Arquivo da categoria: Pag 135

Patético

Encontrei uma antiga namorada, com quem tive uma tórrida e fugaz relação num passado não muito distante, desfalecida sobre uma rodela de vômito ao lado de uma bagana de maconha em um bar frequentado por drogados, músicos e prostitutas na zona portuária. Seu cabelo desgrenhado parecia a erupção de um pequeno gêiser capilar e fedia a azedo. A roupa estava amassada como um pacote de supermercado, e seu corpo debruçado sobre a mesa quase não se movia, a não ser por espasmódicos soluços, o único movimento que lhe denunciava a vida.

Seus olhos (só os vi ao fazer a volta na mesa para confirmar que era ela mesma) estavam semicerrados, como que a tentar segurar nas retinas uma imagem do passado. O esforço só conseguia manter uma lágrima estática, vitrificada, como que congelada na comissura do olho. Sua boca rígida murmurava em silêncio palavras incompreensíveis de rancor e tristeza, que escapavam entre os dentes cobertos com o fel de um desamor. Sim, sua dor era silente, assim como mudo era seu pranto. Que imagens estariam passando por detrás daquelas pálpebras? Que lembranças dolorosas estariam prisioneiras em suas memórias?

Olhei-a mais uma vez com pena e compaixão. Tive ímpetos de abraçá-la e consolá-la, mas me contive. Não seria bom para ela que eu fosse, naquele momento, como a tábua de salvação de um afogado. Como explicar que sua antiga paixão, aquele sujeito em frangalhos, à beira do suicídio, neurastênico e infantil, pudesse estar a lhe ajudar? Voltei-me para a porta e dei dois passos, sem deixar de olhar mais uma vez para trás e testemunhar um derradeiro soluço a me garantir que a vida ainda habitava aquele frágil corpo. “Hic”, disse ela, e ultrapassei o batente da porta, para a rua e para a noite.

Caminhei uma quadra e percebi meu rosto corar. Ensaiei um sorriso triste enquanto chutava uma lata que teimava em ficar de pé na calçada úmida. Uma ideia estranha me atravessou, enquanto dobrava a rua e procurava nos bolsos a chave do carro. “O quanto de mim havia naquele pranto? E o pensamento mais cruel era não saber se eu preferia ser o culpado daquela dor ou se era melhor sequer ser lembrado.”

Patético, pensei eu.

Gustaf Weber, “Whisky, Kekse und Nudeln” (Whisky, bolacha e macarrão), Ed. Kaiser, pág 135.

Gustaf Weber é um escritor alemão nascido em Colônia em 1935. Ainda criança, mudou-se com a família para Königsberg, na Prússia Oriental, onde o pai lecionava na Universidade Albertina. Durante a guerra perdeu o pai na frente russa e, quando as forças soviéticas avançaram sobre a região em 1945, fugiu com a mãe e os seus 4 irmãos de volta para a Renânia, refugiando-se na casa de parentes até o fim da guerra. Estudou literatura na Universidade de Colônia e passou a ministrar aulas nas escolas secundárias. Escreveu seu primeiro livro sobre sua infância de refugiado na dualidade entre as cidadanias russa e alemã. Depois disso, publicou dois livros de contos e ensaios. O primeiro lhe valeu um prêmio nacional de contos e se chamava “Exilgeschichten” (Contos do Desterro) e o segundo foi “Whisky, bolacha e macarrão”, onde o fio condutor é a depressão e a miséria do pós-guerra. É casado com Nora Krushinsky e não tem filhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Contos, Pag 135