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A dor da diferença

Muitos heterossexuais julgam os homossexuais como sendo promíscuos, frágeis, egoístas (sexo sem prole) e incapazes de relacionamentos afetivos duradouros. Já muitos gays acham os heterossexuais covardes (já fui tratado assim), com vidas sexuais monótonas, chatos e sem graça. Conformistas e preconceituosos.

Tudo errado…

São todos preconceitos tolos. Nada existe na homossexualidade inerentemente promíscuo ou egoísta, e nada existe da heterossexualidade que leve o sujeito a ter uma sexualidade monótona. Em verdade, o fato é que as escolhas dos outros, quando divergem das nossas, são desafiadoras. Todavia, ao invés de aceitarmos como válidas as diferentes perspectivas que a vida oferece, nós as atacamos com a ilusão de diminuir nossa angústia por termos escolhido esse caminho – e não o outro.

Funciona como o ateu que se irrita com a fé alheia ou o ex fumante que não suporta ver alguém demonstrando publicamente tamanho prazer com o cigarro. Também aqueles que raivosamente publicam fotos de gente na praia durante a pandemia enquanto se refugiam nos seus apartamentos consumindo Doritos e Netflix. O prazer do outros nos causa angústia e dor.

O poliamor, por exemplo, agride meus sentimentos de exclusividade, mas quem disse que precisa ser assim? Talvez a posse dos corpos para os deleites do prazer seja obsoleto mesmo, e o futuro verá a monogamia com a mesma estranheza que hoje vemos o culto à virgindade ou o cinto de castidade.

De minha parte, melhor garantir o muito que tenho em uma só. Se já é difícil achar uma que suporte minha neurastenia, que dirá com muitas. Aliás, não conseguiria nem dormir, imaginando o complô para me exterminar.

(a partir de uma conversa com Deia Moessa Coelho)

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A Ousadia de Discordar

Como de hábito, meu filho Lucas selecionou uma pérola de sabedoria, inteligência, poder de síntese e simpatia nas páginas do TED. A palestrante Margaret Heffernan fala com brilhantismo da importância dos conflitos e do convívio com os diferentes. Mas, ao contrário do que poderíamos esperar, ela não faz uma pregação ao estilo “respeite aqueles que divergem de você“.

Não… ela vai muito mais além. Ela diz da importância de trabalharmos com pessoas que pensam de maneira diferente, pois esta é a única maneira de calibrarmos o nosso trabalho e mostrar que ele está correto. Conviver com os que pensam como nós produz letargia e acomodação. Por sua vez, o contraditório é estimulante e induz ao progresso, das pessoas, corporações ou nações.

Margaret Heffernan produz em 20 minutos uma das mais fantásticas palestras do TED que eu escutei nos últimos anos. Curiosamente eu havia acabado de postar aqui no meu humilde blog um artigo chamado “Mudança de Paradigma” onde exponho a minha crítica ao racionalismo exacerbado como proposta de mudanças paradigmáticas na cultura. Minha tese é centrada na ideia de que as modificações profundas se dão a partir de mudanças de ordem afetiva, psicológica e emocional. Somente depois que tais elementos forem mobilizados é que a abertura para o conhecimento poderá plantar as sementes da mudança.

Lucas enviou-me essa palestra sem saber do sofrimento por que passei por ter ousado discordar do senso comum, de ter coragem de me posicionar contra algo que intuía ser uma agressão ao direito soberano de livre expressão. Mas eu percebia que, mais do que simplesmente uma crise de posturas e opiniões, eu estava diante de uma tensão causada pelos diferentes caminhos propostos no ideário da humanização, e a discordância verdadeira se escondia no que não havia sido dito. Talvez alguns colegas houvessem percebido e preferiram se calar – e talvez apenas eu tenha essa opinião – mas a verdade é que eu resolvi aceitar o desafio do conflito e dizer minhas propostas.

Continuo acreditando que o caminho mais seguro para a humanização do nascimento seja através da sensibilização, do afeto, do carinho reconquistado e de uma abordagem humana e pessoal. A trajetória do “nascimento na perspectiva do sujeito” nos obrigará a repensar os modelos, protocolos e rotinas, abrindo um campo muito mais vasto de atenção às gestantes, fazendo de cada nascimento uma história única e inigualável. O grande erro das sociedades contemporâneas, no dizer de Wenda Trevathan, é a incapacidade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas e sociais do nascimento, mesmo que as evidências dessa falha sejam facilmente reconhecíveis pelos profissionais que atuam na atenção ao parto. Não faltam estudos, análises e pesquisas para demonstrar tal desacerto e disparidade.

O problema é que “saber” NÃO É suficiente. O conhecimento segue as mudanças, e não as provoca. Antes de informar é preciso transformar, subverter, modificar, revirar a terra de nossas convicções envelhecidas, para assim torná-la fértil para a semeadura do saber. Termino com as palavras finais de Margaret Heffernan sobre a “abertura” das consciências:

“Informação livre é algo fantástico; redes abertas são essenciais. Entretanto, a verdade não nos libertará até que desenvolvamos as habilidades, o hábito, o talento e a coragem moral para utilizá-los. Franqueza e sinceridade não são o fim; são o começo.”

Assista ao vídeo “Dare to Disagree” no site do TED

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