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Julgamentos

Em quase todas as vezes que se conta um fato a alguém a reação deste será determinada pelo tipo de identificação que se seguirá. Se você conta uma história de violência doméstica, a imensa maioria das mulheres se identifica com a agressão sofrida e se enxerga na pele de quem sofreu na história relatada. Se você conta uma história de um homem enganado – apenas para falar de um sofrimento tipicamente masculino – os homens se identificam com o “pobre rapaz” cujos sentimentos foram pisoteados por aquela ingrata e blá, blá, blá…

Digo isso apenas porque não confio em opiniões isentas. Todas as manifestações, com raríssimas exceções, são marcadas pela perspectiva PESSOAL de cada um que as escuta. Eu também sou assim: sempre que alguém me conta uma história eu me sinto com as roupas e a espada do personagem, sinto na pele o que ele sofreu e tento me situar diante dos dilemas que ele teve de suportar. E sempre imagino a dor de quem não tem voz, não tem força suficiente e nem pode enfrentar, com paridade de armas, o exército que se coloca contra si.

A única diferença é que eu sei da minha parcialidade e tento – dentro das minhas limitadas condições – criticar em mim mesmo esta tendência. Exercitar a paralaxe – deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação – tentando observar o mesmo fato por outra perspectiva é uma capacidade de poucos. Uma rara virtude muito difícil de encontrar. Fico sempre imaginando a opinião de um magistrado condenando ou inocentando um sujeito, tendo nas mãos seu destino, e sem autocrítica suficiente para perceber o quanto de sua sentença está moldada pelos seus preconceitos e por sua visão parcial do que realmente ocorreu.

Quando visitei a prisão de Lula em Curitiba com minha amiga Andréia, tive uma crise compulsiva de choro ao me aproximar do Prédio da Polícia Federal, que mais parecia um castelo medieval, com suas torres, grades, portões, e muros inexpugnáveis. Quando vi a estrutura monstruosa do outro lado da rua eu me desestruturei ao imaginar o ex presidente preso por um arranjo político, falso, cruel e desumano. Senti na pele o que Lula estava passando e desabei. Fui ajudado pelos companheiros da Vigília, gente simples e humilde, que se colocaram ao meu lado naquele momento de angústia. Todavia, para quem não tem dentro de si essa vazio, este tipo de dor não é capaz de produzir eco. Eu entendo e respeito o silêncio de muitos para quem eu contei essa história.

Sim, julgar é a coisa mais fácil do mundo; ser justo uma das tarefas mais árduas. Olhar o mundo com os olhos alheios é obra de uma vida inteira.

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Carrapatos

Esses dias morreu (mais uma) menina por aborto inseguro no Brasil e sua história alcançou as capas de jornais e as mídias sociais. Achei que nenhuma notícia poderia ser mais triste do que esta…. até ler os comentários. Neste porão da estupidez humana proliferam como carrapatos os cidadãos de bem, desfilando pestilência em forma de ódio. Lá estão inclusive senhoras, mães, avós amorosas em cujas páginas pessoais do Facebook pululam imagens de Jesus, gatinhos, bolos deliciosos e….. Bolsonaro. A maldade travestida de “justiça” é a mais perversa das armadilhas. Essas “pessoas de bem” são a ralé moral desse país.

Como diria Cunha, outro cidadão exemplar, “que Deus tenha piedade de suas almas“.

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Pequenas notas

“Entenda meu lindinho, o amor é traiçoeiro. Ele deixa o feio bonito, o mau bom e o horrendo remediado. Nunca permita, minha doçura, que ele lhe engane”, disse minha mãe.


“Diante de tanta contrariedade, tanta caretice, tanta desinformação, tanto atraso e, acima de tudo, tanta injustiça, muitos pensam em desistir Todavia, é provável que a melhor postura diante de tantas dificuldades seja: “É exatamente por causa desses profissionais que os atores sociais ligados à humanização do nascimento são tão necessários”. Como diria o Max: “Tais atores são como flores de cactos brotando da aridez desértica da tecnocracia”. O tempo, senhores, é de semeadura; a colheita não nos pertence.” (Max, personal communication)


Em um parque um senhor idoso jogava xadrez com seu cachorro. De forma surpreendente, para cada movimento com as peças negras que o velho senhor fazia o cachorro o seguia, movendo as peças brancas com seu focinho molhado, com perfeita lógica e precisão.

Um passante, vendo a cena, ficou imantado pelo que presenciara. A princípio achou tratar-se de um truque e por um tempo ficou investigando se não havia cordas invisíveis ou comandos elétricos ligados ao cão. Depois de vários minutos de incredulidade, e certo de que não se tratava de um embuste, ousou interromper o jogo com uma expressão de espanto.

– Meu Deus!!! Seu cachorro joga xadrez!!!!

O velho levantou os olhos do tabuleiro e respondeu, com visível contrariedade:

– Sim, e daí?

– Isso é incrível, meu senhor…. um milagre, a quebra de um paradigma que….

Foi interrompido pela voz ríspida do ancião.

– Ora, não seja tolo meu senhor. Esse cachorro não passa de um idiota. Estamos aqui desde o início da manhã e ele me ganhou apenas três das dez partidas que jogamos.

O velho senhor encarou seu cão com notável reprovação enquanto este baixava as orelhas, visivelmente envergonhado.


“Uma separação é sempre a morte de um sonho. Pode ser um amargo despertar ou o amanhecer radiante para o resto de sua vida. Todavia, não há como evitar o gosto ruim que sobe à boca ao abrir os olhos e ver que aquele projeto tão acalentado se foi.”

Milton Frietzmann, “Memórias de uma aurora que está para chegar”, Ed Barracuda, pag. 135


As manifestações das corporações médicas sobre o Dia do Médico continuam o mesmo roteiro que acompanho há quatro décadas: megalomaníacas e piegas, apostando na visão fantasiosa de uma pretensa “abnegação sacerdotal” dos profissionais

Como podem esses “anjos” da corporação serem os mesmos que impediram as enfermeiras de solicitar exames, emperrando a vida de milhões de brasileiros que procuram o SUS?

A conta não fecha…


“Há mais de 20 anos eu aboli a expressão “parto natural” quando percebi que ela se referia a uma fantasia nostálgica de um paraíso perdido. Não há nada de natural no parto; tudo é construção da linguagem; tudo é elaboração simbólica. Chamar de”mãezinha”, abusar dos diminutivos e fazer tricotomia são formas de infantilizar as gestantes, transformando-as em crianças, obediente e manipuláveis. Todavia, existem formas mais sutis e mais poderosas de infantilizá-las travestidas de cuidado e carinho. São armadilhas perigosas, tão poderosas quanto invisíveis e, por isso mesmo, precisam ser combatidas.”

Margareth Woolington, “Freedom as a Mirage”, Ed. Cypress Hill, pág 135

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Uma História Palestina

Palestine Kids

Uma história palestina

Você está andando na rua e um assaltante pega sua carteira e sai correndo. Você tenta correr atrás do malfeitor, mas logo percebe que não é tão veloz quando as atléticas pernas do rapaz. Mal havia se dado conta, mas é muito mais velho que ele. Persegue por duas quadras o jovem ladrão, até que consegue alcançá-lo. Talvez tenha sido pior. Com esforço consegue agarrar-se à velha e surrada carteira, mas isso deixa seus braços ocupados. Aproveitando-se de sua fragilidade e de estar sem possibilidade defesa, ele lhe espanca, quebra seu nariz, chuta seu estômago, rasga suas roupas, chama você de “velho nojento”, difama sua família e arranca seus cabelos. Enquanto você sangra jogado no chão, consegue ainda segurar a ponta da carteira – onde estão alguns trocados e a sua identidade – enquanto o ladrão a puxa com todas as suas forças.

Chega a polícia

Os dois são levados à delegacia. No trajeto, ainda na viatura, o jovem meliante continua lhe xingando, ofendendo, dando cabeçadas, enquanto você sangra e chora de dor e humilhação.

O delegado pede que os dois sentem à sua frente e pede que lhe digam o que aconteceu. Sem surpresa alguma o ladrão diz que encontrou aquela carteira onde não havia ninguém, que o dinheiro sempre foi dele, que não sabe de onde veio aquela identidade e que você está ferido apenas porque o agrediu. Os ataques se justificam porque precisou se defender dos seus tímidos chutes, puxões e beliscões.

– Que culpa tenho de ser mais forte?, ponderou ele.

Você pede ao delegado para que o jovem mostre a carteira. Lá dentro está exatamente o que você descreveu: sua identidade, seu talão de cheques, uns poucos trocados e a foto de sua esposa e filhos.

– Como pode o senhor negar as provas contundentes de que esta carteira me pertence? Como pode admitir essa violência? Como pode aceitar que tal crime ocorra? Como pode me acusar de agredir um jovem muito mais forte, se tudo que fiz foi lutar para ter de volta o que sempre foi meu?

O delegado dá um sorriso e diz:

– Vocês estão muito nervosos. Façamos o seguinte: o senhor entrega a carteira para o jovem e ele promete parar de lhe bater. Existem sempre dois lados em todas as situações. Vamos fazer um acordo?

Absurdo?
Não, realidade…

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