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Democracia

A imprensa corporativa brasileira adora colocar rótulos nos governos que se insurgem contra o domínio imperialista americano. Entretanto, quando aprofundamos mais a análise, observamos uma realidade inquestionável: as democracias tolerantes acabam vítimas de sua própria tolerância com o imperialismo. Allende, Jango, Dilma, Lula, Evo, Cristina, Lugo, Juscelino e tantos outros foram vítimas de armações da CIA para a desestabilização das frágeis democracias na América Latina. Muitos deles foram deslocados da condição nacional por todo tipo de armação. Aqui foi a Lava Jato, mas cada país tem sua peculiaridade.

Entretanto, mesmo a esquerda reformista continua insistindo em rotular os países que resistem aos golpes yankees como “ditaduras”, mesmo quando o sistema eleitoral da Venezuela é o mais vigiado do mundo e o de Cuba opere num circuito muito mais sociocrático do que democrático (portanto, superior, ao meu juízo). Aliás, em Cuba a política é uma atividade de voluntariado, sem proventos, e nenhum participante das decisões pode pertencer ao partido comunista de Cuba.

Todos estes países – Nicarágua, Venezuela e Cuba – sofrem há muitos anos risco de ruptura IMEDIATA de sua soberania, seja por grupos de traidores financiados pelos Estados Unidos, seja por invasão militar direta. Na Venezuela, há alguns poucos anos, houve um atentado por drone contra Maduro, intentonas fajutas lideradas por Guaidó e uma invasão por mar onde espiões foram capturados pelos pescadores armados das brigadas revolucionárias.

Em Cuba nem se fala (só Fidel sofreu mais de 60 atentados), pois há poucos dias houve outra tentativa de um falso “movimento popular” que na verdade respondia a interesses de Miami. A Coreia do Norte, não fosse sua bomba nuclear, já teria sido varrida do mapa pelos americanos.

Pergunto: qual país na iminência de uma invasão (inclusive anunciada por Trump, no caso da Venezuela) permitiria eleições livres correndo o risco de ocorrer a vitória de um candidato populista que colocaria a soberania duramente conquistada a perder?

Se você responder “uma democracia europeia”, lembre que a Inglaterra suspendeu todas as eleições no período da guerra. E não foi só ela. Por quê?

Risco à segurança nacional, é a resposta que nicaraguenses, venezuelanos, cubanos, coreanos e ingleses dariam a essa pergunta. Por que então, em nome da segurança nacional, só os partidos que romperam com a dominação imperial são chamados de ditaduras? Enquanto isso, Cuba faz suas eleições livres há 60 anos. A Venezuela é o país com mais eleições com controle externo do mundo. A Coreia do Norte pouca gente sabe como funciona, mas ninguém aceitaria um biscoitinho de democracia sabendo que 1/3 da população do país foi morta pelos bombardeios americanos na guerra de independência. Uma eleição vale perder a soberania conquistada com a morte de uma terça parte do seu povo?

Quem arriscaria ver um candidato oportunista colocar a segurança destes países – Cuba, Coreia e Inglaterra – em jogo durante um período de guerra???
Não gosto de ditaduras, mas nesse continente SÓ OS AMERICANOS gostam, e eles estimularam a imposição delas em toda a América durante décadas. Aceitar – em nome da democracia – que eles voltem a nos cabrestar é ingenuidade suicida.

O erro de Dilma no seu excesso de republicanismo não pode voltar a ocorrer.
Por isso mesmo sou da turma que aceita dar porrada nos facho. Um dia eu tive que dizer ao meu filho (escondido da mãe) que se batessem nele na escola ele poderia sentar o braço no seu agressor. Não queria um filho Gandhi; preferia um filho Ernesto. Existe um limite para a não-violência.

Pense bem: não fosse a resposta dura dos insurgentes chineses a China continuaria até hoje o bordel da Europa e uma produtora de matérias primas para seus patrões brancos europeus. Talvez estivesse fragmentada em 4 ou 5 países controlados pelos gringos. Não fossem Fidel, Camilo Cienfuegos e Che, Cuba seria ainda hoje a ilha de Hemingway, cheia de puteiros e morenas do balacobaco, produzindo açúcar e miseráveis. Ok, talvez produzisse alguns jogadores de beisebol, como a pobre República Dominicana. A Coreia do Norte seria como a do Sul: dinheiro e sucesso para poucos, convivendo com a miséria dos trabalhadores explorados batendo recordes de suicídio.

Não fosse por uma luta insana e corajosa contra o Império e estes países seriam o que o Brasil é hoje: o quintal dos gringos. A culpa é nossa, pois foi nossa frouxidão que elegeu um canalha genocida.

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Hegemonia das Ruas

Essa foi a manifestação do professor Luis Felipe Miguel da UnB, sociólogo da esquerda liberal: “Há setores da esquerda que são presas de um tipo de machismo discursivo que equivale “violência” e “revolução”. Os neostalinistas ficam nas palavras, o PCO vai às vias de fato. Mas não tem nada de revolucionário nesta violência. É só uma compensação psicanalítica vulgar pela própria impotência.”

Desta vez estou em pleno desacordo.

O PCO – um partido diminuto e marxista – ganhou as manchetes do Brasil inteiro por fazer o que deveria ter sido feito em 2013: expulsar a direita das manifestações. Precisou ser feito por um grupo de corajosos que não se deixaram seduzir pela ideia de “frente ampla”. Existe uma confusão bem clara aqui: tirar a direita golpista das manifestações NÃO É o mesmo que afastá-la institucionalmente dos debates no congresso e no senado.

Que os líderes do PSDB se juntem nas votações pelo impeachment, tudo bem, mas não podemos permitir que eles sejam a VOZ DAS RUAS. O que estava em jogo era a HEGEMONIA das passeatas, e a infiltração da direita foi claramente planejada. Basta ver que foram às ruas fazendo provocações apenas grupos LGBT do PSDB, para colocar na esquerda a pecha de “homofóbicos”.

E mais: quanto tempo ainda vamos cair na falcatrua dos “black blocks”. Algumas fotos mostram claramente a incompetência dos farsantes de mimetizar um ativista. Usando botas da polícia e incapazes de fazer um simples símbolo de anarquia? Sério que vamos insistir em dar palanque para este tipo de armação velha, antiquada e espertinha, que visa apenas insuflar o terror no povo mais ignorante para colocá-los contra os movimentos de esquerda?

Acreditar que vamos fazer DE NOVO a mesma conciliação de 2013 e esperar resultados diferentes é ridículo. Pensem como seriam recebidos os grupos de direita nas manifestações do Chile ou da Colômbia. O PSDB é a fonte de onde surgiu o golpismo do Brasil, ou esquecemos todos do emblemático discurso de Aécio Neves negando a possibilidade de Dilma governar? Tudo começou com o PSDB, e ainda hoje eles apoiaram 92% das pautas apresentadas por Bolsonaro!!!! Como podemos aceitar a BASE DE APOIO de Bolsonaro como protagonista deste tipo de manifestação?????

Quem pode aceitar que o movimento das RUAS permita a infiltração de golpistas – que só estão lá para que esqueçamos a sua participação nos golpes e para posarem de “moderninhos” e democratas? Acha mesmo que é possível dialogar com os mesmos fascistas que espancam estudantes, professores, alunos e que roubam o dinheiro da merenda? Que tipo de civilidade subserviente é essa? Quantos tapas na cara é preciso que a gente tome até se dar conta que pedir para que parem não basta? Sim, precisamos ser “estratégicos e racionais” e retirar das ruas os grupos que tentam roubar o protagonismo das manifestações. Precisamos expulsar das manifestações os grupos que querem excluir o nome de Lula e levar o verde e amarelo dos conservadores para manchar a hegemonia vermelha. Precisamos retirar de nossas marchas os grupos que querem passar pano para as votações de desmonte do Estado que protagonizam no Congresso. Este sim é o exemplo mais claro de ENERGIA e RACIONALIDADE na construção de um movimento de rua forte e coeso.

Agora a esquerda liberal decide que temos que “juntas esforços” para derrubar Bolsonaro, como se ele fosse o problema!!! Bolsonaro é o SINTOMA de um golpe da direita para o desmonte do estado brasileiro e a manutenção do país como quintal do império. A infiltração da direita nos movimentos lhes garantiria legitimidade para colocar-se contra Bolsonaro e poder impulsionar o fascistinha do Leite, Dória, Huck ou mesmo Moro. E isso sendo feito pela nossa covardia em delimitar territórios.

Sobre a frase usada pelo cientista político Luis Felipe Miguel chamando as manifestações do PCO de “compensação psicanalítica vulgar sobre a própria impotência”…. talvez fosse mais justo dizer que os discursos que tentam normalizar e justificar a impotência e/ou a inação sejam, em verdade, a compensação discursiva e psicológica da covardia e da incapacidade de agir.

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