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Soltem esses bichos

Quem me conhece sabe que não morro de amores por animais domésticos. E não “amar” os pets não significa que os desprezo, mas apenas que para mim os animais deveriam estar livres na natureza, e não submetidos aos caprichos e carências humanas.

Nessa e em outras eleições estou me surpreendendo (não devia) com a quantidade enorme de candidatos que se apresentam como defensores dos animais. Aqui mesmo na minha cidade um dos candidatos a prefeitura vai à TV com seu cachorro para falar que quer levar a defesa dos animais como uma bandeira para a governança municipal. Mas, esse é outro assunto. Se você chegou até aqui lhe convido a se aprofundar um pouco mais no buraco do coelho…

É evidente que não há nada de errado em querer que os cães e gatos que estão sob a custódia de humanos tenham um tratamento digno e… humano. Por certo que ninguém vai fazer a defesa de maus tratos, violência ou tortura com animais que moram com os humanos e lhes oferecem carinho e companhia.

Claro que vez por outra aparecem casos de acidentes, quando um cão de guarda morde crianças ou adultos, e em algumas situações mais trágicas chegam a levar à morte. Imediatamente os amantes de animais correm em defesa dos bichos dizendo que a “essência” dos pitbull, dos fila ou de qualquer um destes cães ferozes é boa, mas as situações de confinamento e a educação violenta que receberam é que os torna “assassinos”.

Isto é: “o meio os deforma”.

Por esta razão que eu questiono: o Brasil é a terceira maior massa carcerária do mundo. “Considerando presos em estabelecimentos penais e presos detidos em outras carceragens, o Infopen 2019 aponta que o Brasil possui uma população prisional de 773.151 pessoas privadas de liberdade em todos os regimes. Caso sejam analisados presos custodiados apenas em unidades prisionais, sem contar delegacias, o país detém 758.676 presos.” (Dados sobre População carcerária 2019). Gente, encarcerada, maltratada, em condições sub-humanas, torturados, assassinados sob a guarda do Estado, adoentados, subnutridos e vítimas de extorsão.

Por que somos muito mais empáticos com o sofrimento dos animais (mesmo os perigosos como leões, hipopótamos, cobras e aranhas) do que com os homens e mulheres que estão aprisionados? Por que aceitamos que a essência dos cães de guarda é dócil, mas o cuidador é que o brutaliza, mas ao mesmo tempo não acreditamos que todo ser humano é capaz de viver em sociedade e o sistema social em que está inserido é que o torna violento?

Por que devotamos tanta humanidade aos não humanos e aceitamos a animalidade contra nossos iguais? Por que não há defensores abertos na defesa do abolicionismo penal e da proteção dos “animais humanos enjaulados” pelo nosso sistema penal nestas (e em outras) eleições, mas em toda esquina recebemos um panfleto em defesa dos “pets”?

Ninguém diria “animal bom é animal morto”, não? Seria por demais condenável, por ser…. desumano.

Que tipo de sociedade é essa que desumaniza seus irmãos e humaniza os animais?

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Amor aos Animais

Muitos relacionaram a morte de um cão no supermercado com a morte de um garoto por asfixia, igualmente em um supermercado carioca. Para mim não cabe aquilatar mortes inúteis e violentas, mas tentar entender porque ocorreu o sofrimento e a indignacao com uma e a aparente desconsideração com a outra nas redes sociais. Aqui vai minha opinião sobre os fatos:

“O “amor aos animais” é um sentimento contemporâneo cuja amplitude se relaciona a três fatores sociais: a diminuição do número de filhos, a solidão das famílias mononucleares em cidades e o desamparo da velhice – a qual perde função no capitalismo. Os animais entram como muletas afetivas para dar conta da ausência de iguais a nos suprir do afeto que sempre nos acompanhou durante a história da humanidade. Como eu costumo dizer, entendo perfeitamente o benefício que os “pets” produzem em casais sem filhos, crianças privadas de irmãos e velhos afastados de filhos e família, mas tenho sérias dúvidas dos benefícios que tais animais, enjaulados em apartamentos, têm da convivência com os seres humanos.

