Arquivo da tag: atração

Janela

Não deveria causar espanto o fato de que estas meninas parecem estar esnobando os rapazes com quem marcam encontros. Nessa idade – a adolescência – as mulheres são muito poderosas. Em verdade, não haverá momento algum em suas vidas em que serão tão valiosas aos olhos de todos. Todas as heroínas das histórias infantis – de Branca de Neve. Cinderella e até Julieta Capuleto de Verona – eram garotas no fulgor de sua adolescência. O mercado é francamente favorável a elas. Os homens estão por toda parte ávidos por encontrá-las; são desejadas, procuradas, exaltadas, admiradas e têm o mundo aos seus pés. A virada dos 30 anos é, para muitas, um divisor de águas. Na antiguidade quase nenhuma mulher chegava a esta idade sem filhos, o que nos deveria fazer pensar com uma certa estranheza sobre os tempos atuais, quando a maioria ainda não teve filhos. O certo é que, depois de ultrapassada esta barreira, seu valor (aqui entendido como a atração, não os valores morais ou intelectuais) cai progressivamente.

Quando as mulheres de mais idade, por mais lindas e inteligentes que sejam, dizem que não recebem o reconhecimento devido apenas por serem “maduras”, estão apenas dizendo que não ganham mais a atenção desproporcional e exagerada que recebiam no pleno vigor erótico da juventude. Na verdade, estas mulheres maduras sentem na pele algo que os meninos conhecem muito bem: elas passam a ganhar os mesmos olhares que um garoto de 16 anos recebe das mulheres de 20. Lembrem-se: por mais duro que seja aceitar, somos seres destinados à reprodução. Quanto mais nos afastamos da janela reprodutiva menos valor obtemos do entorno social. Apesar da nossa racionalidade ainda funcionamos como uma espécie sofisticada de primatas sem pelos, e nossas atitudes continuam conectadas aos estratos mais primitivos da mente, os quais, fortuitamente, nos garantem a sobrevivência.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Jogos de Sedução

Não é necessário muita imaginação para perceber que não existe nada de “prático” nas roupas femininas; elas não foram concebidas para deixar as mulheres mais felizes ou relaxadas, nem mesmo mais bonitas. As roupas foram feitas para nos deixar mais desejáveis, ora escondendo (para ressaltar pela curiosidade), ora mostrando as virtudes (para atrair). O preço a ser pago sempre foi alto, basta lembrar das vestimentas torturantes que as mulheres usaram por séculos, como os espartilhos, os sapatos deformantes nas meninas chinesas, até os saltos altos e os jeans apertados que perduram até hoje e são vestimentas usuais desde a adolescência. “There’s more to clothes than to keep warm” já diziam os ingleses; tudo na moda é erotismo, e o preço de despertar o desejo é o desconforto. O sacrifício brutal em nome do narcisismo é milenar, transcultural e essencial – pensem nos rituais de escarificação das adolescentes indígenas e nas inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem as mulheres do ocidente com o claro objetivo de oferecer uma chance maior ao seu destino reprodutivo. Todos esses sacrifícios imensos servem essencialmente para torná-las mais desejáveis através de signos sexuais que podem ser traduzidos pela aparência, e a história nos prova que a recompensa vale a pena.

Assim sendo, uma sociedade em que as mulheres se revoltassem contra estas imposições culturais e decidissem usar saltos normais, pele natural, lábios sem batom, calças confortáveis e calcinhas largas, de algodão e que não marcassem as curvas voluptuosas do seu corpo seria um lugar bem menos desconfortável para se viver, mas pareceria tão diferente do que temos hoje que sequer seria reconhecível como humana. Uma adolescente que privilegiasse o seu bem estar e conforto corporal em detrimento da sedução e do impacto que causa ao olhar do outro seria vista como “esquisita” ou pelo menos “estranha”. Enquanto a estrutura psíquica feminina for narcísica as mulheres farão qualquer sacrifício para garantir seu lugar ao sol.

Deveria ser igualmente evidente que as mulheres não precisam tolerar toda essa opressão da aparência; cabe a elas decidir qual jogo jogar. Não há nada de errado ou imoral em desmerecer todas estas convenções sociais e valorizar virtudes “internas”, como conhecimento, dedicação, estudo, etc e desprezar as formas externas, deixando de consumir cosméticos, cirurgias, adereços e roupas que ressaltam o corpo. O mesmo se pode dizer dos homens; eles podem decidir de forma diferente a respeito de suas estratégias e alternativas na corrida para garantir seu espaço no “pool genético” do planeta. Um homem, por exemplo, pode desconsiderar seu poder de sedução e não fazer o que os homens tipicamente fazem para conquistar as mulheres, mas talvez isso reduzisse muito suas chances para encontrar parceria. São escolhas legítimas; todavia, o que não parece correto é romper apenas com as regras que não nos agradam. Por exemplo: quero jogar o jogo da sedução, mas não quero o esforço de seduzir e não quero ser vista como “objeto sexual”. Quem pretende participar da disputa sexual deve entender as regras.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

O Gancho do Desejo

Já vi todas as formas de encontro amoroso funcionarem maravilhosamente, assim como todas as conjunções acabarem em desastre. Tímidos com extrovertidas, exuberantes com reservados, alegres com efusivas, deprimidos com otimistas, pessimistas com depressivos, etc. O temperamento de cada um dos parceiros é uma das coisas menos importante na manutenção das parcerias – apesar de não ser desprezível. Ao meu ver, mais significativos são os princípios: lealdade, perspectiva de mundo, ideias gerais, desejo de ter filhos, relação com os pais, afeto e as cicatrizes na alma.

Mulheres adoram os homens que as ignoram mas não fecham portas. Isso gera curiosidade e interesse. Mulheres odeiam homens que demonstram explicitamente sua admiração. Isso os desvaloriza. Homens também precisam do estímulo da conquista; adoram os desafios e o que lhes parece difícil. Mas todas estas afirmações são apenas generalizações, fios condutores, princípios gerais que não podem ser aplicados à subjetividade e às circunstâncias de cada encontro. As histórias e os desejos são tão múltiplos quanto são os indivíduos e seus olhares.

Sobre amor e o sexo é justo afirmar que “o essencial é invisível aos olhos”, como bem disse Antoine de Saint-Exupéry. O que nos atrai não está expresso facilmente aos sentidos mais grosseiros. As manifestações externas de um sujeito não passam de pálidas imagens da sua realidade interna. É sedutor acreditar em regras simples para analisar fracassos e sucessos amorosos; porém, ainda creio ser mais honesto reconhecer que o gancho onde penduramos nosso desejo está escondido, para além da nossa percepção.

Amélie Deschanel Dupont, “L’Heure de Partir” (A Hora de Partir), Ed. Partisan, pág 135

Amélie Dupont é uma escritora francesa nascida em Argel em 1936. Foi ligada à Frente Nacional de Libertação onde conheceu seu amigo e parceiro de partido Frantz Fanon. Participou da luta anticolonial da qual foi testemunha e protagonista ao militar na FLN durante a guerra pela emancipação da Argélia (1954-1962). Como escritora e jornalista, sua vivência foi fundamental para entender o colonialismo a partir do perfil dos colonizadores. Escreveu seu principal livro sobre o tema em 1952 “Asas sobre Argel” onde narra a historia de Ibrahim (uma homenagem a Frantz), um jovem ladrão das ruas de Argel que encontra abrigo na casa de um velho militar francês da reserva chamado Antoine, com serviços sujos prestados ao serviço secreto francês e à brutal gendarmeria de Argel. Antoine, viúvo e solitário, enfrentas seus últimos meses de vida após o diagnóstico de uma enfermidade terminal. A relação tensa entre ambos se constrói sobre os escombros do colonialismo brutal da França magrebina. Este livro se tornou referência obrigatória para os estudos sobre o colonialismo francês e abriu as portas da Europa para a escritora. Em “L’Heure de Partir”, seu quarto romance, ela fala das agruras de uma mulher “pied noir” (franceses argelinos que emigraram para a França após 1962) para encontrar o amor e a paz, carregando um fardo pesado de lembranças trágicas da guerra de libertação anticolonial.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Diferenças

Pensamentos aleatórios…

Basear a procura amorosa por alguém “parecido conosco”, ou oposto a nós, com base na ideia de sintonia para o primeiro e complementaridade para o segundo pode ser apenas uma meia verdade. Uma pessoa muito parecida tira o gosto do desconhecido, mas uma muito diferente assusta pela imprevisibilidade.

Mas… no fundo eu creio que essa busca por elementos racionais para explicar ou direcionar as ligações amorosas acaba sucumbindo à evidência de que os determinantes são sempre ligados ao desejo e certamente inconscientes, portanto, irracionais. Tentar racionalizar esse encontro atrapalha a brincadeira.

E tem mais um detalhe. Diferente no quê? Parecido em quais detalhes? O que a gente vê no exterior é uma pálida imagem os conteúdos internos de uma pessoa. Você pode ser profundamente diferente por uma avaliação externa, mas cultivar os mesmos valores, traumas, fantasias e experiências em sua alma, o que os conecta de forma invisível. A ideia de “semelhante” ou “diferente” se faz por uma miragem, um engodo performático, uma ilusão de conteúdo.

Não?

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Gente tóxica

A dura verdade é que “afastar-se das pessoas tóxicas” passa a falsa mensagem de que somos carneirinhos mansos e ingênuos de quem lobos tóxicos se aproximam, produzem transtornos e causam dor. Ou seja: o problema não somos nós, são os outros.

Mentira. Somos todos tóxicos, egoístas, interesseiros ao mesmo tempo em que somos fontes de luz e afeto. Não há ser humano sem sombra. Somos feitos de “silêncio e som”, como diria Lulu Santos.

Muito ouvi falar na minha infância da lenda “um bom rapaz que se envolveu com más companhias”, como se não houvesse sintonia entre aqueles que se encontram. A história era contada como “uma alma pura maculada pela influência maléfica de espíritos primitivos”. Pura fantasia indulgente.

Ora, é fácil entender que se as companhias tóxicas desaparecessem como por encanto, em poucos minutos outras apareceriam por pura atração. Como aquele casal que se separa e depois cada um encontra alguém parecido com seu antigo amor… em seus piores defeitos.

Sempre erra quem acha que resolve os seus problemas ajustando ou eliminando os outros. Não, o único modo de mudar o mundo ao seu redor é transformando a si mesmo para, com isso, mudar também os que lhe seguem.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos