Arquivo do mês: janeiro 2017

Minority Report

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Quanto mais leio sobre a chacina em Campinas mais me lembro do filme “Minority Report” de Stephen Spielberg, e fico pensando na possibilidade de sermos avisados quando um psicopata como este venha a agir. Quem não gostaria de saber a tempo e correr para impedir tantas mortes? A sensação foi a mesma quando um pai matou 3 filhos pequenos em Porto Alegre há alguns anos e um conhecido meu falou “Ele era o mecânico do meu carro e eu jamais reparei nada. Parecia uma ótima pessoa”. Nunca sabemos dos monstros que habitam em nós, mas eles estão sempre esperando uma brecha para mostrar sua face de horror.

Nesse caso havia sinais prévios de violência, mas se fôssemos encarcerar todos os homens violentos ou que ameaçam faltaria cadeia para tanta gente descompensada.

Talvez a chance de diminuir a ocorrência dessas tragédias, no terreno individual, seja estudando os gatilhos que cada um dos agressores carrega e trabalhá-los com psicoterapia compulsória. Já no aspecto social, podemos agir muito precocemente através da educação para a equidade de gêneros e para uma sociedade menos violenta, onde os conflitos possam ser resolvidos sem agressões físicas ou morais. Podemos também  estabelecer em nível comunitário uma vigilância severa sobre sinais precoces de agressividade descontrolada, em especial relacionada a gênero e em populações de risco.

Se não funcionar podemos tentar mergulhar sensitivos em uma banheira e esperar que tenham visões. Ou apenas lamentar o ocorrido e amaldiçoar a alma do malfeitor.

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Chacina

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O assassino era como o monstro de Frankenstein, composto por centenas de pequenos fragmentos de rancor e decepção. Uma estrutura de ódio, retalhos de misoginia, um pouco de raiva, umas pitadas de indignação seletiva e um punhado generoso de auto condescendência. E como pano de fundo, o amor deteriorado e doentio.

Não há nada de novo na sua fala e nos seus sentimentos, assim como não há nenhuma novidade em salitre, carvão e enxofre. Entretanto a mistura desses elementos produz a força destruidora da pólvora, enquanto a combinação de indignação, culpa, frustração, banalização da violência, machismo e uma mente frágil e doente produz incontáveis tragédias.

Só o amor é capaz de produzir este tipo de horror que nos agride e tritura a alma. O amor, quando desvirtuado, é maligno e destrutivo, mas ainda assim é amor. Sim, é domínio, é ódio, é desprezo, é possessividade e angústia. E ainda assim é amor. O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, mas a loucura e o ciúme não conseguem brotar da aridez de um coração indiferente.

Não é justo “romantizar o amor”, no sentido de enxergar nele apenas sua potencialidade positiva. O amor pode ser doce e calmo, mas também furioso e agitado. Preferimos não olhar para esta face do amor, mas ela é igualmente verdadeira.

Não se trata de macular o amor, mas tirar-lhe a máscara. Ódio e desprezo são legítimos filhos do amor, e por isso mesmo, onde houver ódio e desprezo podemos procurar um amor corrompido que de imediato ele se mostra em todas as suas nuances.

É preciso enxergar o amor em suas infinitas dimensões, e entender que até a lua, por mais resplandecente e brilhante que seja, possui seu lado escuro.

Para reflexão, trago este texto de Slavoj Zizek:

“Mas o conjunto da realidade é só isto. É estúpido. Está lá fora e eu não ligo pra isso. Amor, para mim, é um ato extremamente violento. Amor não é “eu amo todos vocês”. Amor significa que eu seleciono algo e é, de novo, esta estrutura de desequilíbrio, ainda que este algo seja só um pequeno detalhe, uma frágil pessoa individual. Eu digo “eu amo você mais que qualquer coisa” e neste preciso sentido formal, o amor é o mal.” 

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Ódios liberados

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Para algumas pessoas os desastres que mancham de sangue as manchetes lhes oportunizam o exercício do ódio sem interdição. As vezes, quando vejo suas manifestações, é impossível não notar o gozo em concentrar toda a sua indignação e raiva em uma única pessoa. Em um mundo dominado pela passionalidade e pelo império da correção política, a racionalidade e a sinceridade são perigosas armas de conscientização de massas. Alie-se a isso o bom humor e teremos um perigoso terrorista. Precisam, portanto, ser exterminadas para o bem da sociedade. A realidade e a verdade sucumbem na Guerra das Causas.

Dimitri Ustalov em “O processo de Igor Narachev”, página 135, capítulo “O inverno da Sra. Ivanov”

Dimitri Ustalov foi um poeta e ensaísta Ucraniano nascido em Makevka, em 1886. Foi o líder do grupo literário “Os renegados” que lançou o jornal de poesia e crítica chamado “Удар в обличчя” (Patada na Cara, em tradução livre). Dimitri atuou na Revolução Ucraniana ou Revolução Makhnovista, que foi um movimento revolucionário guerrilheiro de orientação anarcocomunista, liderado por Nestor Makhno, que ocorreu em paralelo à guerra civil russa, de 1918 e 1921. Nos combates feriu-se na perna e nunca se curou plenamente do ferimento, por isso muitos o chamavam de “Dimitri, o manco”. Escreveu especialmente poesia e crítica literária, tendo uma vasta produção na primeira metade do século XX. “O Processo de Igor Narachev” (“Процес Ігоря Нарачева”) é o seu livro mais famoso e inspirou vários escritores da moderna literatura ucraniana.

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O menino da bicicleta

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Meu carro parou no cruzamento movimentado em sua rotineira volta para casa. O rádio antigo, travado em uma estação ordinária, repetia músicas feitas por um computador que fabrica sucessos imediatos e letras sem sentido. A fila de carros que passavam à minha frente parecia interminável enquanto eu procurava uma brecha segura para cruzar a preferencial. As canções intercaladas com propagandas de mercearias e bancas de advogados populares enchiam o espaço do carro com mensagens enfadonhas de amores desprezados e retirada de multas. E eu apenas sonhava em chegar em casa para tomar café.

Finalmente uma brecha apareceu ao longe. Pisei no debriador e coloquei a primeira marcha. Sabia que a brecha logo se fecharia e, sabe-se lá quando, outra apareceria. Ah, o trânsito desses dias. Olho para o retrovisor e há mais 4 carros aguardando em fila atrás de mim. Minha determinação e agilidade vai determinar não apenas o meu café, mas de todos estes que aguardam impacientes a minha decisão.

Piso no acelerador avisando que vou me arriscar em instantes. O carro anda 20 cm para frente. A brecha se aproxima. Vou sair.

Detenho-me.

Ao longe surge um personagem que não havia percebido: um menino e sua bicicleta. Ele pedala o mais que pode e está no meio da brecha. Vejo diante de mim duas possibilidades: correr e obrigar o menino a frear sua “bike” ou esperar que ele passe, e provavelmente perder a janela de rua vazia à minha frente.

Escuto a primeira buzina a apertar meus tímpanos enquanto meu pé angustiado aguarda as ordens do cérebro. Na dúvida avanço mais 20 cm e vejo melhor o menino da bicicleta que se aproxima. Sua imagem cresceu no vidro dos meus óculos e pude notar quem era o personagem que atrasava a fila de motoristas que tanto desejavam voltar para casa.

Negro, 20 anos, magricela. Sua bicicleta era tão simples e despojada quanto suas roupas: uma bermuda, camiseta e um chinelo havaianas. Olhou para mim mais uma vez enquanto se aproximava do cruzamento e seu olhar se fixou em mim, talvez querendo saber o que eu faria a seguir.

Desisti. Pisei no debriador e ajustei a marcha do carro para o “ponto morto”. Ouvi mais uma buzinada e me resignei. Coloquei as duas mãos no volante apenas a tempo de ver a nova leva de carros surgir ao longe na esquina da rua em frente. Minha brecha havia escapado. Eu nunca mais voltaria para casa. Adeus meus filhos, minha mulher e meu café com torradas.

Olho consternado para a rua enquanto o menino da bicicleta finalmente se aproxima do cruzamento. Foi então que o milagre aconteceu.

Quando sua bicicleta passava em frente ao meu carro ele levanta a mão esquerda, aponta o polegar para cima e me envia o mais belo sorriso do dia. Do mês, e certamente do ano que havia iniciado há 48 horas. Ele agradecia minha espera, minha paciência, meu tempo de aguardo para que ele pudesse passar. Respondi com um sorriso tímido, meio sem graça, e me limitei a esticar os dedos da mão esquerda do volante. Ele passou com pedaladas vigorosas e eu novamente fiquei aguardando pela bendita brecha.

“O menino pobre e negro agradeceu a oportunidade que o senhor branco havia lhe dado”. Não, talvez não. “O menino da bicicleta exigiu que sua vez de passar fosse respeitada pelos carros”. Pode ser. “O sorriso agradecido do menino negro desvela sua humildade diante de um confronto de classes e perspectivas de vida”. Quem sabe. Fui atropelado pelas metáforas possíveis sem saber a razão de ter ficado pensativo e, por que não, emocionado.

