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Fantasias

Ela contou algumas histórias sobre seu cotidiano, suas insônias, as dores nas costas e o antigo refluxo que a incomodava. Depois falamos de seus sonhos, do casamento recente e do desejo de ter um filho. Eu escutava e só desviava ocasionalmente o olhar para anotar uma passagem que fosse significativa. Após algum tempo ela olhou direto em meus olhos e, depois de uma pausa, me disse:

– Isso é um pouco pessoal, mas preciso falar de uma coisa sobre o meu casamento.

Larguei a caneta sobre o papel, ajustei o óculos sobre o nariz e cruzei os dedos sobre a folha rabiscada. Entendi que a consulta dava um giro importante, talvez chegando ao ponto que a tinha originado.

– Claro, disse eu, pode falar.

Ela baixou o olhar por alguns instante e depois começou a falar sem erguer os olhos.

– É o meu marido. Acontece que ele é muito possessivo. Eu diria que ele é até grosso. Não deixa eu sair com minhas amigas e controla meus vestidos. Não gosta que eu me comporte de forma muito alegre em público. Ciumento, muito. Não suporta que alguém se reporte a um ex namorado meu. Controla meus horários e cobra qualquer mínimo atraso…

– Alguma violência?

– Não!! Jamais!! Nunca me bateu ou qualquer coisa parecida com isso. Ele é – e sempre foi – um perfeito cavalheiro. Nem levantar a voz ele faz comigo. Eu também não aceitaria qualquer tipo de violência comigo. É só esse comportamento controlador dele, constante…

– Bem, mas você já pensou em dizer a ele que poderia pedir ajuda? Existem diversas formas de abordar esse comportamento, e muitos homens apenas repetem em sua vida madura o….

– Não Ric, você não entendeu. Não acho que ele precisa procurar ajuda. Não é esse o problema…

– E qual é?

Ela esperou um pouco antes de responder, e soltou as palavras como se estivesse a fazer uma confissão.

– O problema… é que eu gosto. Eu adoro um homem me tratando assim. É algo que me excita.

Bem, se há algo que aprendi foi não me intrometer na fantasia sexual de ninguém. Se há consentimento e respeito tudo é válido entre adultos. Apenas sorri e lhe disse que a mim não cabia julgar os laços eróticos que unem as pessoas. Ela sorriu satisfeita, como que aliviada por sentir-se livre para amar seu marido do seu próprio jeito.

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Se não houver amor

O sertanejo bonitinho que curte vodka acordou em uma bela manhã e comunicou sua esposa: “acabou, não quero mais”. Assim, na lata, sem rodeios. Direto. Arrumou as malas e se foi.

Na “comentosfera” o clima é esse: “maldito mau caráter, abandonou uma mulher linda dessas (se fosse feia podia?), destruiu sua família e blá, blá bla…”

Não, não vou defender sertanejos bolsonaristas, mas peço que tenham cuidado ao fazer julgamentos morais sobre o término de relacionamentos de personagens midiáticos.

Casamento nada tem a ver com caráter, mas com desejo. Muito pior seria continuar qualquer casamento sem essa matéria prima absolutamente essencial. E, por favor, não piorem o quadro exaltando as aspectos físicos da moça, repetindo a mesma tolice de comparar Camila Parker Bowles com Diana. Acreditem; o desejo tem suas artimanhas, e enxerga suas conexões de forma curiosa e pessoal.

Nesse tipo de caso apenas lamente que sua fantasia não tem mais como se alimentar da paixão alheia. Criar culpados – ou pior – o personagem bom e o mau, a vítima e o algoz, não faz nenhum sentido. Se ele não a deseja mais, o que se pode exigir?

Pensem bem; se ela acordasse e dissesse para ele “acabou, não quero mais você”, estaria errada? Seria ela uma megera egoísta? Seria justo criticar sua desistência em nome do amor que ela percebeu que se foi?Pois eu creio que não.

E lembrem…”Se não houver amor, não te demores”.

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Monogamia

Eu sou do tempo em que virgindade era um valor social. Caiu estrondosamente sem deixar vestígios. Por isso mesmo acredito nessa dinâmica e na ação do tempo sobre mitos e tabus. A monogamia é um passo mais longo e talvez sua queda leve mais tempo. Quem viver verá…

Entretanto, restará ainda o cuidado com as crianças, que demanda esforço conjunto. Eu vivi desde a minha infância a descoberta da paternidade e dos cuidados paternos. Escrevi sobre isso e desagradei algumas pessoas, mas é fato que os homens dessa geração são muito mais próximos dos seus filhos do que todas as gerações anteriores. Quando comparo os cuidados parentais do meu filho com aqueles oferecidos pelo meu pai e avô (e até por mim mesmo) existe um fosso gigantesco de proximidade, cumplicidade e cuidado direto com os filhos.

Assim, houve uma explosão do papel social masculino com os cuidados de bebês e crianças e um decréscimo inegável na importância da maternidade da vida das mulheres, a ponto de haver grupos que a rejeitam por completo. O que era o destino inexorável de todas elas passou a ser apenas uma de tantas vertentes de realização em suas vidas. Para os homens uma descoberta, para as mulheres uma libertação.

Se houve mudanças substantivas no terreno da “posse sobre corpos alheios”, e o questionamento contemporâneo sobre as relações “fechadas”, eu ainda fico reticente com os casamentos abertos onde há filhos para criar. “Abrir” para deixar mulheres (mais uma vez) desamparadas não me parece justo. Precisaremos criar uma nova instituição para isso, caso contrário os casamentos de coabitação e monogâmicos continuarão prevalecendo.

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Cerimônia de Casamento

Acabo de chegar da igreja onde assisti um casamento católico tradicional. Lindo, emocionante, charmoso. Todo mundo se apertando dentro da roupa. Mulheres segurando lencinhos e homens desengonçados com seus paletós e suas calças justinhas. Nenhuma mulher era mais baixa do que eu, mas a mágica se escondia por sob os vestidos longos. Os homens riem, as mulheres choram.

Um espetáculo de exaltação da sexualidade, a começar pela porta central da igreja, que só abre nas núpcias, como um colo uterino a receber as sementes em forma de nubentes. A encenação máxima do mais importante dos rituais humanos, que representa a promessa de continuação da espécie.

Cada passo, cada fala, cada personagem, toda a ordem, cada sorriso tem um papel importante na celebração do patriarcado.

PS: Eu coloquei esse texto exatamente como contraponto ao que eu imaginava que alguém escreveria. Isto é: a resposta a uma pergunta ainda não havia sido feita. O que eu vi nesse casamento foi um ritual de reforço do patriarcado e que é TOTALMENTE feito pelas mulheres – e para elas. TUDO é construído em torno da figura central: a mulher e sua importância fundamental na estrutura social humana.

A forma poderosa como ela é apresentada seduz mesmo as mais resistentes críticas. Por isso que, ao escutar tantas queixas das mulheres fico perplexo ao ver que esse ritual do patriarcado sobrevive essencialmente pela luta das mulheres em mantê-lo de pé. Em um mundo onde as mulheres conquistam espaço e criticam a opressão a que são submetidas pelo machismo é curioso – talvez paradoxal – que o ritual mais poderoso para a supremacia do patriarcado seja mantido vivo exatamente por aquelas que se sentem oprimidas por ele.

A tese é simples: os valores profundos de uma cultura de expressam através de seus rituais. Através dessa “regra” fica claro perceber que contextos (culturas) belicosas tem rituais violentos; culturas fraternas e justas tem rituais mais ligados ao congraçamento e à igualdade. Culturas machistas encenam rituais que valorizam o homem. Não há nenhum feminismo (entre todas as suas expressões) que não veja no patriarcado a origem da assimetria de poderes entre os gêneros. Esse sistema de 100 séculos ainda domina a estrutura social apesar dos sinais claros de sua decadência. De todos os rituais que servem como pontos de proteção e exaltação do patriarcado o casamento religioso é o mais forte e o mais importante por sua simbologia. Sendo assim, deveria ser preservado e protegido por quem retira alguma vantagem desse modelo decadente e opressor, mas o que se vê é EXATAMENTE o oposto: o casamento é totalmente edificado em função das mulheres sendo por elas controlado, gerenciado e conduzido.

Um um casamento é uma encenação. Ele REPRESENTA outras realidades que não são explicitadas no texto  por isso ele é um RITUAL. Um ritual precisa ser repetitivo, padronizado e simbólico. Portanto ele ESCONDE dos sentidos seus significados mais profundos. O casamento é um reforço do patriarcado em todos os ângulos que se olhe, basta olhar em profundidade e não apenas na superfície.  Além disso o casamento não tem NENHUMA ligação obrigatória com o amor. NENHUMA. Se quiser ver um exemplo disso assista o casamento do século entre o Príncipe de Gales e Diana. Não havia amor e mesmo assim o ritual se manteve de forma integral. O casamento por amor é uma invenção muito recente na história da humanidade, e tem menos de 200 anos. Os casamentos sempre tiveram função social e por isso tinham solidez. Esses contratos tinham uma clara função de produção e procriação, e não havia nenhum compromisso afetivo entre as partes. Ainda é assim em muitos lugares do mundo.

Pior; o acréscimo do amor nas relações maritais foi numa tragédia para esta instituição, e acredito que o casamento – por causa desse detalhe – nunca vai se recuperar desse golpe e voltar a ter o prestígio de outrora.

Aliás… Eu também sou contra o “casamento gay” enquanto RITUAL. Puxa… a sociedade inteira considerando o casamento uma instituição fora de moda e sem sentido e os gays querendo revitalizar a “união abençoada por Deus”? Que coisa mais cafooooona!!!! E diga-se de passagem que sou a favor de que as uniões gays tenham as MESMAS garantias legais das heterossexuais, mas acho que o “casamento” (enquanto ritual) é um retrocesso (mas um direito que não discuto). Sim o casamento gay (alguns que vi no Youtube) produz a mesma representação patriarcal que os heterossexuais tentam mudar ou abolir, por isso que eu considero algo ultrapassado.

O casamento não precisa ser “machista”, mas inegavelmente simboliza os mais importantes valores do patriarcado

O casamento com todos os seus símbolos ainda é o sonho de muitas mulheres, mas enganam-se os que pensam que isso tem a ver com informação, cultura ou estudo. O casamento ainda é um sucesso em todas as classes sociais.

A cerimônia só não é celebrada por elas no catolicismo. Ainda…

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