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Biografia

Quando eu lançar minhas memórias definitivas as publicarei com um pseudônimo charmoso (pensei algo como “Bertrand du Belmont”) e com o subtítulo “biografia não autorizada”. Mais ainda, vou inserir algumas passagens falsas (ou verdadeiras) para irritar, causar escândalo e posteriormente ser cancelado por grupos identitários. Espero que com essa estratégia será possível transformar um retumbante e espetacular fracasso em um sucesso editorial, alavancado pelos meus próprios inimigos, a quem ficarei eternamente agradecido.

Max, comunicação pessoal, ontem pela manhã, enquanto chovia

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Webinário

LANÇAMENTO DE CURSO

Todos os dias vejo o anúncio de novos gurus da internet dando cursos de qualquer coisa. De “como ganhar dinheiro sem fazer força” até “salgadinhos deliciosos gluten-free”. Pensei se poderia ser possível eu entrar nesse mercado promissor dando aulas pelo YouTube sobre algo que conheço bastante. Existe muita gente jovem e bonita oferecendo estes seminários, mas ainda acho que algumas pessoas se interessariam por um coroa falando de um assunto magnetizante. Aí lembrei que tem uma coisa que eu sou (reconhecidamente) MUITO bom:

Sim, lavar a louça…

Achou estranho? Pois alguns dirão que é fácil, tranquilo, não precisa prática e nem habilidades especiais. “A inveja é uma merda”, eu sei. Pois eu respondo que qualquer um constrói um abrigo, mas precisa ser mestre para construir uma casa. Você pode passar a vida inteira lavando a louça como qualquer um, mas agora tem a oportunidade começar a fazê-lo com qualidade e de maneira otimizada.

Elaborei um seminário composto de 5 aulas com dicas e truques para a lavar louça com o máximo de eficiência e o mínimo de esforço, com economia de água e ajudando o meio ambiente.

Abaixo apresento a ementa do curso:

*Aula 1*
– Pré socráticos e a busca da essência da limpeza,
– Platão e mito do sabão,
– Aristóteles “sobre os restos”.
– Kant e a teoria da suficiência,
– Freud e a função paterna nas tarefas infantis,
– Limpeza e modernidade em Derrida.

*Aula 2*
– Sujeira – conceito,
– Iniciando a limpeza pesada,
– Escolha de saponáceos,
– Barra ou líquido? (sob a perspectiva de Bauman),
– Bombril e palha de aço – ainda fazem sentido?,
– Ariação – história, conceitos, perspectivas.

*Aula 3*
– Ordenação e organização da pia – a pré limpeza,
– “Método Ric J” de ordenação de objetos sujos,
– Panelas e pratos (rasos e fundos),
– Métodos de esfregação:
* circular de Ritgen,
* elíptico de Trusseau ou
* ziguezague de Patulle
– Talheres – esfregação vertical ou lateral?,
– Conchas, espátulas, seguradores – como limpar?,
– Pia, sabão, facas e copos – princípios de segurança,
– Esponjas I – quando usar a face verde.

*Aula 4*
– Sabões – química da saponificação,
– História: Sapólio Radium – apogeu e queda,
– Sabão em barra – uma epopeia de sucesso?,
– Detergente líquido – uma metáfora contemporânea?,
– Espuma – prós e contras,
– Enxágue simples e combinado,
– O problema da água,
– Esponjas II – quando usar a face amarela.

*Aula 5*
– Armazenagem posterior vertical
– Armazenagem posterior horizontal
– Secagem imediata x secagem natural (aeração)
– Arrumação imediata e posterior
– Panos de prato – sim ou com certeza?
– Ética – quanto cobrar? Por quê?
– O mito da pia limpa.

Bônus para assinantes: como trocar o vídeo do YouTube ou a música do Spotify com a mão molhada e ensaboada sem danificar o smartphone.

Serão fornecidos certificados
Investimento: 500 reais

Aproveita e dá um like, aperta no sininho para ser avisado de novos conteúdos, compartilha e comenta aqui em baixo, beleza?

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Stand up

Como é “Stand up” no Brasil: o cara pega uma vítima da plateia, pergunta a profissão, o nome e fica debochando do sujeito. Da roupa, da namorada ao lado, do seu ofício, se ele é gordo, se ele é careca, etc. As pessoas submetidas a este tipo de “brincadeira” são constrangidas a rir, sob pena de serem consideradas “mal humoradas”.

É o humor do bullying, do deboche, da humilhação. Para mim isso demonstra falta de texto, de criatividade e de qualidade. Quando eu vejo que o show apela para este tipo de estratégia eu simplesmente desligo ou paro de assistir.

Sofro muito com essas vergonhas alheias. Sim, eu sou mal humorado, mas quando a risada vira obrigação e produz humilhação e dor é porque há muito deixou de ser humor.

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Padaria

Ideia para padaria hipster:

“Pão de Mia”

**Venha se contaminar com nossas especialidades. Uma epidemia de sabores e variedades. Covid seus amigos e venha nos conhecer.**

Nossas especialidades:
Massa acrítica
Fermento Pfizer
Receita Moderna
Responsabilidade técnica, chef Eva Sinah

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Redondo

“Aqueles que acreditam na terra plana estão redondamente enganados”

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Véio

Conversando banalidades com meu genro e filhos na Comuna eu disse que o Véio da Havan e o Haddad tinham a mesma idade mas só o comerciante era chamado de “véio”. Eu disse que isso era preconceito com os carecas. Ninguém chama o Haddad de “o Véio do PT”. Para me contrapor, minha filha disse que ninguém chama o Bruce Willys de “Véio Wyllis”, portanto não era pela careca, mas pela personalidade.

Foi então que eu perguntei: “Se o Bruce Willys fosse um super herói que voa ele poderia ser chamado de Aero Willys???”

Ra ra ra ra ra ra ….

Ri sozinho. Ninguém entendeu. Fui obrigado a mostrar a foto do carro.

Sim, eu sou o Véio Ric

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Marte, Planeta para Todos

(Esboço para uma redação de vestibular na casualidade de o tema ser sobre o “planeta vermelho”)

Uma das coisas mais legais em Marte é que se um cirurgião for realizar uma cirurgia não haverá necessidade de lavar as mãos porque eles não permitem micróbios lá, o que é uma atitude justa pois os micróbios, como seres de Deus, teriam muita dificuldade para encontrar água para beber ou mesmo para se banhar.

Outra coisa prática é que, por ser um lugar muito empoeirado, as roupas dificilmente ficam “sujas”, pois num lugar em que todos são sujos – como um futebol em dia de chuva – a sujeira não é percebida. Não existe comparação com seres “limpos”.

Mas o que mais me chama a atenção é o desenvolvimento tecnológico de Marte, pois sempre que são mostradas imagens deste maravilhoso planeta junto estão vários aparelhos eletrônicos de última geração, o que é bom porque oferece o que a gente mais precisa e admira: qualidade de vida.

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Desastre do Lattes

Látis é uma espécie de Kwai, onde se guarda todas as tretas que o cara fez, mas é mais pra material de colégio tipo … estudo, mas não dá pra mandar vídeos ou fotos de gatos, esmalte ou comida chique. Recomendo apenas para quem tá a fim de um trampo.

Sem Lattes, sem memória, sem passado. Imagine só, meu amigo…. de uma hora para outra tudo ficou zerado. Depois do incêndio a memória dos feitos e atos de bravura escolar viraram cinza. Anos colecionando troféus acadêmicos e agora… tudo acabou. Fim… como se aquele dinheiro que você guardava debaixo do colchão perdesse o valor. Aqueles estudos, pesquisas, palestras, títulos. Tudo incinerado. Todo mundo agora se torna oficialmente igual, inobstante o brilhantismo ou a mediocridade.

Lembrei os jogos de futebol do meu tempo. Não importava quanto estava o placar da pelada, mas quando escurecia e todo mundo estava exausto, alguém gritava: “Zerou!! Quem fizer o primeiro ganha!!!”. Subitamente o placar desaparecia, e tudo o que já havia sido jogado deixava de existir. Ninguém mais estava ganhando ou perdendo. Nesse último gás a gente jogava como se estivesse começando tudo naquele exato instante.

É mais ou menos assim que eu vejo o fim do capitalismo.

O velho milionário vai dormir mega empresário e acorda como um cidadão comum. Ainda antes de levantar da cama vê um sujeito ao lado da sua cama, vestindo um uniforme verde escuro e um boné, avisando que precisa da chave dos fundos da sua empresa para a entrada dos caminhões. Levanta da cama, cruza o quarto gigantesco e, ainda impactado pelo despertar abrupto, entrega a chave ao rapaz de barba negra e uma estrela fulgurante no bolso da camisa.

“Posso pelo menos acompanhar vocês até lá?” ele pergunta, sem conseguir imaginar algo melhor para dizer.

O jovem revolucionário responde:

“Claro senhor. Vamos aguardá-lo lá”, e entrega na mão do ex capitalista uma tarjeta plástica. Vê o grupo de jovens sair da mansão dirigindo o seu carro esporte conversível e percebe que o mundo, como o conhecia, desabou.

