Arquivo da tag: remorso

Voltar ao passado

Penso muito em voltar no tempo. Fico imaginando às vezes me concentrar até entrar em transe, aparecer em uma data do passado e mergulhar nela, como no filme “Somewhere in Time”. O problema é pensar em qual data eu gostaria de chegar.

Algumas vezes penso em retornar instantes antes de fatos traumáticos, mas outras vezes volto à escola, à infância, à minha casa no interior. Tipo, para falar com meu avô que morreu quando eu tinha três anos, ou reencontrar minha mãe e minha avó Irma. Também para rever a turma da rua ou os amigos da escola. Voltar naquele momento especial e ter coragem de dizer algo que não falei – por medo. Mas também voltar para ficar calado quando disse alguma bobagem que magoou alguém.

Essas viagens sempre me oportunizam pensar “como seria se…”, mas, mesmo que fosse possível ajeitar alguns erros do passado, uma viagem no tempo seria uma angústia brutal. Fico imaginando encontrar a mulher da minha vida e dizer a ela as palavras que sempre achei que deveria ter dito, só para depois perceber que o segredo de sua paixão foi mesmo ter sido bobo, tolo e desajeitado. E se dessa vez ela não me quisesse? Perderia instantaneamente meus filhos e netos e passaria a eternidade imaginando em que outra barriga teriam nascido.

Eu seria um perdido, vagando pelas ruas, imaginando encontrar em outros corpos as almas que perdi. A volta ao passado seria um martírio infinito, uma coleção de dores e tristezas. Uma “saudade do que nem cheguei a ser“…

Talvez sejamos feitos dos próprios erros que cometemos, e mesmo os piores deles constroem o que somos hoje. Perdê-los talvez signifique retirar de nós a nossa própria essência.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Destino sábio

images-20

Neste ano de 2017 completarei 40 anos de namoro. Comecei a namorar aos 17 anos, quando fazia cursinho pré-vestibular. Tinha a fixação de cursar medicina desde os 15 anos, surgida em uma enigmática epifania ao abanar para minha mãe que embarcava para a Europa para lá encontrar meu pai. Minha namorada não tinha muita certeza do que fazer, mas queria também cursar algo na área da saúde.

Havia dois cursos públicos de Medicina na época: Universidade Federal e Faculdade Católica  (que não era pública, mas subsidiada, portanto pagável). Para ambos estudar na PUC era absolutamente impossível; não haveria como nossos pais pagarem por isso, e nem chegamos a fazer o vestibular para lá.

Eu me decidi pelo ingresso mais difícil: a Universidade Federal, mas ela disse que teria mais chances na Católica. Fiquei muito triste de pensar que, se ambos passássemos, não seríamos colegas de turma. Consegui convencê-la a mudar de ideia e fazer para a mesma universidade que eu.

O resultado disso foi que eu passei e ela entrou em segunda opção – educação física. Só no ano seguinte ela fez novo vestibular e entrou na enfermagem. Entretanto meu remorso vem do fato de que a nota do primeiro vestibular para medicina foi insuficiente para entrar na Universidade Federal, mas teria a pontuação necessária para entrar na Faculdade Católica. Não fosse pela minha insistência egoísta em ser seu colega e ela teria cursado medicina. Assim as nossas histórias de vida teriam sido mais distantes, e por certo completamente diferentes.

Eu me divirto em pensar que hoje ela seria rica, tendo se especializado em “medicina estética”. Estaria casada com um cirurgião vascular famoso e milionário. Teria dois filhos: Wesley e Jéssica, ele surfista, ela modelo. Teria filhos só depois dos 30, pois seu namorado médico era obviamente cuidadoso e responsável. E eu …. bem eu seria para ela apenas aquela lembrança que passa pela cabeça das mulheres e que se expressa para nós como um suspiro. A gente tolamente pergunta “está cansada?” e elas, com o olhar preso no infinito, respondem “não, estou bem” e … suspiram de novo.

Por alguns anos carreguei essa fantasia e essa culpa, mas a minha namorada sempre disse que o destino foi sábio com ela. Sua realização sempre foi ligada à enfermagem. Todavia, o pensamento que hoje tenho é de que minha atitude egoísta ao desejá-la como colega e as consequências disso – não passar em medicina  e cursar enfermagem – acabaram sendo a maior bênção que eu poderia receber. A melhor parte do que fui como médico veio do fato de conviver 24h por dia com alguém cujo foco principal de seu trabalho não era cortar, intervir e medicar, mas cuidar e amparar.

Como se pode facilmente perceber, o destino foi sempre muito bondoso comigo. Por mais que 2016 tenha sido um ano de tristezas, perseguições e decepções seria uma injustiça imperdoável não olhar para trás e agradecer a dádiva de ter vivido aqui.

Feliz 2017

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais