Arquivo do mês: janeiro 2018

Profissionalização

Profissionalizar o trabalho das doulas, com todas as vantagens presumidas e os encargos, custos e obrigações envolvidas, pode ser um caminho óbvio para esta ocupação. Entretanto antes que esforços sejam direcionados para este fim é indispensável debater friamente as suas múltiplas perspectivas.

Provavelmente o que houve de mais significativo na obstetrícia ocidental nos últimos anos do século XX e no início deste novo século foi a incorporação das doulas no cenário do parto com todas as consequências que vieram na esteira desta descoberta. Se antes a ciência médica obstétrica se esforçava para trazer o fenômeno do parto para o reducionismo biológico que lhe caracteriza, a partir da entrada das doulas na atenção ao nascimento esta tarefa se tornou ainda mais complexa.

A introdução de um elemento não químico no evento foi capaz de produzir muitas transformações nos resultados objetivos e isso acabou por demonstrar que os elementos não mensuráveis do parto são – apesar de sua invisibilidade aos olhos desavisados – de valor inquestionável na condução do processo. Havia claramente muito mais do que trajeto, objeto e força. O parto realmente acontecia “entre as orelhas”, e era ali o lugar onde as doulas se inseriam de forma mais marcante.

A doulas produziram uma inegável inquietude nos atendentes de parto e nos hospitais. De intrusas foram pouco a pouco conquistando espaço e ganhando a confiança cada vez maior de serviços que investem na humanização. Sua importância e reconhecimento pela cultura foram crescendo, assim como as evidências de sua ação positiva no cuidado oferecido às mulheres em trabalho de parto.

Com isso seu número proliferou no Brasil. Só o nosso grupo formou perto de mil doulas e os outros grupos que surgiram se aproximam de números como este. O sucesso das doulas foi aos poucos se consolidando até encontrar seu dilema mais óbvio: a profissionalização.

“Ora, pensamos, se médicos, enfermeiras, psicoterapeutas, obstetrizes, psicólogas e técnicas de enfermagem são profissionais, por que não haveriam as doulas – que tanto benefício comprovam nos resultados do parto – de também se tornar uma profissão, mais do que uma ocupação?” Não haveria este upgrade de acrescentar valor e visibilidade ao trabalho que aos poucos vai se fortalecendo?

A primeira questão que eu que trazia, desde 2014 quando ousei me posicionar sobre isso, foi de que não havia vantagens fortes o suficiente para suplantar as inúmeras desvantagens que viriam com esse passo. Tornar as doulas “profissionais” exigiria um número enorme de requisitos e no mínimo duas décadas de luta institucional. Com isso viriam junto os conselhos, sindicatos, burocracias, regulamentações, restrições, códigos, protocolos, sanções, punições, cobranças das várias anuidades (sindicato, conselho, associação), vigilância, currículos mínimos, e muitas outras obrigações que qualquer corporação precisa encarar.

Para profissões tradicionais como medicina, enfermagem, engenharia e direito não havia alternativa: o controle sobre os pares seria inevitável para mantê-los sob rígida vigilância . Mas para as doulas, que fazem do afeto e do contato sua ferramenta mais intensa, que vantagem seria forte o suficiente para suplantar o peso de estarem congregadas em uma corporação? Em contrapartida, é bom lembrar que psicanalistas e técnicos de futebol não são profissões, não desejam ser, e são bem remunerados.

Nenhum, ao meu ver. As doulas precisam ser LIVRES para atender suas clientes, assim como livre deve ser o amor. Nenhuma amarra protocolar deve se interpor entre o livre acesso e escolha de uma gestante por quem haverá de lhe dar esse suporte físico, mas também emocional, amoroso e cálido.

Profissionalizar as doulas lhe retira sua original característica de se estabelecer na interface entre o carinho mais doce e a técnica mais apurada. Normatizar essa ação tem efeito tão deletério quanto regulamentar o desejo.

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A questão das (super) doulas

A capacitação de doulas deveria produzir, acima de tudo, um processo de “castração”. Tanto quanto ensinar as ações de uma doula no auxílio direto à gestante as doulas precisam ser orientadas a encarar com dignidade e respeito os seus LIMITES. Doula peitando médico e enfermeira, questionando condutas profissionais e até sequestrado pacientes de hospital já chegaram ao meu conhecimento. A tudo isso entendi como “entusiasmo”, característica da infância de uma ocupação. Passei por isso na infância da minha atuação como médico, em especial pelos dois “furores” principais: o “furor curandis” e o “furor interpretans”, a insânia por curar ou interpretar. Pois muitas doulas passam pelo “furor protetans”, que é o desejo de alguém que se esmera em proteger a paciente das violências institucionais, mas atacando, por vezes, os profissionais no hospital.

