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Panóptico

O mundo panóptico contemporâneo se tornou o VAR da vida social. Não há mais como esconder aquela crise de raiva incontida, aquela explosão de contrariedade ou aquele paroxismo de indignação, da mesmo forma como a puxadinha no calção do adversário na hora do escanteio se tornou um risco absurdo.

Hoje um ato impensado pode nos jogar no abismo da condenação pública, onde não há perdão. Os juízes da redes sociais marcam pênalti, sem dó. Agora uma vida inteira de virtude sucumbe a poucos segundos de luxúria, pecado ou egoísmo expostos publicamente.

O exercício da contenção hipócrita e de uma fachada social falsa ainda precisam ser mais bem avaliados. Uma sociedade impedida de exercer a privacidade torna-se necessariamente mais virtuosa pela inexistência explícita de pecado?

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Tempo

No início do século XX iniciou-se a instalação de telefones residenciais em Paris. Além de serem caros eles receberam o rechaço inicial do segmento mais rico da população, exatamente quem teria dinheiro para adquirir uma linha.

Mas por quê? Ora, porque o telefone invadia as casas; as linhas que chegavam na sala ou na biblioteca entravam através das paredes sem cerimônia alguma e a voz de um desconhecido podia ser escutada na intimidade do lar. Era como se alguém, qualquer pessoa, entrasse na sua sala de estar sem ser anunciado. Lembro vagamente de uma descrição de Marcel Proust dizendo pela boca de um personagem “Fulano é desses novos ricos, sem estirpe, que tem até telefone em casa“.

Estamos no ocaso da vida privada. A ideia antiquada de privacidade está desaparecendo. Câmeras nas ruas, nas praças, nos smartphones e em todos os lugares públicos demonstram que intimidade é um conceito que tende a desaparecer.

Essa derrocada da vida íntima também ocorre no campo das profissões. Cada vez mais vemos clientes (ab)usando os recursos cibernéticos para acessar os profissionais à distância, tornando-se necessário estabelecer limites claros para os atendimentos, sejam eles quais forem.

Não há dúvida de que jogar seus limites na cara do outro é uma arrogância no mínimo desagradável. Também é certo que uma mensagem por whatsapp enviada de madrugada pode ser vista no início da manhã, sem fazer disso um drama ou uma discordância. Equilíbrio é essencial, mas esse parece ser um caminho sem volta.

Eu recebi a vida inteira consultas simples de pacientes por whatsapp e Messenger (e antes disso por telefone), e até mesmo de completos desconhecidos de outros países (algo que você não encontra nos Estados Unidos, por exemplo, onde estes limites são muito rígidos). Reconheço que todos eram cuidadosos ao invadir esse espaço e sempre os atendi muito bem porque tenho prazer em ajudar e dissipar angústias gratuitamente – mas não exijo isso de ninguém e muito menos cobro isso de pessoas que fazem do conhecimento seu ganha-pão.

Por outro lado eu entendo que pessoas expressem seus limites, e de forma muito clara, nos âmbitos profissional e pessoal. Conheço médicos obstetras que viajam em fins de semana alargado para lugares sem celular ou TV, incomunicáveis, deixando seus colegas cuidando de seus casos. Meu professor de obstetrícia na faculdade jogava futebol numa cidade vizinha com os amigos todos os sábados, e quem entrasse em trabalho de parto nesse dia jamais conseguiria encontrá-lo. Todavia, todas as suas pacientes tinham conhecimento disso. Estaria errado? Não creio. Esse era o seu limite.

Existem obstetras que trabalham em hospitais, centros de saúde, UPAS ou clínicas para os quais às 18h de sexta feira nenhum assunto do seu trabalho poderá atrapalhar seu fim de semana. Prezam a privacidade, a família e o lazer. Estariam sendo errados e caindo no egoísmo? Não creio.

Existem, por outro lado, médicos que colocam sua vida inteira à disposição da sua clientela particular, que dão conselhos e orientações por telefone (e whatsapp), que atendem fora de hora, que saem de casa às 2h da madrugada para atender partos, emergências ou cirurgias. Serão eles heróis?

Nada disso, são apenas sujeitos que estabelecem limites mais alargados entre vida profissional e pessoal. Não existe apenas altruísmo em suas ações; há benefícios pessoais para quem se comporta desta forma, desde financeiros até psicológicos.

Dizer que um estilo de trabalho – de médicos, professores, advogados ou marceneiros – é “melhor” ou “mais nobre” do que o outro é injusto. A única queixa válida é para quem vende disponibilidade e não entrega, até porque ser um profissional à disposição de seus clientes é a parte mais custosa e cara do trabalho destas pessoas.

Na era da extrema facilidade de comunicação seria óbvio que esta mistura de espaços ocorreria. Desta forma, cada vez mais cabe a cada profissional deixar de forma explícita os limites preciso do tempo que se compromete a ceder para seus clientes, para que isso não venha a gerar angústias e ressentimentos.

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Privacidade

Parece muito claro que o pessoal ainda não entendeu como funciona a Internet e a abrangência das mídias sociais. Quando você coloca uma foto aqui (em especial Facebook e Instagram) não pode impedir que os milhões de potenciais visualizadores interpretem como quiserem o que estão vendo, e que façam memes ou que critiquem as imagens. Quem não quiser ser criticado que não se exponha.

Há alguns anos uma ex-amiga minha colocou fotos suas, em uma cachoeira, parcialmente nua. Sim, no Facebook e publicamente. Abaixo ela escreveu um texto sobre a beleza dos corpos naturais, não convencionais, a naturalidade da nudez e a importância do empoderamento feminino.

Muito bem, nada a criticar em sua proposta. Admirei sua coragem, seu desprendimento e seu desejo de levar adiante sua mensagem. Cheguei a cumprimentá-la pelo desejo de marcar um ponto importante em sua luta. Todavia, imediatamente depois – porque a postagem era pública – houve uma chuva de críticas, zoações, deboches e brincadeiras por parte de homens que encontraram a foto nas páginas do Facebook.

Pois, ao invés de deixar a cachorrada latir e fazer a caravana passar ela resolveu se indignar e responder agressivamente às piadas machistas e de mau gosto. Quanto mais ela respondia, mais os sujeitos insistiam na zoação, mais baixavam o nível e mais furiosa ela ficava.

Até que ela veio me perguntar o que eu achava, e “como podiam esses idiotas agir dessa forma“. Minha resposta foi seca e direta:

“Mas o que você esperava acontecer colocando uma foto dessas publicamente na Internet, povoada por todo tipo de gente? Eu não aceito as atitude machista desses caras, mas é muita ingenuidade imaginar que todo mundo vai achar lindo e maravilhoso. O mundo não é assim, e você devia saber. Isto é: se vai se expor dessa forma entenda que vai receber pauladas, e é melhor que esteja preparada para elas. A única coisa proibida é surpreender-se com os contragolpes. Eles virão, inexoravelmente, enquanto essa sociedade for regulada pelo patriarcado.”

Ela entendeu essa minha fala como uma crítica às fotos, quando na verdade era uma crítica à sua ingenuidade. Preferiu me associar à malta de lobos que uivavam e grunhiam, mas tudo o que fiz foi sugerir que, quando resolver agredir o machismo vigente, esteja preparada para os inevitáveis ataques em resposta.

Brigou comigo e passou a me atacar desde então. Uma lástima, pois gostava dela. Eu sinto muito, mas continuo com o mesmo posicionamento. As lutas por equidade e justiça não podem permitir inocência e ingenuidade. O mundo lá fora é duro e preparar-se para os combates é mandatório.

Nada a dizer contra a natural indignação que surge da inconformidade. Minha crítica é contra a INGENUIDADE e a sedutora postura vitimista, que oferece graciosamente a narrativa aos cães do machismo e passa a se defender. Quem vai se expor precisa se preparar e não ficar dando explicações ou “criticando a crítica“. Isso é um erro gigantesco que, inclusive, as esquerdas fazem cotidianamente.

Não sejamos tolos; nenhum dos acusadores de internet que debocham e humilham mulheres, negros, trans, gays, etc se modifica com as nossas “lacrações”. Pelo contrário: eles se sentem vitoriosos por conduzirem a narrativa, pois quando o fazem provocaram a reação dos ofendidos, que se obrigaram a obedecer a pauta por eles criada.

Acho que muitos se beneficiariam muito ao escutar Madonna. Ela fez exatamente o oposto da postura vitimista. Chocou, bateu de frente, foi à luta e DITOU A NOVA NARRATIVA. Não ficou respondendo ou indignada quando a chamavam de p*ta. Estava preparada para “matar no peito” o ataque que viria ao propor uma nova estética e um novo padrão. Leila Diniz é outro exemplo da postura altiva: alguém acha que ela ficou se explicando depois de expor a barriga grávida na praia ou apenas sorriu ao ver os cães ladrando?

É sobre ser protagonista. Não tem nada a ver com peitos. É sobre não se diminuir e não aceitar andar a reboque da narrativa alheia. É pegar no timão e determinar o curso.

Indignação reativa é o que toda a esquerda faz, sempre na defensiva. Quando vamos acordar para isso?

Mas… talvez as pessoas ainda não consigam compreender a abrangência dessa ideia. “A vítima é o OPOSTO do militante”. Vítima sempre é objeto, jamais sujeito. Para atuar e ascender à esta nova posição é fundamental abandonar a antiga.

Os grupos de enfrentamento podem – e devem – construir seus caminhos de luta, mas existem trajetórias que a experiência mostra que estão errados. Colocar-se na defensiva oferecendo a primeira voz aos machistas, aos direitistas, aos “pró-vida“, aos fundamentalistas tem se mostrado um equívoco que nos trouxe até aqui.

A atitude da minha ex amiga não lhe garantiu nenhuma vantagem, pois preferiu a posição que lhe parecia mais segura. Infelizmente, esta posição jamais impõe mudança de paradigma.

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Filmagens

Sobre a filmagem e os comentários ofensivos da moça fazendo Yoga na praia…

Numa entrevista na rua não há problema algum em registrar o que já está acessível ao olhar de todos. Quando o objetivo é reportar não há necessidade de assinar nada ou mesmo pedir qualquer autorização verbal. Entretanto, se você for usar comercialmente sua imagem somente aí existe necessidade de autorização, como num filme ou em uma publicidade.

Acima de tudo, não existe privacidade em público; se você aparece em espaços abertos à livre circulação não pode impedir que alguém lhe veja e registre.O crime aqui é a exposição, a humilhação pública e o tratamento chulo e desrespeitoso dos comentários. Na rua não existe privacidade; você pode filmar quem quiser. O crime desse sujeito foi a exposição ofensiva dessa moça, as palavras grosseiras e o deboche. Filmar em lugares públicos NÃO é crime, e lembre que essas filmagens é que nos protegem da brutalidade policial!!!

Não podemos dar tiro no pé. Essa é a desculpa da polícia para matar pessoas em segredo. TODOS TEM O DIREITO DE FILMAR A POLÍCIA e qualquer outra pessoa em PÚBLICO. O crime aqui é OUTRO, a obscenidade dos comentários, e não a filmagem em si.

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Parto e Privacidade

Diante da explosão de emoções suscitadas por um parto me parece justo que a equipe possa descrevê-lo a partir de SUA perspectiva, até porque um parto sempre terá inúmeras interpretações. Sem dúvida que as mais importantes são as “de dentro” e todas as outras “de fora”.

Uma equipe pode falar que um parto foi maravilhoso ou problemático, desde que o descreva do ponto de vista da atenção prestada. Só uma mulher pode falar de como se sentiu ou como digeriu sua experiência de parir.

Para além disso, nem a descrição que a mulher faz do próprio parto pode ser considerada “a definitiva”. Apesar da primazia de suas percepções – já que é a óbvia protagonista – suas expectativas e projeções subjetivas podem obscurecer a realidade dos fatos, fazendo com que muitas vezes ela descreva seu parto de uma forma completamente diferente de outras perspectivas.

Um parto, por ser um evento humano e multifacetado, sempre comportará várias interpretações e vieses. Além disso, é um dos eventos mais complexos da existência humana, que conjuga em sua essência vida, morte e sexualidade. Exatamente por essas características o nascimento será um processo sensível e reservado. As pessoas convidadas a participar dele precisam entender a importância de resguardar sua privacidade. Assim, não faz sentido que aqueles que o testemunham revelem suas particularidades sem a aquiescência da protagonista, e isso deve ser um consenso entre os cuidadores.

Não se trata de determinar a existência de uma única verdade no parto, a perspectiva justa e certa, pois que isso não existe. Parto só pode ser entendido pela paralaxe de múltiplas visões, em que todas completam o todo interpretativo de um evento múltiplo. Porém, as características pessoais de cada nascimento impõem a reserva e o respeito de todos os que dele participam.

Resguardar a sacralidade do parto depende do preparo dos assistentes e da capacidade de entender sua posição subjetiva como auxiliares de um evento cujas repercussões estão muito além da nossa compreensão.

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