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Hipocrisia capitalista

Ontem mesmo vi uma peça publicitária com o empresário, símbolo do bolsonarismo, Luciano Hang – o Véio da Havan – vestido de Papai Noel, o bonzinho do Natal. Sim, o mesmo personagem macabro que alguns dias antes debochou das necessidades das pessoas com deficiência; o mesmo condenado por fraude fiscal, o mesmo que desprezou as universidades públicas e aquele empresário que mais apoia o fascista autoritário e corrupto na presidência.

Claro que era um Papai Noel vestido de azul, pois se trata de uma propaganda anti comunista – aqui entendido como qualquer projeto de justiça social que afete a liberdade de enriquecer às custas do trabalho alheio.

As crianças – e alguns adultos – vividamente se emocionaram com os presentes oferecidos pelo personagem que o empresário encarna uma vez ao ano. Na verdade, este tipo de encenação não é nenhuma novidade. No início do século passado John D. Rockefeller – o mais rico e ganancioso dos capitalistas que já habitaram esse planeta – costumava caminhar pelas ruas com os bolsos cheio de “dimes” e distribuía para as crianças que o seguiam famintas pelas ruas. O Véio da Havan apenas repete o mesmo modelo de criação de imagem que os publicitários conhecem bem. Ora… se é possível transformar Bolsonaro em algo vendável para ganhar milhões de votos, mais fácil seria transformar um sonegador em um sujeito de bom coração.

Esse é o tipo de hipocrisia mais comum no capitalismo. Um empresário sonegador (como este) distribuindo balinhas, moedas e presentinhos para os pobres nada mais faz do que tentar se livrar de suas imensas culpas – conscientes e inconscientes. Mais condenável ainda é o uso da caridade para fazer propaganda de seu negócio, oferecendo alívio para pessoas sem qualquer consciência de classe e sem energia para lutar por uma distribuição mais justa de renda.

Precisamos mesmo disso ainda??

Não é tempo de recusarmos essa farsa de benemerência produzida por sonegadores desrespeitosos? Já não está na hora de vermos com mais profundidade a perversidade na estrutura social (tributária, em especial) que produz sujeitos como esse? Por quanto tempo ainda vamos aceitar o empresário ganancioso e desonesto que uma vez por ano distribui as migalhas dos seus lucros como propaganda, vestindo uma roupa de “bom velhinho” enquanto continua a saquear nossa economia?

Não será surpresa se o dono da casa de prostituição Bahamas, em São Paulo, também venha a vestir uma roupinha de anjo para seu negócio ser aceito por todos.

Eu realmente acredito que a produção de bilionários é uma patologia. A opulência imoral concentradora de renda produz uma visão de mundo deturpada por parte da elite. Não se trata de entender os bilionários como “pessoas iguais a nós, mas com dinheiro” – como erradamente afirmava Hemingway – mas pelo entendimento da degenerescência moral produzida pelo dinheiro sem limite, onde até as pessoas são tornadas objetos que podem ser comprados, usados e descartados segundo a conveniência de um bilionário.

Desta forma, mais do que eliminar a doença da iniquidade, é fundamental criar barreiras contra o surgimento de sujeitos cuja concentração de poder (dinheiro) ameaça a democracia e impede a plena autonomia dos povos.

Os bilionários são entraves ao sonho de uma irmandade planetária. Parasitas, sanguessugas e vampiros da riqueza dos povos.

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Ciência

Querem mais um pouco da barbárie patrocinada pela medicina? Ciência à venda.

Ainda me choco – mesmo nos dias de hoje – com os positivistas da ciência que a enxergam como uma entedidade espiritual, pura e neutra, que não é contaminada pelo seu tempo, a política, os interesses e os contextos onde aparece. É comum ouvir “mas a ciência diz que…” ou ainda – a pior vertente – “os cientistas chegaram à conclusão que…” como se isso fosse uma determinação divina, uma revelação sobre a qual não se poderia questionar. Não, estas são manifestações de sua época, formas de ciencia direcionadas por valores que só fazem sentido quando olhadas em conjunto com o ambiente político e econômico.

É evidente que entender a falibilidade da ciência, em especial pelos contextos e circunstâncias sociais, significa tão somente humanizá-la, a não suprimi-la. A pior ciência ainda é melhor do que o mais sublime misticismo. Entretanto, a ciência é uma vela firme e poderosa que precisa de vento para nos levar adiante, mas quem produz esse vento somos nós.

Sem reconhecer a face humana e corruptível da ciência ela não pode evoluir.

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Medicalização da vida

Autoridades afirmam que o medo é fator preponderante que leva medicos e pacientes a uma escalada inusitada de (ab)uso de medicamentos, em geral não direcionados à cura, mas para controlar doenças crônicas e mitigar o sofrimento.

Esse medo, ao contrário do que pensam aqueles que acreditam na fragilidade essencial humana, é uma construção social que tem como objetivo o controle e a dominação por parte das corporações diretamente beneficiadas por ele.

Ainda parecemos muito reticentes em apontar a origem dessa distopia. Fazemos rodeios, elogiamos os “bons remédios”, criticamos apenas o que nos parecem ser abusos e parecemos fugir da verdade que nos incomoda. Titubeamos ao falar que, por trás dessa tragédia medicamentosa, está o capitalismo, que faz da doença uma fonte inesgotável de clientes e do medo sua mais eficiente estratégia de captação.

Enquanto a doença for fonte de lucros estratosféricos a medicalização da sociedade será uma realidade inexorável. Para cada desassossego com o estilo de vida consumista e competitivo que vivemos mais uma pílula salvadora será lançada. As revistas semanais vão continuar a nos inundar com as promessas da “cura do câncer que se aproxima”; os novos brinquedos tecnológicos que nos vasculham as entranhas continuarão a mostrar o que desejamos ver e as injeções vão aumentar nossa potência sexual, sem contudo mexer no desejo que se esvai na coisificação biologizante do sexo.

Assim, continuaremos na ilusão de descobrir a cura fora de nós, sem nós e a despeito de nós. Para cada angústia nova mais um entorpecente, um estupefaciente ou um analgésico. E as dores que deveras sentimos continuarão no lado escuro da rua, junto com a chave que não queremos encontrar.

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Notre Dame

Em apenas dois dias 1 bilhão de euros foram arrecadados para consertar e reerguer uma igreja na França. Peço que imaginem o quanto isso ajudaria a minorar o desespero dos desabrigados no Haiti ou Moçambique em seus recentes desastres. Entretanto, a morte de negros miseráveis não afeta o coração destes ungidos. O êxtase da exaltação artística é mais importante que a dor e a morte dos excluídos.

Notre Dame é um ícone da religião é do catolicismo francês, mas também do colonialismo cruel da Europa durante séculos. Talvez esse segundo ponto seja o que nos leva a preservá-la e reergue-la, mais do que os aspectos místicos e religiosos. Precisamos preservar os símbolos da dominação branca no mundo e a velocidade dos milionários brancos para recuperar esta obra nos mostra como somos ágeis quando nosso poder precisa ser reforçado.

E não se trata de contrapor uma coisa à outra. Arte é essencial, assim como a fé das pessoas precisa respeito. Todavia, morte, fome, frio e doenças são muito mais importantes e a escolha feita pelos bem nascidos serve para nos mostrar como funcionam as prioridades no capitalismo desumano e racista.

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Minha paixão socialista

“É fácil entender que durante a idade média a ideia republicana poderia parecer “irreal” e fantasiosa. Afinal nossa experiência com a república durante o período anterior ao império romano havia fracassado e acabou se transformando no terreno ideal para o aparecimento de imperadores despóticos e cruéis. Parecia que os ideais republicanos teriam sido definitivamente soterrados pelo pragmatismo da força e do poder coercitivo das armas. Entretanto, como a história pode nos mostrar agora, essa primeira experiência republicana foi especialmente pedagógica, mais pelos erros do que pelos acertos – como sempre é para o nosso aprendizado. O mesmo aconteceu com a democracia grega, que se manteve adormecida por séculos, guardada como semente para só agora ser revigorada.

