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A Execução

Os olhos fechados sobre o inox recebiam da mesa gelada o reflexo das lâmpadas que se penduravam do teto. Nenhum movimento, nem mesmo quando a furtiva mosca pousou sobre o contorno da sua orelha esquerda. Os lábios cerrados mantinham encarcerada a última palavra, ainda repousando sobre a língua descolorida. Havia muito que já não tinha cabelos, e a pele há muito perdera sua cor rosada, substituída por uma palidez marmórea.

Seu rosto duro encarava a lâmina giratória à sua frente de forma impassível. As rugas no contorno dos olhos se mantinham estáticas, emolduravam a comissura dos olhos com uma serenidade aterrorizante. Nenhuma lágrima e nenhum remorso aparente. Seu crime seria pago com indiferença. Subitamente Ezra, o assistente manco de avental amassado, apertou o botão vermelho na parede ao lado e fez a lâmina girar, e nos assaltou um som agudo de marcenaria – ou açougue. A sala acanhada se encheu com o ruído fino e envolvente da máquina giratória, enquanto os dentes da lâmina brilhavam ao nosso olhar incrédulo. A execução se iniciava.

Com a mão na nuca do homem, ele fez um delicado movimento, empurrando-o em direção à serra circular. Esse nada disse, sequer resistiu. Seus olhos se mantiveram fechados assim como sua boca, talvez por pressentir que seu momento derradeiro se aproximava. O ruído ficou mais intenso enquanto nós, aglomerados no lado oposto da mesa, sentimos os pelos do braço retesarem à espera do inevitável. Aguardamos por um grito, uma resistência, uma queixa que nunca chegaria. Talvez para nós a passividade do homem se mostrava mais brutal do que a pena a ele imposta. O giro da máquina parecia se intensificar à medida em que se aproximava da face lívida do pobre homem. Nossa respiração há muito parou e as batidas surdas de nossos corações retumbavam pela sala, num tamborilar de medo e horror, mas também nos envolvendo em uma excitação inquestionável. Enquanto isso, os lábios pareciam querer beijar a lâmina que se aproximava e, mesmo assim, ele nada disse. Meus ouvidos escutavam o guinchar histérico dos violinos de Psicose em sinistra repetição.

A loucura foi seu crime. A insanidade levando ao isolamento e ao martírio de uma vida infeliz. Resgatado dos porões do manicômio, agora estava ali diante de nós para pagar sua derradeira pena. A serra impiedosa encostou, finalmente, em seu nariz, bem ao centro. Nenhum movimento, nenhuma sílaba, sequer um apertar de pálpebras. Seguindo seu ritmo, ela cortou a cartilagem do nariz enquanto feria o lábio inferior, seguindo-se o superior. Ezra manteve-se mudo, sem dizer palavra. Havia respeito ou insensibilidade? Ajeitou seu pé manco sob a mesa e imprimiu mais força na nuca do homem, deixando o aço frio atingir a testa, o queixo, e separar definitivamente seus olhos. Enquanto a lâmina atingia o pescoço, alguém ao meu lado levou a mão à garganta, e a sala inteira pôde escutar seu soluço involuntário.

Mais um minuto e a mão firme do carrasco cortou a última fibra de pele da nuca. Com a mão enluvada, apertou novamente o botão e a máquina se calou. De imediato o homem caiu para os dois lados ao mesmo tempo; uma parte de si para cada borda da mesa, exibindo seus miolos, sua mente insana, sua loucura e suas memórias. Fragmentos da sua infância, vida adulta, seus amores e dramas salpicaram na mesa, mas não havia sangue, apenas silêncio. Ezra juntou as metades do condenado e as colocou em uma bacia. Nenhuma explicação do que seria feito. Ainda com as máscaras no rosto, saímos em fila da sala, carregando conosco a certeza de que não há nada que nos ensine mais sobre a vida do que olhar um corpo que ela abandonou, despudoradamente exposto em uma aula de anatomia.

John Avery Smith, “The Day When They Sort it Out”, Ed. Printemps, pág 135

John A. Smith nasceu em Augusta, divisa da Georgia com a Carolina do Sul no auge da depressão americana pós “crack da bolsa”, em 17 de agosto de 1930. Filho de agricultores, muito cedo desenvolveu o gosto pela escrita, sendo o editor chefe do jornal de sua escola o “Old College” em Athens, que posteriormente se tornou a University of Georgia. Foi nessa universidade que ele cursou medicina, tendo se formado em 1956, vindo a praticar em diversas cidades na Georgia e na Carolina do Sul. Seu primeiro livro foi “Amidst the Battle Roar”, um romance sobre um soldado negro desertor na “Batalha de Atlanta” ocorrida na Georgia em 1864. Recebeu o “Prêmio Maccabee de Literatura” por esta obra, o que o estimulou a continuar seu trabalho como escritor ao lado de sua prática médica. Morreu em Atlanta em 1997, aos 67 anos, vítima de um infarto fulminante, logo após escrever seu derradeiro livro (para alguns seu “canto do cisne” e sua obra-prima) chamado “Love, Peace and Truth”, dedicado a sua esposa Meggy Weinsbaugh, conhecida novelista. Não teve filhos.

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À espera de Emma

Diante do cenário luminescente de matizes multicoloridos do céu, ele se despiu do último cigarro, fazendo a brasa vívida brilhar contra a paisagem avermelhada dos bancos do bar. Da primeira baforada surgiu a frase entrecortada pela fumaça.

– Se há algo que não podemos controlar, Rick, é o ouvido alheio. Nada nos garante que o coração de quem ouve poderá compreender o que falamos, muito menos o que se esconde no vão das palavras. Como saber se a frase solta não vai encontrar um oceano de contextos na mente do outro? É verdade, irmão, o ressentimento é uma capa que ao mesmo tempo em que nos protege sorrateiramente nos corrói a alma.

