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Conservadorismo espírita

Pensa numa contradição….
Um cara escreve um texto denunciando a “geração cristal”, frágil e fraca, que não suporta contradições.
Você discorda,
Ele te bloqueia….

Mesmo sites espíritas que se dizem progressistas acabam escorregando para o conservadorismo, a essencialização dos gêneros a muitas vezes descambam para uma misoginia escancarada.

Acabei de ler um texto sobre a velha tese da “geração de cristal” que diz que os jovens de hoje não suportam críticas ou frustrações. Eu mesmo creio que existe verdade nesta perspectiva, e temos legiões de jovens “flocos de neve” cujos sentimentos ficam abalados por qualquer contradição. Entretanto o texto apelava para um saudosismo tosco quando afirma textualmente:

“A geração que nos ensinou a viver sem medo está morrendo
….as pessoas que ensinavam aos homens o valor de uma mulher
…. e às mulheres o respeito pelos homens.”

Quer dizer então que “antes sim os homens sabiam valorizar uma mulher”?

Sério? Há 100 anos quando elas não votavam? Há 43 anos quando não podiam se divorciar? Quando se matava em nome da honra? Quando não tinham liberdade sexual? Quando eram apêndices dos homens? Quando não podiam trabalhar? As mulheres não respeitavam os homens; tinham medo deles. E os homens – como regra – viam nas mulheres valores maternais, e quase nada mais.

Ora, quanta verve reacionária. Apesar do nosso atraso civilizatório não será no passado que vamos encontrar solução para os problemas de gênero. Achar que o “cavalheirismo” é a resposta é um brutal desrespeito com as lutas das mulheres. Acreditar que no passado havia respeito é ignorância. Achar possível um passo atrás é absurdo.

É triste ver posturas reacionárias dentro de um movimento que se propõe progressista, aberto e livre pensador.

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Obsessão

Acho super curiosa a fixação dos espíritas pelo tema da obsessão, quase sempre tratado como se fosse uma doença contagiosa, algo que se “pega”, um vírus ideacional que se apodera de uma alma pura, como se um indivíduo desavisadamente ligasse a televisão e, por assistir o Big Brother, acabasse atraindo espíritos obsessores (???) que sugariam suas energias e lhe desviariam o caminho. O simples fato de trazer à baila esse tema de forma continuada demonstra que os espíritas ainda acreditam nas “obsessões” como elementos exógenos a produzir desequilíbrio nos sujeitos a elas submetidos.

Ingênuo demais para ser levado a sério…

Primeiro, eu acho que TODOS NÓS somos obsessores de todo mundo ao nosso redor, até de desencarnados. Nossas ações são como ondas de rádio emitidas para todos os lados, que encontram sintonia nas pessoas que estão no nosso raio de ação. Da mesma forma sintonizamos nosso “dial” para captar as ondas que também a nós chegam. Nada de novo em reconhecer que somos captadores e emissores de energias-palavras que podem transformar ou desvirtuar nosso semelhante, certo?

Porém, é evidente que a única forma de impedir as inúmeras obsessões que nos seduzem será sempre através da “reforma íntima”, ou seja, parando de focar nos espíritos que nos assediam (encarnados e desencarnados) e prestando mais atenção em nossas falhas e fragilidades. Uma das formas de fazer isso é através da auto-escuta, pelas terapias e análises.

Por isso eu acredito que a prática espírita de fazer ‘sessão de desobsessão’ centrada no discurso cristão, no palavrório moralista e nos conselhos vazios para espíritos angustiados (dos quais desconhecemos a realidade subjetiva) é infrutífera como processo de cura. Estas cenas me remetem ao filme “O Exorcista”, onde uma menina pura e dócil é tomada por um demônio e tem seu corpo controlado por suas determinações malévolas. Infelizmente, as influências dos outros não ocorrem sem que a porta da sintonia seja aberta – e sempre por dentro.

