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Tempo

No início do século XX iniciou-se a instalação de telefones residenciais em Paris. Além de serem caros eles receberam o rechaço inicial do segmento mais rico da população, exatamente quem teria dinheiro para adquirir uma linha.

Mas por quê? Ora, porque o telefone invadia as casas; as linhas que chegavam na sala ou na biblioteca entravam através das paredes sem cerimônia alguma e a voz de um desconhecido podia ser escutada na intimidade do lar. Era como se alguém, qualquer pessoa, entrasse na sua sala de estar sem ser anunciado. Lembro vagamente de uma descrição de Marcel Proust dizendo pela boca de um personagem “Fulano é desses novos ricos, sem estirpe, que tem até telefone em casa“.

Estamos no ocaso da vida privada. A ideia antiquada de privacidade está desaparecendo. Câmeras nas ruas, nas praças, nos smartphones e em todos os lugares públicos demonstram que intimidade é um conceito que tende a desaparecer.

Essa derrocada da vida íntima também ocorre no campo das profissões. Cada vez mais vemos clientes (ab)usando os recursos cibernéticos para acessar os profissionais à distância, tornando-se necessário estabelecer limites claros para os atendimentos, sejam eles quais forem.

Não há dúvida de que jogar seus limites na cara do outro é uma arrogância no mínimo desagradável. Também é certo que uma mensagem por whatsapp enviada de madrugada pode ser vista no início da manhã, sem fazer disso um drama ou uma discordância. Equilíbrio é essencial, mas esse parece ser um caminho sem volta.

Eu recebi a vida inteira consultas simples de pacientes por whatsapp e Messenger (e antes disso por telefone), e até mesmo de completos desconhecidos de outros países (algo que você não encontra nos Estados Unidos, por exemplo, onde estes limites são muito rígidos). Reconheço que todos eram cuidadosos ao invadir esse espaço e sempre os atendi muito bem porque tenho prazer em ajudar e dissipar angústias gratuitamente – mas não exijo isso de ninguém e muito menos cobro isso de pessoas que fazem do conhecimento seu ganha-pão.

Por outro lado eu entendo que pessoas expressem seus limites, e de forma muito clara, nos âmbitos profissional e pessoal. Conheço médicos obstetras que viajam em fins de semana alargado para lugares sem celular ou TV, incomunicáveis, deixando seus colegas cuidando de seus casos. Meu professor de obstetrícia na faculdade jogava futebol numa cidade vizinha com os amigos todos os sábados, e quem entrasse em trabalho de parto nesse dia jamais conseguiria encontrá-lo. Todavia, todas as suas pacientes tinham conhecimento disso. Estaria errado? Não creio. Esse era o seu limite.

Existem obstetras que trabalham em hospitais, centros de saúde, UPAS ou clínicas para os quais às 18h de sexta feira nenhum assunto do seu trabalho poderá atrapalhar seu fim de semana. Prezam a privacidade, a família e o lazer. Estariam sendo errados e caindo no egoísmo? Não creio.

Existem, por outro lado, médicos que colocam sua vida inteira à disposição da sua clientela particular, que dão conselhos e orientações por telefone (e whatsapp), que atendem fora de hora, que saem de casa às 2h da madrugada para atender partos, emergências ou cirurgias. Serão eles heróis?

Nada disso, são apenas sujeitos que estabelecem limites mais alargados entre vida profissional e pessoal. Não existe apenas altruísmo em suas ações; há benefícios pessoais para quem se comporta desta forma, desde financeiros até psicológicos.

Dizer que um estilo de trabalho – de médicos, professores, advogados ou marceneiros – é “melhor” ou “mais nobre” do que o outro é injusto. A única queixa válida é para quem vende disponibilidade e não entrega, até porque ser um profissional à disposição de seus clientes é a parte mais custosa e cara do trabalho destas pessoas.

Na era da extrema facilidade de comunicação seria óbvio que esta mistura de espaços ocorreria. Desta forma, cada vez mais cabe a cada profissional deixar de forma explícita os limites preciso do tempo que se compromete a ceder para seus clientes, para que isso não venha a gerar angústias e ressentimentos.

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Vida Privada

Alexander Soljenitsin avisava em “Arquipélago Gulag” que a investigação da vida privada dos cidadãos pelos órgãos de informação do Estado não ocorria para encontrar crimes e responsabilizar corruptos, mas para criar uma lista de possíveis fragilidades (financeiras, sexuais, familiares, etc) da vida pessoal de sujeitos comuns para que fossem usadas contra eles caso quisessem ousassem o poder estabelecido.

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