Isso não ajuda as doulas e menos ainda as gestantes e precisa ser coibido desde a formação.

Abandonar a obsessão pela “profissionalização” é o caminho que eu ofereci num duro debate em 2014. Naquela época eu já denunciava que não havia sentido em profissionalizar as doulas e a consequente inserção no mundo das corporações. Em pouco tempo as doulas seriam amarradas em torniquetes legais com a criação de sindicatos, conselhos, política corporativa, greves(???), fundo de garantia, regulamentações trabalhistas, etc… até serem sufocadas pela burocracia e pelas lutas internas. Na época eu disse que doula não era profissão (strictu sensu) mas uma ocupação, pelo que que fui prontamente atacado (qual a novidade?).

Pois bem, a atitude esperta dos legisladores de Curitiba (a exemplo do que fizeram em Porto Alegre com sucesso relativo) impôs às doulas uma formação na área da saúde. É óbvio que o objetivo era inviabilizar a atuação das doulas e o grande erro (nosso, do ativismo) foi aceitar essa condição, que nada mais era que um engodo para dividir o movimento de humanização do nascimento. Em Porto Alegre o projeto foi retirado. Acabamos ficando sem uma lei, mas não parimos uma aberração.

A solução, por mais difícil que seja, é mudar esta lei aberrante e não aceitar uma imposição esdrúxula, que não obedece nenhuma experiência ou estudo realizado pelo mundo. Minha ideia é que as doulas devem ser LIVRES de qualquer amarra legal ou corporativa e obedecer apenas ao contrato estabelecido com suas clientes. Pode ser uma postura contra-hegemônica e estranha para um mundo em que muitas ocupações lutam pela profissionalização, mas creio ser a atitude mais inteligente para a solidificação desta atividade na cultura.

As “super-doulas” partem de um equívoco conceitual, ao meu ver: a ideia de que a atividade da doula se sustenta por seu aprendizado cognitivo e racional objetivo, ao invés de ser uma ação de caráter sensitivo, afetivo, emocional e subjetivo. Essas últimas características são amiúde desconsideradas como sendo “não profissionais” e, portanto, não “comercializáveis”. Ledo engano, e a psicanálise que se ocupa em escutar e orientar compassivamente seus clientes é um exemplo disso. Assim, se é de ajuda o arcabouço teórico e prático que uma doula carrega ao oferecer seu auxílio, por certo que não é ele que dará a sustentação para esta árdua tarefa, mas a conexão íntima e pessoal que ela vai estabelecer com a alma da mulher que está em seu momento mais feminino.

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Doulas e tretas

Não acredito que haja muita “treta” nos debates contemporâneos sobre os cursos de doulas que se espalharam pelo Brasil. Em verdade eu vejo quase um consenso. O problema é que quando nós começamos a dar cursos no Brasil no início desse século havia dois polos de formação. Havia o grupo da ANDO que eu ajudei a criar com Fadynha, Lucia, Cristina, Renata e Zeza (que depois se desmembrou) e o grupo do GAMA – Ana Cris – no qual eu mesmo cheguei a dar aulas no início. Só isso para todo o Brasil, há 15 anos atrás. Era muito pouco, mas era o desbravamento de um campo completamente novo.

Hoje em dia existem dezenas de cursos proliferando pelo Brasil, o que não é ruim. Não vejo mal algum que possamos capacitar doulas para que elas estejam disponíveis em cada canto do Brasil. Por mim pode haver centenas de cursos, desde que não desvirtuem o papel da doula, retirando ou acrescentando as funções reconhecidas de sua prática.

Lembrando: doula não verifica sinais vitais, não avalia dilatação, não atende parto e não dá assistência médica ou de enfermagem ao recém-nascido ou à mãe. Doula é uma acompanhante de parto treinada par a dar conforto à parturiente.

Vou apenas acrescentar que doula pode ser analfabeta, velha ou adolescente (menor de idade eu faria restrições por causa dos partos hospitalares), homem ou mulher (já briguei muito por causa disso), cis ou trans, bonita, feia, gorda, magra, forte, fraca. Tímida ou espalhafatosa.

Quem escolhe é a mulher.

