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Tarefas domésticas

Zeza me lembrou dessa historia de mais de 30 anos passados.

O cenário era de filhos pequenos, pouca grana, muito trabalho, tarefas domésticas sendo divididas dentro do possível, numa adaptação difícil (em especial para mim) do modelo patriarcal que estruturou nossas próprias infâncias. Plantões de ambos os lados, noites fora de casa, louça se acumulando para lavar.

Diante da gravidade da situação, lá vou eu lavar a pilha indecente de louça. Da janela da cozinha vejo a vizinha, já falecida, me alcançando com os olhos por cima do muro.

Parabéns, doutor. É isso mesmo. Muito bonito mesmo. Tem que ajudar em casa. Gostei de ver. Assim é que se faz. Que lindo!!

Sorri encabulado para ela enquanto dei uma piscada para Zeza. “Viu como elas me valorizam?“, brinquei.

Dois dias depois chego em casa do hospital e me atiro no sofá. Desta vez Zeza estava na pia lavando a louça quando me viu. Ao lembrar da cena de alguns dias antes, não perdoou. Abriu a janela da cozinha e gritou:

Vizinha, não perde essa. Olha eu lavando louça. Também quero elogio!! Vem aqui ver!! Olha como sou maravilhosa!!!

Gritava na janela e se finava de rir. Eu entendi a crítica aos padrões sociais e às expectativas de gênero e me associei às risadas. Nós homens somos elogiados por fazer o mínimo enquanto o trabalho doméstico para a mulher “não passa da sua obrigação”. Não se trata de criticar o elogio, mas de reclamar do silêncio diante de um trabalho tão duro quanto invisível.

Concordei com a lição e a queixa, mas deixei Zeza lavando a louça. Afinal, era o dia dela.

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Bolhas identitárias

O documentário “Minimalist” (que eu gostei muito) que é sobre uma dupla de rapazes que abandonaram seus empregos e carreiras para investir em uma vida mais simples e sem luxos, vivendo com o que consideram necessário e essencial. É um discurso minimalista, como o nome diz, e que prega o desapego às futilidades do dia-a-dia e uma opção pelo que é realmente valioso na vida. O documentário aborda a turnê desses dois jovens pelos Estados Unidos e a venda do livro com suas ideias.

Daí alguém me marca em uma página que critica o filme. Tudo bem, até me interessei, talvez o documentário tenha um erro essencial, uma visão equivocada ou mesmo um paradoxo que eu não tinha me dado conta. Quando comecei a ler percebi que a crítica era porque o filme era “machista“, já que os protagonistas eram homens, e as mulheres deveriam estar presentes em um documentário que aborda este tema.

Eu pergunto: um documentário sobre os Beatles também seria irremediavelmente machista? Stones? O Grêmio? Como esses dois aventureiros e idealistas poderiam fazer um documentário sobre sua jornada de auto transformação e NÃO serem considerados machistas, já que são homens?

A crítica do filme deixa clara a ideia de que o crime inafiançável desses dois rapazes é o fato de serem homens e tentarem construir um caminho diferente para suas vidas.

Eu não suporto mais essas bolhas identitárias. Eu simplesmente não aguento esse discurso pois vejo que ele está destruindo a solidariedade e as próprias esquerdas. Agora não é para o bem de todos, o que vale é “minha bolha primeiro, afinal...” e aí você coloca o discurso pré determinado para defender os interesses do seu grupo em detrimento de todos os outros. Vale mais quem puder ser mais vítima.

O identitarismo é uma ação de direita travestida de movimento por direitos humanos. Ele oferece todas as armas para os fascistas que odeiam igualdade e faz de inimigos pessoas que poderiam estar do mesmo lado. Que tristeza. Passei a ter alergia a qualquer manifestação dessa natureza

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Cerimônia de Casamento

Acabo de chegar da igreja onde assisti um casamento católico tradicional. Lindo, emocionante, charmoso. Todo mundo se apertando dentro da roupa. Mulheres segurando lencinhos e homens desengonçados com seus paletós e suas calças justinhas. Nenhuma mulher era mais baixa do que eu, mas a mágica se escondia por sob os vestidos longos. Os homens riem, as mulheres choram.

Um espetáculo de exaltação da sexualidade, a começar pela porta central da igreja, que só abre nas núpcias, como um colo uterino a receber as sementes em forma de nubentes. A encenação máxima do mais importante dos rituais humanos, que representa a promessa de continuação da espécie.

Cada passo, cada fala, cada personagem, toda a ordem, cada sorriso tem um papel importante na celebração do patriarcado.

PS: Eu coloquei esse texto exatamente como contraponto ao que eu imaginava que alguém escreveria. Isto é: a resposta a uma pergunta ainda não havia sido feita. O que eu vi nesse casamento foi um ritual de reforço do patriarcado e que é TOTALMENTE feito pelas mulheres – e para elas. TUDO é construído em torno da figura central: a mulher e sua importância fundamental na estrutura social humana.

A forma poderosa como ela é apresentada seduz mesmo as mais resistentes críticas. Por isso que, ao escutar tantas queixas das mulheres fico perplexo ao ver que esse ritual do patriarcado sobrevive essencialmente pela luta das mulheres em mantê-lo de pé. Em um mundo onde as mulheres conquistam espaço e criticam a opressão a que são submetidas pelo machismo é curioso – talvez paradoxal – que o ritual mais poderoso para a supremacia do patriarcado seja mantido vivo exatamente por aquelas que se sentem oprimidas por ele.

A tese é simples: os valores profundos de uma cultura de expressam através de seus rituais. Através dessa “regra” fica claro perceber que contextos (culturas) belicosas tem rituais violentos; culturas fraternas e justas tem rituais mais ligados ao congraçamento e à igualdade. Culturas machistas encenam rituais que valorizam o homem. Não há nenhum feminismo (entre todas as suas expressões) que não veja no patriarcado a origem da assimetria de poderes entre os gêneros. Esse sistema de 100 séculos ainda domina a estrutura social apesar dos sinais claros de sua decadência. De todos os rituais que servem como pontos de proteção e exaltação do patriarcado o casamento religioso é o mais forte e o mais importante por sua simbologia. Sendo assim, deveria ser preservado e protegido por quem retira alguma vantagem desse modelo decadente e opressor, mas o que se vê é EXATAMENTE o oposto: o casamento é totalmente edificado em função das mulheres sendo por elas controlado, gerenciado e conduzido.

Um um casamento é uma encenação. Ele REPRESENTA outras realidades que não são explicitadas no texto  por isso ele é um RITUAL. Um ritual precisa ser repetitivo, padronizado e simbólico. Portanto ele ESCONDE dos sentidos seus significados mais profundos. O casamento é um reforço do patriarcado em todos os ângulos que se olhe, basta olhar em profundidade e não apenas na superfície.  Além disso o casamento não tem NENHUMA ligação obrigatória com o amor. NENHUMA. Se quiser ver um exemplo disso assista o casamento do século entre o Príncipe de Gales e Diana. Não havia amor e mesmo assim o ritual se manteve de forma integral. O casamento por amor é uma invenção muito recente na história da humanidade, e tem menos de 200 anos. Os casamentos sempre tiveram função social e por isso tinham solidez. Esses contratos tinham uma clara função de produção e procriação, e não havia nenhum compromisso afetivo entre as partes. Ainda é assim em muitos lugares do mundo.

Pior; o acréscimo do amor nas relações maritais foi numa tragédia para esta instituição, e acredito que o casamento – por causa desse detalhe – nunca vai se recuperar desse golpe e voltar a ter o prestígio de outrora.

Aliás… Eu também sou contra o “casamento gay” enquanto RITUAL. Puxa… a sociedade inteira considerando o casamento uma instituição fora de moda e sem sentido e os gays querendo revitalizar a “união abençoada por Deus”? Que coisa mais cafooooona!!!! E diga-se de passagem que sou a favor de que as uniões gays tenham as MESMAS garantias legais das heterossexuais, mas acho que o “casamento” (enquanto ritual) é um retrocesso (mas um direito que não discuto). Sim o casamento gay (alguns que vi no Youtube) produz a mesma representação patriarcal que os heterossexuais tentam mudar ou abolir, por isso que eu considero algo ultrapassado.

O casamento não precisa ser “machista”, mas inegavelmente simboliza os mais importantes valores do patriarcado

O casamento com todos os seus símbolos ainda é o sonho de muitas mulheres, mas enganam-se os que pensam que isso tem a ver com informação, cultura ou estudo. O casamento ainda é um sucesso em todas as classes sociais.

A cerimônia só não é celebrada por elas no catolicismo. Ainda…

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Marcha de Austin

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Mais de 30 mil pessoas participaram da manifestação pelos direitos das mulheres aqui em Austin – Texas, mas segundo os observadores da polícia militar de São Paulo não havia mais de 340 pessoas. Estou esperando a versão verdadeira: a da Globo.

Milhares de mulheres, crianças e homens. Muitos casais de lésbicas, pouquíssimos gays masculinos e transgêneros. Muita alegria, humor, diversão e ordem. Tudo muito comportado, ordeiro e organizado. Poucas palavras de ordem. Nenhum slogan forte, poderoso e viral. Batucada, mas sem samba.

Outra coisa chamativa: não havia nenhuma manifestação anti-homem ou anti-masculina. Não parecia haver um clima de ressentimento. Claro, muitas mulheres estavam lá com seus homens, maridos, irmãos e filhos. Havia um sentimento de inclusão.  Parece que diziam: fiquem do nosso lado, nós precisamos de vocês nessas lutas. Durante todo o percurso  nada vi de agressivo contra os homens.

Foi uma linda demonstração  de inconformidade e resistência civil, mas apenas isso. Faltou ao protesto a força que eu desejaria. Tudo muito amigável e conforme a lei e o direito. Parecia um protesto coxinha; até os policiais eram gente boa. Vi até um policial pedindo desculpas por passar com a viatura no meio da multidão para atender uma emergência.

Minha pergunta é: aonde este tipo de manifestação pode nos levar? Que poder têm 30 mil pessoas aqui (500 mil em Washington) para fazer uma efetiva  mudança?

Havia um cartaz  no meio da multidão que, de uma certa forma, oferece a resposta.

Well behaved women never make history

(Mulheres bem comportadas nunca entram para a história). O “protesto” foi comportado demais, bonitinho, ajeitadinho, colorido, com mães e bebês em carrinhos, maridos parceiros, cartazes coloridos, diversidade e respeito. Entretanto, ao meu ver, faltou energia transformativa. Faltou enfrentamento ao poder instituído.

Como transformar um desejo social legítimo em poder autoritativo verdadeiro? Isto é: como fazer dessa manifestação ferramenta de mudança e pressão, e não apenas uma festa para a família?

Os “Black blocks” sabem dessa armadilha e por esta razão se negam a participar de movimentos bem comportados. Para eles só vale se cutucar a ferida do poder. Se essa radicalidade lhe parece inaceitável, que outra alternativa nos resta?

Essas manifestações ao meu ver não tem valor em si; elas são marcadores do poder popular. A partir delas é que se constroem propostas de mudanças através da representatividade. Por isso é que são enganosas, pois elas não são um fim, mas um meio de construir ações políticas de mudanças estruturais.

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Desprezo

Mulher braba

Escrevi um enorme texto e apaguei…

Guardei apenas a última frase: “Nunca despreze a violência de uma mulher que se sentiu desprezada por um homem”. A violência dos homens na mesma situação bem a conhecemos, e ela é trágica. Mas a das mulheres as vezes pode passar despercebida…

A violência de um homem desprezado bem a conhecemos, e ela é trágica. E para essas mulheres já existem sistemas de suporte. Minha frase se referia apenas ao fato de que é natural um homem ser desprezado por uma mulher em um baile, num pedido para sair, numa abordagem qualquer. Para um homem comum isso não é uma desonra. Levar um “não”, “estou cansada”, “sai pirralho”, “vai te criar”, “estou conversando com minhas amigas”, etc… é natural. A imensa e gigantesca maioria dos homens civilizados bota isso na conta da ousadia. “Se colar, colou. Se não der certo, vamos para a próxima“.

Entretanto, as mulheres não tem esse treinamento de milênios oferecido pelo modelo patriarcal. Eles não sabem levar “não”. Ficam contidas e se sentem humilhadas. O problema é que a revolução feminina colocou no “mercado” milhões de mulheres que acham que tem o (justo) direito de tomar a iniciativa. Tiram para dançar e até se oferecem sexualmente. Todavia, não estão ainda preparadas (como nós) a receber um rechaço por suas investidas. Ficam indignadas e, primeira atitude, desqualificam o sujeito. “Bixa“, “frouxo“, “fraco“, etc. Maior ainda é a maledicência sutil e insidiosa que vai ocorrer depois. As mulheres, se quiserem ser livres a ponto de se tornarem “caçadoras”, precisam se adaptar ao fato de que nem sempre a flecha atinge o alvo.

E a culpa não é do alvo.

PS: Eu sei que homens matam mulheres por serem desprezados, por ciúmes, por se sentirem abandonados. Sei que esse problema é muito maior. Entretanto, o fato de haver uma guerra na Síria não me impede de questionar o aumento no preço da farinha de rosca. Até porque um fato não invalida o outro.

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