Sentado à sua frente, Richard colocou uma colher a mais de açúcar no café, fazendo o tilintar da colher entoar um dueto com os carros que passavam na rua. Seu olhar estava fixado na porta do bar na esperança de que Emma viesse finalmente encontrá-los. A ansiedade pelo encontro enchia o bar acanhado de silêncios que, misturados com o aroma de café passado, traziam a todos a dor pesada de muitas nostalgias. Richard descolou o olhar da porta e sorveu o primeiro gole de café. Enquanto absorvia o amargor adocicado da bebida, fitou Mark ainda com a xícara tocando os lábios.

– Se ela entendeu dessa forma, não há nada que você possa fazer, disse. Não adianta se martirizar. Se ela se magoou com aquelas breves palavras, não cabe a você se culpar. Você sabe como são as mulheres…

Mark sorriu pela primeira vez.

– Não, irmão. Nunca saberei.

O tilintar dos sinos da porta de entrada anunciou a chegada de Emma. Rick sabia que seu rosto denunciaria seu propósito e o que ocorreria nas próximas horas. Vestia-se sobriamente e carregava uma sombrinha nas mãos. Seu olhar procurava a dupla que a aguardava até que finalmente atingiu em cheio as pupilas contraídas de Richard.

– É ela, Rick? – disse Mark sem ousar virar o corpo.

– Temo que sim. Esteja preparado e boa sorte, brother.

Barry Wiedeman Harris, “The Portrait of the Devil”, Ed. Canvas, pág 135

Barry W. Harris foi professor de literatura medieval na Universidade do Novo México. Escreveu vários livros relacionados aos conflitos sociais derivados da imigração. Como homem de esquerda, foi membro do Partido Socialista da América e, quando do seu desmembramento em 1973, manteve-se filiado ao Comitê Organizador Socialista Democrático. Seus livros e crônicas abordam de maneira ácida o racismo e o preconceito de classe dos “WASPs” (White Anglo-Saxon Protestant) em contraposição aos sonhos e esperanças das comunidades latinas que vivem nos estados limítrofes da fronteira mexicana. Casou-se com Julieta Morejano, de ascendência guatemalteca, e teve dois filhos, Pedro e Enrique. Morreu em 1998, vítima de um câncer de tireoide.

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Fé

Diante da morte, o homem de fé já sabe o que lhe espera. Sejam bons ou maus os augúrios, sua vida é contemplada por sentido. Já o ateu – ou melhor, o descrente – diante do “nada” se acomete por uma angústia mais dolorida, que não se estabelece sobre o que virá (para ele o vazio), mas sobre encontrar significado no que já aconteceu, o que fez, pelo que passou e para o que viveu.

Eric Donnelly, “An bradán in aghaidh an tsrutha” (O Salmão Rio Acima), Ed. Landscape, pág 135

Eric Donnelly é um escritor irlandês nascido em Arklow, às margens do Mar da Irlanda, em 1900. Começou a escrever aos 12 anos de idade, incentivado por sua tia Meggy, e mais tarde, já adulto, encontrou ainda mais motivação com o lançamento em 1922 da grande obra de seu conterrâneo James Joyce – Ulisses. Também influenciado por Ezra Pound, dedica-se à poesia ao mesmo tempo em que inicia a escrita de “Caderno Branco”, seu romance de estreia. Escrito em primeira pessoa, este livro aborda os conflitos de uma adolescente surda vivendo uma vida pacata no interior da Irlanda, até a chegada de uma companhia circense. A paixão da adolescente por um dos malabaristas desencadeia um turbilhão de emoções conflituosas, tanto na perspectiva da moral católica do início do século XX quanto do universo psíquico de Marie, envolvida no silêncio estrondoso de sua paixão. Em “O Salmão Rio Acima”, seu quinto romance, ele trata da história de Ernest, um barqueiro irlandês que, pressentindo a morte, decide fazer sua derradeira incursão pelo mar, acompanhado por seu neto Angus. Esse romance foi vertido para o cinema com o nome “Ernest e Angus”, e lançado em 1980, com Sean O’Leary no papel de Ernest e Eamon McMillan como Angus. Eric Donnelly morreu de câncer pancreático em 1988, em Dublin – Irlanda.

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A Cafeteria na Esquina do Mundo

A escolha do local do encontro não foi por acaso. Foi naquela exata esquina que há 30 anos havia tomado um café aguado e amargo, mas que cabia no seu bolso de menino. A nostalgia de uma juventude que lhe saía do corpo junto com seus poucos cabelos se misturava com a vertigem das paredes íngremes e cheias de luzes que brotavam do cimento cru da Broadway. Em três décadas, a cidade se tornara ainda mais agitada e frenética, com a amálgama de sotaques e feições a traçar sua silhueta. O frio do outono abria frestas no sobretudo de Jerry, deixando passar o hálito gelado da cidade. Com as mãos no bolso e as orelhas escondidas no gorro de lã, ele aguardava na esquina espantando o frio que lhe subia pelas pernas. Sua vontade era entrar na cafeteria, mas tinha medo de não perceber a chegada de Annie.

Enquanto espantava o gelo da rua, movimentando o corpo de um lado para o outro, tentava resgatar da memória os detalhes que lhe restavam de Annie depois de tantos anos. Mais de uma década os separava de sua última conversa, a mais tensa e mais dura de todas. Agora o destino os colocava de novo na mesma cidade, no coração do mundo, talvez a última oportunidade para curar dois corações que se haviam perdido nas rotas tortuosas da vida. Em sua mente esvoaçavam imagens dispersas de sorrisos e lágrimas, momentos ternos e tristes misturados com aromas, cheiros, lugares e penumbras. Por alguns instantes pensou ser melhor que ela não viesse, que o passado ficasse onde estava, que as feridas antigas fossem esquecidas e que os bons momentos ficassem envoltos em suspiros e sorrisos dissimulados. Todavia, não ousava deixar aquela esquina com medo de perder uma oportunidade que fatalmente não se repetiria.

Um senhor gordo de chapéu e luvas pretas caminha em sua direção com a cabeça baixa, desviando o rosto das navalhas de vento a lhe cortar a face e congelar a barba. Quando por fim é ultrapassado pelo seu corpanzil, Jerry escuta uma voz surgida de trás, a qual atingiu um ponto sensível de suas lembranças.

– Jerry?

Voltou seu corpo na direção da voz suave e encontrou o sorriso tímido de Annie, emoldurado por vincos esculpidos pela vida. Sua expressão era uma mistura de alegria, apreensão e surpresa, como quem ainda não sabia se aquele encontro seria suave ou amargo. De resto, a vida havia preservado sua beleza ímpar e seu jeito de menina, mesmo já sendo uma mulher madura.

– Annie, como vai? – respondeu, ensaiando um sorriso encabulado.

Pelo menos agora achou que o frio lhe ajudava, pois o gorro azul escondia sua cabeça calva. Sentiu vergonha de ter vergonha, pensou na tolice de sua vaidade e fixou-se nos olhos castanhos de Annie.

– Está frio, não? Podemos entrar?

O calor da cafeteria se chocou contra seu rosto como um sopro quente, devolvendo um pouco da expressão perdida pelo frio e pelo impacto do encontro com Annie. A jovem atendente perguntou sobre qual mesa preferiam e Jerry levantou a mão esquerda mostrando dois dedos e acrescentando “perto da janela”. Com o menu nas mãos, a jovem os encaminhou para próximo da vidraça ampla, cujo vidro grosso deixava como tela o ritmo apressado da rua, com seus teatros, caminhantes e táxis amarelos buzinando impacientes.

– Sente-se aqui, de frente para a rua. Já conheço bem essa cidade, Annie, e você chegou recentemente. Prefiro vê-la pelo brilho dos seus olhos.

Annie sorriu de sua poesia canhestra. Era o jeito de Jerry, ela bem o sabia. O café fumegante que logo chegou trouxe uma bruma para anuviar os olhares que se cruzavam. Havia uma década de distâncias que precisavam ser esclarecidas e muitas emoções estavam para aflorar daquele encontro.

Helmer Barret, “Walking on the Edge of the Cliff”, cap 3, pag 135

Helmer Barret é o heterônimo de Vladimir Feigenbaum. Nascido no Brooklyn de uma família de judeus ortodoxos, passou boa parte da vida trabalhando no açougue da família e, mais tarde, como redator de humor para programas de rádio e revistas populares. Temendo que essa trajetória cômica atrapalhasse sua credibilidade nascente como romancista, adotou o heterônimo Helmer Barret para assinar seus romances. Casou-se com Esther Horowitz e teve 7 filhos (entre eles o ator Jack Fiedler da série americana “Josie”). Lançou seu primeiro livro depois dos 40 anos, ainda sob seu próprio nome, sobre histórias e anedotas da comunidade judaica. O livro foi muito bem recebido pelos editores, que solicitaram que escrevesse um romance. Daí surgiu “Caminhando à beira do penhasco”, já assinado como Helmer Barret, onde trata dos desamores do personagem Jerry Rosenbaum, um desempregado que acabou entrando para o crime e para o contrabando para juntar dinheiro e impressionar o grande amor de sua vida. Helmer morreu em 2015, com 100 anos, de falência de múltiplos órgãos.

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O Dilema de Rahii

Meu pai nunca lê nada do que eu escrevo e diz que se constrange muito com minha paixão pela política. Como se pode ver, bom gosto literário é uma característica que não consegui herdar dele. Entretanto, escrevi uma fábula sobre escolhas difíceis e complexas – a qual ele deve ter lido por engano – e, muitos anos depois, disse que havia gostado. Um dia me falou da possibilidade de entender o “Dilema de Rahii” como uma metáfora para as necessárias mudanças na vida que demandam um corte na própria carne.

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Quando a tribo se reuniu para decidir qual rumo tomar, quem primeiro falou foi Nugot, filho do chefe Rahii:

– Precisamos fazer algo para amainar a fúria da “montanha que cospe fogo”. Não temos mais tranquilidade para dormir, para caçar, para colher ou mesmo para brincar no lago. Nossos filhos estão assustados e doentes. Minha mulher não quer mais fazer o “nukhatki” comigo. Reclama de dores na cabeça e no miolo dos ossos, mas eu sei que é por causa de Ratktanuri, a velha senhora, a mulher zangada que mora dentro da montanha e que cospe bolas de fogo e fumaça. Quanto tempo ainda conseguiremos suportar tal suplício? O que podemos fazer? Ohh, quem poderá nos salvar?

Colocou as mãos no peito e iniciou um lamento em nabutki, a velha língua dos ancestrais. Cantou uma canção que falava de Merphit, a Deusa feita de nuvens, que voa montada em um alazão de asas brancas. Merphit, a protetora das águas, era chamada a apagar o fogo cujas labaredas impediam o sono de Nugot, o filho do chefe, e impediam que sua terceira esposa, Náhglit, recebesse o sopro de amor para o “nukhatki”.

Outros se uniram na cantoria de Nugot. Algumas vozes mais exaltadas olhavam para o chefe Rahii com um olhar acusador. Para ele dirigiam uma súplica queixosa. Como permitira que Ratktanuri se zangasse tanto? Não era ele o chefe da tribo, filho de Mishleh e neto de Natsfertah? Não trazia consigo o dom da palavra, a prática da escuta e a sabedoria do silêncio? Por que não ordenou aos feiticeiros que usassem suas poções, suas magias e seus sacrifícios antes que a situação se tornasse calamitosa? Por que seu silêncio? Parecia esperar que Ogroth, o Deus de todas as coisas, tirasse finalmente o chão de seus pés e caíssem todos no Poço de Numer, onde as gerações por fim se encontram.

É penosa a tarefa de um chefe, pensou Rahii. Os olhares pesados dos circundantes mostravam a ele que apenas de sua boca poderia brotar a palavra salvadora. O céu de ébano, enegrecido pela fumaça dos pensamentos odiosos de Ratktanuri, ficava ainda mais aterrorizante com a nuvem de preocupações que se avolumava. Rahii precisava fazer algo, nem que fosse para manter Éolid junto de seu povo, a deusa da esperança.

O velho chefe juntou os joelhos e ergueu-se com a ajuda de um cajado. Ao seu lado, Macaya, sua primeira mulher, segurava sua mão. Ela estivera ao seu lado na luta contra os Nabucris, na enchente do Pitrah, na seca mortífera e na fome. Com ela teve seu filho Nugot, que agora se ajoelhava em frente a ele chorando por uma solução. Caminhou em direção ao centro do círculo dos anciãos, o cajado batendo fortemente na terra a cada passo que dava. Parecia querer cutucar a velha senhora, intimidá-la, ou mostrar que, apesar da idade, ainda havia em si algo de energia. Seus passos cadenciados pareciam ressoar pela tribo inteira, que jazia silenciosa à espera de uma palavra de esperança. Enquanto se aproximava do centro, nada se ouvia além de Kaluma, o grilo, que cantava seu canto noturno.

– A velha mulher resolveu se vingar, e seu ódio a todos atinge. Nosso povo precisa aplacar sua raiva, pois se assim continuar seremos apenas cinzas a adubar o jardim de Ogroth. Nosso pecado foi a ignorância, o mal pensar e o agir temeroso. Ratktanuri não perdoa os que fogem de suas tarefas. Faremos a ela mais um sacrifício, para que ela perdoe nosso não-saber, causa do nosso não-agir. Que venham a mim os bezerros e as cabras, e que sejam eles entregues ao fel vermelho da brava senhora, em sinal de nossa submissão.

Mal terminara a fala e Nugot, seu primogênito, levantou-se e exclamou:

– Velho pai. Tua sabedoria já foi contada por tantos e tuas histórias espalhadas aos ventos. Tua coragem é um hino em honra da nação Nabutki. Entretanto, o peso de Tépis, o tempo, verga tuas costas e embaralha tuas ideias. Tuas ordens são tão antigas quanto Bakti, o inverno. Já se foram duas quartas de cabras, duas mãos cheias de bezerros e mais uma mão de galinhas, todas oferecidas ao pé da montanha à velha senhora. Que mais pode ela querer? Chega de tanto sacrifício; chega de tanta dor. De que adianta saldar a dívida com Ratktanuri se o que sobrar de nós for levado por Famis, a senhora da miséria, da dor e da fome? De que vale um povo livre da “água de fogo” que corre pela encosta, se estiver faminto e fraco? Teus rituais sagrados estão ultrapassados, tuas magias velhas, tua força se esvai.

O olhar abatido do velho Rahii ergueu-se para encontrar o rosto de seu filho, aquele que um dia o substituiria. O vigor físico de seu primogênito era notável, assim como a força de sua voz. Ele sabia que as palavras de Nugot estavam escritas com a tinta da morte. De nada adiantaram os rituais já feitos; a velha senhora estava faminta, e pedia mais. Rahii bem sabia que, para se manter como chefe, deveria enfrentar a fúria de Ratktanuri mais uma vez. Se falhasse, ela o derrotaria, e levaria consigo todo seu povo. Se vencesse, manter-se-ia como chefe, e mais uma lenda se acrescentaria à sua história. Precisaria ser certeiro e forte, valente, destemido e duro.

Olhou mais uma vez para seu filho Nugot, e disse com a voz mais pesada que já lhe havia passado pela garganta:

– Não é o momento para lutas, meu filho. Sei que nossas magias anteriores falharam, e sei que investir mais na oferta de animais colocaria nosso povo em mais dor e mais tristeza. Precisamos agir com presteza, e com coragem. Creia em mim, e acredite no poder de Ogroth!

Deu um último suspiro e elevou o cajado ao alto. Gritou “Patuh saleh” três vezes e o abaixou até a altura da cintura. Girou nos calcanhares um círculo inteiro e parou. A ponta do cajado direcionou-se para o meio do povo aglomerado, que, assustado, afastou-se de sua trajetória. Apenas Núbit, a pequena filha de Nugot e Náhglit, continuou parada, hipnotizada pelo cajado de Rahii.

Minha neta! — gritou em pensamentos o velho chefe. Não pode ser, não pode ser…

Era o desejo da senhora má. Era a sua vontade, vinda das entranhas da terra. Era o sacrifício de Núbit que ela reclamava. Era o seu sangue que ela desejava.

O meu sangue, o meu sangue…, pensou ele em desesperada apatia.

Os gritos de Náhglit ecoaram pela floresta, sua dor ultrapassou a carapaça dura dos crocodilos. A voz de Rahii era um sopro quase sem vida, mas ainda assim falou ao filho, que gritava amparado pelos irmãos:

– Que a vontade de Ogroth se faça.

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O Acampamento

Sentou-se sobre o tronco da velha árvore e tirou do alforje uma pequena caixa de madeira onde guardava o fumo. As labaredas lambiam a madeira fazendo o crepitar dos galhos secos soarem como lamentos de dor. Ao seu lado, Willock resmungava enquanto juntava os últimos caixotes. A munição precisava ser guardada em local seco e o céu sem estrelas não lhe garantia uma noite sem chuva. O silêncio na colina era entrecortado pelo uivo dos lobos, enquanto os grilos raspavam suas patas tentando acompanhar a triste melodia do vento. Harding fechou seu cigarro com a palha que trazia no bolso do colete, mas antes de acender, falou para Willock, que se ajeitava no chão ao seu lado.

– O fato de sermos poucos nesta luta não é apenas porque eles não enxergam o mundo com nossos olhos, Wee. Não os vejo como estúpidos, ignorantes ou maus; eles não são tolos, muito menos perversos. Não se trata de uma falha de caráter, mas uma perspectiva distinta na qual já estivemos inseridos, e tu bem o sabes.

Willock aquiesceu arqueando as sobrancelhas para cima enquanto aproximava o bule de café do fogo à sua frente. Harding pigarreou, acendeu seu cigarro e deu uma longa baforada para cima. A fumaça encontrou a brisa fria da noite e foi levada adiante, misturando-se com os aromas úmidos e escuros da mata. Cuspiu no chão à sua frente e continuou:

– Talvez mais relevante do que eles não conseguirem ver o que vemos seja o fato de que desconhecemos por completo o que os move. Não entendemos mais o mundo pelos seus valores e seus sapatos já não nos cabem mais. Se pudéssemos entender por que precisam tanto seguir pelo caminho que há tanto abandonamos, seria mais fácil fazê-los ver as razões que nos levaram a uma escolha tão radical.

As palavras de Harding ficaram presas ao silêncio que se seguiu e a única resposta que veio foi o piar das corujas anunciando o início de sua caçada vespertina.

Scott P. Floyd, “Who Killed the Messenger?”, Ed. PubliMar, pág 135

Scott Percival Floyd nasceu na pequena cidade de Dighton, no Kansas, tendo feito seus estudos em Wichita. Posteriormente, mudou-se para Topeka para trabalhar na UPS, chegando ao posto de gerente regional. Escrevia uma coluna de esportes e variedades para o jornal local Topeka Capital-Journal, mas em 1995 escreveu seu primeiro livro de contos chamado “Marne e a longa viagem”. Costuma escrever sobre a vida no campo, cowboys, pastoreios e longas invernadas. Casou-se com May Shelby e tem 4 filhos: Joe, Harper, Teresa e Bill.

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Alethea

Ainda muito jovem, conheci uma jovem através de um intercâmbio da escola. Nossa professora nos estimulava a trocar correspondência com alunos de outras escolas para exercitar a escrita e coube a mim estabelecer correspondência com uma jovem de nome Alethea que vivia em uma cidade próxima. Nosso contato começou com conversas nas quais falávamos de nossas famílias, gostos pessoais, hobbies, músicas preferidas, esportes, etc. Todavia, com o passar do tempo, e à medida em que adentrávamos na adolescência, nosso contato se tornava mais relacionado às nossas questões afetivas e nossos assuntos mais profundos. Durante todo esse período de intercâmbio de cartas, nunca nos encontramos pessoalmente, mas as cartas acabaram nos aproximando de uma forma muito intensa. Através delas, eu havia construído a imagem de uma jovem culta, doce, recatada, sincera, dedicada aos livros e com ambições intelectuais. Desejava ser uma professora, iluminar com o conhecimento as mentes que vagavam pelas trevas da ignorância.

Um dia, tocado por uma coragem pouco comum, resolvi perguntar-lhe da possibilidade de conhecê-la pessoalmente. Sua cidade ficava distante da minha 1 hora por trem, o que tornaria possível visitá-la chegando pela manhã e voltando no último trem, o das 19h. Aguardei ansiosamente sua resposta e, quando o carteiro trouxe a carta confirmando minha solicitação, nas letras bem desenhadas e redondas de uma folha sem linhas, fiquei tomado de entusiasmo e… pânico. Decidi que deveria deixar o medo de lado e confirmar a data por ela proposta. Comprei sapatos novos com o pouco dinheiro que dispunha. No dia da viagem passei a camisa “de sair” e exagerei na água de Colônia. “O vento pelas janelas do trem vai tirar quase tudo”, pensei. “Melhor uma dose extra.”

Chegando na estação férrea da sua cidade já me apressei a comprar o bilhete de volta, pois sabia que não haveria chance de voltar que não fosse na manhã seguinte. Aguardei o ônibus que me levaria à cidade segurando a caixa de bombons que havia comprado para lhe presentear. Nosso encontro foi a revivescência de um sonho. Alethea era exatamente a imagem construída em meus pensamentos e devaneios. Bonita sem exageros, sobriamente tímida, estudiosa, delicada, sensível e com um humor sutil e inteligente. Sentava-se com recato e falava com educação. Deixava as pernas juntas e levava as mãos espalmadas para o alto sobre as coxas. Era segura e otimista, e seu sorriso tinha os adornos de duas pequenas esferas de azul Calypso, tomadas emprestadas da luz dos oceanos.

Nossas conversas passaram por nossas vidas, famílias, esperanças, projetos e desejos. Alethea ansiava por ensinar, queria ser uma professora de ciências. Tudo o que dizia me deliciava com sua doce firmeza. Meu estado de espírito era puro encantamento. A tarde passou voando e, próximo das 18h, senti em Alethea uma certa preocupação. Olhava pela janela da sala com frequência como que aguardando por algo. Perguntei-lhe de sua tensão e ela me disse que se preocupava com o trem, que eu deveria pegar o ônibus para a estação, sob pena de ficar trancado na cidade. Senti que era a hora de ir e me levantei das poltronas aveludadas da casa de seus pais para me dirigir ao portão. Lá chegando, Alethea me abraça, me beija as faces e sorri.

– Estou muito feliz com sua visita, moço bonito.

Ainda tonto e com o coração disparado pelas suas últimas palavras, entro no ônibus acanhado que me leva à estação. Lá espero a chegada do derradeiro comboio que me levará de volta para casa. Envolto nas emoções do dia, trago à memória o sorriso de Alethea, sua risada tímida, sua cultura, seus livros, suas mãos bem cuidadas. Seria essa sensação amor verdadeiro ou apenas uma embriaguez passageira com o nome de paixão? Estaria eu encantado demais, enfeitiçado em excesso pelo azul de seus olhos?

O tempo passou e o trem chegou à estação. Era hora de voltar. Como meu bilhete era numerado, resolvi aguardar sentado no banco até que todos os passageiros saíssem do trem e que os que aguardavam para entrar se acomodassem. Ainda tinha as pernas bambas das emoções do dia, e a aragem da noite me oferecia um frescor agradável. As lembranças pulavam umas sobre as outras, às vezes confusas (“foi assim mesmo que ela falou?”), às vezes nítidas como a imagem do trem parado à minha frente. A multidão escasseava na plataforma. Nesse momento, um jovem saído do trem senta ao meu lado e pergunta como chegar à cidade. Aponto para a porta verde escura na lateral da estação e só então noto o lindo buquê de flores que carrega. Explico como pegar o ônibus, mas meu olhar não consegue se afastar das rosas vermelhas que brotam do embrulho. Ao lado, grudado no papel amarelo com bordas douradas, um envelope branco. Com letras desenhadas, pude ler:

“Flores para uma flor. Alethea”

O som dos pássaros anunciava o recolher do sol e a chegada do breu. Ao longe vislumbrei a silhueta do maquinista acenando para os vigias. “Todos a bordo!!!”, gritou ele enquanto minhas mãos frias e trêmulas procuravam o bilhete no bolso da camisa branca.

Mario Schiffino, “Quelli che non ho Dimenticato” (Aqueles a quem não esqueci), ed. Vesuvio, pág. 135

Mario Schiffino é um contista italiano, nascido em Salerno, em 1948. Teve uma infância muito pobre e foi marcada pela morte do pai por suicídio em 1955. Sua família foi obrigada a se mudar para a pequena localidade de Potenza, onde moravam seus avós maternos. Sua infância foi toda marcada pelos comboios que ligavam sua cidade natal às localidades conectadas pela via férrea. Em seu primeiro romance “Il Ragazzo della Stagione”, descreve de forma detalhada os pequenos acontecimentos de sua vida até a adolescência, tempo em que circulava vendendo balas e biscoitos nas estações férreas. Já em “Aqueles a quem não esqueci”, ele apresenta uma colcha de retalhos de contos marcados pela vida pacata do interior da Itália, alguns deles expressamente verídicos. Mora em Modena e é casado com a maestrina Marieta Schiffino. Tem dois filhos, Pietro e Isabella.

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Adeus

Então subitamente ela se foi, levando consigo colado ao rosto um vinco de dúvida, uma ruga de medo e um sorriso envergonhado. Fechou a porta com pressa, deixando atrás de si, trancado comigo, seu perfume de adeus. Seu cabelo cor de mel balançava ao ritmo do desejo enquanto o sol que se punha cobria de ouro seu rosto de cristal. Depois daquele último encontro, nunca mais a vi, pelo menos não como sempre fora, e a saudade daquela que se foi corrói feito zinabre. Quando voltou à noite para casa jogou sobre a mesa um boa-noite surdo junto com as chaves do carro e foi direto para seu quarto sem nada dizer. O adeus é um punhal cravado na alma.

Sean O’Malley Jr, “The Last Goodbye Forever”, Ed. Pancras, pag 135

Sean O’Malley Jr nasceu em Dublin em 1982 e passou toda a sua infância em Ballyfermot, um bairro de má reputação pela violência urbana e pelo tráfico de drogas. Seus textos iniciais, publicados em uma coletânea de sua escola – a St Dominic’s College – giravam em torno do cotidiano de seu bairro: drogas, garotas, brigas de rua, gangues e bebedeiras. Quando saiu do ensino médio e entrou para a University College Dublin ocorreu um fato que mudou completamente sua vida e suas perspectivas: o acidente de ônibus em Hawk Cliff que vitimou 4 de seus colegas que realizavam com ele uma excursão para a praia. A partir desse acidente – e sua longa estada no hospital com fratura na coluna – resolveu trancar o curso de Engenharia de Metais e percorrer uma trajetória na literatura. Escreveu seu primeiro livro de ficção apenas um ano após deixar o Saint James’s Hospital e ainda em cadeira de rodas. Este livro teve boas críticas e se chamou “The View from Above” (A vista de cima). “The Last Goodbye Forever” foi seu terceiro livro, e mistura contos, crônicas e poesia. Vive em Skibbereen com sua esposa Maggie.

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Fúria

Ele voltou o olhar para ela logo após seu desabafo. Dos olhos dela fugiam faíscas luminescentes de indignação. Não havia nenhum ensejo de paz enquanto o corpo de Adélia se projetava à frente e seus lábios cuspiam dor e ressentimento. Não pensou sequer em dar o abraço que ela tanto precisava; naquele momento de dor seus braços teriam uma força magnética que repelia os dela. Limitou-se a falar.

– Como poderia eu retirar-lhe o ódio, único alimento possível para sua alma sofrida? A mim não cabe criticá-lo, Adélia, apenas permitir que sua energia se gaste lentamente, como o fogo que se vai quanto mais incandesce. Impedir sua raiva é ignorar o quanto ela ainda lhe protege. Sua cólera cega lhe resguarda do seu maior medo: a culpa. Enquanto você carregar seu ódio com tanto cuidado e tratar dele com tanta ternura, sua culpa se manterá adormecida.

Lançou para Adélia seu derradeiro sorriso, e deixou para ela uma pergunta, da qual se seguiu um silêncio.

– Que direito tenho eu de despertar o monstro da sua culpa? Como permitir que o estrondo de seus ódios continue a abafar o mal que tanto esconde? Como roubar a muleta que lhe sustenta, Adélia?

Adélia ofereceu apenas o vazio como resposta.

Babette, “Adélia e outros contos”, ed. Paris, pág. 135

Babette foi um escritor francês, nascido em Lyon em 1910, tendo morrido em Montpellier em 1991, em decorrência de um câncer. Na verdade, esse era o pseudônimo de Jean Michel Garrot, um jornalista e ex militar do exército francês, que escreveu por muitos anos para jornais e revistas femininas com o pseudônimo “Babette”. Foi um dos mais conhecidos escritores franceses da segunda metade do século XX. Entretanto, apesar da fama e da razoável fortuna, podia passear despreocupadamente por qualquer cidade francesa, já que sua identidade só foi revelada pouco antes de morrer. Começou escrevendo para o diário vespertino Journal de Lyon, respondendo perguntas de mulheres sobre casamento, filhos, educação e até moda. Sua formação em jornalismo, na Sorbonne, havia lhe garantido uma escrita elegante e sofisticada. Durante muitos anos manteve a sua coluna no jornal e algumas revistas femininas, até que Babette/Jean Michel resolveu se aventurar pela literatura. Para isso começou a escrever o que se convencionou chamar “pornografia feminina”, que são histórias românticas, cheias de reviravoltas, com ciúme, desconfiança, traição e a redenção amorosa que, via de regra, ocorria no epílogo de suas novelas. Passou a publicar no formato de “pocket books” nas bancas de jornal, com o nome genérico de “Babette” seguido do nome da história específica, como se fossem os capítulos de uma imensa série de narrativas. O sucesso foi rápido, e imediatamente se tornou a literatura preferida de meninas adolescentes que corriam às bancas quando havia o lançamento de uma nova edição. Babette se tornou extremamente popular e 230 títulos foram publicados desde que o folhetim se iniciou, sendo traduzido em inglês, espanhol, alemão e italiano. As histórias eram repletas de elementos clássicos da fantasia feminina: jovens militares, homens da aristocracia, sogras invejosas, patrões maldosos, jovens pobres de bom coração e ricos perversos e traiçoeiros. Durante anos a identidade de Jean Michel foi mantida como um segredo pela sua editora, que tratava este mistério como uma peça de marketing. Em 1978 uma mulher chamada Isabelle Marie Deschamps afirmou que havia escrito as novelas de Babette, tendo alguns minutos de fama na TV francesa. Todavia a mentira durou pouco tempo, pois provou-se que Marie era uma farsante, o que foi confirmado pela editora Paris, dona dos direitos autorais. A verdadeira identidade de Babette foi revelada no programa “Une Nuit a Paris”, para o famoso apresentador e jornalista Maurice Lefévre. Num domingo à noite em 1988, Babette apareceu por detrás de uma cortina num estúdio de televisão e a França inteira se surpreendeu com a figura de um homem quase chegando aos 80 anos de idade, baixa estatura, cabelos brancos e usando óculos, que durante décadas cativou com sua escrita a atenção das meninas da França e de vários países de língua francesa. Na entrevista, Jean Michel disse que, apesar de gostar das vantagens do anonimato, era hora de revelar o segredo tão bem guardado. Naquele mesmo ano ele recebera o diagnóstico de um câncer pulmonar que, por fim, o levaria à morte poucos anos depois, e por isso achou que era o momento adequado de se revelar. Quando questionado sobre de onde retirava material para tantas histórias escritas, respondeu que nos anos em que trabalhou como colunista de assuntos femininos no Journal de Lyon, colecionou milhares de cartas de leitoras sobre seus assuntos pessoais, suas dúvidas, suas angústias e seus medos, mas também de seus sonhos, alegrias, conquistas e fantasias. “Meus livros são a mistura das histórias de milhares de mulheres, cujas vidas estão nas personagens dos meus livros, como peças de um quebra-cabeças imenso e complexo”, disse ele. Jean Michel foi casado com Augustine Garrot e teve 4 filhas: Marie Claire, Dominique, Josephine e Arlene. Morreu em 1991, e está enterrado no cemitério de Montpellier.

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Anjos

Esta história sempre me ocorre quando me falam dos anjos, dos milagres e das circunstâncias em que eles ocorrem. Há muitos anos fui convidado para uma festa de aniversário. Não sou muito chegado a estas comemorações, mas como se tratava do primeiro ano de vida de um bebê de uma querida amiga, aceitei de bom grado. Seria a oportunidade de encontrar pessoas diferentes e escutar o que elas têm para contar. Pois, nesta festa de aniversário, ao me servir de cerveja, ofereci para completar o copo do rapaz que estava ao meu lado, o qual não conhecia. Só depois vim a saber que se tratava de um amigo de longa data da mãe do aniversariante. Quando mostrei a intenção de despejar a cerveja no seu copo, ele fez um sinal de “não” com a mão espalmada à frente, e ele e a mulher ao seu lado sorriram e se olharam, como se por trás deste gesto houvesse uma piada interna, que só eles entendiam.

Fiquei um pouco desconcertado, e ri apenas para acompanhar o humor do casal. Vendo que eu estava intrigado, ele educadamente me explicou a razão do sorriso que ambos compartilharam, e nos minutos que se seguiram, ele me contou uma história fabulosa, dessas que ficam na cabeça da gente e não esquecemos jamais.

– Eu não bebo, obrigado, disse ele. Parei há muitos anos, graças a um anjo que Deus colocou na minha vida.

Olhei imediatamente para a loira de traços formosos ao seu lado, mas ele me interrompeu.

– Não, por favor. Não se trata deste anjo. Foi bem antes de conhecê-la. Foi um anjo menos formoso.

– Muito menos, emendou ela.

Minha curiosidade só aumentava, e se ele não continuasse com seu relato, eu seria obrigado a lhe implorar. Ele se aprumou na cadeira e resolveu me contar a história de sua decisão de não mais beber. Uma história que me fez pensar nos caminhos tortuosos que empreendemos em direção ao crescimento. Ou ainda, as lições que a vida nos dá e da necessidade de estarmos preparados para recebê-las.

– Bem, eu parei de beber há 10 anos, disse ele. E eu bebia muito. Muito mesmo. Frequentava festas e bailes e só parava de beber quando o dia amanhecia. Era absolutamente inconsequente e irresponsável com a bebida, mas infelizmente não tinha forças para lutar contra isso.

– Minha vida era uma sequência de bebedeiras, continuou ele. Incontáveis incidentes constrangedores, inúmeros vexames. Mais de uma vez fui acordado por um policial quando me encontrava dormindo ao volante parado em um cruzamento. Sim… eu pegava no sono no pequeno espaço de tempo que separava o sinal vermelho do verde.

O rapaz ao meu lado continuou a me contar uma triste série de ocorrências que colorem com tintas lúgubres a vida de qualquer alcoolista.

– Mas eu sempre achava que poderia parar quando quisesse, compreende? Eu achava que algum dia Deus me mandaria um anjo que me abriria os olhos, para que eu pudesse enxergar o que eu estava fazendo com a minha vida, que se desfazia em minhas mãos como um sorvete ao sol.

– E Deus mandou, disse a mulher ao seu lado, com um sorriso…

– Sim, continuou. Num sábado à noite. No baile que eu sempre frequentava. Eu já havia bebido todas, já havia vomitado, já havia feito os vexames habituais, já tinha me indisposto com os seguranças. O normal dos sábados de festa.

– Foi então que eu resolvi tirar uma linda mulher para dançar. Ela talvez não tenha visto o quão embriagado eu estava, ou talvez não quisesse parecer antipática. Por uma razão ou por outra, aceitou o convite e fomos para a pista. Lá chegando, eu devo ter dançado talvez uns poucos minutos, e aí a minha memória se embaralha. As coisas parecem enevoadas, os fatos se misturam às emoções. Palavras se confundem, ficam quebradas ou torcidas. É difícil reconstituir tudo o que aconteceu. Mas, foi neste instante que o meu anjo apareceu…

A face do meu amigo se fechou. As sobrancelhas se arquearam para baixo. Sua voz ficou mais pausada e densa.

– Gigantesco, é o que diz a minha réstia de lembrança. O anjo prateado que eu tanto pedi que me fosse enviado puxou-me pelo ombro e desferiu um golpe certeiro no meu rosto, quebrando de forma instantânea uma fileira inteira de dentes, partindo a minha mandíbula em dois, transformando meu rosto em uma maçaroca de sangue, ossos partidos e álcool.

Meu anjo salvador era o noivo da moça com quem eu estava dançando. Acordei uma semana depois. Fui submetido a várias cirurgias de reconstrução da face. Perdi todos os dentes inferiores do lado esquerdo. Por meses usei um aparelho para fixar a mandíbula. Perdi 20 quilos, por não poder comer, a não ser sopas e sorvetes. Perdi meu emprego, mas acho que eles apenas estavam esperando alguma razão para me demitir, e quando retornei da licença médica, fui logo informado do meu desligamento. Mas… aquele baile de sábado à noite foi a última vez na vida que eu bebi. Aquela tragédia, que poderia ter sido pior ainda, me fez descer ao poço da minha vida. Finalmente, através da dor e da vergonha, eu pude enxergar com clareza para onde a bebida estava me conduzindo. Mais do que as dores físicas, o fracasso e a vergonha me corroíam o espírito. Foi apenas depois de atingir o fundo que meus pés puderam realizar o movimento de volta, de retorno à superfície. Eu agi como o “pescador de pérolas”, que só consegue o impulso para subir após tocar o leito do mar.

Nunca mais toquei em uma bebida. Sei que ainda sou um alcoolista, mas não sofro mais pelo meu vício. Aquela noite selou o meu futuro. Eu sabia que Deus um dia ia ouvir minhas preces. Encontrei meu anjo agressor por acaso em uma churrascaria, alguns anos depois. Nunca pensei em processá-lo, apesar de ele ser muito rico e dono de uma rede de casas noturnas. Ele se aproximou de mim e pediu desculpas. Disse que não se imaginava tão forte e que não pretendia me machucar tanto. Ficou sabendo por amigos do que havia acontecido comigo, mas não teve coragem de me visitar no hospital. Disse que eu não devia ter “passado a mão” na noiva dele, que inclusive era a sua atual esposa. Só naquele momento me dei conta que eu estava tão bêbado que nem notei como devia estar abusado.

Eu olhei para ele e disse:

– Pois você nem imagina como aquele momento foi transformador para mim. Por mais maluco que isso possa parecer, eu queria lhe agradecer. Você salvou a minha vida. O grandalhão, obviamente, achou que eu estivesse debochando, mas meu sorriso era tão sincero que foi obrigado a acreditar. Levantei-me da cadeira e lhe dei um abraço. Ele sorriu sem jeito, despediu-se e nunca mais o vi.

Os anjos desaparecem depois dos milagres, pensei eu, ainda absorto no relato…

– Mas Deus, na sua bondade, concluiu ele, ainda tinha mais um anjo para colocar em minha vida.

Aí a linda loira sentada ao seu lado levantou-se e disse: “Se dessa vez não for eu, vai levar porrada!!!”

E caíram na gargalhada…

Lembro desta história e fico pensando: será possível – mesmo com um bocado de esforço – suplantar as questões mundanas e observar as dores, os sofrimentos e mesmo os martírios de um plano mais elevado? Às vezes eu penso nas pedras com as quais nos deparamos no nosso caminho desta forma meio bizarra. Não fosse aquela pedra que me jogou ao chão, talvez eu jamais soubesse o valor do equilíbrio. Não fosse aquela injustiça que sofri, eu jamais entenderia o valor de ser justo. Não fosse a ofensa contra mim disparada, eu nunca compreenderia o valor da serenidade. Não fossem os meus detratores e eu jamais aprenderia o que sei hoje. Não estou desculpando as atitudes de quem quer que seja: elas continuam equivocadas. Não se trata disso, até porque perdoar não é o mesmo que absolver. Perdoar é acima de tudo entender o outro, e colocar-se no seu lugar. Perdoar é olhar o outro como se estivesse olhando a si mesmo. Portanto, eu creio ser possível agradecer mesmo àqueles que nos fizeram mal, pois, mesmo que por linhas tortas e através dos seus próprios erros, eles ajudam a consolidar a pessoa que somos. Eles podem ser os anjos que tanto pedimos, mas para que eles nos auxiliem, precisamos estar preparados para aprender as lições. Mesmo as mais duras.

Martín Díaz Molina, “Cuentos de la Noche Fría”, Ed. Alzugaray, pág. 135

Martín Díaz Molina é um escritor espanhol nascido em Almería, em 1975. Escreve basicamente contos e histórias curtas, tendo sido premiado em vários concursos literários, como o “Premio Literario Joven Andaluz”. Dedicou-se à literatura infantil e ao desenho até que lançou seu primeiro livro de contos adultos, com histórias na primeira pessoa que recolheu durante a sua vida na Espanha. Além de contista, Martín é professor de literatura e é representante distrital pelo partido “Podemos”. É casado com Amália Sotero e tem dois filhos, Javier e Eduardo.

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