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Simbolismos

Parei totalmente de fazer episiotomia num memorável plantão obstétrico em uma cidade vizinha de Porto Alegre quando corria o ano de 1990; lá se vão 27 anos. Resolvi testar a capacidade elástica dos períneos por mim mesmo, em uma época em que episiotomia era tabu e não realizá-la era considerado má prática. Todavia, essa determinações não vinham da ciência e das pesquisas, e sim através do “Guardiões do Saber da Província“, mais preocupados com a manutenção dos seus privilégios do que com a garantia da integridade física de suas pacientes.

O resultado de minha experiência prática nos plantões foi espantoso: os períneos, em sua imensa maioria, se mantinham íntegros ou com lacerações minúsculas. A paciência com a elasticidade perineal, conjugada com a posição vertical do parto – que eu já usava desde a residência – foi um grande sucesso, e apresentou duas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, demonstrou o que a pesquisa de Thacker & Banta já afirmava: não se justifica a episiotomia de rotina para proteção contra lacerações nos tecidos do períneo. Em segundo lugar, confirmou a tese de que a episiotomia era um ritual mutilatório por oferecer os três elementos que o constituem: padronização, repetição e simbolismo. Quanto à repetição e à padronização do procedimento não havia dúvidas, mas qual o simbolismo se escondia por detrás do meramente manifesto no corte sobre as estruturas perineais?

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, só parirás se for por mim”, dizia Max sobre a ação que abria as portas do claustro materno, permitindo assim a liberação do ser por ela sequestrado. Cabia a nós, médicos, permitir que o bebê pudesse escapar das amarras de pele e músculo pelas quais sua mãe o prendia. Era por nossa ação que ele escapava da prisão sufocante em que se encontrava, podendo finalmente encontrar o ar que o corpo de sua mãe teimosamente sonegava.

A episiotomia nos colocava gloriosamente no centro da parturição, atestando nossa importância no evento e confirmando nossa desconfiança milenar na defectividade essencial do corpo da mulher. O monstro da “vagina dentada”, se mutilava falos no passado, hoje encarcera bebês, e o bisturi da cultura ao corta-lhe a garganta devolve a nós o produto social – o bebê – agora pela mão hábil, precisa e segura do cirurgião.

Foi preciso acordar dessa fantasia, transmitida pelo currículo oculto da escola médica, para interromper as mutilações genitais que fui ensinado a fazer. Nunca me arrependi de ter abandonado essa prática medieval, mas ainda carrego um certo remorso pelas tantas vaginas que maltratei – por ignorância, medo e miopia – durante meus anos iniciais de prática.

Que elas possam um dia me perdoar.

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Rituais mutilatórios

E quanto aos rituais…. eu sou DEFENSOR árduo dos rituais. Eles são fundamentais para a cultura. Natal, Páscoa, Pesach, ano novo (cristão, chinês, hebreu), bodas, aniversários, funerais, etc. A questão é que todos os rituais desnudam os valores culturais. Estudei por 30 anos os rituais de parto para me convencer que eles apontam para os valores do patriarcado e que se assentam sobre o mito da defectividade essencial da mulher. Esta é a questão central: os rituais nos mostram quem somos!! Fazem isso porque operam na sombra do inconsciente e não sob a luz da razão!

Por isso eles são poderosos e reveladores. Sob a luminosidade da razão eles murcham, secam e ….. se transmutam. Os rituais não são estanques e imóveis; eles caminham dois passos atrás do nosso conhecimento e dos valores sociais, e nos seguem de perto. Quando a razão impõe um novo entendimento da realidade, os rituais se modificam para se adaptar à novidade. Os rituais são eternos, mas não imóveis. Sua metamorfose adaptativa é o que lhes confere a imortalidade.

Acabar com as mutilações genitais tem o mesmo sentido de terminar com os sacrifícios sobre animais que fazíamos em um passado não muito distante. Pareciam ter sentido, mas aos poucos – calcinados pela luz da razão – foram desaparecendo. O mesmo precisa ocorrer com os rituais humilhantes ou violentos – como as mutilações.

Se as mutilações tinham alguma vantagem higiênica e identificatória há milhares de anos estas funções desapareceram. Ninguém pode admitir que sua proximidade com Deus se deve por ter a vulva deformada ou o prepúcio amputado. A ciência inclusive nos mostra o quanto perdemos de sensibilidade e prazer com estas perdas e cortes. A abolição destas mutilações em crianças é um marco civilizatório essencial.

Estabeleça-se que nenhuma criança pode ter seu corpo violado por práticas ritualísticas e mutilatórias e que qualquer adesão a estes grupos religiosos através dessas práticas só possa ocorra após a maioridade. Essa mudança nas práticas permitiria que as marcas, quaisquer que sejam, ocorram sob o controle de um sujeito livre para tomar decisões perenes sobre o seu próprio corpo.

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