Outra curiosidade já citada é a seletividade com os animais. Existem campanhas altamente emocionais para a proteção de cães, gatos, baleias, pandas e golfinhos, mas não para um atum (que é do tamanho de um golfinho), minhoca, mosca, lesma, carrapato, etc. Por que alguns animais são dignos do nosso amor e outros não? Qual a diferença entre um cachorro e uma hiena, e porque ninguém se preocupa com estas últimas?

Ora, a resposta é simples e não está nos animais, mas em nós. Os cães, gatos, golfinhos e baleias são animais onde é possível se produzir uma antropomorfização, humanizá-los a ponto de encontrar atitudes e sentimentos tipicamente humanos, mesmo que imaginários. É possível fazer essa transmutação em um golfinho, mas não em um tubarão ou atum. O que nos atrai nesses animais é sua aparente humanidade, o que para eles só faz sentido como estratégia de sobrevivência: adaptar-se e agradar o opressor. Assim, gostamos dos bichos por eles se assemelharem a nós, inclusive fugindo o mais possível de sua natureza animal. Admitimos desconfigurar completamente a instintualidade dos animais, desde que nos ofereçam o afeto que carecemos.

Certamente que o amor aos pets é um sintoma neurótico, mas o que não é? Meu apreço por futebol cabe por completo nesse conceito: pura neurose compartilhada. Não há nada de errado ou pecaminoso nisso, e eu mesmo tenho apreço pelos que lutam pela dignidade animal. Todavia, creio que a negação da origem desse amor é que o torna problemático.

O que torna mais dramática a morte do menino negro do supermercado é a capacidade de nos identificarmos mais facilmente com a ilusória humanidade de um cão e não com a de um jovem negro de periferia.”

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Pets


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Eu escrevi há algum tempo um artigo controverso falando sobre o que considero uma crueldade moderna: a domesticação de cães e gatos. Mostrei estudos recentes que mostram que os gatos são responsáveis pelo extermínio de aves migratórias e isso se tornou um problema ecológico contemporâneo. Os cães modificados geneticamente, nas múltiplas espécies artificiais que produzimos, passaram a ter câncer, problemas de coluna, cegueira, desproporção cefalopélvica e uma vida mais curta. A isso podemos chamar “amor”? Terminei afirmando que não tenho “amor” pelos animais, porque esse amor eu considero muito estranho, e só se expressa na possibilidade identificatória. Isto é: amamos cães e gatos, mas não os ratos e os porcos, e todos eles são mamíferos. Nem pelos morcegos temos esse nobre sentimento. Baleias e golfinhos, mas não atuns e arraias. Baratas e mosquitos, nem pensar. Falei que nossa propensão a cuidar amorosamente de bichos aconteceu sempre que as civilizações diminuíram drasticamente o número de filhos. Lembra quando o culto aos “pets” era uma “frescura” europeia? Pois lá a diminuição da “prole humana” começou antes.

Os animais escolhidos para serem companhia para os homens e mulheres são sempre aqueles com quem podemos estabelecer um contato empático. Isto é: só servem aqueles que podem, de alguma forma, reproduzir a conduta humana. Gatos, cães, golfinhos, papagaios, etc.

Há pessoas que se ofendem com esse tipo de consideração, mais racional e fria. Porém eu lembro bem do comentário de um veterinário que disse em um programa de rádio: “entendo as inúmeras vantagens que os humanos tem –  em especial os velhos e as crianças – no convívio com os animais. Todavia, tenho sérias dúvidas se os animais tem algum benefício com a nossa presença”.

“Das raças de cães que existem na atualidade, 90% delas foram criadas nos últimos cem anos, e nossa insistência para que os cães atendam nossos padrões arbitrários – estéticos, de força, de aptidão para a guarda e a caça – está fazendo com que fiquem mais doentes e morram mais cedo do que seus ancestrais. O cão médio de raça pura é muito mais frágil que o cachorro comum, o conhecido “virá lata”. 60% dos Golden Retrievers acabarão padecendo de câncer. O “Dog Alemão” é tão grande que seu coração não suporta o peso do próprio corpo. Os Bulldogues, depois de um século de existência, estão com o o nariz tão amassado que mal podem respirar. Além disso, suas cabeças são tão grandes que só podem nascer através de cesariana Todos tem displasia do quadril e a expectativa de vida deles reduziu-se para seis anos”.

Quando eu disse que não tinha “amor” pelos animais – pelo menos não essa devoção antropomórfica que algumas pessoas demonstram – uma veterinária respondeu raivosamente dizendo que eu era uma “pessoa de merda”. Porém, eu comparo os animais domésticos às mulheres do harém. Lindas, charmosas, bem tratadas e bem alimentadas, vivendo do bom e do melhor. Entretanto, cativas. Será que por baixo das aparências de luxo essas mulheres realmente desejariam o cativeiro se a elas fosse oferecida a dádiva da liberdade?

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Pets

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Estou um pouco abismado com a quantidade de candidatos a vereança que se apresentam como defensores dos “direitos dos animais”. Não quero entrar na discussão mais profunda sobre o assunto, mas creio que existe um claro exagero e uma óbvia sinalização sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. Ontem mesmo um educador dizia – e para mim com razão – que nos preocupamos mais em sair com o cachorro para passear do que com os filhos. Encontro homens e mulheres jovens levando seus “pets” (um anglicismo que me dá arrepios) para fazer suas necessidades, e fico um pouco assustado ao perceber que estes são tratados como crianças, com a diferença de que com as crianças somos mais duros e menos carinhosos. Por que estamos trocando crianças que crescem por crianças que nunca crescem?

O que isso tem a dizer sobre a nossa sociedade?

Mais uma vez, não se trata de criminalizar o cuidado com os animais domesticados, mas se perguntar porque esta sociedade (e isso já acontece há muitos anos na Europa e Estados Unidos) tem essa devoção especial para com cães e gatos. Será que a explicação da baixa natalidade humana e o desvio de nossa natural capacidade de amar para os animais é suficiente? Ou existe algo no “amor pelos bichos” que vai além do simples deslocamento afetivo?

Outro dia estava debatendo sobre o problema dos gatos domésticos e o risco para as aves, que teremos que enfrentar nas próximas décadas, e afirmei que nunca tive amor pelos animais. E não tenho mesmo. Nesta semana passada autorizei eutanásia para a minha cadela Mel e não tive um grande sofrimento por isso. Por outro lado, quando meu neto machucou o dedo em uma pedra sofri junto com ele por horas a fio, imaginando a angústia de uma experiência de dor inédita em sua curta vida.

Mas vejam, não se trata de uma visão vertical de “valorização de amores”. Eu não me acho melhor por sofrer pelo dedo ferido do meu neto, mas nem pior por não sofrer por um cão que se vai. Apenas não tenho esse sentimento de AMOR, uma conexão forte e significativa com seres de outras espécies. Porém, tenho respeito, e o sofrimento deles não é desprezível para mim, por isso mesmo autorizei a eutanásia em um caso de tumor hepático em estágio terminal. E de nada adianta reclamar da minha falta de amor por “pets”; eu nasci sem esse chip.

Todavia, o que me chamou a atenção esse debate foi o fato de que, ao dizer que não nutria amor pelos animais (o que sustento), mas respeito e consideração, uma debatedora explodiu em ódio e disse:

Então você é uma pessoa de merda.

Claro que ela foi deletada e bloqueada (depois descobri que era uma veterinária), mas apenas porque não admito que debates atinjam a honra e sejam ofensivos às pessoas. Essa é uma regra antiga que tenho desde os tempos do Orkut. Como diria Madre Cuegundes “Ad hominem, abiciendi“…

Mas eu fico pensando… você pode chamar um desconhecido de merda sem que isso lhe torne uma má pessoa, ou mesmo deseducada e violenta, mas não pode dizer que não AMA (mesmo respeitando) os animais. Por que essa inversão de valores?

Que hierarquia é essa onde um cachorro vale mais que um homem? Ou ainda, da verve de madre Cunegundes, “melior est canis hominem?“.

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