O problema que surge agora é a disputa por espaço. Criou-se a ideia de que os cursos “longos” são melhores, o que não condiz com a verdade das pesquisas. Também surgiu a ideia de que estágios são “essenciais”. Não creio nisso, apesar de que essa será uma ideia boa quando houver campo de estágio onde ocorram partos minimamente respeitosos. Levar doulas para assistir parto violento, episiotomia, parto deitado, puxo dirigido e Kristeller no SUS (e no privado) não ajuda ninguém.

Portanto, o choque que testemunhamos agora é o resultado natural de uma ideia de sucesso. Só há conflito porque o modelo contagia a todos. Resta a todo mundo que participa dessa história lutar para que não se repitam as lutas intestinas por poder típicas das velhas corporações.

E que assim seja.

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Religião

“Sou cada vez mais interessado pelo verdadeiro sentido sociológico da religião, que não é a prática do bem, da caridade, a crença na vida após a morte ou nas bem aventuranças. Religião me parece cada vez mais um idioma; uma linguagem. Um código complexo e detalhado onde colocamos nossos valores contemporâneos e os inserimos entre as palavras escritas.

É por esta razão que os textos sagrados são tão longos, complexos e dúbio – por vezes contraditórios. Eles são assim com um propósito: permitir a entrada de inúmeras visões de mundo, mesma as que são antagônicas. É possível ter opiniões diametralmente opostas e usar a Bíblia ou o  Corão para embasá-las.

Religião não é um lugar de onde tiramos conceitos, mas onde os colocamos. Por isso ela muda no tempo e no espaço. A religião, portanto, é uma identidade compartilhada, que funciona para agregar as pessoas em nome de ideias, valores e histórias comuns.”

Edward McDuffie,  “The gates to Nowhere”, Ed. Printemps, pág 135

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Eu acredito em Woody Allen

Sobre Woody Allen

No mundo da pós verdade qualquer acusação que esteja de acordo com os linchamentos da época assume estatuto de verdade. Em certo tempo a moda era linchar judeus, agora os palestinos – e árabes em geral – são os escolhidos. No Brasil os petistas são o prato predileto. A partir de agora aos homens poderosos é lícito jogar qualquer infâmia pois quem teria coragem de duvidar? Se você criar uma acusação com um mínimo de lógica as provas tornam-se desnecessárias devido ao convencimento que se obtém com milhões de compartilhamentos em redes sociais. Quem pensaria em questionar um abuso cometido declarado em lágrimas por uma vítima que nos desperta empatia? Quem ousaria discordar do boato de que um político poderoso é dono da Friboi, possui uma mansão e um jatinho particular? Basta repetir indefinidamente, milhões de vezes, centenas de capas de revistas, milhares de memes e pronto… Nenhuma evidência se torna necessária.

O extermínio de reputações é uma praga contemporânea que se intensificou exponencialmente com a Internet. Ela dá um poder desmedido ao acusador, em especial se este fizer parte de um grupo minoritário e historicamente oprimido. Experimente questionar a veracidade de uma acusação (por mais forçada que seja) de racismo, homofobia ou machismo. O simples fato de você solicitar uma prova, ou pedir as fontes – para confirmar uma acusação tão grave – já o coloca na berlinda e o torna “cúmplice” da barbárie denunciada. Não há saída: ou você se associa à massa indignada ou sobe ao cadafalso junto com o acusado.

Eu sempre defendi Woody Allen porque acompanhei o caso quando aconteceu, no início dos anos 90. O relato da acusação me parecia absurdo, inverossímil, fantasioso, carente de provas e claramente calcado em vingança. O depoimento da menina parecia imerso no que depois se chamou de “Falsas Memórias” (veja aqui e também aqui), e totalmente desprovido de valor. Já as declarações de Woody Allen convenceram a mim e a todos os peritos envolvidos no caso e, por esta razão, o caso jamais seguiu adiante.

Fica claro que, se é lícito destruir a reputação de um artista famoso sem qualquer prova, nenhuma pessoa estará livre de ser destruído por estas ferramentas. Não esqueçam quantas mulheres na história foram destruídas e mortas por insinuações, que variavam de bruxaria, ninfomania até adultério. Sem provas. Pensem nisso antes de jogar a pedra.

Fico feliz de ler artigos (como este aqui) que colocam em ordem os sentimentos que sempre nutri contra essa perseguição imoral e perversa. Salve Woody Allen, e que seus detratores sejam punidos.

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