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Onde estão os espíritas?

Tenho visto alguns pensadores questionando o vazio de sociedades espíritas, em especial a ausência de jovens frequentadores. Falam da violência urbana, problemas para estacionar, dificuldades variadas para o acesso. Entretanto, eles mesmos dizem que tais explicações não são suficientes para dar conta do fenômeno.

Minha visão desse problema talvez não agrade os próprios espíritas. Eu frequentei sociedades espíritas na época em que Dr. Fritz, Arigó, Chico Xavier, Gasparetto, João de Deus e depois Divaldo Franco eram ícones culturais. Roberto Carlos e outros artistas se diziam admiradores do espiritismo. A doutrina espírita estava “na crista da onda”. Era legal e charmoso ser espírita, algo que atraía intelectuais e artistas. Todavia, o espiritismo cristão, que cultura personalidades e se comporta como uma seita cristã reencarnacionista, está fadado a este destino: ser uma versão progressista do catolicismo. Nada mais do que isso. Esta alternativa não atrai mais a juventude como antes. Na sociedade contemporânea é muito mais sedutor para os jovens a versão evangélica, que se adapta de forma precisa ao modelo neoliberal, ao ethos capitalista e “desmoralizador” (isento de conteúdo moral) das vertentes pentecostais. Ninguém alcança sucesso e dinheiro no espiritismo, porém esta proposta está implícita no chamado das igrejas evangélicas. Os evangélicos assumiram – por méritos – a posição que o espiritismo tinha no imaginário social há 50 anos.

Perceba como a juventude espírita floresceu na minha época, final dos anos 70 e início das anos 80. Lembro bem das “tardes juvenis” com 200 jovens, e CONJERGS (congresso da juventude espírita do RS) lotadas de jovens de todo canto do Estado, mas começou a declinar exatamente com o surgimento das igrejas evangélicas, como a Igreja Universal do Edir Macedo. Ao meu ver, lá estão agora os antigos jovens espíritas, seduzidos pelas promessas de redenção da narrativa neoliberal que se iniciou com Reagan e Thatcher, exatamente nesta época, início dos anos 80. Por outro lado, qual o grande problema do vazio das instituições espíritas? O espiritismo não é uma religião, e muito menos uma religião de massas. Reclamar que somos poucos é o mesmo o que questionar porque as salas de música erudita estão vazias e os bailes funk estão sempre lotados. As razões são semelhantes: no primeiro uma proposta de estudo, aprofundamento de ideias, dúvidas, pesquisas, enquanto no segundo a sedução inescapável da vida fulgurante de som, dança, alegria e erotismo. Não há como competir. O espiritismo produz uma seletividade natural, e necessariamente minoritária na cultura.

Entretanto, as mudanças estão aí para serem, testadas Convocar pessoas para estudar espiritismo num sistema horizontal e aberto é um bom caminho, mas para isso a versão espírita laica e científica é a melhor (única?) solução. Para iniciar, seria muito bom abandonar o igrejismo, como alguns espiritas progressistas apontam. É fundamental se afastar da cristolatria espírita, das vinculações com as crenças místicas cristãs, assumir uma postura verdadeiramente universalista e que seja útil e compreensível a todas as culturas. Para além disso, é essencial estimular o estudo científico, o debate filosófico e abandonar a visão moralista que sempre caracterizou nossas instituições.

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