Durante o período feudal a idéia da República e de estados-nações poderia soar estranha e inviável, ainda mais por parecer uma idéia “ultrapassada” e que “fracassou” quando foi experimentada. Pois estávamos errados. O feudalismo foi gradativamente mostrando suas fragilidades e inconsistências de forma crescente até que a república se mostrou, depois da passagem pelas monarquias e dos “déspotas esclarecidos”, como a solução mais justa e adequada para o ordenamento social.

Ficar gritando contra o socialismo porque “nunca deu certo” se insere nesta mesma lógica. O capitalismo, ao fomentar a iniquidade, a divisão do mundo entre patrões e empregados, jamais foi um elemento de justiça social. Fracassou de forma evidente em terminar com a miséria, mesmo tendo posse dos recursos suficientes para tal projeto. Todavia, numa sociedade de classe faz parte da essência cristalizar os pobres nesta posição subalterna para que não ameacem as elites decadentes e seu poderio.

A lenta decadência do capitalismo mundial nos permite constatar suas falhas pelo crescimento da desigualdade e pela manutenção da miséria, o crescimento de refugiados e de expatriados, a ameaça constante de guerras, de conflitos e injustiças crescentes. Para se fazer presente o capitalismo continua se valendo de golpes contra a democracia, como o que vemos hoje no Brasil de Temer-Bolsonaro, onde seus representantes só chegam ao poder por meio de fraudes.

Consigo ver entre os detratores do socialismo os mesmos campesinos da idade média, pobres e explorados por seus senhores, clamando que “a república e a democracia jamais terão lugar na Europa” porque “é vontade divina que uns mandem e outros obedeçam“.

Se já vimos essa descrença, motivada por pressões e ignorância, por que não haveria ela de sobreviver até hoje? A verdade é que o capitalismo enfrenta uma grave crise e, como em todas as épocas da humanidade, um velho sistema precisa ser substituído por outro que ofereça mais justiça e menos divisões entre os homens.”

“Pour le citroen, le socialisme c’est l’avenir”

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Polícia

A polícia do Brasil é a que mais mata no mundo. Não sei se é a que mais morre, mas isso é irrelevante. Morrem muitos policiais também, muitos mesmo, e isso é lamentável.

De qualquer forma, equipar as polícias e as transformar em máquinas de guerra não ajuda a solucionar a questão, tanto aqui quanto em lugar algum do mundo. Os Estados Unidos são um claro exemplo desse fracasso. O Japão e a China são exemplos do sucesso do desarmamento. O capitalismo americano – que conjuga opulência com miséria junto com concentração absurda de riqueza – gera o descontentamento e agressividade, semelhantes ao que vemos no Brasil. Tornar o Brasil um país-presídio, um estado policial, não funcionaria pois jamais teve sucesso em lugar algum do mundo.

“De acordo com os Centros de controle e prevenção de doenças, em 2013, armas de fogo foram usadas em 84.258 lesões não-fatais (26.65 por 100 mil habitantes dos Estados Unidos) e 11.208 mortes por homicídio (3.5 por 100.000 habitantes), 21.175 por suicídio com arma de fogo 505 mortes devidas a disparo acidental de arma.”

Nos EUA 85 mil pessoas são feridas por balas por ano e o país possui quase 3 milhões – um Uruguai inteiro – encarcerado. Criar prisões não soluciona o drama capitalista, assim como instituir leis severas ou diminuir idade penal também não. O punitivismo é um fracasso total e uma desumanidade absurda com os presos, basta olhar as masmorras em que jogamos nossos sujeitos indesejáveis. A solução é a que já conhecemos de alguns países europeus: equidade e justiça social.

Mas aí precisamos de um presidente que represente a massa dos excluídos, e isso a Casa Grande não aceita.

A alternativa é a convulsão social mas o resultado disso é morte e angústia.

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