Talvez nenhuma das hipóteses anteriores e tudo se resume a ficar encantado diante de um sorriso de agradecimento

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“Revelhom”

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Fotos de revelhom:

Mulheres: lindas e sorridentes (ok, já disse), arrumadas, produzidas, pintadas, batom, lápis, delineador, cabelos (ohhhh!!!), sapatos, poses, caras e bocas, blusas, vestidos, tubinhos, mini-tubinhos, pretinhos, adereços, gloss (não sei exatamente o que é), calcinhas (não vi nenhuma, mas sei da preocupação), bijuteróias (um blend das duas), filhos e filhas.

Homens: Bermuda, chinelo e cerveja na mão.

Na maior parte do tempo ser homem é algo muito pesado. Morremos mais cedo, infartamos, brigamos, somos feridos e mutilados, precisamos matar o leão todos os dias para apresentar ao Pai. Mas nas festas temos uma folga. Casamentos, batizados, velórios, Natal e Ano Novo nossa preocupação com a apresentação é quase nula. Isso é uma bênção.

Durante 1 ano antes de me formar escutei as conversas das colegas sobre as “provas” que tinham a fazer, mas não eram os exames da residência médica, e sim as provas de roupa de formatura nas suas exigentes costureiras. Pior ainda, algumas delas me mostravam desenhos de roupas e pediam minha opinião!!

Toda a preocupação que tive com minha roupa de formatura foi engraxar meu sapato no dia da cerimônia e vestir exatamente a mesma roupa do meu casamento, que eu havia usado há 3 anos.

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Destino sábio

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Neste ano de 2017 completarei 40 anos de namoro. Comecei a namorar aos 17 anos, quando fazia cursinho pré-vestibular. Tinha a fixação de cursar medicina desde os 15 anos, surgida em uma enigmática epifania ao abanar para minha mãe que embarcava para a Europa para lá encontrar meu pai. Minha namorada não tinha muita certeza do que fazer, mas queria também cursar algo na área da saúde.

Havia dois cursos públicos de Medicina na época: Universidade Federal e Faculdade Católica  (que não era pública, mas subsidiada, portanto pagável). Para ambos estudar na PUC era absolutamente impossível; não haveria como nossos pais pagarem por isso, e nem chegamos a fazer o vestibular para lá.

Eu me decidi pelo ingresso mais difícil: a Universidade Federal, mas ela disse que teria mais chances na Católica. Fiquei muito triste de pensar que, se ambos passássemos, não seríamos colegas de turma. Consegui convencê-la a mudar de ideia e fazer para a mesma universidade que eu.

O resultado disso foi que eu passei e ela entrou em segunda opção – educação física. Só no ano seguinte ela fez novo vestibular e entrou na enfermagem. Entretanto meu remorso vem do fato de que a nota do primeiro vestibular para medicina foi insuficiente para entrar na Universidade Federal, mas teria a pontuação necessária para entrar na Faculdade Católica. Não fosse pela minha insistência egoísta em ser seu colega e ela teria cursado medicina. Assim as nossas histórias de vida teriam sido mais distantes, e por certo completamente diferentes.

Eu me divirto em pensar que hoje ela seria rica, tendo se especializado em “medicina estética”. Estaria casada com um cirurgião vascular famoso e milionário. Teria dois filhos: Wesley e Jéssica, ele surfista, ela modelo. Teria filhos só depois dos 30, pois seu namorado médico era obviamente cuidadoso e responsável. E eu …. bem eu seria para ela apenas aquela lembrança que passa pela cabeça das mulheres e que se expressa para nós como um suspiro. A gente tolamente pergunta “está cansada?” e elas, com o olhar preso no infinito, respondem “não, estou bem” e … suspiram de novo.

Por alguns anos carreguei essa fantasia e essa culpa, mas a minha namorada sempre disse que o destino foi sábio com ela. Sua realização sempre foi ligada à enfermagem. Todavia, o pensamento que hoje tenho é de que minha atitude egoísta ao desejá-la como colega e as consequências disso – não passar em medicina  e cursar enfermagem – acabaram sendo a maior bênção que eu poderia receber. A melhor parte do que fui como médico veio do fato de conviver 24h por dia com alguém cujo foco principal de seu trabalho não era cortar, intervir e medicar, mas cuidar e amparar.

Como se pode facilmente perceber, o destino foi sempre muito bondoso comigo. Por mais que 2016 tenha sido um ano de tristezas, perseguições e decepções seria uma injustiça imperdoável não olhar para trás e agradecer a dádiva de ter vivido aqui.

Feliz 2017

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