Somente a reforma do próprio sujeito é capaz de bloquear o acesso a ideias influenciadoras. Infelizmente, é notório o quanto este tipo de exorcismo é sedutor para os condutores do processo em casas onde o mediunismo é reconhecido, basta ver como esta prática é realizada nas igrejas evangélicas com as inúmeras encenações de luta do “ungido de Cristo” contra o “Demônio”.

O caminho da consciência é sempre mais complexo e difícil, mas todos os outros não passam de propostas paliativas ou escapistas, nada mais do que uma “retirada do sofá da sala”, sistemática e repetitiva…

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Espiritismo e Racismo

Seria absurdo imaginar que a doutrina espírita não estivesse embebida no caldo cultural do século XIX. Está foi a época áurea do colonialismo europeu em África e Ásia, o qual causou milhões de mortes e produz repercussões até os dias de hoje.

Seria surpreendente que Kardec, diferentemente de todos os pensadores europeus do seu entorno, tivesse uma posição diferente do racismo “científico” de sua época. Esta vertente do modo de pensar do século XIX desembocou na eugenia que invadiu ainda boa parte do século XX e contaminou o pensamento de inúmeros literatos, cientistas e pensadores de várias áreas, em especial a medicina.

Portanto, o espiritismo nascente era mesmo racista, como era toda a cultura europeia no tempo de seu surgimento. Não há porque negar este fato. Por outro lado, é necessário fugir do anacronismo simplório e entender qualquer sujeito e todo ramo de conhecimento inseridos nos valores vigentes em seu período de aparição. Criticar o espiritismo de meados do século XIX usando as regras de hoje não é correto ou justo.

Cabe aos espíritas atuais não apenas rejeitarem este racismo, mas serem vigorosos combatentes anti racistas exatamente pelo estudo do ideário espírita, que ao desvendar a realidade do espírito deixa qualquer diferença moral e intelectual de raça e gênero como sendo tola e sem sentido.

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Espiritismo e compaixão

“Há muito me desiludi com os espíritas, não com o espiritismo e sua idéia renovadora centrada na mediunidade e na reencarnação. Infelizmente os espíritas via de regra cursam o mesmo caminho moralista dos evangélicos e outras denominações. Possuem um desprezo explícito pelas raízes sociais da pobreza e cultivam um discurso meritocrático ao estilo “é pobre porque na vida passada foi rico e não teve compaixão”. Acreditam que as “leis do karma” se sobrepõem às experiências explícitas de desigualdade que testemunham no seu cotidiano. Acreditam na desigualdade e na exploração como experiências kármicas que não nos cabe interferir, sob pena de interferir nas leis divinas de causa-efeito

Ora, que profunda tolice!! Quanto desprezo pelas forças sociais que condenam grandes massas à exploração ao arbítrio dos poderosos. O espiritismo – por sua origem intelectual, europeia e progressista – poderia ter sido a grande força renovadora das religiões no Brasil, mas se manteve como uma seita evangélica carola e conservadora. Uma pena.

Repito o que já disse: só as religiões de matriz africana, por conterem a massa de pobres e negros da nossa sociedade, têm a potencialidade de reverter a má imagem criada pelas religiões neste país. Só elas – e uma parcela minoriária dos católicos – tem massa crítica suficiente para produzir mudanças no cenário de desigualdade no Brasil.

O resto cultiva a compaixão burguesa mais rasteira e inócua.”

Sim, eu me desiludi com os espíritas. Isso não é uma acusação; é uma confissão. Para se desiludir é necessário, primeiro, se iludir. Mea culpa, mea máxima culpa…

Em relação à postura política os espíritas são decepcionantes. Certamente que há espíritas de vanguarda e politicamente bem posicionados, mas são exceção. A IMENSA maioria é composta de conservadores e entre eles um grupo claramente reacionário. As palmas à manifestação absurda e subserviente de Divaldo Franco para com Moro e a “República de Curitiba” (sic) em Goiás são inquestionáveis e demonstram o apoio majoritário dos espíritas às vertentes mais atrasadas e punitivistas do judiciário e à direita no espectro da política nacional.

Sim, nem todos os espíritas são reacionários, e alguns deles são bem explícitos com suas posições politicas. Entretanto, estes espíritas de esquerda são a minoria e não representam o conjunto desse movimento. São exceção dentro de um quadro de conservadorismo, elitismo e preconceito com os movimentos sociais. É muito difícil encontrar um espírita que não seja antipetê, coxinha, apoiador da Lava Jato e que se dedica a atacar Lula.

Sim… a reencarnação como forma de entender as idiossincrasias do mundo é usada de forma simplista pela maioria dos espíritas e por isso mesmo merece ser criticada. Por esta razão citei a frase que tanto escutei durante a minha vida e que revela esse primarismo. Olhar para a reencarnação e não enxergar a iniquidade fomentada pelo capitalismo é outro absurdo conservador do movimento espírita.

E para finalizar, dá para generalizar, sim. Como movimento o espiritismo é socialmente retrógrado e conservador. É moralista e crítico aos avanços sociais, de forma evidente no que diz respeito à sexualidade – em especial ao universo LGBT. Politicamente é de centro direita e se aproxima da direita clássica. Raros espíritas são progressistas ou de esquerda. Boto mesmo essa gente toda no mesmo barco, pois essa é a imagem que seus líderes difundem desde sempre, de Chico Xavier a Divaldo, passando pela FEB e por inúmeros palestrantes que cruzam o Brasil oferecendo esta postura política de forma explícita ou nas entrelinhas.

Em suma, mesmo sabendo de notáveis espíritas de esquerda – tivemos um espírita Ministro da Saúde de Dilma – ainda assim a imagem do espiritismo é conservadora e moralista, muito semelhante à percepção que tenho do movimento evangélico no Brasil.

Os espíritas estão mais próximos de Malafaia do que de Francisco.

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Espiritismo careta

Uma análise profunda da idolatria que se estimula no cenário espírita brasileiro é uma tarefa urgente a ser realizada pela Academia. Desde figuras populares como Zé Arigó, Chico Xavier até Divaldo Franco que percebemos um traço marcante no espiritismo cristólatra brasileiro: ele sempre foi pródigo na criação de “gurus”, líderes carismáticos que repetem discursos conservadores e moralistas da pior espécie. São comuns os textos carregados de uma visão superficial e maniqueista da espiritualidade e da reencarnação, cheios de prescrições de evolução espiritual que criminalizam a luta política e a livre expressão da sexualidade, entendidas assim como “desvios obsessivos”. Em verdade, este é o padrão das publicações espíritas.

A adesão de Divaldo Franco – famoso tribuno espírita e médium – à barbárie jurídica lavajatista empresta um apoio fundamental aos tribunais de inquisição que se transformaram as côrtes de Curitiba, com o intuito de atingir a esquerda e os movimentos populares. Por outro lado, esta simpatia do líder espírita mostra a verdadeira face alienada e subserviente da baixa classe média ressentida que constitui seus seguidores.

O espiritismo institucional mais uma vez adere ao conservadorismo moral e politico tacanho que sempre o caracterizou – basta lembrar as falas reacionárias de Chico Xavier sobre a ditadura militar de 64. Alia-se ao poder econômico, às elites, aos conservadores, ao judiciário partidário e aos golpes sucessivos à nossa democracia.

É provavel que o futuro não mostrará nenhuma diferença significativa entre as monstruosidades de Malafaia, Edir e Feliciano e os líderes espíritas alinhados com o atraso, o preconceito e a mistificação. Aquela doutrina que, ao descortinar a reencarnação como processo de depuração espiritual, se apresentava como revolucionária e progressista, em verdade se mostra como mais uma seita cristã atrelada aos privilégios, ao moralismo, à tradição (escravista), à família (falocêntrica) e à propriedade (intocável).”

Que Deus tenha piedade de nossas religiões.

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