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Somos todos racistas?

Eu entendo onde querem chegar as pessoas que fazem esta afirmação. Elas afirmam que a estrutura racista e preconceituosa de nossa sociedade faz com que todos os que aqui convivem de uma forma ou de outra assimilem esses conceitos, os quais ficam impregnados em suas ações e julgamentos. Ouso discordar desta perspectiva essencialmente porque creio que seja apenas injusta, inútil e improdutiva

Creio que existem dois tipos básicos de “racismo”. Um deles se faz a partir de uma adesão consciente e voluntária a uma visão de mundo na qual existem graduações de superioridade moral ou intelectual nas diferentes “raças”. O mesmo ocorre quando alguém fala de gênero, onde um seria mais inteligente, espiritualizado, competente ou mais ético do que o outro. Para mim estas posições são anticientíficas e sem substância. Colocar qualquer gênero como superior ou inferior em questões como inteligência e moralidade é tão equivocado quanto fazê-lo em relação às diferentes tonalidades da pele.

O outro tipo de racismo é quando você pensa e se comporta em termos de raça por estar embebido em uma cultura estruturalmente racista. Quando você sente mais medo quando um grupo de negros se aproxima, ou quando você desconsidera a capacidade de uma mulher fazer uma tarefa que por séculos foi domínio dos homens, por exemplo. Isso todos nós, de uma forma ou de outra, acabamos fazendo – e agimos da mesma forma em relação a muitos outros aspectos da cultura.

Entretanto, ao meu ver, existe uma ENORME diferença entre um racismo ATIVO – racional, doloso e propositivo – e um racismo PASSIVO – culposo e reativo. O mesmo para qualquer tipo de sexismo. Por certo que estas diferenças não importam muito para aqueles que estão sofrendo o preconceito – a ponta oprimida – mas certamente é completamente diferente para as pessoas que o exercem – nós os opressores. Não é certo e nem justo confundir uma pessoa que sofre (e reproduz) as influências de uma sociedade injusta com aqueles que racionalmente acreditam em uma sociedade que pode ser dividida em cores de epiderme, gêneros e preferências sexuais.

Portanto, ao dizer que “todos somos racistas” ou “todos somos machistas” colocamos juntos na mesma panela pessoas que concordam com aquelas que discordam das premissas básicas que sustentam tais preconceitos. Por esta razão, creio que esta insinuação deva ser evitada. Até porque se o sujeito continuaria sendo taxado de preconceituoso mesmo quando pensa e atua contrariamente a estas visões de mundo, então de que valeria mudar, se o rótulo se mantém imutável?

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Cristo

PPCV – Post Pequeno pra me Cancelar de Vez

Quero dizer que se Cristo voltasse à terra agora seria preto, pobre, moraria na comunidade periférica, trabalhador do IFood e filiado ao PCO, mas poucos estão preparados para essa verdade.

Ahhh…“Partido do Cristo Onisciente”? Pode até chamar assim, mas sua pregação seria (de novo) pela causa operária. Falaria em nome dos oprimidos, os pretos, os malditos, os miseráveis e os pobres. Apoiaria as put*s, os vi*dos e os trabalhadores precarizados mas seria de briga e de rua, enfrentaria policia racista e fascistas na porrada – e “tirando a roupa”.

Ele estaria na porta das fábricas e subindo em caixa de verdura no CEASA para falar para as massas. Seria um Cristo marginal, carismático, intenso. Uma mistura de Luther King, Che Guevara e Malcolm X. Aliás, três que, como Ele, morreram assassinados por seus opressores.

Seria um mais uma vez um Cristo da quebrada e do enfrentamento, e não um Cristo de amor e perdão. Mas… como eu disse, vocês ainda acreditam que ele seria loiro, de olhos azuis e pregaria a ideia fantasiosa de uma felicidade em outro mundo, longe daqui.

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Identitários

“Identitários pegam uma boa causa – o anti racismo, o orgulho LGBTQ+ ou o feminismo – e a transformam num discurso arrogante, chato, presunçoso, violento e agressivo. Esse modelo individualista – de viés americano e liberal – é um dos principais fatores para o afastamento dos aliados. Fácil entender porque nenhum branco, homem, cis e hétero vai aceitar apoiar um movimento que o trata com tanto desprezo e prepotência.

Essas meninas e meninos são os responsáveis pelo atraso dessas ideias, em especial ao tentar estabelecer uma posição de superioridade moral na condição de oprimido, o que é tão somente um absurdo; você não é moralmente melhor por ser socialmente explorado.”

Jeanette Wilkins, “Another Round Table”, ed. Cambridge, pág. 135

Jeanette Wilkins nasceu em Glasgow, na Escócia, em 1975. Socióloga, comunista, membro de movimentos de libertação feminina, tem uma postura crítica em relação aos modelos de luta liberais importados da América. Publica no Glasgow Herald todas as semanas.

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Opressões

“Grupos historicamente oprimidos, que usam ofensas aos adversários como retórica de combate, nos mostram que não basta mudar o opressor para transformar o sistema opressivo. Sem que os oprimidos compreendam as raízes da opressão eles naturalmente ocupam o lugar de seus antigos algozes.”

Jeremy O. “The Roots of Evil”, ed. Barbacoa, pág 135

Jeremy O. é um escritor americano nascido em Boston em 1972, filho de um pastor presbiteriano e uma dona de casa. Desde muito cedo militou nos grupos LGBT tendo sido preso diversas vezes por desordem e resistência à prisão. Durante muitos anos de militância escondeu sua orientação sexual, mas causou certo furor quando em 2002 casou-se com a cantora Gospel Mary Divine, em uma cerimônia restrita e reservada no condado de Nantucket, Massachussets. Chamado de “traidor” por alguns correligionários e de “falsário” por outros, foi a partir dessa ação que conclamou a parcela heterossexual da sociedade a se unir nos esforços pelo fim de qualquer opressão direcionada à comunidade gay. Mora em Nova York e tem dois filhos, Hope e Faith.

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Democracia

democracia1

Quanto mais eu debato com pessoas na Internet mais eu me convenço que democracia é um conceito absolutamente abstrato. Para muitas pessoas (eu acho que a maioria) ela representa o direito de dizer suas verdades sem constrangimentos ou coerção, assim como a possibilidade de calar todos aqueles que discordam delas. A prova mais evidente para esta distorção da visão sobre a liberdade de expressão é a postura de grupos que se vangloriam de terem calado a voz dos seus opositores, sejam eles de direita ou de esquerda.

No fundo não queremos liberdade ou espírito democrático; a gente gosta mesmo é de obter vantagens. É como no futebol: não queremos ser roubados mas quando a falha nos beneficia achamos natural e até merecido. Precisamos amadurecer estes conceitos, em especial no discurso da esquerda.

Fico muito triste ao ver manifestações autoritárias sendo celebradas como vitórias, atitudes violentas sendo tratadas como “direito do oprimido”. Não, o que a gente quer mesmo é adquirir os mesmos privilégios indecentes que reclamamos daqueles que nos oprimem.

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