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Religiões

Não creio…

Quem acha que as religiões podem acabar pelas luzes da ciência não entendeu nada de religião e nada de ciência. A ciência investiga o que é conhecível enquanto a religião questiona o possível. Todos os avanços científicos dos séculos XIX e XX não arranharam em nada o significado cultural das religiões, e só se surpreende com isso quem pensa que religião é “ciência ruim”. As religiões continuam firmes e fortes, e no mundo inteiro.

As religiões são compilações de valores de uma cultura num determinado tempo. Elas investigam os sentidos últimos do universo, algo que a ciência não se importa, pois não é o foco de sua atenção. Por isso, posso garantir que dentro de 1000 anos ainda haverá perguntas sem respostas e, apesar dos avanços da ciência, precisaremos das religiões, idiomas comuns que continuarão a nos oferecer possibilidades, perspectivas e caminhos.

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Religiões e conflitos

As religiões unificam perspectivas de mundo e de produzem forte fator de coesão e identidade. São modelos de compreensão da realidade sobre aspectos onde a ciência não tem acesso, como o sentido da vida e os significados transcendentais.

Acima de tudo, uma religião não é algo que produz ideias e conceitos, mas onde colocamos nossa visão de mundo e nossas perspectivas. Religião é algo onde colocamos algo de nós, e não de onde retiramos. Culpar as religiões pelas mazelas do mundo – como há muito fazem os new-atheists – é uma tarefa simples, mas para isso é preciso ignorar o sentido último das religiões negando o fato de que de qualquer religião se retira o que se quer, basta desejar.

Durante anos tentaram fazer isso, criando uma visão demeritória das religiões, mas aplicando um viés distorcido da real essência delas. Com isso as Cruzadas perderam todo o sentido comercial e objetivo para se tornarem apenas incursões militares movidas pela religião. A guerra do oriente médio é frequentemente tratada como “judeus x muçulmanos”, como se a questão não fosse o colonialismo e a limpeza étnica, mas sim um choque de crenças religiosas. Aliás, o mesmo truque foi usado para chamar a guerra de libertação da Irlanda como “católicos x protestantes”, apagando o colonialismo britânico na ilha.

Colocar a culpa nas religiões como elementos divisionistas é um erro, mas que ainda faz muito sucesso inclusive entre intelectuais.

A religião não é o BEM e muito menos o MAL. Uma religião não é mais do que um conjunto de símbolos e metáforas para expressar o inexpressável – assim como o mito o é para aquilo para o qual não há verbo. As religiões são construções puramente humanas que se expressam como um idioma, uma língua a conectar através do mesmo poço a água que corre por debaixo da terra. Os diversos poços criados para saciar nossa sede por respostas são as infinitas religiões, mas a água da fé é a mesma.

Quanto à política ela é certamente uma força para o bem. Sem a política – com todos os seus erros, falhas e decepções – sobra apenas a selvageria. Não por acaso política vem de “polis”, cidade, pois antes da política vivíamos sob as leis da selva. A política é, portanto, o projeto de solidariedade que se contrapõe ao mal estar da civilização.

Mas veja, eu apenas argumento – me contrapondo à onda dos novos ateus – que as religiões são espelho das aspirações, desejos e valores humanos, e não a fonte de onde surgem. As religiões são criadas exatamente para dar conta dessa necessidade. Assim, nós não seguimos as religiões; são elas que nos seguem. Para entender melhor o que acredito ser o âmago das religiões esta explicação abaixo do escritor Reza Aslan me parece a mais concisa e didática.

Pode ter certeza que os católicos e os protestantes não guerrearam por causa de religião na Irlanda e nem mesmo na Guerra dos Cem anos, mas por questões políticas, dinheiro, comércio, influências regionais, etc, pela mesma razão que os judeus e muçulmanos lutam até hoje pela terra na Palestina, e não por discordâncias em suas escrituras, tanto quanto os católicos e protestantes da Irlanda lutaram durante muitos anos pela independência da Irlanda tendo de um lado os nacionalistas católicos e do outro os ingleses protestantes invasores. As religiões são falsamente colocadas como origem dos conflitos, mas elas estão apenas nesta posição para tirar o debate das verdadeiras questões.

Para entender melhor veja que as elites financeiras no mundo inteiro – e agora de forma bem marcante no Brasil – colocam a corrupção como seu cavalo de batalha, mas os governos que elas administram são no mínimo tão corruptos (ao meu ver mais) do que os governos que combatiam chamando-os de “corruptos“, “mar de lama“, etc. Então por quê? Ora, porque essa questão moral (como a religião) desvia a atenção das pessoas e produz identificação com um dos lados, mas afasta as razões verdadeiras do radar de cada um de nós. No nosso caso, a equidade e a justiça social. Mas se você se contrapõe a ideia de que a corrupção é a fonte maior dos nossos males você é automaticamente visto como “apoiador de corruptos“.

Veja mais sobre o tema aqui, na entrevista com Karen Armstrong.

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Três pontos sobre espiritismo e aborto

Coloco aqui três pontos simples que explicam as razões pelas quais ser espírita não invalida um posição favorável à descriminalização do aborto:

1- É possível ser espírita e ser também a favor da legalização do aborto por razões de saúde pública. Não há mais como aceitar mulheres morrendo porque o aborto é criminalizado e estigmatizado. Chega. Ninguém é “a favor do aborto”, mas muitos consideram que esta ação está dentro das opções que uma mulher pode fazer sobre seu próprio corpo.

2- Espiritismo, como sempre afirmou Kardec, NÃO é uma religião e nunca pretendeu sê-lo. A “religião espírita” é uma construção que ganhou estímulo – em especial no Brasil – fruto do sincretismo religioso com o cristianismo, o qual foi um legado deixado pelo próprio Kardec.

3- Espiritismo fala de leis naturais, e não há nada de sobrenatural em seus postulados. Qualquer extrapolação MORAL está inserida em seu tempo e tem valor limitado. Reencarnação, comunicabilidade entre planos e sobrevivência da alma NÃO SÃO pautas morais. A descriminalização do aborto é uma escolha pela vida. Ponto.

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Obsessão

Acho super curiosa a fixação dos espíritas pelo tema da obsessão, quase sempre tratado como se fosse uma doença contagiosa, algo que se “pega”, um vírus ideacional que se apodera de uma alma pura, como se um indivíduo desavisadamente ligasse a televisão e, por assistir o Big Brother, acabasse atraindo espíritos obsessores (???) que sugariam suas energias e lhe desviariam o caminho. O simples fato de trazer à baila esse tema de forma continuada demonstra que os espíritas ainda acreditam nas “obsessões” como elementos exógenos a produzir desequilíbrio nos sujeitos a elas submetidos.

Ingênuo demais para ser levado a sério…

Primeiro, eu acho que TODOS NÓS somos obsessores de todo mundo ao nosso redor, até de desencarnados. Nossas ações são como ondas de rádio emitidas para todos os lados, que encontram sintonia nas pessoas que estão no nosso raio de ação. Da mesma forma sintonizamos nosso “dial” para captar as ondas que também a nós chegam. Nada de novo em reconhecer que somos captadores e emissores de energias-palavras que podem transformar ou desvirtuar nosso semelhante, certo?

Porém, é evidente que a única forma de impedir as inúmeras obsessões que nos seduzem será sempre através da “reforma íntima”, ou seja, parando de focar nos espíritos que nos assediam (encarnados e desencarnados) e prestando mais atenção em nossas falhas e fragilidades. Uma das formas de fazer isso é através da auto-escuta, pelas terapias e análises.

Por isso eu acredito que a prática espírita de fazer ‘sessão de desobsessão’ centrada no discurso cristão, no palavrório moralista e nos conselhos vazios para espíritos angustiados (dos quais desconhecemos a realidade subjetiva) é infrutífera como processo de cura. Estas cenas me remetem ao filme “O Exorcista”, onde uma menina pura e dócil é tomada por um demônio e tem seu corpo controlado por suas determinações malévolas. Infelizmente, as influências dos outros não ocorrem sem que a porta da sintonia seja aberta – e sempre por dentro.

Somente a reforma do próprio sujeito é capaz de bloquear o acesso a ideias influenciadoras. Infelizmente, é notório o quanto este tipo de exorcismo é sedutor para os condutores do processo em casas onde o mediunismo é reconhecido, basta ver como esta prática é realizada nas igrejas evangélicas com as inúmeras encenações de luta do “ungido de Cristo” contra o “Demônio”.

O caminho da consciência é sempre mais complexo e difícil, mas todos os outros não passam de propostas paliativas ou escapistas, nada mais do que uma “retirada do sofá da sala”, sistemática e repetitiva…

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Religião

A religião é uma ideologia de construção da realidade, assim como também é a ciência. A religião é exatamente perene e imortal porque sempre haverá desconhecido e algo a entender diante da imensidão do universo. O erro grave da nossa cultura é achar que religião é “má ciência”, como se houvesse entre ambas uma luta pela hegemonia do saber.

Errado: a religião se ocupa daquilo que a ciência não tem acesso (o próprio sentido da vida, o Bem, a moral, o Mal), mas quando a ciência ascende a um novo saber a religião se transmuta e se adapta. Pense no geocentrismo e no heliocentrismo. A religião se adaptou a estes saberes e se renovou a partir das descobertas científicas. Sim, a religião não é a possibilidade, mas a NECESSIDADE de pensar sobre o desconhecido e encontrar sentido onde só aparece o caos.

A religião não tem nada a ver com ignorância. O mau uso da religião pode levar a isso, mas o mau uso da ciência e da razão também. As religiões são ideologias interpretativas do mundo real e atingem questões que a ciência não consegue resolver. São compilações completas e complexas da sociedade e servem como guias, verdadeiros mapas culturais apoiadas sobre os valores profundo e da cultura.

A ignorância é o RESULTADO (e não a causa) do não pensar e do não questionar. As religiões, via de regra, apontam caminhos, e oferecem gozos e penas para quem os trilha ou deles se desvia, mas é errado dizer que as religiões preconizam o não pensar.

Esse tipo de ataques à religião em essência – e não contra algumas crenças absurdas de várias religiões – é a quintessência do …. fundamentalismo!! Sim, exatamente isso: o “new atheism” é exatamente uma visão fundamentalista que pode ser tão nociva quanto a pior das crenças místicas medievais. A religião – que ele define como “uma perspectiva diferente da realidade” – jamais vai morrer, exatamente porque é da sua essência transformar-se, modificar-se e adaptar-se às novas realidades, inclusive aquelas que a própria ciência produz.

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