na terra? Meus amigos todos viajam pelo mundo inteiro, alguns até decidem viver no Brasil, mas porque ninguém quer viver em Cuba?

Que legal…. Mas o que essa declaração tem a ver com Cuba e a democratização das riquezas produzidas em um país? Fica a pergunta: o que para você significa a liberdade e qual o preço de oferecer a uma classe um valor que nega à outra?

Você pelo menos se deu conta que seus amigos são pequenos burgueses, classe média, e que esta sociedade lhes dá o direito de viajarem para onde querem? Por outro lado, você percebeu que você não tem amigos entre os entregadores de pizza, marceneiros, pedreiros, motoristas de ônibus, lixeiros? Percebeu que sua noção de “liberdade” – o direito de viajar para qualquer país do mundo – está conectada a essa estreita faixa de amigos de classe média ou mais abastados? Você é capaz de vislumbrar a gigantesca multidão de pessoas que se obrigam a trabalhar sem o direito de usufruir uma vida de “liberdade” e viagens como você e seus amigos?

Agora pense em Cuba, uma ilha linda e cheia de encantos, cuja principal fonte de renda é o turismo, o que explica as dificuldades econômicas terríveis pela qual passa em função da pandemia. Apesar de ser um país muito pobre (se fosse no Brasil teria um PIB como o Piauí) é riquíssimo em música, dança, cultura, medicina e tem saúde públicas invejável. A China (curioso não falarem mais tanto da China) tem tudo isso e hoje já é um país riquíssimo. Só para lembrar, em Fortaleza existem edifícios na beira da praia onde só moram imigrantes chineses.

Pergunto de novo: quantos dos seus amigos da classe média brasileira escolheriam a Burquina Faso capitalista para morar? Quantos escolheriam Moçambique? Quantos optariam por morar na Colômbia? Por que então escolheriam Cuba? Seus amigos pequeno burgueses escolhem países mais ricos, onde o capitalismo explora os pobres e oferece aos burgueses uma vida mais fácil. Se eles fossem à Cuba teriam que trabalhar como todos os cubanos e não seriam considerados de “outra classe”, como você tanto admira.

Resumindo: como é bom ter a liberdade de escolher onde viver sabendo que qualquer lugar vai recebê-lo como pertencente à classe superior. E além disso, como é mais simples analisar o mundo como se ele fosse composto apenas desses 10% de classe média que o compõe.

O comunismo, por seu lado, olha para todos sem exceção, e procura enxerga neles a igualdade que o capitalismo lhes sonega. Essa é a diferença das nossas perspectivas. Para você o mundo será bom se os seus amigos puderem fazer escolhas livres e boas. Para mim – e para todos os comunistas – ele será adequado e justo apenas quando nenhuma criança mais passar fome ou dormir ao relento.]

Para os admiradores dos Estados Unidos – e críticos de um comunismo que só existe em suas cabeças – entendam que este país se tornou um Império brutal e assassino, e todo o “American Way of Life” que exibem na TV é construído pela morte, destruição e expropriação de recursos de outros países. Para que exista a opulência americana é preciso que uma centena de países trabalhem incansavelmente para garantir a eles esta prosperidade.

Seus amigos que viajam pelo mundo só tem dinheiro para estas aventuras porque essa sociedade é construída sobre valores que os beneficiam. Muita gente tem que morrer e se sacrificar para que essa “liberdade” seja usufruída.

O capitalismo é construído dessa forma. Pessoas “livres” caminhando sobre cadáveres.

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Igualdades

Finalmente alguém consertou aquele famoso cartaz reaça, que discutia e problematizava as caixas mas jamais colocava a maldita cerca como a origem das disparidades. Parabéns…

Minha interpretação é de que esta cerca é constituída pelos dois pilares de sustentação das sociedades ocidentais: o capitalismo e o patriarcado. As caixas colocadas posteriormente representam o “punch 2” da teoria de Peter Reynolds: tudo o que a sociedade faz no sentido de consertar a intervenção inicial (capitalismo e organização patriarcal) para diminuir seus efeitos deletérios, porém SEM MEXER nas estruturas viciosas e que estão na origem dos problemas (no caso da gravura, a possibilidade de assistir o jogo, em nossas sociedades a exploração, a miséria e a iniquidade).

As caixas são o “Criança Esperança”, as loterias alienantes, a competitividade violenta, os filantropos, as inúmeras doações feitas pela Coca Cola e – em última análise – a própria caridade, entendida aqui como a ação pessoal ou coletiva para ajudar os oprimidos pelo capitalismo ou pelo patriarcado…. que NÓS MESMOS criamos.

Assim, primeiro nós criamos as cercas e depois inventamos múltiplas caixas para ajudar os “desafortunados” apenas porque não temos coragem de questionar a simples existência da cerca!!!

Não tenha dúvida que retirar uma cerca é algo que demanda um tremendo esforço. Portanto, ela só pode ser retirada por uma interferência muito forte na cultura. Pode ter certeza que arrancar cercas é uma tarefa profundamente penosa. Tanto metaforicamente ao mudar estruturas sedimentadas na cultura quanto na lida do campo. Romper a cerca do capitalismo e do patriarcado será a grande tarefa do século XXI em todo o planeta.

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Moedinhas

Reflita: quando artistas e empresários doam remédios, cilindros de oxigênio, roupas e brinquedos para os necessitados durante calamidades como a que hoje estamos atravessando, eles apresentam sua caridade no Instagram e a chamam de “solidariedade”. Ainda nos fazem reclamar de outros empresários ou jogadores de futebol que nada fizeram para diminuir a dor dos desvalidos. Surge uma competição estúpida entre aqueles que são os “bons” e os “maus” milionários.

Estas doações são, via de regra, grandes ações de marketing para alavancar a imagem dos milionários. Nada de novo na história do capitalismo. Doam uma fração minúscula de seus ganhos diários para servir de alimento ao noticiário sensacionalista. Infelizmente, continuamos a nos ajoelhar diante das moedinhas jogadas por Rockefeller.

Todavia, essa máscara de benevolência não é o pior resultado deste tipo de exaltação midiática dos “benfeitores”. Com este tipo de manipulação reforçamos a ilusão de que a solução para as graves e insolúveis contradições do capitalismo se encontra na boa vontade dos ricos capitalistas em distribuir algumas migalhas e não na luta de classes e na justa distribuição das riquezas produzidas pelos trabalhadores de todo o mundo.

A caridade mantém intacta a injustiça, mas lhe oferece uma máscara reluzente – e falsa – de virtude. Em uma sociedade equilibrada, fraterna e igualitária nenhum ato caridoso seria necessário, pois a justiça social e a distribuição correta da riqueza já nos teria tornado – de fato – irmãos.

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Humanidade

Quando dona Marisa morreu, o ministro todo-poderoso do STF Gilmar Mendes ligou para Lula e chorou ao falar com ele. Foi nesse momento que Gilmar se deu conta do grande erro que havia cometido. No enterro da esposa de Lula estavam presentes todos os oponentes políticos do ex-presidente, de Sarney a FHC. A morte nos iguala e, de uma certa forma, nos humaniza. A tristeza por uma grande perda nos une e congrega.

Lembro agora da confraternização de Natal entre os soldados ingleses e alemães emergindo das trincheiras lamacentas para celebrar a esperança no fim da guerra. Naqueles momentos eles se sentiam todos iguais, a despeito de suas fardas, suas armas, suas diferenças e suas visões de mundo. Ali, em meio à barbárie, brotava a flor tímida da humanidade, em meio aos escombros de uma guerra brutal.

Quando ocorreu o desastre da Boate Kiss, Dilma chorou, abandonou às pressas um encontro no exterior e foi oferecer sua solidariedade às vítimas. Também chorou na tragédia de Realengo, assim como tantos outros estadistas hoje igualmente choram ao anunciar as mortes pela pandemia do Corona. Bolsonaro limita-se a produzir risadas histriônicas de sua claque ao dizer “E daí?”.

Bolsonaro disse que Dilma deveria sair, “de câncer, de infarto, de qualquer forma”. Sequer o seu sofrimento como sobrevivente de um câncer, ou o seu martírio como torturada pela ditadura, produziram nele uma simples atitude de respeito. Pior ainda; exaltou o torturador responsável pelas atrocidades cometidas contra ela. Agora, em nenhum momento surgiu deste homem qualquer sinal de compaixão diante das mortes pelo Covid19. Nem mesmo uma palavra de conforto ou de empatia; apenas desprezo e escárnio.

Não se trata de acreditar que Bolsonaro é “direto”, “grosso”, “verdadeiro” ou “sincero”. Não, ele é apenas a negação da vida, a rejeição aos valores humanos e a exaltação do fanatismo mitômano.

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