Olha para sua mão e vê que a tarjeta plástica que o guerrilheiro lhe deu é um cartão de transporte público. Só então, chora.

PS: É verdade esse bilete

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Coisa pior

Acredite, mano… tem coisa pior.

Ai você arruma alguém legal, brota uma química maravilhosa, o sexo é sensacional, as perspectivas de vida são semelhantes, os gostos estão próximos, as idades combinam e a paixão é madura e intensa. “Duas almas gêmeas que se encontram“, você pensa.

Pensou errado, otário.

Então você descobre que ela vive praticamente na miséria, tem dificuldades financeiras graves, tem um passado cheio de traumas, o pai é alcoolista e um irmão é viciado em crack. Além disso, ela está desempregada e atolada em dívidas impagáveis. Sustenta a família fazendo bicos.

Diante da impossibilidade de vislumbrar qualquer chance desse amor florescer ela resolve terminar tudo. Para isso deixa por baixo de porta da sua casa um bilhete de despedida, evitando assim olhar no seu rosto para dizer adeus.

Nesse bilhete está escrito, com letra miúda e cercada pelos borrões causados pelas lágrimas que teimaram em cair: “Por que Queiroz depositou 89 mil na conta da Michelle?”

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O Sapateiro Russo

O filósofo russo Vladimir Egorov foi um famoso sapateiro e um dos maiores pensadores do século XIX, apesar de ter escrito de próprio punho apenas um manual para máquinas de costurar botas. Sua obra literária, entretanto, foi toda construída a partir do registro oral de suas histórias, poemas e narrativas feitos por seus discípulos da “Высшая школа сапожного дела” (Escola Superior de Sapataria) de Krasnoyarsk, na Sibéria, sua cidade natal.

Sua obra é gigantesca, e abrange a filologia, a ética, a filosofia, a poética e a literatura. Na Rússia czarista, ficou famoso por seus contos políticos satíricos, onde retratava o drama dos agricultores e a miséria do campesinato sob o czar Nicolau. Seu conto mais famoso – o qual lhe rendeu 18 meses de prisão em Irkutsk – foi “Блоха в задницу собаки” (uma pulga no c* do cachorro) onde um pequeno cão com o provocativo nome de “Nicolau” viaja pelos prados gelados da Rússia estabelecendo um ácido colóquio com uma pulga alojada no final do seu tubo digestivo. Os diálogos foram elogiados por Lev Tolstoi, que o chamou de “um idiota com uma inteligência admirável, porém imperceptível”.

Egorov foi reconhecido como um dos maiores influenciadores do pensamento russo do século XIX, e suas ideias podem ser vistas nas obras de Bakunin, Lev Shestov, Pavel Florensky, Dostoievski, Gueorgui Plekhanov e em especial Karl Marx. Seu encontro com Marx foi marcante e único, confirmado por inúmeras testemunhas. Durante uma viagem à Sibéria, Marx procurou a sapataria central de Krasnoyarsk para consertar seu velho calçado, gasto por longas caminhadas. Lá encontrou Vladimir Egorov muito ocupado, mas mesmo assim solicitou que ele lhe consertasse as botas furadas. Egorov aquiesceu e, enquanto fazia este serviço, Marx estabeleceu uma profícua conversa com o “sapateiro da Sibéria”, tendo anotado por mais de 3 horas todas as palavras do mestre sapateiro em um caderno. Anos depois se descobriu que esta conversa embasou “Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro”, sua tese de doutorado. Infelizmente, Marx nunca deu o devido crédito a Vladimir Egorov por este seu texto.

Este ano festejamos o centenário da sua morte, tragicamente ocorrida em 1920 quando resolveu velejar no rio Ienissei e foi jogado para fora do bote pelos marinheiros, acusado de fazer trocadilhos cujas rimas não se encaixavam adequadamente. Seu corpo foi resgatado muitos meses depois, e no seu bolso foi encontrada a última de suas poesias:

«Белые скалы
Брошены в мочу богов
Без соли и горечи
У стойки Егорова
Они вынули это из голосового туннеля
Твой последний хрип
И голос прошептал
Под сибирским небом
Твой последний крик
Свобода, свобода
И крем от обморожения»

«As rochas alvas
Jogadas na urina dos deuses
Sem sal ou rancor
No balcão de Egorov
Tiravam do túnel da fala
Seu último estertor
E a voz sussurrava
Sob o céu da Sibéria
Seu derradeiro clamor
Liberdade, liberdade
E um creme para frieiras»

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