Arquivo da tag: Che Guevara

Escritores

Eu sempre achei que o bom cronista deveria se irritar com os elogios. Não à forma, sua escrita ou ao seu estilo, mas ao próprio conteúdo. Aceitá-los é a rota mais segura em direção ao fracasso.

Claro que a todos é sedutora a sintonia da nossa perspectiva com as linhas à frente, e por certo que desperta alegria ver nossa face no espelho de um texto. Muitas vezes nos entusiasma e emociona ver um articulista fazer eco com as nossas ideias, a ponto de sermos capazes de terminar as frases em pensamento, tamanha a identidade que com elas criamos.

Entretanto, essa é a paz do escritor, uma praga entre aqueles que escrevem, e o homem de ideias jamais deveria se contentar com ela. A escrita deveria ser sua espada, para ferir e separar; cortar e destruir. O homem que escreve jamais deveria se contentar com a glória fugaz das concordâncias. Deveria, por um ato de fé, fugir dos elogios e das palavras de estímulo. Em verdade, deveria se esconder de quem o segue e admira.

Criar é ferir. Quem produz ideias não pode esperar que aqueles, acostumados com os padrões vigentes, aceitem pacificamente o sopro da mudança. Se há algo de transformador em um pensamento feito letra é o seu espírito de destruição.

Escrever é afrontar. Quem escreve pretendendo ser aceito desperdiça o que existe de melhor em sua arte.

Juan Irigaray, “Cien Díaz para Entenderte”, ed. Solimar, pág. 135

Juan Rodriguez de Irigaray é um escritor cubano, nascido em Matanzas em 1935. Participou da primeira investida guerrilheira na ilha no “Assalto ao quartel de Moncada” em 1953 e acabou preso junto com seus parceiros de luta. Foi companheiro de cela de Fidel Castro e junto com ele foi para o México quando da anistia oferecida aos revolucionários pelo presidente recém reeleito Fulgêncio Batista. Escreveu na prisão um livro de “poesias de guerra” chamado “Se eu morrer chamem Amália”. Participou da tomada de Havana em 1o de janeiro de 1959 e depois foi auxiliar na construção do sistema público educacional do governo revolucionário. Casou-se com Maria Teresa Barrios, uma grande dama da música cubana. Escreveu vários livros de contos e um romance ambientado na guerrilha da revolução cubana chamado “Lágrimas sobre Havana”. Morreu em 2005 de causas naturais.

* Na foto, especula-se que Juan Irigaray seja o de pé à esquerda, marcado com um “X”

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Cristo

PPCV – Post Pequeno pra me Cancelar de Vez

Quero dizer que se Cristo voltasse à terra agora seria preto, pobre, moraria na comunidade periférica, trabalhador do IFood e filiado ao PCO, mas poucos estão preparados para essa verdade.

Ahhh…“Partido do Cristo Onisciente”? Pode até chamar assim, mas sua pregação seria (de novo) pela causa operária. Falaria em nome dos oprimidos, os pretos, os malditos, os miseráveis e os pobres. Apoiaria as put*s, os vi*dos e os trabalhadores precarizados mas seria de briga e de rua, enfrentaria policia racista e fascistas na porrada – e “tirando a roupa”.

Ele estaria na porta das fábricas e subindo em caixa de verdura no CEASA para falar para as massas. Seria um Cristo marginal, carismático, intenso. Uma mistura de Luther King, Che Guevara e Malcolm X. Aliás, três que, como Ele, morreram assassinados por seus opressores.

Seria um mais uma vez um Cristo da quebrada e do enfrentamento, e não um Cristo de amor e perdão. Mas… como eu disse, vocês ainda acreditam que ele seria loiro, de olhos azuis e pregaria a ideia fantasiosa de uma felicidade em outro mundo, longe daqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Diários de Motocicleta

Eu usei a metáfora dos “Diários de Motocicleta” há uns 13 anos ao fazer a abertura do Congresso de Ecologia do Nascimento no Rio, representando a ReHuNa – Rede pela Humanização Do Parto e Nascimento. Numa cena deste filme o jovem médico – e asmático – Che (Guevara) precisa atravessar um rio gelado para atender os pacientes que precisavam de sua atenção do outro lado da margem. Movido por um impulso imperioso de dever e compromisso ético ele se arroja à corrente de água fria que retesa seu corpo e o sufoca, mas ao final vence a distância gelada com bravura e estoicismo. Os doentes precisavam dele; era sua obrigação servi-los.

Mais de uma década nos separa desta imagem de dedicação heroica aos pacientes, mas ela ainda continua fazendo sentido. Continuamos asmáticos e frágeis, mas do outro lado o número daqueles que procuram por nós só cresceu, expandiu-se para muito além do que esperávamos. Apesar das dores e da falta de ar continuamos nossas braçadas com vigor e resistência. O rio continua gelado e tormentoso, nossos braços aos poucos perdem o vigor da juventude, mas nossa teimosia humanista nos obriga a seguir.

Entretanto quando olhamos para o lado algo surpreendente ocorreu.

Não estamos mais nadando sozinhos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos